maio 30, 2003

Conversa de fim de festa

-- Vocês são daqui de Berkeley?
-- Não, nós moramos aqui mesmo.
-- Legal, dividem a casa?
-- Não, moramos neste colchonete mesmo.
-- Ah sim, decidiram seguir o planejamento urbano de Tokio...
-- Isso mesmo. Legal né.
-- E onde fica a sala?
-- Ali (apontando para uma planta no canto).
-- Sim, noto que vocês são bem ecológicas.
-- E o quarto de hóspede?
-- Aqui (apontando para um espaço entre elas).
-- Aqui? (Apontando para o colo de uma delas). Se for aqui, não vou mais embora...
-- Ah, mas só hospedamos conhecidos...
-- Eu só digo uma coisa: seis graus de separação.
Obviamente fui expulso do local.

(Só mesmo essa figura para protagonizar um diálogo desses...)

anotado por Rafael - 08:41 AM


Coisa de brasileiro
por Hugo Pereira

Para que pudéssemos andar de trem livremente na Europa, compramos o Eurailpass. É um bilhete onde vc coloca a data e pode andar de trem naquele dia pra onde quiser. Tínhamos comprado o de 15 dias. O aproveitamento tinha que ser ao máximo. Chegando à Alemanha, tínhamos de ir de Hamburgo para Munique. O problema é que tinha apenas um trem, non-stop, que satisfazia nosso horário. O próximo sairia muito tarde. Outro problema era que o trem não aceitava o maldito bilhete... Mas como brazuca se acha mais esperto que o mundo todo, surgiu o seguinte raciocínio, compartilhado por quase 30 cabeças:

- Vamos entrar no trem assim mesmo! Como ele é non-stop, não poderão colocar a gente pra fora.

E lá foi a brasileirada trem adentro. Com o trem já em movimento, chega a mulher pra conferir os bilhetes. O primeiro a ser interpelado fui eu. Logo eu fui o cobaia. A mulher pegou o bilhete, virou-se pra mim e disse aos berros:

"Spraichen Deutch ??"
Eu disse : "No"
"Speak English ?"
Respondi : "Yes"
Ela concluiu : "Get out, right now!!!"

Eu ainda pensei: Será que eu vou ter que me atirar pela janela? A maldita pegou um intercomunicador, resmungou alguma coisa e,acreditem, o trem
non-stop parou na próxima estação. Os alemães foram todos para a janela para ver qual seria o motivo. Já ciente da minha expulsão, avisamos os demais brazucas para saírem também pois o bicho ia pegar.

Cenário montado: trem non-stop parado, todos os alemães na janela pra saber o motivo e uns trinta brazucas sendo expulsos. Então uma alma teve a idéia brilhante:

"Aí, galera!! Não vamos levar este mico pra casa, não!!!" E desembarcamos gritando em coro:

"AR-GEN-TI-NA!.... AR-GEN-TI-NA!... AR-GEN-TI-NA!..."

(Encontrei essa historinha aqui, onde cheguei por meio do Wowblog do Nando)

anotado por Rafael - 08:38 AM

maio 29, 2003

Dálcio Machado


Garotinho anuncia mudanças na segurança, por Dalcio Machado

anotado por Rafael - 09:01 AM

Livros que nunca deveriam ser escritos

Lisandro começou assim:

Qwert nos traz a história de um jovem blogueiro que, abalado pelas suas referências literárias, passa a tomar doses diárias de mescalina e escrever longos textos líricos de direita numa Remington. Aos poucos sua cabeça vai se tornando uma Lettera 79 e a diarista, que posta seus textos datilografados, através de jogos eróticos e patrulha ideológica, o convence a assassinar Olavo de Carvalho. Num climax emocionante, o jovem blogueiro descobre que Olavo é secretamente Paulo Coelho e, levado magicamente para o caminho de Santiago, encontra o sentido da vida: Coca Cola é isso aí, quer dizer, é a real.


Qwert - livros que nunca deveriam ser escritos

Eu gostei e resolvi fazer um também:

Ensaio sobre a bebedeira, de José Saramágua, conta a triste história dos habitantes de uma cidade no interior do Estado do Rio de Janeiro que, após a contaminação do rio que a abastece pelo despejo tóxico de uma indústria próxima, em plano terrorista engendrado por um típico vilão de histórias em quadrinhos, passam a se hidratar à base de birita ao invés de água, com consequências desastrosas para o trânsito, higiene e serviços públicos -- que já não eram lá essas maravilhas. Muito humor de ocasião, suspense e reviravoltas inesperadas neste exemplar romance de-formação.

anotado por Rafael - 09:00 AM

Herbert Asbury

Eis o nome do grande cronista do submundo norte-americano pré-depressão: Herbert Asbury. Escreveu Gangues de Nova Iorque, mais de 50 anos depois transformado em filme por Martin Scorsese, sobre o ambiente no Five Points; The Barbary Coast, sobre a casa da mãe Joana em que San Francisco se transformou após a corrida do ouro; French Quarter, sobre New Orleans e ainda achou tempo para falar das gangues de Chicago e o que mais pintasse no circuito jogo clandestino-bairro da luz vermelha-pilantragem, redigido com a clareza de um colaborador da New Yorker.

anotado por Rafael - 08:57 AM

maio 28, 2003

sabe quando_

Sabe quando você está viajando de carro e fica preso atrás de um caminhão de cerveja, esperando a chance para ultrapassá-lo? Já parou para fazer as contas de toda a cerveja que você já bebeu na vida e comparar se é mais ou menos do que o caminhão carrega?

* * *

Um pessoa não pode espirrar mais do que 8 vezes seguidas. Eis a tese defendida por conhecido próximo, a conferir. É meio falta do que fazer isso de ficar contando o número de espirros toda vez que alguém tem uma crise, mas como colocar à prova a teoria? A última idéia desse cara que me chamaou a atenção dizia respeito à reciclagem de material de macumba. Ateu convicto, intrigava-se com os restos de despachos em cruzamentos, até que lhe ocorreu a ecológica idéia de uma coleta seletiva de potes de barro, velas, tijelas, garrafas de vidro e tudo que pudesse ser reaproveitado com vistas à reciclagem. Contribuiria assim acelerando a limpeza urbana e disponibilizando insumos mais baratos.

Nem a reciclagem esotérica foi para frente nem a tese do limite de espirros foi comprovada, e continuo dando ouvidos às idéias do meu camarada.

anotado por Rafael - 02:53 PM

The tao has you

Uma interpretação budista de Matrix (o original).

anotado por Rafael - 02:52 PM

tatu na capa

Cagaaaca maguco! t.A.T.u. na capa da Capricho!

anotado por Rafael - 02:51 PM

no buraco

The Memory Hole: para que ninguém esqueça das imagens do vídeo American Life que Madonna podou,
das imagens do ritual da sociedade secreta Skull & Bones, da qual fez parte George W. Bush, do cigarro removido da capa do disco Abbey Road, dos Beatles, do encontro secreto com o general Pinochet e das fotos comendo meleca (que saíram no JB) de Henry Kissinger, da centaurinha negra que foi removido do longa animado Fantasia, de Disney, do suspeito desaparecido do assassinato de Malcolm X, do relatório da ONU afirmando que trabalho mata, do discurso de Homer Simpson censurado pela Fox e muito mais que vai parar no buraco da memória.

anotado por Rafael - 02:49 PM

maio 23, 2003

o autor! o autor!

Hoje de manhã, bem cedo, soprava nas ruas um ar cálido como o bafo de um gigante de história do barão de Munchäusen. O sol ainda não tinha se despido das nuvens e a combinação do vento com o frescor da manhã e a luminosidade difusa criou um clima tão perfeito que dava vontade de sair pelas ruas procurando: o autor!, o autor! Vá ser agradável assim no outono, minha cidade querida!

anotado por Rafael - 02:45 PM

O tempora, o mores

Terminar de ler Modelo, de Michael Gross, foi mais doloroso do que esperava. Fazia anos que eu queria ler este livro, praticamente desde quando a mídia foi tomada de assalto pelas mulheres milionárias de um nome só, mais ou menos há dez anos atrás. Custou muito porque o preço que o tempo cobrou em abrandar a vontade não foi tão alto quanto o de conhecer os bastidores do "mundo feio das mulheres lindas". Sensacionalismo e ingenuidade à parte, foi muito desagradável tomar contato com o carrossel de cocaína, álcool e inveja que abastece a indústria da moda; não sei como vou olhar para um
editorial de moda daqui para a frente sem lembrar do mercado de carne adolescente em que são transformadas as sessões de fotos, como descrito extensivamente pelo livro.

Passei por sensação semelhante ao assistir o filme 24 hour party people, que historia a cena musical de Manchester, entre a formação do Joy Division, 1977, e o fechamento da Hacienda, 1997, tida como um dos berços da cultura (se é que se pode chamar assim) rave. Por mais que inovadores, criativos e vibrantes que tenham sido aqueles dias, espantou-me como no universo de produtores, músicos e aspones ou se era suicida, ou egocêntrico ou dependente químico -- ou uma mortífera combinação desses 3, dois a dois.

Que as reinvenções da música pop dependam de pessoas assim é um sinal de nossos tempos, do mesmo modo que as espetaculares fotos de modelos que ocupam a publicidade impressa dependam de agentes inescrupulosos e empresários ganaciosos. Generalizando um pouco, pode-se dizer que Hollywood em seu período clássico também era um moedor de gente, para ficar com a metáfora do Pink Floyd, e conclui-se que todas as maiores máquinas de sonhos do século XX -- cinema, publicidade, música pop -- eram todos caldeirões de bruxas onde gente comum se transforma em imagens de desejo: camponesas em semi-deusas, proletários em guerreiros.

Não sei como lidar com a contradição; concentrar na estética e beleza espiritual me parece indissociável de fazer vista grossa para a sujeira debaixo do tapete, além de uma inocência inaceitável; ainda visualizo um tempo em que a democratização da arte não passe por uma equação tão perversa.

anotado por Rafael - 02:45 PM

maio 22, 2003

Roy Crane


Clique para ler a tira completa

anotado por Rafael - 11:49 AM

These romans are crazy!

Extenso texto sobre os problemas da tradução de Asterix para o inglês. Glhrm Qndt é quem vai gostar.

anotado por Rafael - 11:38 AM

Pessoas bonitas deviam escrever bem; seria uma extensão natural do cuidado que têm com a pele. (Alexandre Soares Silva)

Aliás, a comunidade wunderblogger anda crescendo tanto -- com as adições de Mozart, Dante e futuramente Julio Lemos -- que não vou estranhar se dia desses a Leci Brandão mandar um abraço para a galera num programa do Jorge Perlingeiro.

anotado por Rafael - 11:36 AM

Crocodilo

Crocodilo é o nome da nova revista que a editora Conrad promete lançar ainda neste mês.

Do resumo deles, com grifos meus: a revista que chegou para libertar você da chatice que virou este país! Você pode nem perceber, mas existe um movimento liderado por falsos moralistas que dividiu o Brasil em dois: os descolados e os não descolados. [...]
CROCODILO chegou para acabar com a moral e os bons costumes da sociedade brasileira. Com reportagens e matérias legais, uma equipe de jornalistas bacanas (sim, eles existem) e histórias em quadrinhos ácidas e espetaculares, CROCODILO vai tratar de coisas que a grande mídia esconde e não tem coragem de falar. Cenas que você vê nas ruas, mas não vê na TV, não escuta no rádio e não lê em jornais e revistas.

Não empolgou, o que me chateia, porque o mesmo pessoal daquela editora colocou nas bancas, lá se vão mais de 8 anos!, a General, uma das minha prediletas na sua época. Era um problema encontrá-la dentro da banca -- problema crônico das revistas de Campos & Forastieri, aliás -- e certa vez um jornaleiro me perguntou se ela tinha a ver com militares...

anotado por Rafael - 11:35 AM

maio 21, 2003

Como tocar fogo em casa da maneira correta


Cuidado com os dedos!

anotado por Rafael - 02:26 PM

De novo! De novo!

Mais uma vez a turma das redações caiu no conto do blogueiro doido. Depois do modelo brasileiro estrelando um filme de David Lynch, foi a vez do Paulo Polzonoff e a demissão do McDonald's, que fez o Mídia Independente atochar seus canhões com pólvora molhada.

O mais engraçado da história é que o site Mídia Independente, assim como seus similares Mídia Sem Máscara e Observatório da Imprensa, prega o jornalismo científico, sério, moral, ético (use o termo à sua escolha). Ora, mas eles não foram capazes sequer de me mandarem um e-mail perguntando se era mesmo verdade ou querendo mais detalhes! Tomaram como verdade uma história inventada.

Não está na hora de colocar o dever de casa do jornalismo investigativo na frente do "frenesi do furo"? De tomar cuidado para que uma ideologia não cegue?

anotado por Rafael - 02:26 PM

país entre parênteses

Guggenheim tem contrato suspenso: De acordo com o juiz, o contrato não cumpre exigências constitucionais e apresenta 'pontos obscuros'. O magistrado afirmou que o contrato cria obrigações financeiras para o município por pelo menos dez anos, o que excede o exercício fiscal de 2003 e o mandato de [César] Maia. A Constituição (...) prevê que nenhum investimento com essas características pode ser iniciado sem prévia inclusão no plano plurianual, ou sem lei que o autorize, sob pena de crime de responsabilidade.

Impasse suspende o Campeonato Brasileiro: Dez dos 24 clubes da Primeira Divisão pediram a suspensão do Brasileiro [...] e alegaram não ter como cumprir o que estabelece o novo Estatuto do Torcedor, que passou a vigorar na sexta-feira [...] Entre os pontos que os clubes afirmam não ter condições de cumprir estão a responsabilidade pela integridade e a segurança dos torcedores enquanto estiverem nos estádios e a obrigação de pôr assentos e numeração nas arquibancadas.

E mais uma coisinha:

Músicas de programas infantis, como “Vila Sésamo” e do dinossauro “Barney”, se transformaram numa nova arma — ou num instrumento de tortura, como dizem as ONGs — nos interrogatórios de prisioneiros capturados no Iraque. Elas não estão sozinhas. Músicas de grupos de heavy metal, como Metallica, também têm sido usadas para minar a resistência dos presos que se recusam a cooperar. [...] A Companhia de Operações Psicológicas dos EUA (Psy Ops) informou que o objetivo era quebrar a resistência do preso através da privação do sono e do uso de músicas culturalmente ofensivas. Uma delas seria “Enter Sandman”, do Metallica.

Violar a Convenção de Genebra é isso aí, o resto é arma de destruição em massa.

anotado por Rafael - 02:24 PM

"A partir de então não saiu mais da cama. Yoshiki-san lhe dava de comer, trocava-lhe as fraldas que ela mesma fizera e o banhava. Ele lia a Bíblia e os horários de trem -- os únicos textos que nunca continham mentiras, garantiu à cozinheira. Sabia que trem se devia tomar para ir a determinado lugar, quanto custava uma refeição no vagão-restaurante e como fazer baldeação nessa ou naquela estação para economizar trezentos ienes. Um dia, furioso, chamou Yoshiki-san. Encontrara um erro. Só a Bíblia dizia a verdade!"
(John Hersey in Hiroshima)

anotado por Rafael - 09:36 AM

maio 20, 2003

Sessenta e cinco


65 x 64

anotado por Rafael - 11:46 AM

Esquerda, volver!

Mario AV parou de ler blogs de direita. E me encheu a parte de trás da orelha de pulgas, na elucubração dos motivos que o levaram a tal atitude. Meu leque de leituras de tela sempre se estendeu um largo tapete ideológico, do esquerdista empedernido numa franja ao aristocrático defensor da monarquia na outra, passando pela esquerda festiva, centristas-não-saio-do-muro, defensores do Estado mínimo e quem mais se dispuser a articular idéias. Calculo a olho que se eu tomasse a mesma decisão, "e não falo estritamente no sentido político", eliminaria por volta de 50% de tudo que leio na blogosfera. E olha que isso aqui já foi chamado, numa provocação (não a mim), de "único blog de esquerda inteligente"...

Em tempo: alguém foi lá perguntar por que e ele respondeu.

anotado por Rafael - 11:44 AM

Não mentirás

Daniel Piza e os dez mandamentos do intelectual brasileiro:

1. Não tenha idéias próprias. Comente as alheias.
2. Plagiar pode, mas disfarçadamente.
3. Faça muitas notas de rodapé, em especial citando aqueles de quem quer apoio.
4. Domine apenas um assunto, de preferência um autor ou período específico desse assunto. Aja como se fosse o dono dele, prometa sobre ele uma grande obra definitiva que terá consumido três décadas de pesquisa.
5. Despreze jornalistas. Eles são superficiais, principalmente quando acham que podem escrever sobre diversos temas.
6. Reze no altar de Rousseau. O brasileiro não é ruim, a elite brasileira é que o
corrompe há mais de 500 anos.
7. Não diga que Marx ou Freud estão ultrapassados. Diga que está havendo uma "troca de paradigmas".
8. Use palavras longas, em especial substantivos terminados em -dade ("alteridade") ou -ismo ("imanentismo"). Abomine períodos curtos e diretos.
Inicie e termine seu texto sempre com citação entre aspas.
9. Defenda sua turma de todos os ataques. Critique a turma oposta por todos os ângulos. No limite, ofenda.
10. Humor, jamais. Principalmente se for irônico.

anotado por Rafael - 11:41 AM

Le Petomane

Mais leio sobre o final do século XIX, mais fico impressionado com a quantidade de esquisitices que compunha o dia-a-dia daquele tempo. Não sei dizer se foi a Era Industrial, taylorismo, a eletricidade nas casas ou o quê que fundia a cuca das pessoas. Vejam o Monsieur Pujol, Le Petomane, por exemplo.

anotado por Rafael - 11:40 AM

maio 15, 2003

Barbary Coast

Barbary Coast foi um assunto que capturou minha atenção desde a primeira vez que conheci o termo, num guia de viagem. É o nome que batizou um conjunto de quarteirões -- ironicamente ladeado por uma rua chamada Pacific Street -- em San Francisco, entre o início da corrida do ouro (1949) e a primeira guerra mundial (1914), apodo emprestado da região norte da África, entre os séculos XVI e XIX. A terra sem lei que se instaurou na Califórnia lembrava de tal sorte a costa do Mediterrâneo que o apelido se repetiu.

Após a descoberta de um veio de ouro, a população do povoado pouco maior do que um acampamento cresceu exponencialmente, invadido por criminosos vindos da então colônia penal australiana (os Sidney Ducks), chineses traficantes de ópio ou pequenos funcionários de lavanderias, mineradores à procura da riqueza rápida, meliantes doidos para aliviá-los de seus trocados, prostitutas francesas e artistas populares numa das aglomerações de maior diversidade que se observou em seu tempo. Nos primeiros anos, a concentração de gangues nas vizinhanças de Telegraph Hill tornou Barbary Coast violenta, num ambiente similar ao retratado no filme Gangues de NY, a ponto de motivar a formação de um Comitê Vigilância por cidadãos comuns dispostos a, como se diz nas histórias em quadrinhos, fazer justiça com as próprias mãos. Mais do que conhecer no detalhe quem eram esses personagens e como se formou aquele painel, tentei entender como é que de um ambiente sórdido, violento e degradado emergiu uma interessantíssima e bela cidade.

O livro que aparece em todas as referências bibliográficas chama-se The Barbary Coast: an Informal History of the San Francisco Underworld, de Herbert Asbury, totalmente disponível na rede e que entra para os meus registros como o primeiro que li completamente na tela -- se não aguenta, leia ao menos o assutador quinto capítulo. Curiosamente ou não, descobri esse livro na rede através do blog do Neil Gaiman, que cita-o como uma de suas fontes para a história de Sandman com o Imperador Norton.

Resumindo em duas linhas, Joshua Norton enriqueceu com a corrida do ouro e perdeu toda sua fortuna investindo em arroz. Coberto de dívidas, sem saída, auto-proclamou-se Imperador dos E.U.A. e passou a viver de sua majestade, fazendo proclamações oficiais e vendendo os bônus reais que emitia. Norton é talvez o mais notótrio excêntrico do carrilhão de tipos bizarros que sempre povoou San Francisco, e assunto de uma crônica de Daniel Pellizzari. Mark Twain, à época repórter de Hearst em San Francisco, conheceu-o, chegando a criar um personagem inspirado nele, the King, em Huckleberry Finn. O que Gaiman fez foi adaptar a história do primeiro e único imperador dos E.U.A. à sua mitologia particular, e obedencendo ao rigor histórico do livro de Asbury. Assim, a loucura de Norton é na verdade um sonho emprestado por Sandman a Norton devido à uma aposta com seus irmãos Desire e Despair, que colocaram suas fichas no suicídio de Norton.

Reler o conto de Gaiman após o livro de Herbert é constatar o imenso respeito histórico que o primeiro resguardava para seus quadrinhos, presente em cuidados como o vocativo John Chinaman (referindo-se ao chinês comum), o Cobweb Palace por cenário, onde Twain e Norton se encontram, que realmente existiu -- até mesmo o estranhíssimo King of Pain teria sido um personagem real, um médico itinerante vendedor de unguentos que dizia que quem untasse o corpo com seu preparado não precisaria usar roupas. Sempre trajando um
terno vermelho, chapéu de plumas e transitando numa carruagem negra puxada por cavalos brancos, cometeu suicídio após perder todo o dinheiro nas mesas de jogo. Norton teria realmente declinado uma oferta do King of Pain, o que provavelmente inspirou Gaiman a utilizá-lo na história.

Embora a recriação em Sandman tenha sido correta, sobrou muito pouco em pé das construções da Barbary Coast, em função do grande terremoto de 1906 e do fogo subsequente que destruiu grande parte da cidade. Há inclusive passeios turísticos, indicados com placas no chão para ver o que não sobrou dos salões de dança, teatros e casas noturnas; e é possível conhecer o erotismo de inferninho na fachada do Bella Union, um dos mais célebres salões, onde encenou-se Romeu e Julieta com Big Bertha e Oofty-Goofty nos papéis principais. Oofty-Goofty era um cidadão verticalmente prejudicado que apresentava-se em shows de horrores coberto de alcatrão e pêlo de cavalo, grunhindo como um selvagem de Bornéu, seu nome sendo uma derivação onomatopaica dos grunhidos que emitia. Certo dia Oofty foi arremessado contra um muro e descobriu que era quase imune à dor; a partir de então passou a andar pela cidade portando um taco de beisebol, o qual oferecia às pessoas para lhe golpearem, ao custo de alguns níqueis. Até que o taco foi parar nas mãos de um ex-boxeador que lhe acertou uma porrada tão gostosa que lhe empenou algumas vértebras, acabando com o incomum ganha-pão. Já Big Bertha ficou famosa aplicando o golpe da viúva judia, era péssima cantora e obesa a ponto de, sob pena do cenário ruir, ter de trocar posições com Goofty na cena do balcão: ele, lá em cima, Bertha, cá debaixo. Foi um espetáculo de muito sucesso no Bella Union. Vagabundo sabia se divertir naqueles tempos de Barbary Coast. Além do Bella Union, pode-se visitar os prédios de Hotaling Place, onde outrora localizava-se a tradicional fábrica de chocolates Ghirardelli, cujo quartel-general fica hoje em The Cannery. Tem algo de poético em imaginar que sobrepondo-so ao odor de sangue, uísque falsificado, urina e suor das ruas infectas emanava um adocicado aroma de chocolate. Por ter sobrevivido mais ou menos intacto ao terremoto de 1906, Hotaling Place foi tema do seguinte versinho:


If, as they say, God spanked the town
For being over frisiky,
Why did He burn His churches down
And spare Hotaling's whisky?

A leitura acabou não respondendo minha pergunta inicial, concentrando-se nos motivos que levaram à derrocada da Barbary Coast. Obviamente que sem uma grande disposição popular, refletida na formação do Comitê de Vigilância, na eleição de 1911, que desmontou a máquina de corrupção de Abe Ruef (alimentada pela prostituição, venda de bebidas ilegal e suborno), e na disposição de isolar o "bairro do vício" (desde sempre a norma foi isolar se não era viável proibir), não seria possível acabar com a Barbary Coast, mas o fato é que o terremoto de 1906 fez a maior parte do trabalho ao expôr as entranhas das casas de ópio de Chinatown e obrigar à reconstrução dos clubes de Barbary Coast, que após 1907 emergiu eminentemente turística, extraindo sua renda mais dos preços extorsivos de entradas e bebidas do que dos expedientes criminosos de antes -- ou seja, foi vítima da própria fama. Claro também que as pregações dos reverendos Terence Caraher e Paul Smith, assim como a campanha do jornal San Francisco Examiner, chegado a um sensacionalismo como era do feitio de Hearst, mexeram com a opinião pública a ponto de ninguém mais achar que Barbary Coast era algo natural, ou tolerável, ou motivo de orgulho escondido, a ponto de quando o livro de Asbury ter sido publicado, em 1933, tudo o que restara era um punhado de fachadas decadentes e prédios abandonados, cobertos de pichações.

Em tempo: a menção de Herbert Asbury às gangues de Nova Iorque não é ocasional nem acidental: ele também é o autor do livro Gangues de NY.

anotado por Rafael - 10:02 AM

50 anos de Playboy (IV)

Muito da mitologia da Playboy é reforçado ou desmentido em seu FAQ. Por exemplo, é possível saber quais celebridades já posaram para revista, quais foram coelhinhas antes de serem celebridades, como ser convidado a uma festa na Mansão (o preço de um convite em leilão pode chegar a US$ 10.000), qual a origem do logotipo do coelhinho, o que significam as estrelas na capa de algumas edições (não, não era o número de vezes de Hefner com a modelo da capa, era tão somente um código para a região de anúncios internacional ou doméstica daquele número. Ou é o que dizem), se Hefner vive de pijamas mesmo ou é onda (vive, ao menos enquanto está na Mansão), quais homens já apareceram na capa (ei!, isso ninguém quer saber!), se a revista venderia tanto se não tivesse mulheres nuas (provavelmente não) e até como dobrar uma nota na forma do coelhinho do logotipo.

Claro que isso tudo é besteira perto da única pergunta que precisavam responder: afinal, alguém lê os artigos da revista? A resposta:

Os artigos podem não ser a primeira parte da revista onde os leitores vão, mas julgando-se pelas cartas que recebemos, milhões deles também curtem nosso jornalismo, humor e ficção premiados. As únicas pessoas que certamente podem afirmar que lêem unicamente os artigos são os milhares de cegos que recebem a nossa edição em Braille, que tem sido distribuída pela Livraria do Congresso desde 1970.

Touché!

anotado por Rafael - 09:40 AM

maio 14, 2003

Feynman na rede

Richard Feynman
Algumas palestras de Richard Feynman estão disponíveis online.

anotado por Rafael - 11:19 AM

Playboy 50 anos (III)

Uma das vantagens de ser bem sucedido é que se pode exercer a auto-ironia sem risco de danos para a própria imagem pública. Sabe-se lá por que outro motivo foi feita uma série de animações, naquela linha tosca do South Park, onde Hefner fala sobre seu cotidiano enquanto passeia pelos ambientes da Mansão Playboy da Costa Oeste. Há coelhinhas passeando pelos jardins, um caminhão da Pfizer (fabricante do Viagra...) fazendo entrega nos fundos, mas o mais notável episódio da série se passa na Sala de Jogos, diante de uma mesa de bilhar.

Com as bolas arrumadas em triângulo, prontas para iniciar um jogo, Hefner pega um taco e diz, "Sempre me perguntam se o meu segredo é sorte ou trabalho duro." Mira na branca e dá uma tacada. As bolas se espalham pela mesa e vão, uma a uma, caindo nos 6 buracos laterais, até que só resta uma, vermelha, que pára na boca de um buraco de quina. "É claro que é trabalho duro", Hefner diz, recoloca o taco na estante e sai da sala.

A bola cai no buraco em seguida.

anotado por Rafael - 09:32 AM

Notícias

# Museu de Artes Gráficas de São Paulo será reaberto. Mobilizações em nome de uma causa e abaixo-assinados têm seu efeito.
# Smoking Gun, site que traz a público documentos do governo terá programa na televisão a cabo.
# Do Globo: "domingo acontece o lançamento do livro-revista "DJ Marlboro na Terra do Funk", de Suzana Macedo [...] A festa, no Bandeirantes Tênis Clube, em Jacarepaguá, começa ao meio-dia, com futebol e churrasco. A partir das 20h, o DJ Marlboro promove um baile. [...] O livro-revista é o terceiro volume da Coleção Sebastião. Para escrevê-lo, Suzana se enfurnou no mundo funk e acompanhou a rotina de Marlboro, entre gravações de discos, administração dos seus negócios, produção de festas e gravação de seu programa de rádio."
# Acompanhe as pataquadas da governadora do Rio.

anotado por Rafael - 09:29 AM

maio 13, 2003

Playboy 50 anos

Hugh Hefner pode ter atraído a ira da opinião pública norte-americana ao ofender o legado puritano de seus fundadores com uma revista que pregava abertamente o hedonismo -- chegou a nomear uma das primeiras playmates Janet Pilgrim como um trocadilho -- mas seu país sempre soube reconhecer o mérito de quaquer um que atingisse o sucesso comercial em qualquer negócio não ilícito. Ou ao menos semi.

Foi um editor talvez tão inovador quanto o Harold Ross da The New Yorker ou Henry Luce da Time. Sua fama o levou a aparecer, sempre como si mesmo, em filmes, seriados de televisão e desenhos animados, além de apresentar o Playboy After Hours, na televisão. Foi o anfitrião do Playboy Jazz Festival no Chicago Stadium em 1959, em 3 dias de ingressos esgotados para ver Miles Davis, Count Basie, Ella Fitzgerald, Duke Ellington e quase todos os nomes importantes do jazz norte-americanos do período. Em 1980, liderou a restauração do letreiro de Hollywood, ganhando em troca uma estrela na calçada da fama. Em 2000, um trecho de rua em Chicago, sua cidade natal, foi rebatizada com seu nome. Dois dias depois, ele estava em New York tocando o sino que encerra o pregão da Bolsa de Valores. Foi objeto de um documentário dirigido por David Lynch. Até mesmo uma espécie animal foi nomeada em sua homenagem: o Sylvilagus palustris hefneri. Um tipo de... coelho.

Algumas de suas declarações:

"Picasso had his Blue Period. And I am in my Blonde Period."

"Não era minha intenção que Playboy fosse uma revista sobre sexo. A intenção era que Playboy fosse uma revista com tudo relacionado a homens, e se você vai fazer uma revista para homens, como é possível não incluir aquilo em que eles estão mais interessados, sexo?"

"Quando eu ia em festas no segundo grau, a proporção de rapazes para moças era de sete para uma. Depois daquilo, eu jurei reverter essa proporção em qualquer festa que eu desse."

"Eu estava pronto para começar a viver a vida propagandeada pela revista"

"Eu tive uma festa de solteiro pelos últimos 30 anos. Não preciso de outra agora"
(às vésperas do casamento com Kimberly Conrad, em 1989)

anotado por Rafael - 04:57 PM

Memes


memes

anotado por Rafael - 03:01 PM

Aprenda a dirigir com essa animação.

anotado por Rafael - 12:31 PM

Ecos do fim de semana

"Me vi no banheiro agora e cheguei a uma conclusão. Não existe ninguém no Rio de Janeiro parecido comigo. Não tem ninguém aqui com a minha cara, ninguém tem a pele da cor da minha pele. Ninguém aqui se veste que nem eu. Ninguém no Rio de Janeiro se parece comigo!"

anotado por Rafael - 12:27 PM

maio 12, 2003

Fraude R.I.P.

Hoje é o último dia de atualização da Fraude, ao menos até que alguém passe a bancar. Eduf explica porque aqui. Parte deixando saudades, indo fazer companhia à Revista 2K, No Ponto, iiih, não vou começar senão hoje não saio daqui hoje -- isso para não falar nos que morreram e não sabem.

Em tempo: Baixa na comunidade Exquisite. Daniel Pellizzari seguiu seu próprio conselho (ecoado no Mario AV) de calar a boca tirando o blog do ar.

anotado por Rafael - 04:58 PM

A santa padroeira das loiras


Santa Ignorância, padroeira das loiras

anotado por Rafael - 01:30 PM

50 anos de Playboy (1953-2003)

E pensar que tudo começou com um empréstimo de 600 dólares, para o qual Hugh Hefner deu como garantia os móveis do apartamento onde era recém-morador, quinhentos dos quais gastos apenas na compra dos direitos da foto de Marylin Monroe que ocuparia as páginas do primeiro número, de dezembro de 1953 -- mas sem data na capa: a continuidade dependia do sucesso comercial daquela edição.

Um projeto editorial brilhante, que mudou pouquíssimo nos últimos 40 anos: as entrevistas ilustradas com 3 fotos, a seção de piadas na última página, os artigos interrompidos pelos ensaios fotográficos, concluindo nas últimas páginas, os cartuns, a seção literária -- tudo já estava lá desde o começo dos anos 60. A história do nascimento da revista e do surgimento do império (e não só isso) está bem narrada no livro A mulher do próximo, onde Gay Talese também traça um belo perfil de Hugh M. Hefner, ao fim e ao cabo, o homem que foi ao mesmo tempo cientista, laboratório e escritor de toda uma filosofia.

Duas historinhas que ajudam a conhecê-lo e entendê-lo:

O ano de 1959 marcou a separação de Hugh Hefner, que nunca mais veio a se casar. Muito do seu anedotário cresceu em cima desse fato. Conta-se que, já famoso e milionário ao 44 anos, ao cortejar Barbara Klein, a futura coelhinha Barbi Benton, ela o alertou que nunca tinha saído com ninguém com mais de 24 anos. Resposta de Hefner:
- Não há problema. Eu também não.

Mas minha história preferida narra o primeiro encontro entre Bob Dylan e Hugh Hefner, em uma festa na mansão Playboy. Bob Dylan -- não Mick Jagger, não Jimmy Hendrix, nem ao menos Ringo Starr: Bob Dylan. Pois o que o autor de Blowin' in the Wind disse quando esbarrou no homem de pijama e cachimbo foi:
- My hero.

anotado por Rafael - 01:28 PM


lembrou do Burning Man

Essa foto tirada naquele evento multimídia que rolou no último fim de semana com tendas, acrobatas, música eletrônica e esportes radicais me lembrou um bocado da noite do Burning Man.

anotado por Rafael - 01:18 PM

Rápidas

+ A partir de hoje Joaquim Ferreira dos Santos passa a assinar coluna semanal no Globo. É o texto mais carioca da imprensa e dos últimos bastiões da crônica literária digno desse cargo. O tema de estréia é, academicamente, o falecido ocupante anterior do espaço, Mauro Rasi.

+ Recebi hoje de novo como spam o texto do amigo do Hiro que passou um dia usando um absorvente feminino para ver como é que era. Novamente atribuído ao autor errado, corroborando a queixa dele.

+ A Livraria da Travessa já está com página no ar, em esquema de "soft-opening", o que quer que isso signifique, como fui informado pelo press release, o que quer que isso signifique.

anotado por Rafael - 01:14 PM

maio 09, 2003

Não é no verão, é no outono

Há um azul no céu do outono carioca que parece colorir tudo.

anotado por Rafael - 01:22 PM

...A melhor coisa sobre ele, é que todos podem ficar vestidos por 20 páginas e ainda assim será a coisa mais sexy que já se leu.
(Neil Gaiman sobre Milo Manara)

anotado por Rafael - 09:01 AM

os nativos estão inquietos

Tamoios e tupinambás, tremei! Eis que se reunirão por estas bandas os mais temíveis exploradores, com o desembarque de hoje na cidade! Grunhem os tapires e uivam as hienas, que é chegada a hora!


(Esse comentário é uma piada tão interna, mas tão interna, que acho que só uma pessoa vai entender)

anotado por Rafael - 08:55 AM

Do Carmo

Lá pelas tantas no meio da peça, a fatídica participação da platéia, Leon Góes pede para uma espectadora qualquer levantar e ler um poema (outra já tinha sido convocada para figuração, sentada, num canto do palco). Antes dela começar, pergunta-lhe como se chama:

- Meu nome é Maria do Carmo, mas meu apelido é Du.

Nunca vi coisa mais singela.

anotado por Rafael - 08:50 AM

maio 08, 2003

Baía de Guanabara à noite


Clique para panorâmica completa

Mais uma cortesia do César, tirada a partir do Parque da Cidade. Cuidado ao tentar localizar os logradouros, porque a vista é de Niterói, então as praias em primeiro plano são Ingá, Icaraí e Copacabana, assim como a orla carioca, está do outro lado da poça.

anotado por Rafael - 11:34 AM

Uma das matérias que fez a fama de Claudio Julio Tognolli como repórter investigativo, apontada por ele como das mais perigosas, consistiu em sua infiltração incógnito nas torcidas organizadas de times de São Paulo por seis meses como torcedor comum e subsequente relato do painel de atrocidades observado e, como de costume, vivenciado. Está disponível na rede aqui. Conta-se que certas passagens do texto original foram suprimidas pelo departamento jurídico da Folha de São Paulo para evitar problemas legais...

anotado por Rafael - 11:28 AM

Aula de escultura

Carona para uma albina da Belas Artes, na saída de um prova da faculdade. Meu humor era o de quem acabou de sair de uma prova onde o desastre foi iminente. Acho que por solidariedade, ela começou a compartilhar sua desgraça: aula de escultura em gesso. O molde seeeempre vaza, aquela su-jei-ra-da toda que só acontece quando o professor já saiu da sala...

Já estava recuperando meu melhor estado de espírito quando ela veio com esse comentário sobre a dificuldade de se esculpir em gesso -- escorre, cai da roupa, perde a forma e resseca...:

-- Olha, ainda bem que a escultura era abstrata!...

Ouvi nessas exatas palavras. Juro.

anotado por Rafael - 11:18 AM

Só cinco

Será que dá para fazer um retrato com apenas 5 linhas? Será que vai ficar parecido com esse? Ou com esse? Ou esse? Ou ainda esse? (Dica do Pictoblog)

anotado por Rafael - 11:14 AM

maio 07, 2003

Mais Ken Parker


Ken Parker # 17

anotado por Rafael - 10:01 AM

Um hippie

Quem me chamou primeiro a atenção foi a esposa dele, uma velhinha trajando um conjunto de moleton verde-claro enquanto distribuía o que chamava de tit-tatoos, tatuagens para aréolas, exibindo em seguida as suas, em demonstração. Depois o velhinho hippie veio falar comigo e ficamos conversando um tempo sobre cidades (ele conhecia o nome do meu bairro), cinemas (de rua versus multiplexes) e planejamento urbano, quando ele mencionou que em sua cidade, Berkeley, os moradores impediram a construção de um estacionamento num parque. Só muitos dias depois a ficha caiu: ele estava se referindo aos tumultos do Berkeley People's Park, trinta anos antes! Manifestei meu interesse em visitar a famosa universidade de sua cidade, ao que ele convidou:

- Dê um pulo lá em casa, o endereço está na lista telefônica. Procure em Stress.

Um. Hippie. Chamado. Stress.

Aconteceu mesmo. Juro.

anotado por Rafael - 09:57 AM

Tinhorão e Ariano Suassuna tinham razão

Kazi gira os holofotes na direção correta:

Eu sempre tive uma mania horrível: às vezes, soltava uma expressão em outra língua no meio de um texto ou de uma conversa, for flavor's sake.
Horrívio.
Parei, depois de alertas de amigas, namoradas e amigos. Dia desses, entreouvindo a novela, a tevê falando para ninguém, alguém solta a pérola:

— Você está me seguindo?

Paro o que estou fazendo e olho para o televisor, processando o espanto: Are you following me? Estranho, isso nunca se usou em português. Será coisa do autor querendo ser "muderrno"? Será inspiração súbita da atriz "dishcolada"? Sei lá, sei que não foi a primeira expressão em inglês "traduzida livremente" que ouvi nessa novela.

Infiltração de expressões estrangeiras nunca me incomodaram muito (não pelo menos enquanto eu entendia...) mas essa deturpação do português me tira do sério.

Será que a nossa língua é tão vagabunda, pobre e vulgar que toda vez que a gente precise, ou queira, ser mais sofisticado, específico ou expressivo tenha que imitar uma língua estrangeira? Será que a estrutura do português é tão ineficiente, imprecisa e desapropriada assim que justifique esses barbarismos de um "inglês traduzido"? Será que essas "traduções livres" são fruto de um longo processo de desaprendizado da própria língua ou da o são da poderosa invasão estrangeira? Ou, horror dos horrores, os dois?

Nessas horas dá vontade de dizer que o Tinhorão e o Suassuna é que têm razão...

anotado por Rafael - 09:53 AM

maio 06, 2003

Com brasileiro não há quem possa

Urrú: Movable Type em português, manual sendo traduzido pela Luciana Misura e Evandro Maciel.

anotado por Rafael - 02:06 PM

Enquanto os mutantes exterminam os ingressos de X-Men 2...


Confissões de uma mente perigosa
You put three old guys in a room; they recall their life, what they’ve done, and how close they came to achieving their dreams. The one that doesn’t blow his brains out wins. He gets a refrigerator.’

Atualização: Tiago Teixeira também viu. Atenção aos itens 2 a 5.

anotado por Rafael - 09:23 AM

Dois palmos

Saíamos da exposição do Nássara, numa sala escondida de uma faculdade de dois nomes, ao pôr do sol. Meu colega me parou para mostrar uma coisa, ou melhor, várias coisas no céu: a Lua, os planetas Júpiter e Vênus. Eu, que sempre tive dificuldade para localizar no céu qualquer corpo celeste que não fosse o Cruzeiro do Sul, consegui discernir claramente os 2 planetas e o satélite, em belo pano de fundo no degradé do crepúsculo e perfeitamente alinhados num plano inclinado no qual eu, na Terra, também me encontrava.

Ele apontou então para a Lua e disse, “amanhã ela vai estar ali; a Lua anda mais ou menos 2 palmos por dia” –- medindo a distância com a mão espalmada sobre o firmamento –- e depois voltou aos planetas, avisando que logo, logo, Marte estaria visível.

Dois palmos de céu!

O diálogo foi esse mesmo. Juro.

anotado por Rafael - 09:16 AM

Do jb de sábado

- Alfredo Sirkis, secretário de urbanismo da prefeitura, defende a vinda do Museu Guggenhein para o Rio de Janeiro em artigo de fundo. Sirkis também colaborou com a primeira gestão de César Maia na prefeitura do Rio (92-96)
- É publicada A dúvida de Flusser, de Gustavo Bernardo, colocando a lupa sobre Vilém Flusser, filósofo tcheco que em seus escritos estabeleceu as pré-condições para a vinda de Luiz Sérgio Coelho de Sampaio, pensador brasileiro falecido este ano.

anotado por Rafael - 09:13 AM

maio 05, 2003

Qual dos Perpétuos você é?


I'm Desire! / Eu sou Desejo!
Which Member of the Endless Are You?

(Esse não deu para segurar...)

anotado por Rafael - 10:36 AM

Mundo corporativo

Depois da mudança para a área nova, mais espaçosa e iluminada, ar condicionado central, eliminando-se os problemas mais duros do convívio próximo, os pequenos fizeram-se grandes. Falta do que fazer, coloca-se o bode na sala. E o ranger de uma porta, a temperatura meio grau mais baixo ou um bebedouro que demora a ser reabastecido acabam por demandar um representante que cuide dessas miudezas de ambiente.

O resultado da eleição foi divulgado numa tarde fria e cinzenta de outono, e o síndico prontificou-se a se colocar à disposição de todos. Não demora muito, começa a chover e a seguinte mensagem chega em sua caixa postal, com cópia para todos:

"Caro Walter,
Está chovendo."

Aconteceu mesmo. Fiquei uma meia hora rindo.

anotado por Rafael - 10:32 AM

classificados

Troco alma em excelente estado, com pouco desgaste cármico, por emprego fixo com salário digno, VT, VR, férias e plano de saúde.
--Marcelo Träsel

anotado por Rafael - 10:03 AM

maio 02, 2003

Injusto jogo


Corram pelas suas vidas!

"No injusto jogo de seduções a que homens e mulheres se submetem diariamente, há sempre este lapso temporal a ser desvendado pelo homem. Digo injusto, pois não considero a histórica iniciativa masculina na condução do flerte algo natural e não vejo razão para não haver uma inversão de papéis. Há quem se refira às cantadas como algo prazeroso. Considero-as um mal necessário, sempre um empecilho, um caminho por vezes tortuoso a ser transposto."

"Dirão alguns que os tempos mudaram, as mulheres saíram de casa, conquistaram sua independência, e hoje, donas de si, assumem o papel que seria naturalmente relegado aos homens, posicionando-se na condição de caçadoras. Bobagem. É bem verdade que elas podem lançar olhares insistentes, fazer comentários indiretos, simular trombadas ou elogiar efusivamente a cor de seus olhos. Mas não vão muito além. O ponto final meus caros, o golpe de misericórdia, sempre haverá de ser perpetrado pelo macho."

Fred Amaral conclui aqui.

anotado por Rafael - 11:01 AM

Guggen-Rio

O prefeito Cesar Maia, assinou ontem [30/04/2003], em Nova York, o contrato para a gestão conjunta de uma filial do Museu Guggenheim no município do Rio de Janeiro.

anotado por Rafael - 10:57 AM

indicações para toda a família

1) Já andou rodando por aí o comercial que mostra as várias partes de um carro desmontadas funcionando em cadeia, num sistema complexíssimo, até atingir um resultado banal. Na gringolândia dá-se a esse tipo de dispositivo o nome de "máquina de Rube Goldberg", em homenagem ao cartunista que bolou esses inventos. O termo Rube Golberg é usado coloquialmente para referir-se a alguma coisa muito complexa ou indecifrável.

2) Seamless City: as ruas e quarteirões típicos de San Francisco, fotografados e apresentados em panorâmicas "sem costura". Eu me divirto particularmente em ver estas casas de North Beach e imaginar o que se passava na cabeça de Allen Ginsberg para ele enxergar um deus mitológico primitivo nelas e sair gritando "Moloch! Moloch!"

3) Na escala 1 pixel = 1 metro, veja a comparação entre vários prédios famosos, torres, aeronaves, monstros (!) e navios. Os usuários de Internet Explorer têm a opção de arrastar os modelos uns para perto dos outros, facilitando a visualização.

4) "Todo jornalista deve ter uma lista com uns 200 bookmarks", Claudio Julio Tognolli.

5) Pingo de galinha? Depois não querem que a gente sacaneie...Aprendam aqui: Comida di Buteco.

anotado por Rafael - 10:56 AM

maio 01, 2003

Got my Mojo working

Capa de Ovelhas que voam...
Há bichinhos espalhados por vários contos de Ovelhas que voam se perdem no céu. Uma aranha guardiã-companheira no banheiro; um caramujo que quase é empalado por engano; gatos que caem do céu; um hamster resignado; montes de formigas e lacraias, para não falar das crianças fantasiadas de abelha num jardim de infância ou do título do livro. Nenhum deles está ali decorativamente; a crueldade, egoísmo ou simples estupidez dos seres humanos transparece através das interações -- a aranha de "teias" perdoa, "um hamster" afia seus dentes nas grades da gaiola, "para que não cresçam demais e perfurem o céu da boca" enquanto aguarda a refeição que seu Dono esqueceu. Utilizar a relação entre homens e animais como uma metáfora para a relação entre os homens e Deus seria um comentário muito óbvio, e desapropriado, para esses contos. A maneira como Daniel retrata aquele sentimento me lembrou mesmo da frase de Dave Sim, criador de Cerebus: "We are all the little animal in a world of humans".

Além dos bichinhos, contabilizei duas tentativas de cortar os pulsos e, em "os calos de sísifo", um malfadado bilhete de suicídio; um personagem que se finge de louco para escapar da polícia e outro -- um pequeno funcionário em "arnaldo e os moinhos" -- que parece ter se transformado num Dom Quixote. A sanidade repousa em equilíbrio instável, tanto quanto a própria realidade, bastando apenas uma nuvem mais escura para que comece a chover... vacas (no ótimo "gravidade"). Ter acertado o tom que causa esse estranhamento no leitor talvez seja a maior habilidade de Daniel Pellizzari, mesmo que a mão pese em "história de amor número 17", que me deixou com a impressão de que se ficaria ótimo se estendido para mais páginas. Aqui e ali ("ponto de fuga") a narrativa adquire contornos visuais o suficiente para que o leitor enxergue a animação dentro de sua cabeça.

Como ele mesmo definiu, "Ovelhas..." é "honestamente irregular"; ainda há um ranço de fluxo de pensamento, prosa espontânea, escrita automática ou como quer que se chame essa aversão-literária-moderna-a-vírgulas-pontos-e-sobretudo-pontos-e-vírgulas, que escorrega em descrições mais longas ("paloma" ou "tango sobremesa"), onde a opção por um estilo mais convencional poderia ter melhores resultados, como em "monga". Embora o autor já tenha se alforriado dos temas marginais, há o inevitável & dispensável conto do escritor-incompreendido-e-a-puta-num-quarto-sujo ("eu, você"), mas o saldo que a leitura deixa é positivo, com direito a improváveis pitadas de lirismo, enfim, senão um grande livro, pelo menos uma propaganda para seu segundo livro.

E, claro, a louvável iniciativa de se auto-publicar. Há de chegar o dia em que isso não será mais notável, mas enquanto é, palmas para a Livros do Mal.

anotado por Rafael - 08:09 PM