setembro 30, 2003

Bruno! Lembra daquele sanfoneiro que a gente encontrou no ônibus, duas vezes? Pois é... (dica inestimável do Jampa)

anotado por Rafael - 09:04 AM

Lugares In-comuns

lugares comuns: monstro sagrado

Tira em quadrinhos patrocinada pela Goodyear e produzida por Jaguar (desenhos) e Ivan Lessa (idéias), veiculada no Pasquim. Em coletânea lançada em meados dos anos 70, Jaguar lembra a imensa liberdade editorial de que dispunham para fazer a tira, quase impossível nas rígidas regras publicitárias de hoje. Como de costume, Ivan Lessa não assinava por vergonha de ver seu nome escrito num gibi, ainda que não houvesse asinatura maior de seu estilo do que aqueles três bonequinhos prostrados dizendo "Manitu! Manitu!" (o resto poderia ter sido bolado sozinho). A tira resumia-se a esse tipo de trocadilho visual com clichês de linguagem, ridicularizados em situações improváveis -- os lugares in-comuns do título. A Patricia, que gosta de gibis e amendoim, tem uma cópia dessa coletânea.

anotado por Rafael - 08:37 AM

setembro 29, 2003

Ive Brussel

Inagaki me ajuda a pagar mais um mico publicando no virunduns minha versão clássica para a letra de Ive Brussel, do Jorge Ben. Um cara falou lá nos comentários que essa era manjada, o que me deixou contente em ver que eu não era o único a não entender não só o que o Jorge Ben queria dizer nas músicas dele, mas também o que ele apenas dizia.

anotado por Rafael - 09:01 AM

setembro 26, 2003

reclames

Dois reclames recentes têm me chamado a atenção; não por acaso ambos são de sandálias de praia, numa das poucas antecipações de temporada que dou razão a publicitários e gente da moda, a saber, o início desta primavera ainda um tanto nublada.

O primeiro é mais um comercial da série que a W/Brasil produziu para a Rider, que conseguiu o milagre de transformar um chinelo desconfortável num objeto de desejo. O filme tem duas grandes manhas: o ponto de vista é sempre o alguém caminhando que olha para a ponta dos pés, onde um efeito de computação gráfica vai trocando o modelo calçado enquanto se caminha por montanhas, praias, a beira de uma piscina, enfim, uma exposição didática e divertida do produto. Ao fundo, rola uma versão de Quero passar um weekend com você, sucesso da Blitz em versão batucada do Monobloco, que para variar estabelece o melhor arranjo da música, algo que já havia feito com Alagados, dos Paralamas. Não me espantarei se estourar no verão.

O segundo deu até capa de jornal quando estava sendo gravado no Copacabana Palace: é o anúncio da sandália Ipanema Gisele Bündchen, com a própria no papel de si mesma. O roteiro é simples e engenhoso: começa na pérgula do hotel: para não interromper seu caminhar, funcionários estendem uma tábua sobre a piscina por sobre a qual a modelo atravessa. Segue-se essa lógica então com um caminhão freando na rua, um guindaste elevando uma tubulação, carregadores de mala derrubando um carrinho, todos abrindo espaço para que ela atravesse em direção ao mar. A fluência da ação não esconde o trabalho que deve ter dado para costurar as sequências e o resultado final é um deleite visual. Além dessa propaganda na televisão, Gisele Bündchen ainda ocupa o visual da cidade fazendo propaganda de um cartão de crédito e um sabonete no presente momento.

anotado por Rafael - 08:46 AM

Passando os olhos pelo jornal de hoje, descobri que dois dos filmes sobre os quais andei falando serão exibidos no Festival do Rio: The Weather Underground e American Splendor. Tem mais um no qual arriscaria minhas fichas, Bend it like Beckham, que segundo minhas fontes vai na mesma linha de Moonson Wedding, ou seja, um indiano com todas as chances de agradar totalmente o público ocidental.

Esses valem a aporrinhação das filas, dos ingressos que esgotam meia hora antes da sessão porque quase tudo já foi comprado pela internet, da companhia daquele público descolado que denota intimidade chamando os diretores pelo primeiro nome (o "Ettore", o "Gus"...) -- isso se você não for dos que prefere ir atrás de um dos trezentos e quarenta e seis filmes sobre adolescentes lésbicas argentinas com medo de engordar, do quatrocentos e cinquenta e quatro documentários sobre negros palestinos oprimidos em guetos no Oriente Médio ou dos seiscentos e dezoito filmes de baixo orçamento sobre gueis incestuosos raptados por alienígenas ao som de música eletrônica.

anotado por Rafael - 08:25 AM

setembro 25, 2003

a mão, não!

Essa é para os amiguinhos wunderbloggers, que gostam de colecionar notícias tematizando a invasibilidade do Estado na vida do indivíduo: Los Angeles proíbe que clientes encostem em strippers.

anotado por Rafael - 08:23 AM

Há um ano atrás eu costuma linkar e passar horas brincando muito com animações assim...

anotado por Rafael - 08:20 AM

pelo telefone

De cara, vou admitindo: eu odeio celular.

Andei fazendo umas contas e cheguei à conclusão de que, em pelo menos meio século de experiência com a diabólica invenção comunicativa, nunca dei mais que seis telefonemas úteis tendo recebido igual número.

Mas vamos a meu ingresso no mundo do celular. Uns colecionam selos, outros moedas, eu passei a colecionar telefonemas celulares entreouvidos, já que todo mundo se fala, e aos berros, em todos os lugares do mundo: andando na rua, sentado no metrô, deitado na praia, mergulhando na piscina.

Para ser franco, eu acho que celular só é útil para corretor imobiliário, vendedor de crack e mulher da vida.

Ah, que delícia é ler Ivan Lessa escrevendo sobre telefones celulares!

Faixa bônus: entrevista com a capa da última edição do Cadernos de Literatura Brasileira, Millôr Fernandes, no Jotabê.

anotado por Rafael - 08:18 AM

setembro 23, 2003

cinquentão

Sabe o que é genial? Agora eu vou explicar o que é genial.

Genial não é Jules Feiffer ter sedimentado o gênero de quadrinhos que ficou conhecido como graphic novel em 1979, apenas dois anos depois da data "oficial", com Tantrum. Genial não é Tantrum ter sido republicada pela Fantagraphics anos depois de ausência do mercado. Genial também não é Feiffer ter bolado uma formidável fábula sobre amadurecimento a partir de uma metáfora simples -- em meio a uma crise de responsabilidade, um pai de família de 42 anos surta, se joga no chão esperneando e se transforma num bebê de 2 anos de idade.

Genial é quando você encontra uma edição original de Tantrum e descobre pela dedicatória na folha de rosto que o exemplar fora ofertado como um presente de aniversário de cinquenta anos, agora sutilemente personalizado. Genial é quando você descobre que o livro usado que comprou tinha sido rabiscado -- e fica contente com isso!

You're fifty, Leo!

anotado por Rafael - 10:29 PM

setembro 22, 2003

Sem carro

Anna manda avisar:

Dia sem carro: 22 de setembro

Dia 22 de setembro é o dia internacionalmente escolhido para sair de casa sem carro; Curitiba aderiu. Para repensar como seria uma cidade sem carros: Car Free.com

anotado por Rafael - 01:24 PM

setembro 21, 2003

hunter V

One of the main marks of succes in a career politician is a rooty distrust of The Press -- and this cynicism is usually reciprocated, in spades, by most reporters who have covered enough campaigns to command a fat job like chronicling The Big Apple. Fifty years ago H.L. Mencken laid down the dictu that "The only way a reporter should look a politician is down."

This notion is still a very strong factor in the relationship between politicians and the big-time press. ON lower leves you find a tendency -- among people like "national editors" on papers in Pittisburgh and Omaha -- to treat succesfull politicians with a certain amount of awe and respect. But the prevailing attitude among journalists with enough status to work Presidential Campaigns is that all politicians are congenital thieves and liars.

This is usually true. Or at least as valid as the consensus opinion among politicians that The Press is a gang of swine. Both sides will agree that the other might occasionally produce an exception to prove the rule, but the overall bias is rigid... and, having been on both sides of that ugly fence in my time, I tend to agree...


(Nota: Thompson se candidatou a "sheriff" em 1970, por isso os 'dois lados')


* * *

Humor is a very private thing. One night about fiver years ago in Idaho, Mike Solheim & I were sitting in his house talking about Lenny Bruce in a fairly serious vein, when he suddenly got up and put on a record that I still remeber as one of the most hysterical classics of satire I've ever heard in my life. I laughed for twenty minutes. Every line was perfect. "What is the name of that album?", I said, "I tough I'd heard all of his stuff, but this one is incredible"
"You're right", he said, "But it is not Lenny Bruce"
"Bullshit", I said, "Let's see the jacket"
He smiled & tossed it across the room to me. It was General Douglas MacArthur famous "farewell speech" to the Congress in '52.


(Hunter S. Thompson, Fear and Loathing: on Campaign Trail '72, Warner Books, 1983)

anotado por Rafael - 07:44 PM

trama diabólica

Ainda somos os mesmos...

anotado por Rafael - 07:16 PM

Krazy Kat em português

A editora Opera Graphica mandou para as bancas uma edição historietas do Krazy Kat, um dos precursores & melhores quadrinhos de todos os tempos. Raridade, Krazy Kat era concebido e desenhado por Herriman, durou um par de décadas -- o suficiente para tornar-se o preferido de criadores como Will Eisner e Jules Feiffer. Para caber no formatinho, a Opera Graphica cometeu o crime de retalhar e encaixar em quadrinhos as cenas, originalmente dispostas quase a esmo na página, sobre painéis de fundo que não raro variavam de cena a cena, implodindo a concepção original de Herriman. A tradução é do colecionador há mais de 30 anos Heitor Pitombo, que faz o possível para verter o intraduzível e o poético da prosa da gata/gato.

Mais: Nemo Nox manda avisar -- tem Krazy kat no Burburinho!

anotado por Rafael - 07:13 PM

setembro 19, 2003

Urrú!!! Minha webmistress veio e colocou os pitacos para funcionarem novamente, embebendo esse diário nas maravilhas da interatividade virtual novamente. Webmistress, sim: gente coisa é outra fina. "Triste é a aranha, que já nasceu webmaster", Elesbão & Haroldinho. Aproveitem.

anotado por Rafael - 05:32 PM

setembro 18, 2003

FCUK

O Hiro e o Jean já falaram e até deu no Boechat de hoje aquele textinho sobre a nossa capacidade de ler uma palavra apesar das letras embaralhadas, contanto que a primeira e a última estejam nas posições corretas. Millôr Fernandes inclusive costumava usar isso: quando soltava um palavrão no meio do texto, era com as letras embaralhadas e pedindo ao leitor, entre parênteses, para reordenar. Beleza. Só que essa habilidade também tem um lado adverso -- muito malandramente explorado por uma loja chamada French Connection. Batendo o olho no logotipo FCUK, o que você lê?

anotado por Rafael - 10:26 AM

setembro 17, 2003

faz 20 anos

"Se tudo está errado por aí, e nós estamos convencidos disso, uma postura punk para nos salvar do abismo tem razão de ser. A receita é ingênua mas faz sentido. Os garotos dizem as coisas com franqueza selvagem. A arte deles explica-se pela circunstâncias.” – Carlos Drumonnd de Andrade

anotado por Rafael - 01:24 PM

o boêmio voltou

"Gaiman had Italian eroticist Milo Manara's work in mind when he wrote the tale, and the final product is a seamless melding of the author's mytho-historical storytelling skill and of Manara's Heavy Metal-style spank-mag tendencies. It's an amazing instance of an author bringing out an artist's best, and, without revealing too much, the last page is a prime example of something that's only possible in comics. "That's my fuck-off page," explains Gaiman. "If you're telling me that comics are a lesser medium, you can fuck off because you can't do this in any other medium."

Neil Gaiman voltou ao Sandman e está escrevendo uma história nova para Os Eternos, ilustrada pelo dream team do quadrinho mundial.

anotado por Rafael - 01:22 PM

realeza

O rei, nós já sabemos que está há tempos; mas a princesa, é novidade...

anotado por Rafael - 01:19 PM

setembro 16, 2003

American Splendor, o filme

Dado que American Splendor foi dirigido por um casal que alguns anos antes nunca tinha ouvido falar em Harvey Pekar, é um milagre que o filme tenha saído a beleza que saiu e não mais uma porcaria com todos os tiques mudernos a quem tem direito -- existe coisa mais muderna do que filme dirigido por um casal? Um casal que não usa o sobrenome comum, mas soterra o espectador com uma profusão de sobrenomes como em Shari Springer Berman? Seja como for, a interpretação de Paul Giamatti, as interferências da linguagem dos quadrinhos na tela, Hope Davis, tudo está apropriado na película.

Se o ritmo cai do meio para fim, é mais por causa da irritantemente chata vida de Pekar, que assume sua persona pública como a de um cri-cri, do que pela má direção, desde a primeira cena, onde ele aparece ainda guri, recusando-se a se fantasiar no Halloween porque "super-heróis não existem, eu sou uma pessoa real!". Assisti ao filme com um grande amigo que observou muito bem como Harvey deve odiar a si mesmo, porquanto reclama de não poder viver de quadrinhos, de não ter conseguido fazer de sua expressão um meio de vida, tal como seu amigo Robert Crumb conseguiu. Aliás, a dramatização do encontro de Crumb com Harvey em meados dos anos 60, antes do desenhista ir para a Califórnia, é antológica pela reunião dos dois maiores misantropos dos quadrinhos: passavam a tardes ouvindo música na vitrola, Harvey lendo e Crumb desenhando-o. Sem se falar.

Depois de algum tempo o que você sente nem é mais simpatia, talvez solidariedade, ou até compaixão pelo cara que foi arquivista num hospital de veteranos a vida toda, que auto-editou suas próprias revistas e só recebeu uma oferta de publicação aos quarenta anos, projetando por anos e anos suas metas de vida (tal como naquela confissão de Olavo de Carvalho), e pouco antes de se aposentar foi presenteado com um câncer. Há algo de perverso na desumana capacidade de Pekar em expôr seus defeitos, em se entregar resolutamente ao ridículo, como quando se transforma numa espécie de atração circense do Late Show após criar o maior caso com Dave Letterman. Lembram de quando o Jô Soares chamava o Zeca Pagodinho, na ausência de entrevistáveis? Letterman fazia o mesmo com Pekar, só que de maneira mais cruel:

-- Então, em que você está trabalhando hoje?
-- Ah, sou arquivista de um hospital.
-- Isso não era o que você fazia há um ano atrás?
-- Exatamente, ainda sou.
-- Então, você é tipo assim, o sonho americano?

Até que um dia Pekar encheu o saco, foi com uma mensagem de protesto contra a rede de televisão na camiseta, falou mal do apresentador, da rede e da platéia ao vivo e nunca mais foi chamado. Tudo isso aparece no telão, mas tal como Charles, o irmão mais velho de Crumb no documentário de Terry Zwigoff, quando Judah Friedlander aparece na tela interpretando Toby Radloff, o filme é dele e de mais ninguém. E quando o próprio Radloff faz uma ponta, você tem a certeza de estar diante de uma figuraça única, daquelas que você encontra uma vez na vida, uma na morte -- e que Harvey parece ter conhecido aos montes pelo quanto povoam suas histórias.

P.S. Nem no Zeca Pagodinho o programa do Jô evitou copiar para pior o Letterman.

anotado por Rafael - 04:55 PM

WEATHERMEN

Se até outro dia você perguntasse a algum baby boomer o que lhe vinha à mente com a menção da palavra terrorista, depois de coçar o côco provavelmente ele mencionaria os Weathermen. Auto-intitulados em referência à uma estrofe de uma música de Bob Dylan, Subterranean Homesick Blues, "you don't need a weathermen to know which way the wind blows", Weathermen era um grupo de jovens dissidentes do Students for a Democratic Society que assumiu posturas mais radicais em termos de violência a partir de 1970, tendo se transformado em alvo de um documentário (que nem em mostra de cinema deve chegar às telas brasileiras...).

weathermen

Mark Rudd é um dos hoje cinquentões entrevistados, à época protestante contra a guerra do Vietnã, foi o autor do famoso slogan por ocasião da tomada do gabinete do reitor e manutenção do deão da universidade Columbia como prisioneiro ("Up against the wall, motherfucker!"), em 1968, que analisa as causas e o clima da época em que três dos dissidentes acabaram morrendo em decorrência da detonação da bomba que tentavam construir, incidente, aliás, que colocou a polícia atrás dos Weathermen, levando seus ativistas para a clandestinidade, e motivando a mudança do nome para The Weather Underground.

Consta que esses 3 infelizes foram os únicos mortos em decorrência de atos dos Weathermen, que passaram a avisar onde e quando soltariam suas bombas a partir de então -- Norman Mailer conta que todas as marchas descritas em Os Degraus do Pentágono tinham percurso acertado e horário combinado com a polícia, a quem era enviado uma comunicado alertando que os manifestantes pretendiam perpetrar atos de desobediência civil. Além das explosões, o outro grande ato em seu portfólio fora o acobertamento da fuga de Thimoty Leary da prisão, fornecendo-lhe um passaporte falso para que saísse do país. Capturado na Suíça, Leary foi trazido de volta aos E.U.A. e após uma série de transferências entre prisões, demonstrou sua gratidão dedurando ao FBI o pouco que sabia sobre Weathermen em troca da liberdade, como divulgado pelo Smoking Gun.

anotado por Rafael - 04:08 PM

setembro 15, 2003

tupigrafia

Enfim consegui por minhas mãos no falado segundo exemplar da revista de tipografia e caligrafia Tupigrafia, o da capa do Millôr, que transforma sua fonte Persplexitiva num tipo digital. Vem a alimentar mais uma curiosidade minha, o estudo das fontes e letras, em edição que superou minhas expectativas: além do artigo de capa sobre o Millôr, tem o uso da cursiva nos desenhos de Saul Steinberg, uma fonte inspirada na letra de mão de Jimi Hendrix, outra baseada num conceito de Buckminster Fuller, um extenso estudo sobre as inscrições do profeta Gentileza, como fazer um alfabeto de carimbos e muita coisa interessante. Mérito e palmas para os editores Carlos Rocha e Tony de Marco.

persplexitiva

Falando nisso, vai rolar em outubro o 1º Congresso Brasileiro de Tipografia.

anotado por Rafael - 01:45 PM

já vi esse papo antes

Com um impasse nas negociações, já que a União Européia se recusa a eliminar gradualmente seus subsídios agrícolas, a conferência da OMC em Cancún termina em fracasso: liberalismo econômico no mercado dos outros é refresco.

anotado por Rafael - 01:33 PM

setembro 14, 2003

vote!

Jovem: não fuja às suas obrigações constitucionais e exerça os seus direitos: vote!

anotado por Rafael - 05:26 PM

setembro 13, 2003

hunter IV

Hunter em Copacabana

Da esquerda para a direita: um amigo, Hunter S. Thompson e sua esposa Sandra "Sandy" Down, circa 1962, na praia de Copacabana -- arrisco dizer, Posto 6. No começo da década de 60, Thompson enxergou na oferta do jornal National Observer a possibilidade de trabalhar como correspondente free-lancer na América do Sul, onde esteve entre 61 e 63, testemunhando o agitado período histórico. Thompson chegou a escrever sobre a agitação política do governo Jango e por pouco não pega o golpe de 1964 no Brasil; já havia voltado aos E.U.A. e decidira mudar-se para a Califórnia, precisamente o bairro de Haigh-Ashbury, onde os aluguéis eram baratos. Em todo o período da América do Sul, escreveu como um estrangeiro, um visitante, chegando a ter o clássico problema de disenteria que acometia os estrangeiros (motivo de preocupação em turistas ainda hoje) por causa da água durante vários meses. A maior prova de seu deslocamento foi o nome que escolheu quando seu primeiro filho nasceu: além de homenagear de seu escritor predileto, Thompson deu-lhe o que imaginava ser um prenome português. Juan Fitzgerald Thompson aparece recém nascido na foto abaixo:
a família Thompson

anotado por Rafael - 12:40 PM

setembro 11, 2003

hunter III - uma digressão

Não lembro exatamente quando ouvi falar pela primeira vez em Hunter S. Thompson, mas lembro exatamente de minha reação: "ah não, mais um!". Em qualquer área cultural onde o interesse seja suficientemente vasto e perene, a sensação é de infinitude: sempre se está descobrindo um novo pintor, uma nova música, um novo livro capazes de estender nossa imaginação um pouco além do que pensávamos ser o limite. Com a contra-cultura parece ser um pouco pior; a informação parece distribuída em geometria fractal porque quanto mais se xereta, mais se descobrem nomes, pessoas e fatos e com Hunter, um daqueles capazes de criar a arrastar atrás de si um pequeno universo de copiadores e seguidores, não foi diferente.

Lembro, entretanto, de uma reportagem na qual embora acessório, Thompson roubava a cena, como de hábito em suas matérias. Era um artigo de André Forastieri para a Caros Amigos cujo mote era desancar Arnaldo Jabor. André contava como se deu seu primeiro encontro com Jabor na redação da Folha de São Paulo e a impressão de carioca anos 60 boa-praça que passava; começaram a conversar sobre escritores quando Forastieri mencionou Thompson, até então desconhecido para Arnaldo Jabor, que se mostrou animado em tentar visitá-lo, já que estava na véspera de viajar para os E.U.A. Forastieri alertou-o que era melhor desistir, porque Thompson morava num rancho isolado de Aspen, Colorado e costumava receber visitantes a tiros.

(Não era exagero do André. Hunter comprou o rancho em 1968, logo após a invasão dos hippies que o fez sair de San Francisco, na California, para onde tinha se mudado 4 anos antes. Na época, Aspen mal esboçava se tornar a badalada estação de esqui que hoje serve de paisagem para capas da revista Caras e ensaios artísticos da Playboy; era um vilarejo isolado ainda em crescimento. De fato, quando Hunter se cadidatou a "sheriff" do condado, parte da sua plataforma política, se é que se pode chamar de tal, consistia em combater o crescimento imobiliário predatório na região. Observando em que Aspen se transformou, não há como negar certa razão ao escritor, que perdeu a eleição por coisa de 500 votos. Quanto às armas, dispará-las sempre foi um hobby para Thompson, que chegou a estilhaçar as janelas de seu antigo apartamento exibindo-as a Hell's Angels. Costumava viajar com pelo menos um revólver .44 ou .38 na sacola onde quer que fosse. Isso, evidentemente, nos tempos em que não havia raio-X e revista de sapatos em aeroportos norte-americanos).

Um par de meses depois, Forastieri encontra uma entrevista com Jabor na revista Cult, onde fazem a fatídica pergunta: quais são seus autores prediletos? Arnaldão não deixa a peteca cair nos nomes que enfilera, e termina com o ar blasé dos descolados: "... e alguns escritores menores como Hunter Thompson...". O mais engraçado era ver a revolta de André Forastieri em seu artigo, para quem Thompson é um dos maiores escritores do mundo, vendo seu ídolo reduzido a colunista de subúrbio por um agora comprovado enrolador.

Talvez a frase mais notória de Hunter S. Thompson seja "when the going get weird, the weird turn pro". Ao ser apanhado numa situação dessas, Jabor prova o quanto é amador e não entendeu a frase de Hunter.

anotado por Rafael - 06:01 PM

o ano do blues

year of the blues

Em 1903, o compositor W.C Handy encontrou numa isolada estação de trens em Tutwiler, Mississipi, um homem tocando "a música mais estranha que eu já ouvira". Cem anos depois, a lenda virou história, com direito a documentário e trilha sonora comemorativa.

anotado por Rafael - 05:33 PM

hunter III

"The outlaw stance is patently antisocial, although most Angels, as individuals, are naturally social creatures. The contradiction is deep-rooted an has parallels on every level of American society. Sociologists call it "alienation", or "anomie". It is a sense of being cut off, or left out of whatever society one was presumably meant to be a part of. In a strongly motivated society the victims of anomie are usually extreme cases, isolated from each other by differing viewpoints or personal quirks too private for any broad explanation.

But in a society with no central motivation, so far adrift and puzzled with itself that its president feels called upon to appoint a Comitee on National Goals, a sense of alienation is likely to be very popular -- especially among people young enough to shrug off the guilt they're supposed to feel from deviation from a goal or purpose they never understood in the first place. Let the old people wallow in the shame of having failed. The laws they made to preserve a mith are no longer pertinent; the so-called American way begin to seem like a dike made of cheap cement, with many more leaks than the law has fingers to plug. America has been breeding mass anomie since the end of World War II. It is not a political thing, but the sense of new realities, of urgency, anger, and sometimes desperation in a society where even the highest authorities seem to be grasping at straws.

In terms of Our Great Society the Heel's Angels and their ilk are loosers -- dropouts, failures and malcontents. They are rejects looking for a way to get even with a world in which they are only a problem. The Hell's Angels are not visionaries, but diehards, and if they are the forerunners or the vanguard of anything it is not the "moral revolution"in vogue on college campuses, but a fast growing legion of young unemployables whose energy will inevitable find the same kind of destructive outlet that "outlaws" like the Hell's Angels have been finding for years. The difference between the student radicals and the Hell's Angels is that the students are rebelling against the past, while the Angels are fighting the future. Their only common ground is their disdain for the present, or the status quo."

(Hunter S. Thompson, Hell's Angels, 1966)

anotado por Rafael - 11:56 AM

setembro 10, 2003

hunter II

1 - Certifique-se de que tudo já esteja pago [passagens de avião, hotel carros alugados] porque o que ele mais teme é não ter suas despesas pagas.
2 - Fale com ele todo dia, ou pelo menos tente. Você pode não conseguir encontrá-lo, ou ele pode estar dormindo ou não querer ser perturbado, mas tente falar com ele sobre a matéria todo dia. Ele tem que saber que a matéria é importante, que você depende dela. Se ele achar que ela não é a principal coisa na sua cabeça, ele pode desistir.
3 - Se há trabalho para ser feito na matéria, não deixe-o voltar para [seu rancho em] Aspen. Nunca será concluído se ele voltar para casa. Traga-o para Eugene e tranque-o num quarto de hotel. Prometa-o alguma coisa boa quando a matéria ficar pronta, mas não tire-o do quarto a menos que haja um incêndio. E fique com ele e faça-o trabalhar.
4 - Preencha suas necessidades. Álcool, drogas e serviço de quarto são necessários para sua motivação. Prepare-se para provindeciar todas elas.
5 - Nunca tente beber ou tomar tantas drogas quanto ele. Ainda não nasceu o editor que pode acompanhar os hábitos de Hunter. O melhor é não beber ou tomar nada perto dele. Se ele ao menos pensar que você está tentando acompanhá-lo, vai começar a te fornecer e você pode acordar um dia morto.

As cinco dicas acima foram passadas por Ralph Steadman a Paul Perry como conselhos de como extrair uma matéria de Hunter S. Thompson em 1980. A última grande reportagem que ele tinha feito fora Fear and Loathing on Campaign Trail '72, publicado em 1974 e desde então já estivera no Zaire assistindo a luta de Ali vs. Foreman, no Vietnã assistindo à retirada das tropas norte-americanas, já vira à renúncia de Nixon pela televisão e não fora capaz de gerar material suficiente para um livro -- tanto é que Songs of the Doomed e The Curse of Lono foram dois livros compostos de peças soltas, o segundo inclusive valeu-se de imprimir trechos do escritor Richard Hough para completar o número de páginas. Os motivos levantados para a dissipação de seu talento foram os mais variados: o vício em cocaína, o fim de seu casamento, e até uma maldição após o afastamento de Oscar Zeta Acosta, o "advogado samoano" de Fear and Loathing in Las Vegas. Praticamente a única matéria genuinamente gonzo e de qualidade em Lono fora Charge of the Weird Brigade, exatamente a matéria que Perry conseguira arrancar seguindo as regras sugeridas por Ralph. Perry conta que recebeu telegramas congratulando-o de todos os cantos, inclusive da revista Rolling Stone, da qual Thompson já se desligara: "muitos tentaram, poucos conseguiram". Talvez o mais divertido seja a dica final dada por Ralph:

E tem mais uma coisa. O jeito mais seguro e confiável de fazê-lo produzir uma matéria é me mandar junto. Nós temos a química certa e eu o farei trabalhar.


* * *

Ele reduziu cada editor com o qual trabalhou na Rolling Stone às lágrimas em alguma hora, incluindo eu. Quer dizer, você ficava tão cansado -- a maneira como funcionava quando você editava seus artigos era assim, ele te enviava um parágrafo a cada hora pelo Mojo [versão primitiva do fax]. E seu trabalho era mantê-lo enviando esses parágrafos.

Mas Hunter estava drogado, então ele odia ficar sem dormir por três dias. E você tinha que ficar de pé por três dias para assegurar-se de que ele manteria mandando material pelo Mojo e que o parágrafo que você recebia nesta hora tinha alguma coisa a ver com parágrafo que você recebeu na última hora. E se não tinha, então depois de 3 dias ele desabava, e você tinha que ficar de pé mais três dias, enquanto ele estava dormindo, para juntar os parágrafos num modo que desse sentido, reescrever o que fosse preciso, esse tipo de coisa. De forma que no fim da semana você ainda não tinha dormido. E era quando Thomspon mandava o tantrum e quando você rompia em lágrimas e dizia: "ninguém tem que agüentar isso!". Você começava a sentir pena de si mesmo. Com razão.

[Depoimento de David Felton, editor de Hunter S. Thompson na época áurea da Rolling Stone a E. Jean Carrol para a biografia Hunter, Plume, 1993]

anotado por Rafael - 12:39 PM

setembro 08, 2003

hunter I

"You're not there to party. We've already got *one* Hunter Thompson."
(bronca de Ben Fong-Torres dada em colaborador da revista Rolling Stone no filme Almost Famous; os eventos e a maioria dos personagens é fictícia, mas Ben, Thompson e a Rolling Stone existiram mesmo -- e ainda existem)


* * *

Em outra ocasião, Hunter, [seu amigo Gene] McGarr e outro amigo foram ver o [time de futebol americano] 49rs jogar no Kezar Stadium. Antes de passarem pelas borboletas, cada um engoliu uma cápsula de ácido. Quando o jogo começou, eles já estavam uivando e guinchando. No intervalo do jogo, já tinham entornado um quinto de um Jack Daniel's e fumado um baseado; os assentos ao redor deles haviam sido esvaziados, de sorte que as pessoas mais próximas estavam a pelo menos 3 cadeiras de distância. "Fodam-se se eles não aguentam!", disse Hunter. "Arranquem os olhos deles!", gritou aos jogadores. "Destruam os desgraçados!".

Quando o jogo terminou, os 3 ainda não se davam por satisfeitos, então Hunter sugeriu que fossem à casa de Savage Henry. Um traficante de algum respeito, Henry era um homem agradável que vivia no bairro de Castro, casado com uma estonteante professora. Sua casa era em estilo Vitoriano, belamente remodelada.

Por volta de 8 da noite, o trio chapado bateu na porta de Henry. Henry já estava de roupão, mas ficou satisfeito em ver um grupo que considerava entre seus melhores clientes. Levou-os até a cozinha e aqueceu uma grelha no fogão. Enquanto ela ficava quente e boa, pegou uma faca afiada da gaveta e picou haxixe em uma tábua de carne. Então deu a Hunter um funil de metal e disse-lhe para ficar sobre a grelha e aspirar a fumaça assim que ele espalhava haxixe na superfície. Hunter deu alguns tragos e passou o funil para McGarr. "Foi como um supositório de heroína", disse McGarr. "Agora nós estávamos chapados de LSD, Jack Daniel's, maconha e haxixe".

Henry produziu umas bolinhas de ópio, que eles engoliram como se fossem bombons de chocolate. Então ele preparou alguns drinks "para ajudar a digestão". Quando ele notou que estavam à beira de um colapso, bateu umas carreiras de cocaína para cheirarem. McGarr começou a ficar maluco. Ele disse a Henry que era a maior porcaria que já havia existido e tentou agarrar a esposa de Henry. Hunter e seu amigo não conseguiam tirar McGarr da porta. Finalmente, eles abandonaram McGarr.

Depois de deixarem a casa de Henry, Hunter começou a sentir palpitações no coração. Ele tinha a terrível sensação de que iria morrer. Em dolorosa lentidão, porque ambos estavam por demais doidos para dirigirem rápido, eles chegaram à emergência de um hospital. Numa sala de exames, Hunter deu o serviço completo das festividades noturnas. "Você parece bem", disse o médico. "Tem um coração forte".

"Sim, mas eu me sinto péssimo", disse Hunter. "Me dê uma dose. De qualquer coisa"
O médico deu de ombros e logo uma enfermeira apareceu na sala com uma seringa cheia. "Quem pediu?", ela perguntou.
Subitamente o amigo pulou e arriou as calças: "É pra mim! É pra mim!"

(trecho da biografia não autorizada Fear and Loathing - the strange and terrible saga of Hunter S. Thompson, escrita por Paul Perry, Thunder's Mouth Press, 1992, em tradução relâmpago na cara do Gol)

anotado por Rafael - 12:37 PM

setembro 05, 2003

Da série: postais inesquecíveis

Clica no título para ver:

Mapa do mundo comunista

No verso está escrito --
Warning: the red areas on this map are liable to fade without warning.

Anna & Ram, vocês vão ter que me explicar essa direitinho.

anotado por Rafael - 03:11 PM

setembro 04, 2003

fortune cookies

Biscoitos da sorte chineses

Ao contrário do que imagina o senso comum, os biscoitos da sorte chineses não são chineses. São norte-americanos. Foram criados nos E.U.A. e exportados para a China somente muitos anos depois (provavelmente a diplomacia de Nixon deve ter ajudado um pouco aqui, não sei). Os biscoitos da sorte ficaram conhecidos como tais por conterem em seu interior uma tirinha de papel com um ditado -- da sabedoria ilenar chinesa? -- que se aplicaria ao sorteado, a ser lida antes da ingestão do mesmo.

Atribui-se a nacionalidade chinesa aos biscoitos por eles terem sido popularizados através de uma fábrica, a Golden Gate Fortune Cookie Factory Co., em San Francisco. No começo do século XX imigrantes chineses invadiram a cidade à procura de trabalho. Como eram discriminados, acumularam-se nas quadras atrás da Barbary Coast, rasgando vielas e becos em meio aos prédios para aumentar a área disponível, criando o bairro de Chinatown. É numa dessas vielas, o Ross Alley, onde a fábrica se localiza até hoje.

O jeito correto de comer os biscoitos da sorte consiste em quebrá-los ao meio, retirar o papel, ler o ditado e só então mandar pra dentro. Se você der uma de guloso e enfiar o bicho inteiro na boca, corre o risco de engolir papel por engano -- e não saber qual sorte te espera. Ainda hoje vários fast food chineses enviam um desses junto de cada prato, como o China in a Box. Mas a receita é diferente da original.

A rigor, também não foram os chineses a inventarem os biscoitos da sorte. Eles apenas se apropriaram e popularizaram uma invenção de Makota Hagiwara, imigrante japonês que criou e manteve o Japanese Tea Garden no Golden Gate Park e que servia os tais biscoitinhos como aperitivos a seus visitantes na hora do chá. Peraí, Rafael, quer dizer que não só os biscoitos da sorte chineses não são chineses nem norte-americanos, são japoneses? Exatamente, embora legítimos estadunidenses por nascimento. Só falta agora você dizer que eles também não são da sorte. Mais ou menos. Explico.

Muita gente é cética em relação a biscoitos da sorte, quiromantes e leitores da fortuna em geral, daí a não levar a sério os dizeres. Segundo o Lisandro, os ditados são válidos, mas para que tenham sentido, é preciso acrescentar "na cama" ao fim de cada frase. Vejamos:

Ouça com atenção. Você chegará na frente... na cama.
Uma mensagem alegre está em seu caminho... na cama.
Alegria é uma atitude... na cama.
Amigos são mais valiosos que dinheiro... na cama.
Prepare-se hoje para as exigências de amanhã... na cama.
Você será selecionado para uma promoção por causa das suas conquistas... na cama.
Apenas os instruídos são livres... na cama.
Espere o melhor, mas prepare-se para o pior... na cama.

Funciona!!!

anotado por Rafael - 07:50 PM

quem volta

A boa notícia é que o Freddy voltou a mandar pirão lá no 168 horas, depois de voltar do Rally dos Sertões; também o Danilo Amaral manda avisar que daqui a pouquinho está por aí, ou melhor, na Capitar, mandando suas letras.

Confesso que senti falta do 168 horas, tinha uma abrangência de assuntos nos primeiros meses que me conquistava totalmente. Numa das primeiras entradas, falava sobre os dois livros com as correspondências de Hunter S. Thompson, que há de ser figurinha fácil na cara do Gol agora que comprei o segundo volume.

anotado por Rafael - 04:58 PM

o poder restaurador dos labirintos

Faz algum tempo que indaguei a um amigo o motivo do uso de um labirinto por ilustração em sua homepage; dizia eu que aquele desenho era a réplica de um esquema que se encontrava gravado no piso da Catedral de Chartres, na França. Ele confessou espantado que não sabia disso, que provavelmente encontrara a imagem em algum repositório de dados sobre o misticismo cristão e mostrou desconhecer o significado do labirinto.


labirinto de Chartres

O assunto ficou na geladeira até minha descoberta de outro labirinto igual àquele na Grace Cathedral, uma reprodução do labirinto de Chartres. Duas, na verdade: a primeira, um tapete no interior da nave principal; a segunda, no pátio exterior, à direita de quem entra.

Pesquisando um pouco sobre Chartres, cujo piso data de 1220, descobre-se que o labirinto é um arquétipo encontrável em várias tradições religiosas através do mundo; vem imediatamente à memória o labirinto que Dédalo contruíra para o Minotauro em Minos -- mas o labirinto de Chartres tem uma diferença: ao contrário do grego, a rigor uma prisão para o homem-touro, aquele possui apenas um trajeto sem armadilhas ou becos sem saída; o caminho de entrada é o inverso do de saída. O Labirinto seria uma maneira do peregrino recriar sua peregrinação à uma terra distante (Jerusalém?) movendo-se ao longo do caminho enquanto diz suas orações.

labirinto de Grace

De acordo com Veriditas, uma organização não lucrativa dedicada a apresentar as pessoas aos poderes meditativos e contemplativos do labirinto, há 3 etapas no trajeto:

Purgação (Libertação) - uma libertação, um abandono dos detalhes da vida. É o ato de verter pensamentos e distrações. Um tempo para abrir o coração e a mente.

Iluminação (Recepção) - quando chegar no centro, permaneça lá tanto quanto quiser. É um lugar de meditação e reza. Receba o que está lá para você receber.

União (Retorno) - à medida que sai, seguindo o mesmo trajeto para o centro que usou ao entrar, você passa à terceira etapa, a qual é unir-se a Deus, seu Poder Superior, ou às forças restauradoras atuantes no mundo. Cada vez que se percorre o labirinto, torna-se mais fortalecido para encontrar e fazer o trabalho que sua alma procura.

Interessante observar que algumas recomendações para percorrer o trajeto sejam semelhantes às de alguém que inicia uma meditação:

Silencie sua mente e fique atento à sua respiração. Permita-se encontrar a paz que seu corpo quer. O caminho tem dois sentidos. Aqueles indo encontrarão os que voltam. Pode-se ultrapassar ou deixar os outros passarem por você. Isto é fácil nas curvas. Faça o que soar natural quando encontrar alguém.

Hoje o percurso do labirinto é visto como dotado de poderes restauradores, e recomendado a parentes de pacientes em hospitais e presidiários; pessoas de movimentação restrita como estas podem percorrer com o dedo uma réplica em baixo relevo de madeira do labirinto, ou mesmo utilizar esse aplicativo em flash com um laptop. As experiências e os relatos de quem passa pela experiência são os mais diversos. Dois desses labirintos encontram-se no Brasil, ambos em São Paulo, um deles na capital. SE você souber de mais algum, entre em contato com os Pathfinders.

anotado por Rafael - 04:48 PM