março 31, 2004

ivan e a música pop

Tem gente que, por falta do que dizer ou dificuldade em se expressar, coloca letras de música pop em seus blogues. Eu, quando sinto um dos dois, boto aqui uma crônica do Ivan Lessa. Ai, o que eu queria era essa capacidade de escrever divinamente sobre nada, sobre rigorosamente nada.

Eu não conheço ingleses. Ou britânicos.
Estou há 26 anos no país e cumprimento, no máximo, uns dois ou três cidadãos. Entre eles, o noivo de minha filha. Mesmo assim, ele é um mistério para mim.

Não creio estar me desviando de alguma verdade essencial se proclamar que também nunca conheci um brasileiro. São todos como o noivo de minha filha: puro mistério.

O samba-canção está correto: ninguém conhece ninguém. Sendo que, aliás, devo estar confundindo tudo e até o nome da música gravada por Cauby Peixoto (acho) não é nada do que eu acabo de dizer.

Também não me sinto só. Não, a solidão não vai acabar comigo, para citar – corretamente – outra canção de nosso cancioneiro.

No Brasil, eu tinha o sol, o sal, o sul para me fazer companhia. Dava para o gasto.

Aqui no Reino Unido, eu tenho o Escritório Nacional de Estatísticas. Tudo que eu preciso saber sobre inglês, escocês, galês, irlandês do norte, o danado do Escritório me dá. Não há mistérios a desvendar nestas ilhas. Tudo é sabido e registrado pelo Escritório das Estatísticas.

Shakespeare hoje nada teria a acrescentar, morreria de fome.

Nesta semana eu fiquei sabendo que os homens britânicos têm mais meia hora livre por dia do que as mulheres. Meia hora que eles dedicam a quê? A ver televisão, claro.

Já as mulheres, estas amélias do hemisfério norte, passam duas horas e 30 minutos por dia entretidas em afazeres domésticos: limpar a casa, lavar roupa, passar, costurar, cozinhar, essas conquistas todas da liberação feminina.

Sim, elas continuam fazendo o que os homens queriam que fizessem, só que agora com o maior orgulho do mundo, concluo, numa gentileza do Escritório de Estatísticas.

Um dado fascinante para mim, que já fui homem chegado a leituras: as mulheres lêem, todos os dias, inclusive domingos e feriados, 16 minutos por dia, ou seja, um minuto a mais do que os homens que, cabeças de vento, incapazes das disciplinas da concentração, não passam dos 15 minutos diários.

As estatísticas não dizem se é besteira o que um sexo e outro lêem, mas, conhecendo a humanidade, em qualquer sotaque, só posso crer que sim.

No entanto, as mesmas estatísticas são precisas no tocante às artes e eventos culturais: 6 minutos diários para as mulheres, 5 para os homens. Esse minuto de diferença, juro que só pode ser porque os homens – ah, aí sim, como os conheço! – ficam pensando em besteira.

Exatamente como o simpático pessoal do Escritório Nacional de Estatísticas.

anotado por Rafael - 08:55 AM

cerebus quase 300

À medida em que a expectativa da conclusão da série cresce, crescem as análises, memórias e retrospectivas de leitores. Esse aqui leu as 6000 páginas de ponta a ponta e escreveu um ótimo panorama, inclusive para quem nunca nem ouviu falar em Cerebus.

spoilers, ou seja, ele entrega coisas que acontecem na história, mas que diabos, qual é a chance de você ler um quadrinho de seis mil páginas nos próximos anos? Mais provável ler a Odisséia, Em Busca do Tempo Perdido, Os Miseráveis ou Ulisses no original.

Conheçam Cerebus, e nem dá mais para dizer "antes que seja tarde" porque o 300 é o último número e já é tarde demais...

anotado por Rafael - 08:49 AM

araca

Em agosto desse ano, completaria 90 anos se fosse viva a Arquiduquesa do Encantando, Aracy de Almeida. Um pequeno perfil dela foi recém-lançado pela editora Folha Seca. Aracy, que aparece na foto abaixo com um de seus amigos, foi assunto de crônicas de Antonio Maria e João Antonio.

aracy e vinícius de morais

anotado por Rafael - 08:41 AM

Instantâneos do Salão

-- Não. Eu organizo salões de humor.
[Ricky Goodwin respondendo, completamente sem fôlego após subir dois lances de escada, a uma passante que perguntara se ele fumava]

* * *

-- Lan, você continua contando sua historinha aí enquanto eu vou ali no banheiro.
[Jaguar, na interrupção de entrevista mais improvável que aquele salão já viu, para o uruguaio Lan]

* * *

-- A gente sabia que o Paulinho gostava de camarão, então preparamos um baita prato quando ele foi almoçar lá em casa. Comida no fogo, cheiro subindo, o Paulinho pede licença para ir ao banheiro e, 40 minutos depois, nada de voltar. Pensei, ou ele tomou um tombo e está caído no chão ou 'tá com vergonha de dizer que não gosta de camarão. Entrei no banheiro e fui ver: o Paulinho estava consertando a pia.
[Aldir Blanc falando sobre Paulinho da Viola]
Da esquerda pra direita: Paulinho da Viola, Lan, Moacyr Luz, Aldir Blanc, Monarco e Jaguar. Foto do Ricky Goodwin

Da esquerda pra direita: Paulinho da Viola, Lan, Moacyr Luz, Aldir Blanc, Monarco e Jaguar. Foto do Ricky Goodwin.

anotado por Rafael - 08:34 AM

março 30, 2004

kripta dos picaretas

kripta: demência!!!

Outro dia quase tive um treco ao descobrir que uma editora nova iria relançar a revista Kripta. Porque essa foi, seguramente, uma das 10 melhores revistas em quadrinhos já lançadas no Brasil e a melhor revista de terror dos anos 70. Apresentou os leitores a gente do calibre de Richard Corben, Neal Adams, Bruce Jones, José Ortiz, Esteban Maroto e trouxe de volta Alex Toth e Berni Wrigthson. Inesquecível a edição especial com as melhores histórias:
kripta: melhores histórias

Tinha Corben contando histórias de gângsters, a fome entre soldados na guerra
franco-prussiana desenhada por Ortiz, Wrigthson adaptadando o conto mais horripilante de Lovecraft, Ar Frio, Bruce Jones arrepiando a nuca com seus roteiros imprevisíveis e por aí a fora. Quem leu e não lembra do vampiro-mascote da revista, Todo dia é sexta-feira, toda hora é meia noite?
Todo dia é sexta-feira

Toda hora é meia noite

Preenchendo um formulário tem-se acesso ao primeiro número da nova revista, apenas para descobrir que somente o nome foi mantido, os autores são todos novos, as histórias aind atem jeito de que saíram de fanzine e não há nem sombra de uma história da editora Warren. Estava certo era Cartola, quando dizia que o mundo é um moinho.

anotado por Rafael - 10:10 AM

pretas e brancas

A história ilustrada das palavras cruzadas e mais mil e um jogos com palavras, em java.

Rubem Braga escreveu uma crônica, respondendo a uma leitora que lhe perguntara se palavras cruzadas aumentavam o vocabulário: aumentam o vocabulário de quem faz palavra cruzada...

anotado por Rafael - 10:09 AM

dois no mínimo

Dois textos para formar opinião: porque Aznar perdeu as eleições, por Mario Sergio Conti e porque Lula não sabe o que fazer com livros, por Marcos Sá Correa.

anotado por Rafael - 10:03 AM

março 29, 2004

ararat

ararat

Qualquer outro diretor político, de Costa Gavras a Oliver Stone, que viesse a filmar o massacre da vila armênia de Van pelos turcos em 1915, certamente reduziria sua película a uma obra panfletária, cheia de turcos sanguinários e refugiados armênios -- exceto Atom Egoyan, egípcio, filho de armênios e cidadão canadense. Claro que Egoyan achou espaço para colocar todas as palavras de ordem, turcos cruéis e refugiados armênios que quis na tela, mas se fizesse apenas isso, não seria um filme dele. Ararat mistura presente e
passado, lembranças e fatos, memória e rancor, valendo-se de múltiplos personagens para traçar paralelos nem sempre perceptíveis numa única sessão. Os problemas familiares do pintor Arshile Gorky (personagem símbolo da história), sobrevivente do massacre e emigrado para os EuÁ, ecoam os problemas da família de Raffi, ajudante de produção do filme dentro do filme -- esse sim, uma reconstituição histórica -- sobre o ataque turco, dirigido por Charles Aznavour, alter ego de Egoyan e sobrevivente, tal como Gorky. As cenas dirigidas por Aznavour são ficção, que se torna realidade quando ocupam toda a área da tela grande, ou memorialismo, na telinha da câmera digital de Raffi. A dificuldade que Raffi tem em explicar sua viagem na alfândega é a mesma que o povo armênio teria em contar sua versão dos fatos. O emaranhado de memória, rancor e história que atrapalha a compreensão do que ocorreu em 1915 é do mesmo tipo que o que impede a conciliação entre Celia, meia irmã de Raffi, e a mãe dele, acusada de matar seu pai.

Atom Egoyan -- de quem sou fã desde Exotica, passando por O Doce Amanhã (não vi Felicia's Journey) -- ergue mais uma vez seu labirinto de lembranças perdidas, relações pessoais, sexo perigoso e imagens múltiplas para contar a história de sua família, suas origens, num filme político como raramente se vê.

anotado por Rafael - 11:06 AM

março 27, 2004

trio mocotó

trio mocotó por henfil

Coqueiro Verde - Erasmo Carlos
Em frente ao coqueiro verde
Esperei uma eternidade
Já fumei um cigarro e meio
E Narinha não veio

Como diz Leila Diniz
O homem tem que ser durão
Se ela não chegar agora
Não precisa chegar

Pois eu vou me embora
Vou ler o meu Pasquim
Se ela chega e não me vê
Sai correndo atrás de mim

Com essa música, diz a lenda, o Trio Mocotó mostrou a cara ao mundo, depois de acompanhar Jorge Ben em alguns festivais (onde receberam a vaia histórica por Charles Anjo 45). Pelo teor da letra, não é muito difícil entender por que ou quando isso ocorreu. Agora desenterraram não sei de que cemitério dos anos 80 o Scowa. Espera-se que continuem embalando canções como aquela do verso "enquanto houver Deus no céu, urubu não come folha".

anotado por Rafael - 02:46 PM

março 26, 2004

70 anos do Donald

Carl Barks / Donald 70 anos

Essa aí é a capa do primeiro volume de histórias do Carl Barks que a Abril Jovem está mandando para as bancas, a partir de hoje, em comemoração ao aniversário de 70 anos de criação do Pato Donald. Só histórias clássicas de aventura e humor pastelão, as mesmas que inspiraram Lawrence Kasdan e Steven Spielberg a criar o Indiana Jones.

anotado por Rafael - 01:39 PM

a redenção do zuenir

Grande e estranho é o mundo; quando você acha que enfim chegou à alguma conclusão, alguma coisa acontece para te provar que você estava errado e te obriga a refazer o raciocínio. Veja o Zuenir Ventura, por exemplo. Colunista de prestígio, o Zuenir desde que foi para O Globo só escreve texto chato. Desde antes, aliás; desde o JotaBê ele já era um chato. O tom monocórdio, a inocuidade da correção política, a escolha de assuntos preguiçosa, aquele eterno achar que 1968 ainda não terminou... Enfim, um estilo chato -- que lhe valera o apodo de zzzzzzuenir, dado pelo Bruno. Sem graça, sem assunto, sem sabor. Quando muito, o Zuenir era um Jabor às avessas: O Jabor escrevia textos favoráveis ao governo mas parecia que estava metendo o pau; o Zuenir escrevia metendo o pau, mas parecia elogiar. Pois bem, quando eu estava pronto para passar o nome do Zuenir da turma dos que eu leio de vez em nunca para a turma dos nunca!, vem ele e me surpreende com um artigo divertido, inspirado, escrito com vontade, pondo por terra meu julgamento.

O artigo fala sobre as entrevistas terríveis que os universitários mal preparados fazem, mesmo assunto de um conto de Fernando Sabino publicado em O Gato Sou Eu, se não me engano ("O que faz um escritor?"). E consegue ser mais engraçado do que o conto do Sabino. Estou falando desse artigo aqui.

anotado por Rafael - 01:33 PM

padaria no sobrecarga

A coluna desta semana no SoBReCarGa conta a história dos irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá, os gêmeos dos 10 pãezinhos. O próprio Fabio já esteve lá e registrou... Brinde: a tira Mundo Simples, do Gabriel Bá:

mundo simples 1

anotado por Rafael - 01:04 PM

quixotes de bukowski, um ano esta noite

Quixote de Picasso

Por volta de um ano atrás eu estava envolvido nas primeiras reuniões onde se geriu o que seria conhecido como o Projeto Paralelos. Tudo começou com uma discussão sobre a apatia da cena literária carioca, dentro e fora da internet -- a apatia e a discussão --, da qual brotaram várias idéias e algumas provocações. Uma delas veio de Augusto Sales (a quem hoje aproveito para agradecer o convite), que me sugeriu reunir num artigo argumentos e impressões que eu havia emitido nos encontros e por email. Topei a empreitada e resolvi adotar uma abordagem analítica, abrindo o foco dos problemas que enxergava.

É muito difícil aferir essas coisas, mas provavelmente foi o texto que escrevi de maior repercussão até hoje, o único pelo qual já fui identificado como autor, a única unanimidade. Atribuo sua ressonância em parte ao fato de ter escolhido centrar fogo unicamente em Bukowski (poderia ter pego mais gente para Cristo, só que personalizar e satanizar seu adversário é técnica antiga maniqueísta e ajuda na identificação da torcida), e ao fato de não ter,
absolutamente, dado nome aos bois -- ficou apenas "os escritores da nova geração" -- o que permitiu que qualquer um projetasse os demônios que escolhesse ali -- e, como é habitual no ser humano, não conseguisse se enxergar de forma alguma nas críticas...

Não é sem certo pesar que constato os últimos doze meses não terem sido de grande valia para a mudança dos pontos de vista expressos em Quixotes de Bukowski; a maioria dos escritores da nova geração ainda se mostra fundamentalmente cega e pouco curiosa para com a riqueza da literatura universal na hora de procurar suas referências, e preguiçosa na hora de
consubstanciá-las no papel. Abrir seus olhos não era minha intenção primeira quando redigi o ensaio, mas é meu anseio no momento que digito essas palavras. Ao texto, revisado e corrigido, então.

Atualização: Augusto Sales teve a fineza de me enviar o endereço original do texto, na extinta revista Falaê, para quem quiser conferir como foi. No parentesco do Quixotes, vale ler ainda o ensaio A Escola Urbana, escrito pelo Alexandre Cruz Almeida e, diariamente, o blog que ele mantém.

anotado por Rafael - 12:56 PM

março 25, 2004

placas, adiós

Não faz muito tempo o Inagaki mencionou-me numa nota sobre o livro O Brasil das Placas, uma inacreditável coleção de dizeres desse brasilzão grande sem portêra, placas de sinalização, pára-choques de caminhão, nomes de estabelecimentos ou meros avisos rabiscados à mão. É que desde a chegada do tal livro nas bancas, até desde antes, eu vinha colecionando placas bizarras tal e qual o fotógrafo Eduardo Camargo. Vinha. Não vou mais, desde que descobri esse Museu do Louvre de placas ridículas indicado pelo Sergio Catarro, aliás, outro emérito estudioso do vernáculo e da programação visual populares. Vá visitar com muuuuuitas sobras de tempo e entender um pouco porque tantos escritores se criaram falando apenas da incapacidade humana de se comunicar com seu semelhante...

Para a despedida, como não podia deixar de ser, em grande estilo, guardei essas duas. A segunda eu roubei daqui. Ah, se for visitar o Catarro Verde, leia esse manifesto.

Placas

Placas Recadinho

anotado por Rafael - 10:44 AM

março 24, 2004

bitchville

Só vai entender quem viu Dogville:

bitchville _ mau humor

Mais um oferecimento do mau humor do Arnaldo. Que avisa: Allan Sieber está de mudança, por enquanto ainda ajeitando os móveis.

anotado por Rafael - 11:52 AM

polígono das secas

polígono das secas

Uma buldozer sobre os lugares-comuns da literatura regionalista. Diogo Mainardi eleva alguns dedos o tom doloroso das histórias de cangaceiros, retirantes e sertanejos, uns fortes antes de tudo, exatamente para destruir todos os mitos culturalmente oficializados pela literatura regionalista. Nem Euclides da Cunha escapa. Nem Guimarães Rosa.

O untor, cuja função única da história é perambular pelo polígono das secas -- um quadrilátero circunscrito aos limites de quatro cidades ao norte de Minas Gerais -- lambuzando as pessoas com um unto amarelado que dissemina a peste, é um dos personagens mais desconcertantes das páginas brasileiras. O untor está sempre à procura de uma Catarina Rosa, homônima de uma moça milanesa que denunciou levianamente um untor por disseminar a peste no século XVII, levando-o a ser injustamente condenado. Eis o mote do Diogo: assim como a justiça italiana houvera homologado o preconceito e a crendice da milanesa, a literatura brasileira legitima a ignorância e a estupidez nos romances regionalistas.

O sertanejo é como Caterina Rosa. Quando o universo intelectual legimita a sua mentalidade ordinária, elevando a uma condição quase mítica todos os elementos de seu cotidiano miserável, irrompe uma terrível brutalidade.
[...] Ao incorporar a cultura sertaneja, a literatura regionalista acaba sendo contaminada por seu obscurantismo. Não há com evitar a contaminação. O obscurantismo sertanejo contamina a literatura regionalista assim como o obscurantismo de Caterina Rosa contamina a justiça milanesa.
[...]
A verdadeira literatura demonstra que o sertanejo não sabe nada, não muda nada, não aprende nada, não entende nada, não vale nada. A verdadeira literatura destrói as veleidades do homem acerca de si. A partir do momento em que acredita nas próprias idéias, o homem começa a impô-las.

anotado por Rafael - 11:45 AM

são gonçalo shopping rio

Hoje é a inauguração do São Gonçalo Shopping Rio. Numa analogia rasteira, São Gonçalo está para Niterói assim como Niterói está para o Rio; é o longe do distante. Segundo amigo meu, morador daquele município, você diferencia quem é de São Gonçalo numa loja de eletrodomésticos: qualquer um compra uma Tv 29 polegadas e pede para entregarem em casa. O Gonçalense não, leva no próprio carro. O que encuca esse meu amigo é o nome:
São Gonçalo Shopping Rio. Parece que não estão querendo dizer que o shopping é ali. Nem na Barra da Tijuca, onde tem tudo que é nome em inglês -- inclusive New York -- existe um não-sei-o-quê shopping Rio.

O que é uma grande metonímia para o Brasil. Lembra-se dum comentário de um chofer de ônibus: essa Barata Ribeiro 'tá sempre engarrafada! Para consertar, ou constrói um viaduto por cima ou muda de nome.

anotado por Rafael - 11:34 AM

formando opinião:

1) Cris Dias ensina como lidar com chantagens do ciberespaço de maneira exemplar (procure também os posts anteriores). Alex Maron comenta o caso, alertando para as complicadas implicações.

2) Brett Easton Ellis ficaria muito abaixo de zero se morasse no Rio ou em São Paulo.

3) Nemo Nox manda avisar: sexta-feira é aniversário de 40 anos da Mafalda. Quino sopra as velinhas.

4) Paulo e Paula, em mais uma empreitada, colocam no ar Dom Casmurro, capítulo a capítulo.

anotado por Rafael - 11:23 AM

março 23, 2004

a lista de eddie

No último capítulo de How to be an artist, Eddie Campbell faz uma lista de graphic novels em língua inglesa esboçando uma quadrinhoteca básica, com o intuito de ao menos vislumbrar as possibilidades desse meio (senão constatar que elas foram, de fato, alcançadas), um meio que, nos dizeres de Alan Moore, ainda não deu seu Em Busca do Tempo Perdido, não gerou obras imortais e unânimes em valor cultural à humanidade, mas cuja aventura nessa caminhada tem sido das mais empolgantes. Teço alguns comentários ao final:

A Contract with God (Eisner)/77
A Life Force (Eisner)/85
The Dreamer/To the Heart of the Storm (Eisner)/86-91
Dropsie Avenue (Eisner)/95
Tantrum (Feiffer)/79
When the Wind Blows (Raymond Briggs)/82
Maus (Spiegelman)/93
V for Vendetta (Moore + Loyd)/88
Watchmen (Moore + Gibbons)/88
Big Numbers (Moore, Sienkiewicz, Columbia)/90
The Death of Speedy (Bros Hernandez)/89
Blood of Palomar(Bros Hernandez)/89
Poison River(Bros Hernandez)/89
Jaka's Story (Dave Sim)/90
Going Home (Dave Sim)/99
Alec: The King Canute Crowd (Campbell)/90
The New Adventures fo Hitler (Grant Morrison + Steve Yowell)/90
The Cowboy Wally Show (Baker)/87
Why I Hate Saturn (Baker)/90
Violent Cases (Gaiman + McKean)/87
Signal to Noise (Gaiman + McKean)/92
Mr. Punch (Gaiman + McKean)/95
Casanovas' Last Stand (Hunt Emerson)/93
Tale of one Bad Rat (Brian Talbot)/95
City of Glass (Mazzuchelli)/94
The Playboy (Chester Brown)/91
I never liked you (Chester Brown)/94
Stuck Rubber Baby (H. Cruse)/95
Palestine + Safe Area Gorazde (Joe Sacco)/96-00
Ghost World + David Boring (Clowes)/97-00
It's a good life if you don't weaken (Seth)/97
Ethel and Ernest (Raymond Briggs)/98
Gemma Bovery (Posy Simmons)/99
Cages (McKean)/98
Uncle Sam (Steve Durrell + Alex Ross)/98
Hicksville (Dylan Horrocks)/98
From Hell (Moore + Campbell)/99
The jew of New York (Katchor)/98
Jimmy Corrigan, smartest kid on Earth (Ware)/01
Goodby, chunky rice (Cray Thompson)/99
Dear Julia (Brian Biggs)/00
Berlin (Jason Lutes)/01

Antes de mais nada, é imprescindível lembrar que, à maneira do Oscar, ele limitou-se aos trabalhos produzidos em língua inglesa, o que descarta de cara europeus como Moebius ou argentinos como Breccia. Não se faz uma lista dessas sem simplificações, e não se fazem simplificações sem se perder algo de importante; essa foi parte do preço que Eddie resolveu pagar. A outra parte foi a inclusão de autores ingleses menos conhecidos, como Raymond Briggs ou Brian Biggs.

Campbell começa com nada menos que 5 trabalhos de Will Eisner, o que não é exagero nenhum; eu só preferiria The Building ou Invisible People ali no meio. Qualquer um dos trabalhos extensos de Alan Moore também poderia entrar, e Campbell optou por incluir até a inacabada Big Numbers. O mesmo vale para os álbuns de Love & Rockets, ou as encadernações de Cerebus -- qualquer um poderia entrar e mais de um deveria ser incluído, por justiça. Praticamente todos os grandes nomes recentes que produziram trabalho de peso estão representados. Chester Brown, Chris Ware e Daniel Clowes entraram, mas muito razoavelmente Adrian Tomine, Peter Bagge, Julie Doucet e Joe Matt, que ainda não fizeram suas obras-primas, não entraram. Eu teria escolhido Like a Velvet Glove Cast in Iron ao invés de David Boring, e High Society ao invés de Going Home.

A inclusão do álbum do Casanova feito pelo Hunt Emerson foi patriotada, Eddie fez concessão à sua influência pessoal na hora de colocar, mas ele ousou e acertou foi ao escolher uma adaptação literária, City of Glass. Lembrou aquele tipo de crítico que, ao elaborar uma lista dos maiores de todos os tempos, coloca o Henfil no meio de Milton Caniff e Hugo Pratt -- se era para colocar um brasileiro, que fosse o Laerte ou o Luiz Gê. Enfim, lista é para isso mesmo, para a gente criticar e para servir de guia aos iniciantes.

Para fins de estatística: até o presente momento, li 44% dos títulos acima. Pouca coisa foi lançada em português; quase todo o Eisner e Alan Moore, Maus, Playboy de Chester Brown, Joe Sacco, um pouquinho de Love & Rockets, City of Glass e olhe lá. Nenhuma das graphic novels de Gaiman + McKean, Kyle Baker ou do Dave Sim nem de perto viu tradução em português.

anotado por Rafael - 10:43 AM

março 22, 2004

disinfo

Você começa a ficar preocupado com teorias da conspiração quando descobre que entraram no seu blogue e, no espaço dos pitacos, deixaram indicações de fontes de informação e bancos de dados mostrando as ligações do presidente dos EuÁ e do principal candidato com a sociedade secreta mais famosa da universidade de maior prestígio da Ivy League.

Você tem certeza que ficou paranóico quando percebe que se preocupou em evitar escrever por extenso o nome dos políticos acima e da sociedade secreta para dificultar a sua localização...

anotado por Rafael - 12:19 PM

cerebus 299

Agora em março sai o 300o. número de Cerebus, a maior odisséia dos quadrinhos de todos os tempos. Dave Sim escreveu, desenhou e ilustrou (com a ajuda de Gherard, fazendo os fundos) seis mil páginas em sequência, ao longo dos últimos 26 anos, ao fim das quais, prometia, o personagem principal morreria. É chegado o momento.

Já despontam as primeiras análises globais do conjunto da obra; Dave Sim já dá entrevistas olhando de cima.

anotado por Rafael - 12:13 PM

swami

Ram manda avisar (quem vai gostar de saber é o Nando:
Se vocês tem curiosidade de conhecer um autêntico swami indiano, uma série de palestras no Rio foi organizada (com participação de quem lhes escreve) para daqui a uma semana. Sri Nithyananda Swami estudou lá nos Himalaias sobre o corpo, a mente, e como usar técnicas de meditação para encontrar o equilíbrio do organismo, auxiliando no combate à diversas doenças
físicas e condições mentais. Ele ensina técnicas associadas a várias tradições diferentes, do Budhismo ao Cristianismo. Bom, vale a pena ir, inclusive porque não tem nada a ver com religião, mas tudo a ver com yoga, saúde e harmonia. Curtam aí, porque é uma oportunidade especial. E ah, quase esqueci: it's free!

Auto-Cura Através da Meditação
Espaço Saúde
Quarta-Feira 31 de Março- 20:00h
Rua Mario Portela 49, Laranjeiras
(Ao lado da Rua Alice, esquina com a Rua das Laranjeiras)

Meditação- Caminho para Auto-cura
Murali Yoga Integral
Quinta-feira 1 de Abril – 08:00h
Rua Carlos Vasconcelos 155/ 404 Tijuca
Tel: 3872-7284

O Caminho para Auto-Cura
Samiyama
Quinta-feira 1 de Abril – 12:30h
Rua Barão de Mesquita 190, Tijuca
Tel: 2264-9037

Arte da Auto-Cura através da Meditação
Núcleo Cultural Shakti
Quinta-feira 1 de Abril – 18:30h
Rua Farani 24, Botafogo-tel: 2551-0431

Os Benefícios da Auto-Cura pela Meditação
VidyaMandir
Sexta-feira 2 de Abril – 20:00h
Av. Nossa Senhora de Copacabana
728/ Sala – 403 Copacabana tel: 2549-3596

Swami: from the Sanskrit for 'owner', 'master'. One who is the Master of his own Self; a Guru or Self-Realized teacher who guides others towards their own Realization. The term ‘-ji’ is a common Hindi suffix used to show respect and endearment, so ‘Swami-ji’ means ‘respected master of Self Realization’.

anotado por Rafael - 12:08 PM

caro laerte

O melhor da entrevista do Laerte para a Caros Amigos foram as tiras que ele fez depois.

anotado por Rafael - 12:00 PM

março 19, 2004

gaiman dá o toque

You get ideas from daydreaming. You get ideas from being bored. You get ideas all the time. The only difference between writers and other people is we notice when we're doing it.

Neil Gaiman explica em ensaio de onde ele tira suas idéias. Altamente recomendável para ficcionistas em geral.

anotado por Rafael - 01:29 PM

mais salão no sobrecarga

Está no SoBReCarGa uma coluna com minhas impressões do XV Salão Carioca de Humor; é uma revisão expandida de uma nota que já rolou aqui, com mais ilustrações e mais links.

anotado por Rafael - 01:27 PM

março 18, 2004

Beautiful Herminio of oak

Encontrei um troço sensacional no Contexto da Descoberta. Conta a autora que alguns gringos estavam usando um tradutor automático para ler as letras de samba em inglês. O lance é que os nomes dos compositores também eram traduzidos na mesma leva. O resultado é melhor do que aquela versão dos nomes dos bairros de subúrbio para inglês -- ganha um little cry quem descobrir os nomes verdadeiros dessa turma aqui:

Beth Oak
Clear Nunes
Argemiro Sponsorship
Happiness
Moacyr Light
Xangô of the Hose
Delcio Oak
Top hat
Hanging oil lamp
Walter Tailor
Geraldo has filmed
Heifer da Silva
Edu Wolf
Wilson of Snows
Wanderley Hunter
Pink Noel
João of the Bahian
Lamartine I dribble
Mario Lake
Heitor of the pleasures
Beautiful Herminio of oak
Wilson baptist
Geraldo pear tree

anotado por Rafael - 10:19 AM

março 17, 2004

assim não é possível

A Gibimania mudou de endereço. A Gracilianos do Ramo fechou. É o fim. Não se pode mais confiar em nada nesse mundo, mesmo. Ao menos a Point Hq continua no mesmo lugar.

anotado por Rafael - 03:30 PM

eu quero o emprego do Dapieve

O verão carioca tinha essa capacidade de repercutir pelo país fatos irrelevantes de suma importância. Hoje em dia é diferente.

Tutty Vasquez faz mais um resumo perfeito do verão 2003/2004 (mais um porque eu também apontei o resumo do verão passado que ele fez aqui).

Aproveitando o domínio: eu quero o emprego do Arthur Dapieve.

anotado por Rafael - 12:14 PM

março 16, 2004

ainda o salão

Charge vencedora do salão carioca

A charge acima foi a vencedora do XV Salão Carioca de Humor. A maioria das charges finalistas versava sobre o mesmo tema: conseqüências do 11 de setembro, da invasão ao Iraque ao fichamento nos aeroportos brasileiros. Ainda que falte uma definição consensual, costuma-se ter por charge o tipo de desenho de humor localizado/datado, referente a uma situação específica, onde os retratados aparecem em plano americano (da cintura para cima), em geral com charge, carga, conteúdo, política ou ideológico, refletindo a opinião do desenhista ou do veículo onde se publica -- daí o termo inglês, editorial cartoon.

Se Eduardo Felipe foi adequado quanto ao tema, fica fácil ver o motivo dele ter sido o primeiro prêmio quando se analisa a forma que escolheu. Felipe foi o único a apresentar, mais do que um desenho de humor, uma legítima peça de culture jamming -- uma paródia gráfica de um símbolo, logotipo ou marca por meio de ligeiras modificações visuais, que embaralha os significados, permitindo diferentes leituras do que era uma imagem conhecida. Parabéns aos jurados por terem percebido isso.

Embora essa prática seja comum com faixas de torcidas de futebol, e mais comum ainda em vésperas de eleições -- quando eleitores sabotam a mensagem do outro candidato ao recortar e reordenar as letras de adesivos -- fora dessas situações, é difícil percebê-la. No Canadá, os Adbusters se valeram dela para transmitirem suas mensagens anti-globalização e anti-publicidade. No Brasil, quem mais brincou disso foi a dupla de designers Elesbão e Haroldinho, dona de dezenas de paródias que ficariam bem estampadas em camisetas, em cartazes ou mesmo como matérias de revistas dishcoladas.

A subversão do culture jamming consiste em se esvaziar o peso de uma tradicional marca corporativa, transformando-a no reclame de um produto vagabundo ou, no sentido inverso, aumentar a relevância de um produto marginal através de um logotipo de design caprichado, que só uma cara agência de publicidade poderia produzir -- tal como foi feito com a cachaça 51 na capa deste fanzine. Ainda não entendeu? Mais dois exemplos da dupla. No primeiro, os manequins do Kraftwerk são substituídos pelas Meninas Super-Poderosas, cruzando o infantil, feminino e colorido com o industrial, rígido & cinza:

kraftwerk powerpuff E&H

No segundo, hilariantes variações sobre o ícone da cesta de lixo:
E&H: lixo

anotado por Rafael - 10:48 AM

no ar

Tem gente que, quando se empolga, toca air guitar. Ou air bateria.
Eu toco air trombone de vara. Às vezes, air trompete.

anotado por Rafael - 10:10 AM

dundas by moon

Fábio Moon, da dupla 10 pãezinhos, gostou do que leu e mandou essa ilustra classe de Dundas Aquino:

Morte e Vida Celestina, por Fabio Moon

anotado por Rafael - 10:09 AM

março 15, 2004

Despejado

Inagaki, do Pensar Enlouquece, foi um dos despejados na recente barca que partiu do Blogger BR e, barbas de molho, já está de endereço novo, onde conta como foi o processo de saída e dá dicas aos despejados de como recuperar seus arquivos.

anotado por Rafael - 01:31 PM

XV salão carioca de humor

Ricky Goodwin disse que esse foi o salão de humor que sempre se quiz fazer, e só visitando as exposições para entender o que ele queria dizer.

CCBB por Paulo Caruso

Não é muito difícil entender, apenas olhando de fora: normalmente o salão ocupa apenas dois espaços da Casa de Cultura Laura Alvim: as arcadas (onde ficam expostos os vencedores & finalistas das categorias cartum, charge, caricatura e quadrinhos) e o segundo andar (onde fica a exposição do homenageado). Neste ano, além da Laura, o salão ocupou todo o interior da Casa França-Brasil e o terceiro andar do Centro Cultural dos Correios, um vizinho ao outro no centro da cidade. Mais do que o triplo do espaço convencional.

No Centro Cultural dos Correios ficou a retrospectiva dos 20 anos de charge do Chico Caruso para O Globo; o interessante aqui é observar a evolução técnica de Chico ao mesmo tempo em que se rememora um conturbado passado recente. Ou ao menos a intenção deveria ser essa, porque o que mais se ouve são comentários afetuosos ("olha o Sarney! olha o Collor!") de gente que, anos atrás, sofreu na pele com pataquadas daquelas mesmas figuras que ajudou a colocar no poder. Interessante notar que, se Chico ganhou em versatilidade ao poder usar a cor, perdeu o uso das precisas hachuras que usava desde os tempos do JotaBê. Outra observação inevitável é perceber como o uso da xerox colorida pasteurizou as charges, fazendo cada político aparecer sempre com a mesma cara (se fosse intencional, como os "carimbos" que Sienkiewicz fez para Elektra Assassina, teria outro sentido). É divertido imaginar o trabalho que Chico teve para escolher quais charges representariam os 20 anos; há anos cobertos por não mais que meia-dúzia de desenhos e você se pergunta por que a morte dos Mamonas Assassinas recebeu espaço e a conquista da Copa do Mundo de 94, não... Por fim, inegável perceber como o trabalho de Chico esteve no auge entre 10 e 15 anos atrás, transição Collor-FHC, e constatar como ele cresce em períodos de turbulência, haja visto que a saída do JB aconteceu no período da redemocratização.

mosteiro de São Bento _Paulo Caruso.jpg

Nos Correios ainda sobrou espaço para uma micro ainda que bem apresentada mostra do argentino Sábat (só 6 desenhos!) e para a belíssima mostra de pranchas originais do irmão do Chico, Paulo Caruso, sobre paisagens urbanas de São Paulo para um álbum dos 450. Se você acha que o Chico desenha bem, respire fundo para não ter vertigem vendo os desenhos do Paulo (que sempre foi muito mais desenhista e quadrinhista, enquanto o Chico, chargista e caricaturista).
Lava jato, primeiro prêmio categoria cartum

Na Casa da Laura tem mais um pouquinho de Chico, com séries mais recentes, enfocando os problemas do primeiro ano e um terço do governo Lula. Além da pasteurização (que oculta uma grande técnica), percebe-se aqui com clareza como Chico se vale de temas, motivos visuais, para encher um quadrado por dia. O abacaxi, pro exemplo, já gerou uns 30 desenhos com Lula.

(Parênteses: no caderno especial lançado em comemoração dos 20 anos n'O Globo, Chico diz que apenas políticos safados gostam de ver seus rostos caricaturados, e que os 'éticos' são os que mais reclamam quando aparecem. Curiosamente, na página anterior, rasgam elogios ao Chico políticos das mais diferentes vertentes políticas, o que faz crer que, pela definição dele, todos são uns safados. Fim do parênteses)

Gordo e magro _Leo Martins

Sem muito a falar sobre os vencedores do concurso. Gostei muito do vencedor na categoria cartum e da caricatura de Léo Martins para o Gordo e o Magro, mas historicamente é impossível vencer nessa categoria com o Quinho concorrendo. Acho que Allan Sieber poderia ter sido melhor classificado do que o "prêmio catálogo" e que, como de costume, os quadrinhos acabaram deixando a desejar.

Agora, se você só tiver tempo para ir a um lugar, vá ver a exposição Caricaturistas Brasileiros, na Casa França-Brasil. É um sonho de retrospectiva, do século XIX ao XXI, do lápis de Araújo Porto Alegre à arte digital de Aroeira. Para reunir aquele elenco de primeira, mais ou menos assim como uma seleção dos melhores de todos os tempos, a definição de cartum, charge e caricatura foi embolada e ampliada, a despeito do texto introdutório que usa as expliações do Loredano e do Chico -- eu mesmo já me arriquei nesse campo. Assim, entram na roda quadrinhos de Angelo Agostini, Henfil e Laerte, ilustrações de J. Carlos e Raul Pederneiras, caricaturas de K.Lixto, Guevara e Loredano, cartuns de Péricles, quadros de Millôr Fernandes, serigrafias de Ziraldo e Jaguar, charges de Angeli e Claudius, tudo sob o guarda-chuva da caricatura. Claro que quando você vê de perto os originais de desenhos desse povo todo, esquece rapidinho das definições...

Ainda na Casa França-Brasil ainda ficou uma pequena homenagem ao Redinger, o Redi, com quadros, cartuns antigos, ilustrações para o NY Times, caricaturas e até fotos dos pães que recentemente aprendera a fazer, sua última paixão.

anotado por Rafael - 01:26 PM

março 12, 2004

mais uma placa

Recebi ontem. Alguns amigos não podem passar perto dum lugar assim:

Bar Porre certo

anotado por Rafael - 04:30 PM

o lançamento -- no rio

Você começa a desconfiar que a blogosfera carioca é muito, muito pequena (u como prefere uma amiga minha, a renda é muito mal distribuída) quando descobre que a menina que andou deixando comentários no seu blog é namorada de um ex-colega de colégio. Você tem certeza que a blogosfera carioca cabe dentro duma kombi quando descobre que o cara que andava deixando vários comentários no blog do seu amigo escritor que estava lançando um livro é o mesmo que, há uns 10 anos atrás, você encontrou numa convenção de quadrinhos, escrevendo piadas para a MAD. Você se dá conta disso tudo quando encontra todas essas pessoas, e mais o Pedro Sette Câmara, o Lisandro Gaertner e o LEM -- que me enganou mais uma vez: jurava que era caipirinha a limonada sorvida por ele -- juntos num café com internet que já foi o restaurante-quartel-general da esquerda festiva carioca. Os fantasmas de 68 devem ter guardado as correntes no bolso e se revirado no túmulo com todo aquele poltergeist em carne e osso.

Chato foi o problema no carro ter impedido a presença do Mozart, que mal teve tempo para o apertar de mãos, e o acanhamento do local -- ou éramos em quantidade assim esmagadora? Legal foi Diogo Mainardi, Antonio Fernando Borges e Geneton de Morais terem passado por lá. Legal mesmo foi aquela história que o Bernardo contou de quando, na pilha de ver alguma coisa mais erótica na televisão, chegando em casa de madrugada, lambeu os beiços e esfregou as mãos diante do aviso:

ESTE FILME CONTÉM CENAS DE:
NUDEZ
SEXO
VIOLÊNCIA

TEMA ADULTO


Beleza! É do que eu tou precisando! Só para soltar um muxoxo quando viu que a película em questão era uma versão para Othello, de Shakespeare.

Ah sim. Foi mais divertido do que em São Paulo. E ao invés de monza, teve cheeseburguer de salmão no final.

anotado por Rafael - 04:28 PM

cedo demais

tontoMinha coluna no SoBReCarGa não faleceu, apenas passou por um período de hibernação e agora volta, com a Coleção Mini Tonto. Acharam que tinham se livrado de mim? Não ia ser assim tão fácil, haha.

anotado por Rafael - 02:24 PM

março 11, 2004

é hoje

lançamento de morte e vida celestina

Tem mais uma coisa do Dante:

Eu gosto, o modo como porteiros, faxineiras e seguranças falam, construindo o mundo em volta deles, é exato igual dessas formas de exorcismo e encantamento conhecidas como a fala dos acadêmicos.
Acadêmicos usam a língua para exorcizarem-se da realidade. É referente, é quadro teórico de demência, é paradigma, é pique. Curra! O dialeto das faxineiras tem poesia, nem precisa ser irlandês ou metido a besta para ouvir.

Por conta disso é que eu ficava preocupado quando via que ele estav prestando muita atenção ao que eu falava. Vai que ele resolve me desconstruir numa crítica dessas e, depois de provar por escrito que eu sou um girassol, eu não consigo mais parar de olhar o sol do jardim de inverno, onde fico girando os braços em sentido horário...

anotado por Rafael - 07:59 AM

aspas para arnaldo

Hoje em dia, quase tudo que, mesmo com uma essência tradicional, não se encaixa num padrão de entendimento imediato, ou possui alguma sutileza, corre o risco de ser acusado de “modernoso”, “cabeça”. E qualquer ausência de correria, de ritmo alucinante, pode cair na malha dos detratores do “ritmo arrastado”, do “sonolento”. Qualquer falta de uma moral definida, de um desfecho esperado, caracteriza a chaga do “sem história” ou do “final errado”.
-- Arnaldo Bloch

anotado por Rafael - 07:55 AM

março 10, 2004

mr. mojo rising

O livro das cousas que acontecemQuando escrevi sobre o primeiro livro de Daniel Pellizzari, Ovelhas que Voam se Perdem no Céu, ele me alertoumais ou menos assim: tá legal, mas agora vai conferir o segundo, que é mais parelho senão em técnica, ao menos em temática. Entre as melhores qualidades de Pellizzari está a de ser bom crítico de si mesmo.

Ao invés dos bichinhos de Ovelhas, encontrei cenas de masturbação -- isso mesmo, cenas de masturbação -- na maioria dos contos presentes em O Livro das Cousas que Acontecem. Nem por isso Pellizzari pode ser enquadrado como um dos Quixotes de Bukowski, para ficar na expressão que nomeou artigo meu, quase um ano atrás. A presença das cenas de masturbação não faz do livro um compêndio de baixaria. Tampouco arriscaria dizer que elas são uma opção estética consciente ou uma flor de obsessão de Pellizzari. Aquela sucessão de gente buscando o prazer solitário me lembrou dum comentário de Moebius no prefácio para uma coleção de histórias do Arzach, o guerreiro voador mudo. Moebius disse que uma análise do ponto de vista semiótico faria ver que o chapéu pontudo do guerreiro era um símbolo fálico. Que o bico do pterodáctilo cavalgado por aquele guerreiro era um símbolo fálico. Que os picos desenhados ao fundo das paisagens eram símbolos fálicos. Mas, com mil diabos, quando ele sentara para desenhar os quadrinhos, não tinha em mente sair rabiscando símbolos fálicos pelas páginas; as histórias foram concebidas sem um roteiro prévio e, em sua espontaneidade, retratavam muito do estado de espírito -- negativo -- do autor, à época de sua realização, por isso os muitos finais trágicos, mortes, esqueletos espalhados pelo cenário. Do mesmo modo, é suficiente crer que as cenas de masturbação espalhadas pelos contos do Livro das Cousas são um reflexo do estado criativo no qual Daniel as escreveu, e essa informação é bastante para cair dentro da boa literatura de suas páginas.

Na média, a qualidade dos contos é bem superior a de Ovelhas, com poucas bolas fora (Agosto, Monomania, História de amor #62), onde pelo menos se salva a idéia ou a realização; quando ele acerta no final do conto, fica irresistível. Os preferidos da casa foram Ana, Modo de Dizer, Quatro Arestas, Proibida a Entrada de Pessoas Estranhas, Acerca da Macrogeografia e essa pequena maravilha, que dá vontade de fechar o livro para bater palmas durante a leitura, chamada Sêmen de outras pessoas.

Daniel Pellizzari mantém atualmente o blog Fail Better.

anotado por Rafael - 08:07 AM

março 09, 2004

ainda mais placas

Mais um capítulo da série de maior repercussão deste blog até hoje: placas do Brasil a fora.

placas_8

placas_9

placas_10

placas_11

anotado por Rafael - 08:26 AM

no paralelos.org

Já está no ar minha resenha do livro A Duas Mãos, da Paloma Vidal para a coleção Rocinante, na página do projeto Paralelos.
Interessante também essa matéria com José Hamilton sobre new journalism à brasileira.

anotado por Rafael - 08:20 AM

protesto na praia do flamengo

Milhares de manifestantes compareceram à Praia do Flamengo no último domingo para protestar contra a tentativa de fechamento da CPI dos bingos pelo governo Lula.

protesto1

Mãos para o alto, manifestantes proferiram palavras de ordem: Fora Védirfeu! Fora Védirfeu!

protesto2

Ao invés do vermelho, consagrada textura de protesto, optou-se pelos trajes laranja. A concentração do protesto deu-se em torno de um palco, onde políticos da oposição fizeram seus pronunciamentos com o auxílio de recursos multimídia.

protesto3

Apesar da seriedade das reivindicações, houve espaço para muita alegria e descontração por parte dos manifestantes, aqui em flangrante de franca confraternização. Para embalar o público, canções de Geraldo Vandré foram substituídas pela música eletrônica de FatBoy Slim.

protesto4

O apelo popular foi tamanho que até de barco chegou gente para engrossar o coro. (fotos: O Globo)

anotado por Rafael - 08:15 AM

março 08, 2004

pegadinha

Essa foi de matar, a melhor notícia que encontrei na volta. Assumindo as vestes de ilusionista público, o roteirista Mark Millar escreveu uma coluna sobre um nunca filmado projeto de Orson Welles, cujo personagem principal seria simplesmente... o Batman! Partindo de dados simples, como o gosto de Welles pela pulp fiction (redigiu e interpretou O Sombra no rádio) e pistas falsas (um desenho de produção, um elenco de atores idealizado), Millar criou uma obra-prima do imaginário, repetindo a Guerra dos Mundos radiofônica ao engabelar um caminhão de leitores -- inclusive o Tiago Teixeira. Resta-nos imaginar o impacto de um filme do Batman, sobretudo ao longo da história* com George Raft interpretando o Duas Caras (porque Bogart teria declinado do papel) e Jimmy Cagney como Charada. Já que no papel principal, Welles tinha escalado o melhor ator que conhecia: ele mesmo.

*Não custa lembrar que as histórias em quadrinhos decaíram tremendamente em popularidade e respeitabilidade ao longo das décadas de 50 e 60 do século passado, e que o primeiro grande filme com o Batman foi o que deu origem ao seriado, com Adam West e Burt Ward, em 1966. Nem o trabalho que deu, e ainda dá, desfazer aquela imagem...

anotado por Rafael - 01:14 PM

maltthus no arquipélago

Aproveitei a viagem para ler os dois primeiros livros de Diogo Mainardi. Maltthus, do qual dois amigos já haviam falado bem, na ida; Arquipélago, na volta. O último é melhor, o uso da ilha como metáfora para o isolamento humano me é bastante caro.

anotado por Rafael - 12:50 PM

quem diria

Acho que eu fui o primeiro a notar (aposto que nem o Polzonoff nem a Paula sabiam dessa). O lugar agendado para o lançamento carioca de Morte e Vida Celestina, Café com Letras, situado à Rua Bartolomeu Mitre 207, hospedou por décadas o Antonio's. Exatamente: o Antonio's, o quartel-general da esquerda festiva durante as décadas de 60 e 70, o caleidoscópio de um bar. O escritório de Carlinhos Oliveira, que plantou sua máquina de escrever na varanda, de onde metralhava suas crônicas para o Jornal do Brasil -- Carlinhos morava no prédio do outro lado da rua, a um andar de distância de um jovem redator do JotaBê que de vez em quando lhe emprestava um par de óculos sobressalentes, e que largaria uma promissora carreira no jornalismo para abraçar a clandestinidade e, anos depois, ser eleito deputado federal sob o nome de Fernando Gabeira. Antonio's, onde ficavam as mesas nas quais Vinícius de Morais se encontrava para bater papo (e beber) com Antonio Maria, Rubem Braga e Maysa. O único lugar onde, dizia-se, era possível falar mal da ditadura em altos brados. Onde nem Mick Jagger, ao entrar com sua namorada Marianne Faithfull, foi poupado: fizeram barata voa com seu chapelão hippie. Conta-se que, numa tarde, um grupo de assaltantes invadiu o Antonio's e trancou os poucos fregueses no banheiro. Três versões dão conta do que se passou. Na primeira, os assaltantes perguntam ao escritor na varanda:
-- Você é o Carlinhos Oliveira?
Ao receberem a afirmativa, o liberam do assalto. Na segunda, conta-se que um dos reféns mete a cabeça para fora do banheiro e pede para os assaltantes rasgarem as penduras. Na terceira, que os assaltantes quebram garrafas de uísque e, quando a polícia chega, testemunha os fregueses tentando beber o caldo derramado no chão -- de canudinho.

É nesse terreno que o Alexandre Soares vai lançar seu livro. Alexandre, o dândi, o aristocrata caído. Alexandre, o neocon. Alexandre, que outrora confessou odiar o Hugo Bidet. Estranho é o mundo e irônicas suas artimanhas. Que ele não atraia nenhum poltergeist ao perturbar o sono dos fantasmas dali, senão eles puxarão sua perna durante o sono. A esquerda.

anotado por Rafael - 11:47 AM

o lançamento

O mais divertido do lançamento do livro novo do Alexandre foi ter conhecido ao vivo o blogueiro mais famoso da internet, Inagaki, que estava lá com a namorada, Suzi, além do chicoteado Marco Aurélio, do mitológico Martim Vasquez da Cunha, além do estado maior wunderblog. É bom conversar com quem só se está acostumado a comentar posts. Só vacilaram o Freddy, que precisa deixar de ser paulista e parar para dois dedos de prosa, e o Danilo, que preferiu o futebol.

Não, o mais divertido foi ter (re-)encontrado o douto e preclaro Salvador McNamara, com quem travei brilhante discussão sobre a Bélgica & os belgas, nos primórdios da era laranja deste blog. Ele, com calúnias e insultos; eu, com ponderações razoáveis e racionais (ganhei, no final). Abraçamo-nos como amigos de infância.

Não mesmo. Nada barrou aquele diálogo já na dispersão, uns indo para casa, outros considerando uma esticada:
-- Vamos tomar um café?
-- 'Bora, aonde?
-- Ali naquele 24 horas da esquina que tá sempre cheio de viados.
-- Qual deles?
-- Essa é a descrição perfeita de São Paulo.

Minto. O mais engraçado foi um comentário maldoso sobre o Marcelo Rubens Paiva, que estava na parte de baixo do bar, batendo papo com o Jorge Caldeira:
-- Ele é muito mal-educado. Nem levantou para cumprimentar o autor...

Não sente numa mesa com os wunderbloggers sem levar seu AR-15.

* * *

Apesar da chuva, foi um final de semana assaz agradável. Reencontrar entes queridos, colocar os assuntos em dia, ouvir soul e rythm & blues como se deve, rir.

E rever, enfim, a Patricia.

* * *

Quinta-feira tem reencenação, no Rio. Merece uma nota só para ela.

anotado por Rafael - 11:19 AM

março 03, 2004

bizu

São verdadeiros os boatos. Comparecerei ao lançamento paulistano do livro novo do Alexandre.

anotado por Rafael - 09:25 PM

março 02, 2004

baxt

Bárbara Axt

Conheci ontem, só que chegaram antes.

anotado por Rafael - 09:25 PM

país do armengue

Fernanda Abreu estava errada: o Brasil não é o país do suíngue. É o país do armengue. Do jeito, e não do jeitinho. Resolvem-se as coisas até o amanhã a gente vê, nunca pensando-se daqui a cinco, dez, vinte anos. É injusto que a Noruega seja conhecida como pátria do bacalhau, afinal em nenhum outro lugar se faz tanto remendo porco, tanto bacalhau como aqui. É a menina no rádio reclamando que não tem emprego como operadora de telemarketing. São centenas de infelizes de carteira profissional na mão se queixando ao presidente por ter acabado com seus empregos nas casa de bingo. Algum dia esse povo foi às ruas protestar por mais educação, mais vagas em faculdade, mais bibiotecas públicas?

E ainda tem gente que toma o bingo por solução para o desemprego. Dependesse delas, a prostituição seria legalizada e, obviamente, taxada pelo governo. Só que tem o seguinte: eu não quero uma casa de bingo em cada quadra do meu bairro. Eu não quero um monte de prostitutas na minha rua, menos ainda o tipo de freguesia & comércio que elas atraem. Eu também acho que indústria polui -- mas setor de serviços não é mais gente carregando copo de um lado para o outro. Muito menos arrendar os melhores pedaços do seu país a visitantes esporádicos, praticamente vedando seu acesso aos próprios moradores.

anotado por Rafael - 09:22 PM

tá chegando

É quinta.

anotado por Rafael - 08:31 PM

anticlímaxes

Inacreditável o sucedido na abertura do, vou colocar por extenso, décimo quinto Salão Carioca de Humor, na Casa de Cultura Laura Alvim. Como se sabe e ninguém ignora, a exposição principal do salão é dedicada a um cartunista homenageado, o desse ano sendo Chico Caruso, com uma retrospectiva dos 20 anos consecutivos de charge editorial para O Globo.

E daí? E daí que Eliana Caruso -- esposa do Chico -- resolveu transformar a inauguração num evento particular e vedou a entrada ao público, incluindo aqui em "público" a maioria dos cartunistas que chegaram depois de 8 da noite: Loredano, Jaguar, Xalberto... Curiosamente, eu estava no bolo que se formou na porta e vi a Carmen Mayrink Veiga descer de um carro e entrar direto... Nessas horas só me lembrava do comentário do Arnaldo Branco.

Ricky Goodwin, curador e organizador do salão, estava transtornado e lá pelas tantas simplesmente se retirou de lá, dizendo-se não compactuar com a atitude de Eliana. Eu me arrependi de só ter comentado uma vez em voz clara: "isso não acontecia no governo FhC" -- poucos comentários seriam mais ofensivos num meio essencialmente de esquerda como é o dos cartunistas. Mas o fato é que não acontecia mesmo. E também não acontecia no governo Sarney. E no Collor. A inauguração sempre fora um congraçamento aberto, divertido, boca-livre, onde podia-se encontrar ou conhecer ao vivo aqueles nomes que só se conhecia de assinatura. Em outros anos, foi lá que peguei sketches de Paulo Caruso, Santiago, Nani ou do brilhante caricaturista mineiro Quinho.

Ao menos, descobri que haverá uma mostra da obra do Redi na Casa França Brasil, e que o argentino Sábat estará por aqui (Sábat fez a melhor caricatura de Picasso que já vi).

De lá, rumei ao DIB apenas para constatar, desolado, que o Jean não tinha vindo. Não que a noite não tenha sido agradável na companhia do Hiro, da Bárbara, do Cris Dias e da Anna Maron, mas senti a falta dele. O que não impediu de rolar o famoso registro no livro amarelo do DIB. Lá pelas tantas o papo desandou, e não me lembro porque, comecei a contar a história de como Bobby Fischer venceu o campeonato mundial de xadrez de 1972, que rendeu esses dois artigos.

anotado por Rafael - 08:29 PM

março 01, 2004

primeiro de março

E hoje, dia do 439o. aniversário da mui gloriosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, inaugura-se na Casa de Cultura Laura Alvim o XV Salão Carioca de Humor, homenageando desta vez Chico Caruso, que completou neste final de semana 20 anos de charge editorial para O Globo. Eu gostaria que fizessem ao menos uma menção ao Redi, falecido pouco antes do carnaval, ilustrador do Pasquim e dos textos do Sergio Augusto na Bundas.

Mais ou menos no mesmo horário, no mesmo dia, só que em outro local, comemora-se o Dia Internacional do Bracarense. Mais informação aqui.

anotado por Rafael - 04:01 PM

surto

Não é para se espantar com a profusão de notas. Findo o carnaval, começa o ano...

anotado por Rafael - 03:51 PM

encomendas

Chumalocatera de guazzell

Outra felicidade foi abrir os pacotes entregues pelo correio: no primeiro, uma pilha de mini-gibis das Edições Tonto, além de números antigos do fanzine Glória, Glória Aleluia (de Allan Sieber) e da revista Olho Mágico/Ojo Magico. Quadrinhistas gaúchos, membros da ADM -- Agentes do Mal -- "fundada" há uns 10 anos, cujos nomes mais conhecidos são o próprio Sieber e o Adão (na época, ainda Iturrusgarai). Bom para conhecer o ambiente cultural onde eles se formaram, e apreciar de novo Jaca, MZK, Fabio Zimbres, Guazzelli, enfim, a turma casca da Dumdum em plena forma. E ainda um cara interessante eu que não conhecia, Guilherme Caldas.
o apocalipse segundo dr.zeug / F.zimbres

Olho Mágico/Ojo Magico era uma revista meio argentina, meio brasileira onde a gente constata o que é uma produção de quadrinhos madura, cheia de novos talentos, decorrência natural de uma indústria estabelecida e uma manancial de talentos infindável. Estou falando da metade argentina, no caso.
Mellitus de jaca

No segundo pacote, uma camiseta do site para o qual faço uma coluna, o SoBReCaRga. É a primeira camiseta-com-url que tenho. Agora só falta o boné com a inscrição nerd na testa. Minhas voltas sábado de manhã na Lagoa nunca mais serão as mesmas.
Urrú, MZK

anotado por Rafael - 03:48 PM

entre reis e arlequins

Muito me chamaram a atenção duas publicações que encontrei nesse retorno. A primeira é o número 9 da Coleção Opera King, dedicado ao Reizinho de Otto Soglow, uma das melhores tiras de quadrinhos mudas de todos os tempos. No reino do Reizinho, todo mundo fala -- menos ele. Humor sutil e profundo, como o de Schulz. Linhas claras, de matar Hergé de raiva. Saiu das páginas sofisticadas da The New Yorker para os jornais populares, onde ficou por 40 anos. Até marca de cigarros inspirou. Um dos quadrinhos mais lembrados por fãs ao longo dos tempos, apesar da ausência de edições nacionais nas duas últimas décadas. Quem vai gostar de saber é o Enio, que publicou uma tira dele há algum tempo atrás.

Reizinho de Otto Soglow

O cachorro Oto, do Recruta Zero, recebeu esse nome por ser parecido com Soglow, criador do Reizinho, assim como Oto, o cão lapidar, desenhado por Jaguar para tiras n'O Pasquim, foi batizado em homenagem a Otto Lara Resende.

A segunda é uma graphic novel lançada há algum tempo, chamada A Paixão do Arlequim, com roteiro de Neil Gaiman e arte pintada de John Bolton. Quem conheceu o Gaiman por causa do Sandman não imagina que o senhor dos sonhos era apenas sua magia mais poderosa, não a melhor. Esta, ele guardou para histórias como Signal to Noise, Mr. Punch, Violent Cases e essa.
Neil Gaiman repete aqui o truque que explorou à exaustão em Sandman: contrapor a solenidade & o poder de deuses, mitos e heróis com a vulgaridade & cotidiano de humanos. Um antigo deus asteca poderia ter que encarar uma fila numa repartição burocrática, assim como meio de bobeira você poderia descobrir que aquela mulher fazendo strip-tease num salão esquecido de beira de estrada era uma antiga deusa maia do amor.
A estrutura é teatral, uma típica arlequinada, com direito a troca de papéis entre os personagens e a verborragia poética do Gaiman. A grande qualidade, como sempre, é a adequação com que ele trata o tema. E a arte perfeita de Bolton. De quebra, você descobre a origem de slapstick, o termo inglês para pastelão, ou chanchada: era um tipo de bastão preso a outro por um elástico, utilizado para fazer barulho, simulando pancadaria, nas antigas peças da Commedia Del'Arte (onde o arquétipo do arlequim tomou forma). Depois slapstick passou a denominar o cajado mágico que o arlequim portava. Não conheço uma tradução exata para o português, talvez "matraca" fosse adequado.

anotado por Rafael - 03:24 PM

é aqui

Não são verdadeiros os boatos de que embarquei num cruzeiro turístico para as Bahamas neste carnaval. Tampouco procedem os rumores de que tive um tórrido caso com uma conhecida modelo-e-atriz do jet set carioca. O que ocorreu, de fato, revelo agora: dei um pulo rápido no Haiti para completar a parte prática de meu curso de vodu para principiantes em troca de ensinar-lhes a tecnologia de coquetéis molotov... Mas tive que voltar de lá correndo porque os alunos se mostrarm, como direi, aplicados demais nas lições...

anotado por Rafael - 02:48 PM