abril 30, 2004

estátuas do rio - v

estátua do zozimo

Zózimo Barroso do Amaral, o homem que elevou o colunismo social ao nível do jornalismo (assim como Ibrahim Sued o tinha à baixa literatura), teve peças reais de seu vestuário utilizadas na confecção desta estátua, erguida no canto direito da praia do Leblon, tal como um vigia a zelar pelas ondas da praia. Em tamanho real (Zózimo era baixinho), veio com o kit completo, incluindo máquina de escrever elétrica, talão de cheques, Jornal do Brasil e blocos de notas, colocados num canto, como quem dá uma paradinha, tira o paletó e afrouxa a gravata para uma caminhada á beira-mar no fim da tarde.

bugingangas do zózimo

anotado por Rafael - 12:52 PM

retrospectiva

Não costumo fazer balanço, mas essa semana merece: estréia de leiaute novo, ensaio fotográfico sobre as estátuas do Rio, livro do Jorge Cardoso e do Chuck Barris, um pau no Millôr, um cubo mágico à prova de stress e uma prova de que nem todo mundo se deu mal com o tiroteio na Rocinha.

Tem uns dias em que você se sente capaz de matar não um leão, a manada toda.

anotado por Rafael - 12:46 PM

abril 29, 2004

estátuas do rio -- iv

estátua do braguinha

estátua do braguinha

João de Barro, o Braguinha, é o irmão mais novo da série de estátuas plantadas nos últimos 4 anos; só entre Copacabana e Leme 4 novas foram erguidas (Drummond, Ary Barroso, Princesa Isabel e Braguinha). Recebeu a localização mais privilegiada: logo na saída do Túnel Novo, dando as boas vindas a quem chega em Copacabana vindo de Botafogo (perto da praia fica a estátua da princesa que também nomeia essa avenida). Mereceu ainda placa em homenagem afixada na base da estátua:

placa

Como informa a placa, a escultura é do Otto Dumovich, que começou a carreira artística fazendo quadrinhos para a Vecchi (descoberto pelo Ota), depois andou fazendo storyboards para cinema (Brincando nos Campos do Senhor) e agora parece ter se convertido no escultor oficial da cidade, com imagens fluidas, cheias de bossa e movimento. Detalhe da sua assinatura pode ser conferido abaixo:

detalhe

anotado por Rafael - 09:45 AM

chuck barris

Comediante Mascarado: como se faz para deixar um idiota em suspense?
Chuck Barris: não sei.
Comediante Mascarado: amanhã eu te conto
(gargalhadas na platéia)
Comediante Mascarado: qual a diferença entre o papel higiênico e a cortina do box?
Chuck Barris: não sei.
Comediante Mascarado (apontando para ele e olhando a platéia): Foi ele!

(Trecho de Confessions of a Dangerous Mind, autobiografia de Chuck Barris, o inventor do Dating Game e do Gong Show, respectivamente copiados por Sílvio Santos no Namoro na Tv e no Show de Calouros)

anotado por Rafael - 09:27 AM

tá ruim pra (quase) todo mundo

Períodos de crise são oportunidades de mudança, diz o dito popular. É impossível deixar de ver o momento atual do Rio de Janeiro, sobretudo depois dos recentes eventos da guerra do narcotráfico na favela da Rocinha (exibidos nos quatro cantos do mundo), como uma típica situação limite, de crise institucional e civil, em que direitos humanos e regras de convivência básicas são violados.

Porém, tudo -- até mesmo a guerra -- tem seu outro lado, notícias não podem se limitar a crimes e homicídios. Ocorrências como a da Rocinha ou o atentado de 11 de setembro criam seqüelas sociais e psicológicas mais complexas do que as páginas de fundo ou os seriados de tv podem expressar. Nem todo mundo se deu mal com a tragédia da sexta-feira santa.

Chegou aos meus ouvidos, por exemplo, uma historinha exemplar -- dessas que o Ancelmo Góes gosta de veicular. Morador da Barra da Tijuca, voltando para casa de madrugada, ao se deparar com o bloqueio do túnel sob o morro Dois Irmãos, dirigiu-se para a avenida Niemeyer, onde acabou imitando os outros carros e retornando no meio do caminho, para fugir do bonde do mal.

Isolado na zona sul, ainda desorientado pela insegurança e sem ter onde ficar, começou a rodar à procura de um hotel para o pernoite -- sem muito sucesso, já que era feriadão, e a cidade estava lotada de turistas. Acabou num hotel em Ipanema, onde estacionou o carro atrás de um com duas moças, na mesma situação. Decidiram procurar uma solução juntos.

O recepcionista não pôde fazer muito mais do que indicar-lhes outro hotel da rede, em Copacabana, desafortunadamente ao pé de um morro. Rumaram os 3 para lá, apenas para descobrirem que havia um único quarto disponível, para 3 pessoas, o qual, na falta de opções, decidiram compartilhar.

O que acontece daí pra diante não é nada disso que vocês estão pensando. Estamos num blog honesto e não no Fórum da Ele & Ela, onde essas coisas acontecem, acontecem toda hora, e com uma morena e uma loira espetaculares. Aqui, não. Naquela noite os 3 se dividiram, um casal foi para o terraço espairecer, e depois voltaram ao quarto, onde enfim se sentiram em segurança para dormir o sono dos justos. Claro que rolaram uns amassos entre o casal lá do terraço, mas isso vai implícito.

O fato é que, na semana seguinte, por conta da guerra do tráfico na Rocinha, o tal morador e uma das moças encontraram-se mais uma vez entre quatro paredes, quando pôde-se ouvir os sons mais bonitos que uma mulher pode fazer.

anotado por Rafael - 09:22 AM

abril 28, 2004

estátuas do rio - iii

estátua do otto

Otto Lara Resende foi instalado na rua Jardim Botânico, logo ali na esquina do Jardim Botânico (vê-se a grade ao fundo), perto de um ponto de ônibus, com direito a escritório e janela. Só faltou mesmo o Nélson Rodrigues e o estenógrafo para anotarem suas tiradas por perto. Abaixo, a assinatura do escultor, o qual não consegui decifrar quem é.

est_ottodetalhe.jpg

anotado por Rafael - 10:53 AM

jorge cardoso

Soube pelo eraOdito que sai nos estertores de abril o primeiro livro do Jorge Cardoso, Mal pela Raiz. Seu nome foi dos que mais me chamou a atenção nos primeiros tempos de Paralelos, para o qual ele escreveu um texto nó-na-garganta: The Church of Body Modification. Se não me engano, Jorge Cardoso é um niteroiense que mora na Suécia e respondeu de maneira sensacional à entrevista feita com vários autores.

anotado por Rafael - 10:49 AM

abril 27, 2004

estátuas do rio - ii

estátua do ary barroso

Em comemoração ao centenário de Ary Barroso, foi inaugurada essa estátua em frente ao tradicional restaurante La Fiorentina, no Leme, também recentemente reinaugurado após longa reforma. Embora tenha havido alguma controvérsia quanto à localidade, acabou prevalecendo a aura boêmia do restaurante e o bairro onde Ary morou boa parte da vida. A haste esquerda torta talvez seja prova de que existe um vândalo inimigo de óculos de estátuas em Copacabana ou no Leme. Abaixo, o contra-plano:

estatua do ary

Na verdade, Ary Barroso já havia sido homenageado pelo Leme através da Banda do Leme, que lhe consagrara este busto, a poucas quadras de onde o resto do corpo hoje pousa sentado.

ary busto

anotado por Rafael - 10:37 AM

cubo mágico

Além de brilhante redator, pouca gente sabe, o Lisandro também dá suas cacetadas como inventor e artista plástico. Para a sorte de seus leitores, ele está comercializando algumas invenções. Recomendo enfaticamente o cubo mágico sem stress, do qual tive o orgulho de ser piloto-teste:

cubo mágico sem stress (tm)

Todo em plástico vagabundo, coberto de fita isolante velha e pintado com caneta hidrocor ressecada, esse cubo mágico irá lhe proporcionar horas e horas de diversão contínua, sem o stress de ter que montá-lo. Para isso, basta seguir as indicações das setas e fazer escolhas de caminho quando necessário. Uma excelente terapia para cardíacos ou mulheres na TPM.

Acompanha manual de instruções.

anotado por Rafael - 10:27 AM

covardia

Polzonoff dá a deixa:
A impressão que eu tenho é de que o senhor se tornou uma unanimidade. Isso é bom ou ruim? Não se escuta ninguém falar mal do Millôr Fernandes...
(risos) Não falam mal porque têm medo.

Não é de hoje que meu personal formador de opinião João Marcelo diz: o que falta a Millôr Fernandes é um bom Sylvio Romero. Se até mesmo o bruxo do Cosme Velho, hoje tido como parâmetro de boa escritura do aristocrata ao plebeu, teve um crítico a puxar-lhe o pé (da letra), porque Millôr não haveria de tê-lo? Mas o decano de Ipanema parece pairar acima de qualquer tipo de ataque. Um exagero, enfim; se é possível enxergar o lado bom de qualquer coisa, como o Nando prova, também o é enxergar o lado ruim -- e a unanimidade acabaria decorrendo mais pela acusada covardia do que por falta de argumentos.

Uma crítica Millôr Fernandes poderia começar assim:
Millôr Fernades foi conivente com o crime de assassinato artístico de Wilson Simonal, perpetrado pela turma do Pasquim. Que Simonal não era santo e tinha amigos no DOPS é sabido; o que se questiona é o empreendimento duma campanha que terminou por destruir a carreira de um cantor ter sido orquestrada por jornalistas, humoristas, cartunistas, enfim: gente que vive da exposição pública e da liberdade (não só a de imprensa; a de expressão, de comunicação). Se Millôr não foi um dos maestros da campanha, também não se atreveu a levantar a voz em defesa do Simonal -- ninguém o fez na época. Talvez a consciência lhe tenha pesado a ponto dele construir um personagem amplamente calcado em Simonal na peça Os Órfãos de Jânio (Beto), anos depois, o que também pode ser visto como uma mea culpa tardia.

Ou ainda assim:
Millôr Fernades está para o cartum brasileiro assim como Caetano Veloso está para a MPB: se ambos ergueram trabalhos transformadores em suas respectivas áreas nas décadas de 50 e 60, respectivamente, hoje existem mais como monolitos a atravancar qualquer tipo de movimento que não os fortaleça. Mesmo que se considere que hoje há uma quantidade maior de meios e mais abertura estética do que nos períodos em que Millôr e Caetano entraram no mercado de trabalho, a entrada, atualmente, é mais difícil do que há 40 ou 50 anos, quando os editores arriscavam-se a ceder espaço à criatividade de um Jaguar. Se a máfia do dendê nos legou uma plêiade de bandas intragáveis de axé, os netos do Pasquim são todos cartunistas "bêbados, mulherengos e de esquerda", para usar a expressão de Wolinski, e não há espaço fora desse humor "político e contestador" para quem faça um nonsense na linha do Monthy Phyton ou Harvey Kurtzman, um humor gonzo na linha de Ralph Steadman -- e nem por isso menos políticos ou contestadores. Ou engraçados.

Pode-se argumentar que as críticas acima são muito mais de caráter político do que literário, mas, até aí, as palavras do Millôr que tanto assombraram o Polzonoff também foram eminentemente restrições ao comportamento e à vida privada de Machado de Assis, e não direcionadas à obra de escritor dele. Ademais, se não existe "ser intocável para o humor inteligente", traz o homem pro meio da roda, ué.

Alguém aí tem a coragem de continuar tocando essa bola?

anotado por Rafael - 10:22 AM

Assim caminha a humani-data

Para uniformizar o conhecimento:

blog = contração de web log = ferramenta para atualização rápida de homepages que se presta enormemente ao departamento de plantão de jornais on-line ou diários de tela; alimentada normalmente com entradas de modo texto.
flog = fotolog = foto + blog = espécie de blog onde as entradas são imagens e não texto. Desenvolveu-se graças à disseminação de câmeras digitais, que transformaram qualquer zé num fotógrafo (assim como o blog os havia transformado em escritores).
vlog = videolog = video + blog = espécie de blog onde as entradas são curtos filmes digitais. Também decorrente da disseminação das câmeras digitais, aliadas a usuários bem-afortunados dispostos a arcar com o custo do tráfego de dados.
moblog = mobile blog = espécie de blog de atualização remota, cujas entradas são fotos tiradas com telefones celulares dotados de câmera acoplada, enviadas através deste mesmo celular para uma página na internet.

O que virá depois?

anotado por Rafael - 10:18 AM

abril 26, 2004

estátuas do rio - i

estátua do drummond

Não podia deixar de começar sem a de Carlos Drummond de Andrade, num dos bancos da praia de Copacabana, quase em frente à rua Rainha Elizabeth (e perto de onde ele morou, portanto). Logo nos primeiros meses de vida, teve uma das hastes do óculos arrancada, pouco depois reposta. É das mais apreciadas, pela total harmonia que tem para com a paisagem natural e humana ao seu redor.

anotado por Rafael - 11:57 AM

4000

Pausa para dar as felicitações ao Elesbão e ao Nemo pelos respectivos 4000o. posts. Arre!

anotado por Rafael - 11:46 AM

pitangui

Obrigado Patricia, de novo.

anotado por Rafael - 09:01 AM

abril 25, 2004

gay talese entra de carrinho

Eu escutei direito? Tradução nova de Gay Talese na área, é isso? É isso sim, e com direito a expansão para incluir o ensaio Sinatra está resfriado. Tou falando do volume Fama e Anonimato, da coleção jornalismo literário da Cia das Letras.

Os fãs de Hunter S. Thompson que me desculpem, mas a linha de ataque titular do jornalismo literário é Gay Talese e Tom Wolfe, com Norman Mailer e George Plimpton subindo pelas pontas. (É do último The Bogey Man, aquele livro verde entre The Muhamad Ali Reader e Life and Times of R. Crumb, numa foto da estante lá embaixo.) Quem duvida vai ter a chance de fazer o tira-teima por si mesmo: a Conrad está traduzindo os primeiros livros do Thompson e deve lançar ainda esse ano, na língua de Ruy Goiaba, Hell's Angels ou Fear and Loathing in Las Vegas.

Das crias de casa, merecem atenção os recém-lançados Queda Livre, com Otavio Frias Filho fazendo papel de George Plimpton no jornalismo de imersão, e Cem Quilos de Ouro, de Fernando Morais, quando ainda não pensava em entrar para a Academia Brasileira de Letras. Pra não falar na coletânea do Joel Silveira, uma expansão da edição original pela Codecri.

Ah, e aqueles numerozinhos que aparecem no canto superior direito das fichas da Cia das Letras são pra valer: Fama e Anonimato pesa mais de meio quilo, e A Mulher do Próximo, que pesa quase um, está em promoção por 25 paus -- eu vi, numa livraria. Foi o melhor livro que li ano passado. Vamos ver se agora o Fabio compra e me devolve o meu.

anotado por Rafael - 06:04 PM

abril 23, 2004

23 de abril

São Jorge? Ogum? Jorge Benjor que me perdôe, mas 23 de abril já está ocupado: é o dia do nascimento de Pixinguinha, da Tia Ciata -- em cujo quintal nasceu o samba --, do maestro da Orquestra Tabajara Severino Araújo e de Geraldo Pereira -- aquele sambista que, segundo a lenda, morreu numa briga com Madame Satã.

23 de abril é o Dia Nacional do Choro. Que sejam depositadas muitas flores ao pé da estátua do Pixinguinha, ao som do Carinhoso.

anotado por Rafael - 02:23 PM

lisandro safra 64

Pensou em mentir, mas lembrou da sua mãe e dos papos que tinham sobre a censura e sobre como era importante a gente dizer o que pensa. Assim, respondeu:
– Eu odeio melão.

Lisandro recria de de maneira ficcional suas reminiscências do Golpe de 64. Lembram do Veríssimo quando escrevia aos domingos no JotaBê? Lembram de quando o Stanislaw Ponte Preta vinha afiado? A sensação é parecida. E para quem quiser, tem mais.

anotado por Rafael - 09:26 AM

linha de passe com tognolli

Atenção: quando eu falar em linha de raciocínio daqui pra frente, tenham em mente esse jeito como o Cláudio Tognolli responde essa pergunta específica dessa entrevista. Não é de hoje que eu leio e admiro o Tognolli. Agora o melhor: encontrei essa dica no blog da Fernanda Lima. A penúltima entrada teve quatrocentos e quinze comentários. E você, com seus 85, achando que era formador de opinião...


Como o senhor avalia posturas como a do físico Fritjof Capra, que hoje assumiu novos paradigmas após anos de aproximação da ciência com as filosofias orientais?

C.J.T. – Isso do Capra não é novo. É dos anos 70. O Dr. Timothy Leary, de quem fui amigo, admitiu o Capra e o movimento "Tudo num só", mais iogues, swammies, dentro de tudo o que a contracultura tentou abarcar. Tive muitas aulas com o maestro Koellreutter, mestre do Tom Jobim, que ficava me buzinando pra eu estudar o Capra. O maestro Koellreutter criava as suas peças, como Akronon, em cima das teorias do Caos e do Princípio da Incerteza do Niels Bohr e do Werner Heisemberg. Esse pessoal do Capra é o do Niels Bohr, cujos estudos foram patrocinados pelas Cervejarias Carlsberg. Quando ele ganhou o Nobel, botou o símbolo do Tao em cima da medalha. O Capra tirou sua idéia daí. Essa história tem a ver com neoliberalismo. Porque se o substrato da natureza é o caos, dizem esses caras, não podemos alterar nada. Basta-nos meditar. Isso é o substrato do neoliberalismo: a "mão invisível" da teoria do caos é a mesma mão invisível que Adam Smith via no mercado. Esse pessoal new age, do Capra, é no fundo um bando de gente que defende o neoliberalismo. Capra é uma ideologia neoliberal refinada. Por que são os grandes milionários como os Marinho, o príncipe Charles que apóiam os movimentos como Greenpeace ou WWF? Porque essa gente quer ver países de Terceiro Mundo em seu lugar de exportadores de matéria-prima. Só isso. O movimento ecológico tem muito de ideologia neoliberal antidesenvolvimentista, mas apenas para o Terceiro Mundo. Nesse sentido, Capra é um demônio. Mas que jornalista vai querer estudar essas coisas? Como diz o vulgo, são "coisas de louco". Jornalista é basicamente preguiçoso e egocêntrico. Tem medo em geral de ir buscar explicações nas ciências duras. Vai buscar explicação para a comunicação nas teorias da comunicação, todas falhas, superficiais, ultrapassadas. Ou busca explicações no seu ego. E ganha a vida dando adjetivos às situações. Esse é o espírito do comentarista político, por exemplo. Prefiro um repórter de polícia iniciante a um colunista político. O primeiro, em sua humildade, busca fatos, sobre os quais, se erra, é processado. O segundo, busca adjetivos no fundo de copos de uísque. Estudar ciência é um ato de humildade. O adjetivo é a metafísica do verbo. Não serve para jornalismo. E a memória é a fonte do jornalista em fim de carreira.

anotado por Rafael - 09:17 AM

Trabalho, definição

É quando seu pensamento vale por metro (Mozart, mais uma pro azulejo)

anotado por Rafael - 09:07 AM

abril 20, 2004

O preço da carne

[Achei que valia à pena a republicação desse texto aqui por conta da multiplicidade de assuntos-chave para a evolução humana que ele levanta, não se atendo só à questão da carne: o controle dos germes, a influência oriental, a gastronomia, a interdepedência dos países. Em tempo: não sou vegetariano.]

"Se não reduzirmos o consumo de carne, teremos epidemias cada vez piores"
Chineses costumam encarar qualquer coisa que se mova como um alimento à sua disposição. Eles consideram o animal um mecanismo, um objeto, cuja dor e sofrimento não nos dizem respeito. Ironicamente, os piores exemplos de maus tratos acontecem na mesma Ásia onde nasceu o budismo – a mais benevolente e avançada religião do mundo no trato com os animais.

Nos tristemente famosos "mercados de vida selvagem" asiáticos há de tudo. Mamíferos, répteis, insetos, batráquios, tudo vai para gaiolas apertadas e lotadas sem água nem comida. Qualquer foto desses mercados é um permanente festival de sangue, urina e fezes. Há mais do que cheiro ruim no ar: existe medo. E vírus de diferentes espécies novas se combinando uns com os outros.

As imagens mais chocantes registram o que esses mercados destinam aos cães. Os mesmos cães que aqui viram membros da família, ajudam cegos ou orientam equipes de salvamento. Lá, cachorros são comida. E não se deixe enganar: esses mercados chineses não existem para "matar a fome do povo". Chineses pobres comem frango e peixe. Os cães são "iguarias" caras, assim como gatos, escorpiões, cobras, enguias etc.

Eu tive a chance de ver fotos e vídeos desses mercados. Os cozinheiros acreditam que a adrenalina no sangue dos cães amacia a carne. Quanto mais sofrimento, mais apetitoso o prato. Em nome dessa carne macia, a palavra de ordem é torturar os cães até a morte. Eu já vi a foto de um pastor alemão sendo enforcado na viga de uma cozinha, sendo puxado pelos pés. Eu já testemunhei um vira-latas com as patas dianteiras amarradas para trás do corpo e desisti de imaginar o tamanho de sua dor. Assisti ao vídeo de um cão magrinho que foi mergulhado em água fervendo, retirado, teve sua pele inteirinha arrancada e ainda olhava a câmera, tremendo junto à panela onde foi cozido em vida.

A pergunta básica é: nós, humanos, temos direito a isso? Quem nos deu esse direito? Temos o direito de jogar uma lagosta viva na água fervente? Temos o direito de comer um peixe fatiado ainda vivo no seu prato num restaurante japonês? Temos o direito de prender bezerros em lugares escuros, imobilizados por toda sua curta vida, por um vitelo? Nosso paladar é tão importante assim na ordem das coisas? Um sabor diferente em nossas bocas justifica tudo?

A questão ultrapassa a esfera da ética e da civilidade. A Sars nasce no chão imundo dos mercados chineses. A doença da vaca louca – permanente ameaça na nossa pátria do churrasco – surgiu quando obrigamos o gado a se canibalizar. O terrível ebola se espalha com cada homem africano que devora nossos primos biológicos, gorilas e chimpanzés. Vírus mutantes saltam do sangue de aves para o dos homens sem defesas naturais. Segundo a revista inglesa The Economist, nada menos que 60% das doenças humanas surgidas nos últimos 20 anos têm origem em outras espécies animais. Tony McMichael, pesquisador da Universidade Nacional de Austrália, é bastante claro: "Vivemos num mundo de micróbios. Precisamos ser um pouco mais espertos no jeito como manejamos o mundo ao nosso redor."

Mercados chineses e churrascos africanos parecem fenômenos distantes. Mas o brasileiro continua dependendo demais de alimentação animal. Temos uma churrascaria por quarteirão, e numa cidade de 12 milhões de habitantes, como São Paulo, contam-se nos dedos os restaurantes vegetarianos. E ainda temos um lobby querendo ampliar a oferta de animais nas geladeiras: avestruzes, capivaras, jacarés, tudo criado em cativeiro com carimbo do Ibama. A cada nova espécie consumida pelo homem, mais uma mistura de vírus – algumas combinações inofensivas, outras não.

Para tentar controlar essas doenças, cometemos mais brutalidade: enterramos milhões de aves vivas, afogamos gatos selvagens em piscinas de desinfetante. Provocamos o desastre e massacramos as vítimas. Temos um caminho inteligente: racionalizar, humanizar e diminuir cada vez mais o consumo de animais. Ou podemos continuar o banho de sangue. Aí, todos nós pagaremos o preço.

Quando uma borboleta bate as asas na Europa, pode iniciar um furacão no oceano Pacífico. A Sars começou em mercados chineses e chegou ao Canadá. A gripe aviária já se espalhou por diversos países asiáticos e ameaça lugares distantes como o Paquistão e a Itália. Num mundo de vôos diretos, os gritos desesperados de um cachorro chinês podem chegar um dia ao Brasil por meio de alguma nova e tenebrosa sigla.

(Por Dagomir Marquezi, revista Superinteressante, março de 2004)

anotado por Rafael - 09:28 AM

fânzeres

1) Texto meu na capa do Burburinho: Concreto, de Paul Chadwick.

2) No ano em que se comemora o aniversário de 45 anos da revista Senhor, vale ler a memória escrita por Ivan Lessa na ocasião dos 40 anos, para o caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil.

3) Sexta-feira agora estréia no RJ American Splendor, o filme-documentário sobre a vida e os quadrinhos de Harvey Pekar, o sujeito mais mal-humorado da Hq underground. Eu já vi e rascunhei umas palavras sobre a película; é imperdível. Pekar chegou a manter um blog da campanha de lançamento do filme.

4) Eu achava que campanhas de marketing não-ortodoxas de cervejarias estavam extintas, mas me enganei. Para o bem de todos.

anotado por Rafael - 09:16 AM

abril 19, 2004

vice de novo

Eu já sabia.

* * *

Domingo de manhã, comentava com um amigo sobre os transtornos que o fechamento de vias para manifestações urbanas causa. Ontem, a pista principal do Aterro do Flamengo estava fechada por conta de uma competição ciclística, só que num trecho bem maior do que o costumeiro de domingos e feriados. Como os motoristas fariam para chegar na churrascaria que fica depois do obelisco? E na feira náutica que acontecia na Marina da Glória? Concordei sobre os riscos do casuísmo legal para esse tipo de problema e de como era fácil parar o centro da cidade para uma passeata qualquer.

Só mudei de idéia no final da tarde. Acho que existe um tipo de manifestação popular e de legítimo direito de fechar ruas: a comemoração de um título de futebol. Quando se vê um daqueles desesperados trepado na marquise do cinema da esquina sacudindo um bandeirão rubro-negro para 3 quarteirões apinhados de gente, entende que o melhor é desviar o trânsito para outras ruas. Para bem do trânsito.

Se tivesse visto uma comemoração de título da torcida do Flamengo, Hakim Bey revisaria o que escreveu em Zona Autônoma Temporária.

* * *

Dança, dança-a
Dança da bundinha
No Maracanã,
O bacalhau virou sardinha!


Atualização: E ainda dizem que na torcida do Flamengo só tem favelado analfabeto! Quero ver quanto bacalhaus portugas vão entender essa piada erudita do rubro-negro Arnaldo Branco (o cara está ou não está fazendo as melhores piadas do momento?):

in hoc signo VICE

anotado por Rafael - 10:34 AM

abril 18, 2004

ainda bem que eu não tenho cd

livros1.jpg

+

livros2.jpg

+

livros4.jpg

+

livros5.jpg

+

livros7.jpg

=

livros8.jpg

+

livros9.jpg

+

livros10.jpg

+

livros11.jpg

+

livros12.jpg

+

livros13.jpg

+

livros14.jpg

anotado por Rafael - 07:55 PM

abril 16, 2004

satori (à maneira de FDR)

Meu irmão meditava todo dia, mas não conseguia alcançar a iluminação. Um dia, chamou o porteiro, que veio com uma escada mais alta e conseguiu trocar a lâmpada queimada do quarto. Naquele dia, meu irmão teve seu satori.

anotado por Rafael - 01:44 PM

liasions dangereuses

Andie brincando com o setor de livros do Global Network of Dreams, brinquedinho que associa a um determinado escritor, outros escritores de quem o leitor possa gostar. O resultado é apresentado de modo visual, e quão mais próximos dois nomes apareçam, tanto maior será a probabilidade do leitor gostar.

Descobri que o leitor de Paulo Coelho também gosta de Daniel Pellizzari.

Daniel Galera também tem sua lista de associados.

anotado por Rafael - 01:36 PM

abril 15, 2004

aprendendo com os mestres

wally wood 22pannel

Os 22 enquadramentos de Wally Wood que resolvem todos os problemas!
(presentaço do José Carlos Neves)

anotado por Rafael - 12:43 PM

leituras

1) Publicitários as dividem entre "marketing de massa" e "marketing viral". Teóricos da auto-organização usam termos como top-down para a primeira e bottom-up para a segunda. O Marketing Monstro é o Lado A. A Internacional Capitalista é o Lado B. Por isso, não se engane: apesar de opostas e antônimas, são reflexos da mesmíssima coisa, que é a gana em transformar idéias em dinheiro.

Mas, mais do que isso, ambas são reflexo de outra situação, esta sim desesperadora (para o mercado), que é a ausência de uma tendência que guie o resto do mercado. Aquele farol no horizonte, que anuncia quais as tendências são válidas, rentáveis e boas apostas para investidores e especuladores de todas as escalas. Pois é, estamos ficando sem mainstream.

Como de hábito, Alexandre Matias tenta explicar como é o mundo e porque ele veio a ser desse jeito no tocante às campanhas publicitárias -- e acerta de vez em quando.

2) Pronto, não precisa mais ficar com vergonha de comprar a revista do Amaury Júnior nas bancas. Sidney Vida transcreveu as 10 perguntas de Julio Ribeiro para Diogo Mainardi.

3) E é justamente quando tu te sente [...] completamente SUSCETÍVEL a fazer A merda. Não fazer a MERDA. Fazer A merda.

Em 90% das vezes me soa a um retardado mental, mas eu reconheço que ele tem seus momentos.

4) De conversa em conversa: com Monarco, Dona Ivone Lara, Walter Alfaiate -- por enquanto...

anotado por Rafael - 12:13 PM

abril 13, 2004

bilal ataca novamente

Dante Gabriel manda avisar:

immortel_bilal

anotado por Rafael - 10:03 AM

depois não sabem

No mesmo dia em que a manchete é ocupada com cada vez mais mortes em decorrência da guerra do tráfico, o suposto caderno de cultura dá capa para um filme sobre guerrilheiro endeusado a título de revolucionário. Depois os intelectuais não sabem de onde vem tanta violência...

anotado por Rafael - 10:00 AM

univitelinos

Da série: separados no nascimento:
Ronaldinho Gaúcho e Cthulhu

Dizem as más línguas que, em vista do assédio dos fãs espanhóis, o primeiro foi visto frequentando a noite de Barcelona fantasiado de mulher:

ronaldinho gaucho

anotado por Rafael - 09:56 AM

ota e o viagra

Dificilmente lerei algo mais engraçado neste ano do que o patético relato do Ota, confessando que compraria aquele cortador de comprimidos que anunciam em spam porque não precisa (ainda) de um Viagra inteiro e toda vez que ia cortar com faca, os pedacinhos se espatifavam em migalhas e ele acabava tendo prejuízo. Ota ponderava, razoavelmente, que o cortador daria mais certo do que embrulhar o comprimido com fita adesiva antes de cortar, idéia que um amigo lhe dera.

Tem coisas que só o Orkut(*) traz para você. Para todas as outras, existe o Google.

*altamente recomendado para esquizofrênicos.

anotado por Rafael - 09:52 AM

a-li-das

Que mané propaganda nova da Nike o quê. Supimpa é a nova da Adidas, com a filha do Muhammad Ali lutando boxe com o pai, em computação gráfica.
A Propósito, alguém sabe que luta é aquela? Parece a disputa do título no Zaire, Rumble in the Jungle, mas não tenho certeza.

anotado por Rafael - 09:33 AM

abril 08, 2004

bonito mesmo é o fi

beleza = matemática

Muita gente já conhece a pesquisa ou já viu o documentário apresentado por John Cleese e Liz Hurley, eu mesmo já devo ter citado antes, mas acho que vale o repeteco. Afinal, não é em qualquer hora que se conclui que beleza não é uma função de gosto, de cultura, de geografia ou de época; é uma simples questão de MA-TE-MÁ-TI-CA. Fídias é que sabia das coisas.

anotado por Rafael - 11:27 AM

luiz sergio coelho de sampaio

Opa, quase esqueço de registrar aqui o primeiro ano sem Luiz Sergio Coelho de Sampaio, físico e pensador brasileiro dono de uma das mais originais obras deste país em filosofia e física (se as hipóteses assumidas em seu livro sobre física moderna -- ainda não publicado -- forem comprovadas, a descoberta vale o Prêmio Nobel). Muitos de seus textos podem ser lidos na tela através da Editora Eletrônica, ou mesmo dos livros e ensaios que deixou: A Lógica da Diferença, Luxo ou Originalidade, Dialética Trinitária versus Hiperdialética Qüinqüitária. Repito agora a nota fúnebre publicada quando de seu falecimento:

Luiz Sérgio Coelho de Sampaio (* 10/11/1933 -- + 30/03/2003 ) nasceu em Vila Isabel e morreu em Laranjeiras, cidade do Rio de Janeiro. Nesse périplo carioca-brasileiro criou a lógica hiperdialética que se apresenta, para quem já dela tomou conhecimento, como a ferramenta intelectual mais poderosa desde a lógica clássica, formulada por Aristóteles, aplicada na pré-modernidade por São Thomas de Aquino e axiomatizada na modernidade por Leibniz, Whitehead, Russel e outros. A lógica hiperdialética sampaiana dá conta de todas as lógicas anteriores: a identidade, a diferença, a dialética e a clássica, aceitando-as em suas especificidades e coordenando suas potencialidades sob a força agregadora da lógica maior. O desenvolvimento da lógica hiperdialética se encontra nos dois livros publicados pela Editora da UERJ – Lógica Ressuscitada e Lógica da Diferença, bem como em textos avulsos de pouca circulação. A aplicação da hiperdialética se encontra em seu livro mais recente Filosofia da Cultura, pela Editora Agora da Ilha, e em muitos textos inéditos. Entre eles destacam-se um livro sobre Economia, no qual Sampaio propõe que o vetor ciência (e sua aplicação tecnologia) funciona com autonomia em relação aos vetores capital e trabalho, o que revoluciona o modo de se pensar a Economia e a Sociologia, incluindo o liberalismo e o marxismo; e outro sobre Física, cuja audácia maior é propor que a unificação, numa só teoria, da física quântica com a física da relatividade, tão almejada por Einstein, deveria ser procurada em pesquisas que articulassem as forças (que seriam seis e não quatro) e as partículas correspondentes a um esquema lógico qüinqüitário. De qualquer modo, Sampaio achava que a Física jamais seria unificada, pois faltava-lhe o sentido maior da subjetividade que incorpora todo o universo. Essas idéias foram desenvolvidas em um artigo sobre o chamado “princípio antrópico”, que se encontra em seu livro Filosofia da Cultura.

Ultimamente Sampaio vinha trabalhando na formulação de estratégias políticas e culturais que pudessem permitir ao Brasil dar um salto qualitativo que não somente equacionasse seus problemas sociais fundamentais, como o posicionasse na vanguarda da constituição de uma cultura de influência mundial. Nesse sentido, Sampaio se alinhava com utopistas brasileiros como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, ao lado de estrangeiros fascinados pelo Brasil como Stefan Zweig e Vilém Flusser.

Luiz Sérgio Coelho de Sampaio era filósofo por vocação e por dedicação didática. Profissionalmente era engenheiro formado pelo ITA, em 1959, e economista formado pela Faculdade de Ciências Econômicas (UERJ), em 1965. Foi um dos principais organizadores da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, entre 1967 e 1972, de onde saiu para a Embratel, onde desenvolveu o projeto Ciranda, de transmissão de dados em blocos (que antecedeu em alguns anos o sistema que resultou na Internet). Deu palestras em diversas universidades brasileiras, em Portugal, França, Alemanha e Romênia. Deixou mulher, três filhas, quatro netos e muitos amigos. Sua obra haverá de ser reconhecida em breve.


E tem gente que chora a ausência de Ayrton Senna...

anotado por Rafael - 11:19 AM

a noite em que tentaram me fazer passar pelo Ota

Caísse uma dessas armas de destruição em massa no teatro da Casa de Cultura Laura Alvim na noite de terça passada, o estrago no humor brasileiro seria inestimável. No palco, debatendo-se, estavam Andrea Cals, criadora do Banheiro Feminino, Allan Sieber, Mr. Manson do Cocadaboa, Adaílton Persegonha do Leite de Pato e Nelito Fernandes, do Eu Hein?, além do mediador Ricky Goodwin. Na platéia, Arnaldo Branco do Mau Humor, o Vela, meia redação do Cocadaboa e o Kibe Loco. Ia sobrar o Sergio Catarro e mais uns 2.

O tema do debate era humor na internet, mas discutiu-se de tudo: viabilidade comercial dos sites, restrições no humor por causa de ameaças jurídicas, plágio, processos de criação de piadas; Ricky Goodwin andou prometendo a transcrição de trechos no Blog0news, onde enfim será possível saber que a moça do Banheiro Feminino não ficou milionária (mas ganhou muita grana) com internet, que a maneira mais fácil de escapar de um processo é falsear o nome do atingido (como o Agamenon Mendes Pedreira vive fazendo) ou por que o blog do Allan Sieber demorou a ficar pronto no endereço novo. Cocadaboa foi mais rápido e já mandou a dele para o ar.

Mr. Manson contou sucintamente o que se passou, mas não disse o que aconteceu depois, quando público e debatedores esticaram o papo no botequim mais próximo, na noite em que tentaram me fazer passar pelo Ota:

Acontece que tinha gente o suficiente para encher duas mesas, eu estava numa e o Mr. Manson, na outra. Eis que, de repente, umas quatro cabeças da outra mesa começam a me olhar atentamente, com a cara mais curiosa do mundo, e uma delas me pergunta: "Você que é o Ota?" Enquanto eu estava tentando entender por que catzo iriam me perguntar um raio daqueles, vejo o cappo do Cocadaboa sinalizando com um sorriso de orelha a orelha e um par sinais positivos com os polegares... Acabei estragando tudo ao revelar que não era, para completo aborrecimento dele. Em minha defesa, o fato de que encarnar o Ota, definitivamente, não é serviço para qualquer um!

--------------------------------------------

"Eu até gostaria de entender de HTML, de códigos, templates, mas sabe, é que eu sou homem." (Allan Sieber)

anotado por Rafael - 10:57 AM

já começou

Miss Veen junta os ingredientes para uma Nova Literatura Feminina ao forno, engrossando o caldo ao qual foram adicionados este ensaio, meu ensaio Quixotes de Bukowski e cujo aroma foi melhor descrito pelo Daniel Pellizzari, segundo quem, o processo já começou.

anotado por Rafael - 10:35 AM

sobregraauuuurr!

Leão Negro, o felino mais canalha dos quadrinhos brasileiros, é o tema de minha coluna desta semana no SoBReCarGa.

anotado por Rafael - 10:33 AM

abril 07, 2004

newton foot: Joel madrugada e nêga maluca

joel madrugada & nega maluca -- newton foot

Uma das melhores histórias em quadrinhos brasileiras da década de 90, uma evocação quase mágica do carnaval carioca dos anos 30. Publicada originalmente no primeiro e penúltimo número da revista Lúcifer, e agora pode ser lido na tela a partir da Nona Arte.

anotado por Rafael - 11:19 AM

bumbo-caixa-prato

Eu só sinto falta é de um bom chacundum...

anotado por Rafael - 11:12 AM

miscasting

Encontrei no blog de uma working girl britânica essa interessante lista, criticando a má escolha de elenco de atrizes no papel de prostitutas:

Mulheres que atuaram como garotas de programa, mas não deveriam:
Julia 'Sexless' Roberts
Jodie Foster
Jane Fonda
Elisabeth Shue

Escolhas perfeitas:
Laura San Giacomo.
Patricia Arquette
Louise Brooks
Mira Sorvino

Prêmio Especial pela Habilidade de Manipulação de Língua Durante uma cena em Twin Peaks na Qual Ela é Entrevistada para Se Tornar uma Prostituta:
Sherilyn Fenn

Prêmio Ela é ou não é?
Audrey Hepburn

Aceitável como uma rameira robô, mas só assim:
Daryl Hannah

Mais interessante do que o tema em si da má escalação de elenco -- que pode matar um filme per si, ou que pode fazê-lo completamente crível, como foi o caso de The Usual Suspects, melhor escolha de elenco de todos os tempos -- é tentar entender o tipo de critério de escolha; às vezes, uma escolha inesperada pode mostrar resultados curiosos, como a escalação de Steve Martin, sério, naquele filme do David Mamet (no quesito "cômico em papel sério", ninguém barra Bill Murray, que quase ganhou o Oscar por isso) ou a de Luís Fernando Guimarães, Fernanda Torres e Pedro cardoso como guerrilheiros comunistas em O Que É Isso, Companheiro?
Para não deixar obscuros os próprios critérios, a working girl conclui revelando quais são seus filmes preferidos sobre prostitutas:

Le Notti di Cabiria
Belle de Jour
(obviamente)
Frankenhooker

Pode-se lembrar ainda de Taxi Driver, Dois Perdidos Numa Noite Suja (metade da filmografia brasileira é composta de filmes de prostitutas), Casino... Meu preferido? Pote tin Kyriaki.

anotado por Rafael - 11:10 AM

Dá até pena continuar a escrever, o que vai empurrar essa foto lá para baixo...

anotado por Rafael - 10:59 AM

abril 02, 2004

fui!

grasii fotolog

Vocês eu não sei, mas eu 'tou partindo pra Floripa, agora...

anotado por Rafael - 08:21 AM

latidos nos sobrecarga

Dessa vez, o relançamento remasterizado das histórias de Carl Barks pela Abril Jovem é assunto da coluna no SoBReCarGa dessa semana. Quaaaaac!

Quaaaaaaaac!!!

anotado por Rafael - 08:15 AM

leão negro

Alguém aí lembra do Leão Negro? Em 1986 o jornal O Globo abriu vagas para tiras nacionais um concurso. Os vencedores foram Fábrica Faglianostra, Urbano o Aposentado (que continua até hoje!) e o Leão Negro, de Cynthia e Ofeliano -- à época, namorados. Cynthia tinha criado o universo do Leão Negro em seus cadernos de escola e Ofeliano, notável capista e desenhista, levou a idéia para os jornais.

O Leão Negro era uma aventura épica com toques de fantasia, na linha de Conan ou Tolkien, só que totalmente habitada por felinos antropomórficos, como nas histórias de Jano. Embora as cores sempre tenham sido feitas com aquarela pela Cynthia, houve muita experimentação de estilo no traço, Ofeliano variando da mancha à hachura, ao jogo de sombras e luz. Depois eles romperam, e a tira acabou, embora tenha dado tempo de sair uma coleção de histórias num álbum da Meribérica, em Portugal.

Agora descobri que tem várias revistas à venda na página do Leão Negro, e que é possível ter uma prévia dos quadrinhos na Nona Arte.

anotado por Rafael - 08:11 AM

abril 01, 2004

1964-1968-2004

A proximidade de mais um aniversário de 64, desta vez a marca napoleônica dos 30 anos, traz de volta aquele monte de reportagens, depoimentos históricos, lembranças rancorosas-você-não-pode-esquecer. Em uma data como essas, o que costumeiramente vem à minha cabeça é um exercício onde eu tento imaginar como era a vida cotidiana no Rio em 64: quanto tempo se demorava de casa até o trabalho? O que passava na televisão, de noite? Porque sei o quanto essa vida cotidiana embebe e atordoa a percepção média dos fatos históricos -- não há dúvidas de que a maioria dos cidadãos que, de alguma maneira, estiveram envolvidos nos eventos que levaram a 64 (e quem não esteve envolvido?) não tinha uma noção política ou histórica muito precisa do que estava acontecendo e, a bem da verdade, ainda não as tem.

Particularmente, o levantamento que rastreia o que cada um estava fazendo naquele dia específico apresenta resultados reveladores, porque reestabelece a dimensão do comum, ao observar que as pessoas estavam jogando sinuca, papeando num bar, indo ao cinema no dia primeiro de abril, e não encolhidas de medo em casa, debaixo das cobertas, como as retrospectivas históricas fazem crer. Millôr Fernandes conta que o livro 10 em Humor foi lançado no Bar Veloso no dia da promulgação do AI-5. Você fica tentando imaginar a comissão de frente do humorismo brasileiro (Henfil, Fortuna, Jaguar, Sérgio Porto, Leon Eliachar, Ziraldo...) em 68 reunida num transado lugar da moda (o bar onde, anos antes, Vinícius e Tom tiveram a inspiração para escrever a música Garota de Ipanema), conversas divertídíssimas, a bebida correndo, e simplesmente não consegue ver na imagem mental o medo e o horror que tipicamente se atribui aqueles dias.

Pensando bem, a angústia muda e a sensação do pior à espreita, ali na esquina, que devem ter contaminado os humoristas naquele dia fatídico não são muito diferentes do que sentimos em torno da mesa, no lançamento do livro do Alexandre Soares Silva, como tão bem o Pedro Sette observou. Homens de imprensa, cartunistas e escritores, eles temiam que o cerceamento da liberdade de imprensa e a censura pudessem, como de fato ocorreria, prejudicar seu ganha-pão, que dependia da exposição pública. Já a turma reunida em 2004, em sua maioria, neo conservadores e liberais, não suficiente a ironia de estarem no lugar onde um dia fora o Antonio's -- bar e quartel-general da esquerda festiva -- recebeu a notícia do genocídio perpetrado na Espanha, na mesma manhã daquele 11 de março, com a mesma angústia muda, a mesma nota de preocupação na consciência de todos (Alexandre Cruz, Bárbara, Bernardo, Hiro, Lisandro, Bruno, LEM). Que nem por isso deixaram de se encontrar ou festejar o momento, tal e qual em 1968.

Mas havia um pressentimento, há um mau pressentimento no ar.

anotado por Rafael - 08:55 AM

cerebus 300: entrevista

Ainda o último número de Cerebus: The Onion entrevista Dave Sim sobre o fim da epopéia em 300 edições e 26 anos de revista. Ótima chance de ver claros os pontos de vista de Sim. Alguns trechos:

What would your first question to Franz Kafka have been? "Why a cockroach?" (respondendo à pergunta: Why an aardvark?)

My ideal reader is anyone who will buy it. It's a very strange book. [...] It's virtually impossible to sell because it's virtually impossible to describe.

The evidence that I see around me in society indicates that not only is thinking very much out of favor, but I'm not sure that the last couple of generations—Generation X and Generation Next, or whatever you want to call them—even know what a thought is, having been raised to be women. I think this is particularly true among leftists.

I have somehow become generally acknowledged as a "brilliant creator" without ever once having my work itself discussed, as in: "Dave Sim is a brilliant creator, but..." followed by an extensive list of personal invective. Because my work discusses feminism and disapproves of feminism, it is important from the leftist standpoint to destroy Dave Sim as an individual and to ignore his work.

At the age of 23, I actually thought I would be fine into my 50s doing a monthly comic book, but that I would let myself slack off by ending it at the age of 47. It's a young man's game.

It seems to me that toward the end of things, I develop this compulsion to become more thorough. Possibly because I'm aware that it's my last kick at the can. Possibly, as well, because I'm so used to being misunderstood and I'm usually a "minority of one" that I have this compulsion to try to explain myself as thoroughly as possible.

A literary work doesn't have follow-ups or spin-offs. It's ridiculous to think about More Crime, More Punishment or The Sons & Nephews Karamazov.

My best intellectual assessment of the completed work is that I said exactly what I wanted to say, exactly the way I wanted to say it.

anotado por Rafael - 08:51 AM

Duas de cinema

-- Esse teu amigo, eu vou te contar, hein? A gente 'tava escolhendo qual filme ia ver, aí ele falou assim: pô, entre Dogville e Adeus, Lênin vamos ver Adeus, Lênin. Porque Dogville é cidade dos cachorros: não dá, né; já Adeus, Lênin deve ser um filme de guerra...
Juro que ouvi. Textualmente.

* * *

Me contaram por aí que nesse documentário que está passando sobre o Sérgio Buarque de Hollanda, lá pelas tantas o Nelson Pereira dos Santos entrevista todos os membros da família: os filhos, os netos, os genros... Quando chega a hora do Carlinhos Brown (casado com a a filha do Chico Buarque), o músico e filósofo vai e confessa que ficou muito decepcionado quando descobriu que o pai de seu genro não era quem tinha escrito o famoso dicionário.
Eu ainda não vi ainda, mas depois dessa fiquei com vontade. Muita.

anotado por Rafael - 08:48 AM