maio 31, 2004

o jogo das 100 cartas em branco

É muito comum ouvir por aí que, fora dos serviços convencionais à distância e bancos de dados, a internet não serve pra nada, eu não tenho tempo para perder lendo blogues, não vou encontrar nada de bom no Orkut. Equívocos, evidentemente, que mostram o quão despreparadas as pessoas estão para encontrar o que querem -- a rede funciona mais ou menos como aquela frase do Picasso, "eu não procuro, eu acho". Pois à maneira do ceramista-pintor-gravador espanhol, eu também encontrei esses dias um alento. Ou melhor, um jogo sensacional. O jogo das 100 cartas em branco.

Corre a lenda que ele foi inventado por um nativo de Winscosin, e como todo código aberto (e alguns fechados também...), sofreu modificações ao longo de sua vida, até chegar na versão com regras em português que o Nix publicou -- e, até onde sei, a primeira no Brasil desse jogo.

Trata-se essencialmente de um jogo de cartas estilo Mau-Mau (ou Uno), onde cada jogador coloca na mesa uma carta de sua mão, no bolo central ou voltada para algum jogador específico, e o vencedor é aquele que tiver mais pontos ao final da partida (quando todos estiverem de mãos abanando). A grande manha do jogo das 100 cartas em branco é que elas são criadas livremente pelos jogadores ao longo das rodadas, adaptando ou transformando as regras correntes. A melhor descrição que encontrei foi: é como um Calvinball de mesa.

Saber desenhar não é obrigatório, mas ajuda, e o hábito pode acabar desenvolvendo suas habilidades cartunísticas, já que metade da graça está em bolar novas cartas, muitas vezes criadas para anular (ou potencializar) outras cartas do jogo. Alto nível de nerdice e nonsense podem alavancar seriamente a dinâmica de jogo. Uma carta típica aparece embaixo, e outras podem ser vistas aqui e aqui. Sério concorrente a melhor link do ano até agora...

rotor: 100 cartas em branco

anotado por - 03:00 PM

MELTING POT vs. SALAD BOWL

Melting Pot: O processo de derreter e misturar, resultando numa massa uniforme. No caso, pessoas do mundo inteiro se "nova-iorquizando" e se adequando a um dos cinco perfis comuns de Nova Iorque: yuppie de sucesso, artista revelado, intelectual obscuro-reflexivo-depressivo, músico de rap e all-round-new-yorker, ou como eu prefiro dizer, quase-taxista-que-come-bagel-ou-é-de-chinatown.

Tudo bem, é muito simplificador. Mas acho que é assim que a maioria das análises sobre experiências pessoais são. Em Nova Iorque, já vi de brasileiro a coreano, passando por indiano e americanos do meio oeste, se tornando um dos protótipos acima. É meio esquisito, porque até as conversas se tornam prototipadas... Mas quanto a isso, cheguei à conclusão de que a maior parte das pessoas prefere fazer isso, a fazer algo interessante para valer.

Salad Bowl: uma mistura que não se mistura. Cada um na sua, mas uns se colando aos outros através do molho de salada. Mais ou menos como São Francisco. Não que os protótipos não existam. Mas é interessante observar que o processo de adequação não é tão forte, simplesmente pela força dos números. Na Bay Área o poder econômico reside com estrangeiros. Com o tempo, serão americanos de 2a geração, mas até lá... Infelizmente, ou felizmente, lá também boa parte das idéias anda passando por processo de hiperventilação reciclada: a.k.a. ouvir as mesmas coisas de sempre rearranjadas e regurgitadas. Muito esquisito.

Entre o Melting Pot e o Salad Bowl, eu fico com os dois, pois afinal todo prato
principal só é nutritivo acompanhado de uma boa salada. E eu sou vegetariano... Em termos de preferência, prefiro que cada um viva do seu jeito... Ou será que isso é possível? Vindo morar em Nova Iorque, descobri qual é o molde "WASP" de vida, e o anti-"WASP" também. Bizarro não?

[Uma nota in-tei-ra-men-te surrupiada do Cataplum, cuja atualização recentemente passou a ser fimdesemanal. Neoiorcófilos estão convidados a comentar...]

anotado por - 02:35 PM

don rosa em sampa

Keno Don Rosa, um dos grandes criadores do Pato Donald, está no evento O mundo dos quadrinhos, a partir de hoje, no Senac, em São Paulo.

anotado por - 02:28 PM

maio 28, 2004

esse é o cara

norm mailer, 1960

Norman Mailer em 1959, na contra-capa de Advertisements for Myself, na flor de seus 36 anos. Ainda não tinha esfaqueado a mulher, ainda não tinha que escrever livros para pagar a pensão das ex-esposas, ainda não tinha sido preso em Chicago. Mas já era o maverick que daria depoimentos em corte a favor dos livros de William Burroughs e Allen Ginsberg, já tinha feito The White Negro e The Naked and the Dead, já tinha fundado o Village Voice.

Só para a gente ver que isso de escritor tirando foto com ar blasé e jeito de incompreendido no verso do livro já tem mais de 40 de história. E ainda escrevia pra cacete (o que não se pode dizer etc.)

anotado por - 11:49 AM

DEZ FRASES E UMA NARRAÇÃO

[1] Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde Cristo nasceu.
(Claudiomiro, ex-meia-direita do Internacional, ao chegar em Belém do Pará, para disputar um jogo contra o Paysandu, em 1972)

[2] Nem que eu tivesse dois pulmões, alcançaria essa bola"
(Bradock, amigo de Romário, reclamando de um passe longo)

[3] Eu não tenho sistema nervoso.
(Badidiu, zagueiro do ABC de Natal, quando perguntado por um repórter de campo, num dia de decisão de campeonato, como estava o seu sistema nervoso)

[4] Quando o jogo está a mil, minha naftalina sobe.
(Jardel, ex-atacante do Grêmio)

[5] Clássico é clássico, e vice-versa.
(Jardel, citado anteriormente)

[6] O gol é o orgasmo do futebol.
(Sabedoria popular, nos estádios brasileiros)

[7] A maior defesa da minha vida foi uma atrasada de Urai, beque do meu time.
(Harry Carey, goleiro do Treze de Campina Grande)

[8] Na Bahia todo mundo é muito simpático, é um povo muito hospitalar.
(Zanata, baiano, ex-lateral do Vasco)

[9] Jogador tem que ser completo como um pato, que é um bicho aquático e gramático"
(Vicente Matheus, ex-presidente do Corínthians)

[10] Haja o que hajar, o Corínthians vai ser campeão.
(Vicente Matheus, citado anteriormente)

[11] Quarenta minutos do segundo tempo, continua 0 a 0 no placar... o ABC já chutou três bolas na trave, não pára de invadir a área adversária, mas a bola não entra, meu Deus, assim não é possível, o goleiro fideumaégua agarra tudo, quando não é ele, é a danada da trave... haja sofrimento para o torcedor abecedista! Atenção para o contra-ataque do Atlético... o ponta-direita livrou-se de Biró, driblou Toré, vai chutar, chutou... pronto, deu-se a merda: gol.
(Locutor esportivo, narrando um jogo entre o ABC e o Atlético de Natal, nos anos 50)

DEZ FRASES E UMA NARRAÇÃO RADIOFÔNICA, coletadas pelo professor Moacy Cirne em seu inigualável Balaio Vermelho (a minha preferida é a segunda). Isso é que eu chamo de uma nota na cara do gol!

anotado por - 11:18 AM

maio 26, 2004

placa

Faz-se:
Rasta
Dread
Trança
Tererê

(Era quase um poema a placa disposta à entrada de uma casa que eu vi, onde mais poderia ter sido?, em Arraial d'Ajuda, na Bahia).

anotado por - 09:21 AM

2 concursos e 1 resultado

Convocando todos os escritores e cartunistas de plantão! Têm dois concursos supimpas na área.

A Paralelos.org coloca à disposição 3 exemplares do livro Amestrando Orgasmos, de Ruy Castro, para as 3 melhores crônicas bem humoradas que tenham como pano de fundo sexo. Para concorrer, envie sua crônica para promo@paralelos.org até 28/05.

O Ministério da Saúde e o IMAG-Instituto do Memorial das Artes Gráficas do Brasil, convidam para participar do 1º Festival Internacional De Humor De Prevenção da Aids e Doenças Sexualmente Transmissíveis, com várias categorias e premiações. Mais informações na página do Festival Internacional De Humor De Prevenção da Aids e DST. Os trabalhos devem ser entregues até 01 de julho de 2004. Alô alô, Arnaldo! Alô, alô, Allan! Vão encarar essa onda o humor engajado?

Já o José Carlos Neves manda avisar: saiu o resultado do concurso Alan Moore: 50 anos, organizado por ele, na categoria quadrinhos. Uma Hq em cinco páginas especulando o que aconteceu com Rorschach após os eventos narrados em Watchmen.

anotado por - 09:18 AM

maio 25, 2004

para o nobel

Ferdinando Buscapé

Capa de uma edição de bolso que o Lisandro me emprestou e eu vou ter que mostrar caráter para devolver. Na década de 50 acontecia isso de uma coletânea de tiras de quadrinhos ser lida e apresentada por um escritor de prestígio, John Steinbeck, laureado com o prêmio Nobel de literatura. O que a capa só não diz é que o prefácio também foi escrito por um cara conhecido: Charles Chaplin. Steinbeck disse, entre outros babados, o seguinte, direto da contra-capa:

lil abner: steinbeck

anotado por - 12:41 PM

factotum

I remeber my New Orleans days, living on two five-cent candy bars for weeks at a time in order to have leisure to write. But starvation, unfortunately, didn't improve art. It only hindered it. A man's soul was rooted in his stomach. A man could write much better after eating a porterhouse steak and drinking a pint of whiskey than he could ever write after eating a candy bar. The myth of starving artist was a hoax.

No trecho acima, a principal revelação de Bukowski no que deve ser seu melhor livro, Factotum. Por ela, percebe-se o quanto escapou a seus seguidores literários a compreensão do que ele escrevia (se bem que hoje, o problema é outro: os seguidores já não caem no hoax, querem ser bem tratados -- o que não querem é escrever). Para que não digam que estou inventando: página 63, vigésima-segunda edição, Black Sparrow Press, 1975. No trecho abaixo, comecei a descobrir onde o Lisandro forjou seu muito particular senso de humor:

"O.K., now, I need four good dishwashers! I have four pennies here in my hand. I'm going to toss them up. The four men who bring me back a penny get to wash dishes today!".
I tossed the pennies high into the air above the crowd. Bodies jumped and fell, clothing ripped, there were curses, one man screamed, there were several fistfights. Then the lucky four came forward, one at a time, breathing heavily, each with a penny. I gave them their work cards and waved them toward the employee's cafeteria where they would first be fed.

anotado por - 12:32 PM

maio 24, 2004

um, dois

1) Ao invés de quadrinhos, cinema: no SoBReCarGa de sexta-feira passada, minha coluna faz o jogo dos 7 erros entre Tróia, o filme, e o mito clássico. Escrevi apenas o suficiente para encher o espaço da coluna, mas dá para ir muito além se quiser ser preciosista. Assunto para um jantar inteiro de papo.

2) O tempo ruim no final de semana atrapalhou um pouco as fotos das estátuas da cidade; por ora, contentemo-nos com essa reportagem sobre a concepção e a produção da estátua do corneteiro, feita pelo chargista Ique e recém-instalada em Ipanema.

anotado por - 02:22 PM

maio 21, 2004

CARTA ABERTA A WALTER SALLES

Caro Walter,

Você não sabe, mas desde pequeno eu tenho o hábito de correr os olhos pelas capas de revistas penduradas nas bancas de Copacabana. Qual Caetano Veloso, me encho de preguiça com o sol repartido em crimes, espaçonaves e guerrilhas -- tanta, que nem dá vontade de ver o que há entre as capas de cada manchete. De quando em quando, me motivo a comprar, ler e, quem sabe, guardar uma matéria que se promete mais relevante (e cumpre). Foi assim quando vi a chamada para sua entrevista na capa duma revista: "A classe social de onde venho é asfixiante".

Não questionarei aqui a fidelidade com que o repórter transcreveu seus dizeres; parto do princípio que foram fiéis -- e imagino até uma certa gravidade no tom com que foram ditos: "minha classe me asfixia". Asfixiar, fui consultar o Aurélio, era exatamente o que eu imaginava. Entendi sua imagem. Mas acho que não foste feliz em tua colocação.

Asfixiante, Walter, não é passar parte da infância em Paris, tendo acesso aos maiores obras da nouvelle vague no cinema. É sonhar e nunca ter ido a chance de visitar Paris. Asfixia não é ter chegado aos 48 anos tendo plenas chances de exercer seu dom e desenvolver seus talentos, falando aos seus e ao mundo, sendo premiado e reconhecido por isso, como eu testemunhei ao ouvir uma chinesa de Hong Kong elogiando Central do Brasil. Asfixia é viver de salário mínimo, é dividir cômodos da casa com outros irmãos -- isso quando não se precisa dormir na sala, pela total falta de espaço naquilo que mais por bondade do que propriedade, convenciona-se chamar de lar. Asfixiante não é receber
incentivos do governo e de entidades privadas para desenvolver seu ofício, é ter a energia e a vontade para querer produzir e se ver encalacrado entre a tibieza de um mercado frouxo de um lado, e uma coleção de impostos e taxas, de outro. Asfixiante não é lucrar com a ciranda de juros que só beneficia o andar de cima, é sofrer para limpar o seu nome, mês a mês, no SPC, porque não se consegue pagar o empréstimo de dois anos atrás.

Espero que você se pense nisso na próxima entrevista. Ou no próximo filme.

Do seu espectador,
Rafael Lima

anotado por - 05:06 PM

maio 20, 2004

isso é neurose

Não existe regra, mas geralmente gosto das pessoas que têm uma busca. Serenas e inquietas. Não gosto de quem diz "estou sempre insatisfeita, preciso melhorar sempre” Isso é neurose, é coisa de quem assumiu um conceito de fora pra dentro. Alguém falou que a pessoa precisa estar sempre buscando, estudando, e ela acreditou. Mas quem garante que isso seja verdade? Só é óbvia verdade pra quem não acredita em iluminação.

Não é o tipo de inquietação que traz tiques nervosos. É a inquietação que mantém seus sentidos alertas para um sinal que indique objeto ou pessoa correspondente a sua busca. Olhos tranquilos, mas grandes ideais e esperanças.

[Petrarca, não aquele, esse, grande dica do Dante]

anotado por - 01:27 PM

helena e outras musas

Delicada Helena, não serei mais teu Páris
Por ti Menelau e eu pelejamos em vão
Como a política micênica respira novos ares
Fechamos ambos um governo de coalizão!

Ó Beatriz, de ser teu Dante vou abdicar
Deste círculo varonil eu pleiteio o exílio
Depois de – com meu guia – aos inferninhos baixar
Vem-se-me a epifania: meu negócio é o Virgílio!

Dourada Isolda, ser teu Tristão me dá sono
Casa-te com o rei Marc – a sina te calha
Gerarás em teu ventre herdeiros do trono
Gerarei fortunas, como pirata na Cornualha!

Ó Heloísa, abri mão de ser teu Abelardo
Após meu cajado ver da navalha o fio
E a compor loas à paixão (desditoso fardo!)
Lucro mais compondo-as a Fulbert, vosso tio!

Julieta, a ser Romeu já não me submeto
Por ti meu fulgor não mais se espraia
Fatigado de fugir de tudo que é Capuleto
Ao canto da cotovia, parti com tua aia!

Ser teu consorte não me convém, ó Marília
Esquece para sempre teu dedicado Dirceu
O último escândalo na corte (Brasília)
Está levando ao degredo um homônimo meu!

[Sensacional poema do Nelson da Praia, de quem preciso me lembrar de roubar mais notas.]

anotado por - 01:25 PM

maio 18, 2004

sandra e as remoções

Nos anos 60 do século passado existiu, durante certo período, uma declarada e sistemática política de remoção de favelas da cidade do Rio de Janeiro. Pioneira e símbolo dessa política, a professora de português Sandra Cavalcanti, udenista, católica e partidária do regime militar, ocupou o cargo de secretária de Serviços Sociais do governo Carlos Lacerda, quando ocorreram as principais e maiores remoções. A derrota eleitoral para Leonel Brizola, na famosa eleição de 1982 (aquela em que Brizola reverteu os resultados das pesquisas) minou definitivamente sua carreira política, implantando uma filosofia completamente diferente em lidar com o crescimento urbano desordenado. Nesta entrevista a Marcos Sá Correa, Sandra não se furta em opinar sobre o atual estado das coisas, mostrando como certos detalhes podem ter uma repercussão inesperada (e não me venham falar em efeito borboleta, por favor).

anotado por - 12:07 PM

bob lee

Ilustração com ares oitentistas: Bob Lee. Atenção sobretudo à sua coleção de orelhas.

anotado por - 12:05 PM

maio 17, 2004

pra água

cbpds / cmas

anotado por - 12:17 PM

se minha memória não falha

O que rolou no lançamento do livro do Mr.Manson? Vamulá.

Primeiro, que foi na Casa da Matriz, um casarão nem tão antigo em Botafogo convertido em local de festas; aquele tipo de lugar onde você ouve os outros dizerem que um amigo foi lá "botar música". Era na Rua da Matriz, não é mais, mas o nome ficou. Costumo ser desligado para essas coisas, então achei que a carrocinha de churros estacionada na porta era só um ambulante a mais arrumando vaga para seu escritório e quase não faço a ligação: o nome da editora também era churros! Aquela carrocinha era, na verdade, um verdadeiro truque de marketing! Aliás, a depender de trocadilhos alimentícios, o lançamento não deixou ninguém com fome: além dos churros na porta, tinha uma bandeija de cocada marrom na mesma mesa dos exemplares.

Cheguei bem tarde e fui logo reconhecido pelo Fred (o ser mais ubíquo da internet) e pelo Ivan; no segundo andar, esbarrei primeiro com o Arnaldo e, depois, várias carinhas conhecidas: Allan Sieber, Cecília, Kamile e Matias, aidentidade secreta de um certo super-herói brasileiro. Aliás, deixa eu interromper para citar uma frase lapidar do Allan, um exemplo de comportamento para todos: "Subitamente desconfio de minha heterossexualidade ao descobrir que posso lidar com essas coisas de templates e assemelhados." Voltando. Depois de tomar alguma coragem, resolvi pegar a dedicatória do Mr. Manson.

Notava-se pelo tom da voz que ele já se encontrava adrede respeitosamente caneado; sobrava pouco da garrafa de Teacher's que eu vira no bar. Notei que ele tinha terminado de fazer uma dedicatória, enfiei meu livro embaixo e disse para ele aproveitar o embalo. Mr. Manson:
-- E aí, o que vai ser? Obrigado, mongol, por ter comprado? Qual é seu nome?
Respondi em tom de voz tranquilo:
-- Mongol é você, que não viu meu nome escrito aqui nesse papelzinho. Meio envergonhado, ele respondeu:
-- Então tá - e foi lendo, à medida que escrevia, aos garranchos:
-- Obrigado por... - parou, me olhou e viu que eu estava de braços cruzados - cruzar os braços! É isso aí! Você estava de braços cruzados!

Nem discuti. Depois ele me apresentou ao Odisseu Kapyn e ao MEM, e me arrastou para comer um churros do lado de fora. Dessa escapei, porque tinham acabado. Uísque não ofereceu, o safado. Ele lembrava da minha cara, mas não lembrava que tinha tentado me fazer passar pelo Ota. Depois do que li em outras dedicatórias, até fiquei contente com a que ganhei.

Algum tempo depois, chegam o Hiro e a Bárbara, com quem eu mal falei. Mr. Manson grita naquele tom para todo mundo ouvir: "Hiro! Vem cá que eu quero te dar um beijo!" O resto eu não ouvi porque estava mesmo de saída.

anotado por - 12:13 PM

so long, patos e fotos

Enio baixa a cortina de metal e passa a dar expediente só no Blogar. Saudade, desde já, do pato.

anotado por - 12:04 PM

maio 14, 2004

sobre75carga

A classe de 1929 é tema da minha coluna desta semana no SoBReCaRga: Tintin, Tarzan, Mickey e Popeye.
Já este artigo mostra como a falta de memória vem sendo tema recorrente nos filmes recentemente.
(A Bruxelas de Tintin também foi tema deste caderno de turismo).

anotado por - 11:47 AM

A Guerra de Tróia

Não se sabe exatamente onde ocorreu o combate que ficou conhecido como a guerra de Tróia ou o real motivo que a originou; mesmo que de vez em quando pinte um documentário no Discovery Channel falando sobre a descoberta de uma civilização ali pelo Mediterrâneo, ainda hoje a localização da cidade é desconhecida. Quanto ao motivo, pode-se especular hoje sobre o domínio de alguma riqueza natural que garantisse domínio econômico a quem a detivesse (não, o petróleo ainda não tinha sido inventado). Na falta de informação, e levando-se em conta o caráter fabular e mitológico com que costuma-se revestir narrativas épicas, fiquemos com a versão de Homero, que não foi testemunha ocular porque era cegao, mas sabia de tudo o que estava se passando. Para não ir assitir o blockbuster que estréia hoje com cara de tacho.

De acordo com a narrativa clássica, sucedeu que, durante o casamento de Tétis e Peleu, as deusas -- literalmente, por favor; não estou me referindo a nenhuma Daniela Cicarelli da época -- Juno (esposa de Zeus), Vênus (deusa da beleza) e Atenas (deusa da sabedoria) entraram num concurso de beleza por conta da deusa Discórdia, que soltou num canto um pomo dourado com a inscrição "à mais bela". Não eram muito brilhantes, aquelas deusas, nem mesmo Atenas, ou não teriam topado encarar a própria deusa da beleza, Vênus, numa disputa. Mas assim que foi.

Zeus, que não era bobo nem nada, tirou o corpo fora da arbitragem (até porque Juno era sua esposa...) e mandou as deusas ao monte Ida, onde o pastor Páris faria a escolha. Páris era, na verdade, filho de Príamo, o rei de Tróia, e fora criado anonimamente por causa de antigas previsões que lhe atribuíam a ruína do estado. Decididas a ganhar o concurso, cada deusa ofereceu a Páris um suborno correlato à sua posição: Juno, poder e riqueza; Atenas, glória e fama na guerra; Vênus, a mulher mais bela do mundo. Não é preciso ser muito brilhante para adivinhar que Páris deu o pomo a Vênus. A escolha de Páris é o tema de uma pintura de David.

Só um probleminha: a tal mulher de 500 talheres já tinha dono: era Helena, esposa do rei Menelau, da Grécia. Nada para atrapalhar Páris, que sob proteção de Vênus, viajou para a Grécia, foi hospitaleiramente recebido por Menelau e passou a mão na mulher dele, fugindo com ela de noite. Páris teve seu prêmio; o que não imaginava era que, como qualquer mulher bonita, Helena tinha despertado interesse em muitos candidatos a noivo e, antes de se casar, por sugestão de Ulisses, grande estrategista grego e um dos quais pretendentes, todos juraram defendê-la e vingá-la, se necessário.

A ocasião tinha chegado, e Menelau convocou os chefes da Grécia para cumprirem seu juramento. Ulisses, justo quem tinha dado a idéia, foi o primeiro a escorregar -- não queria estragar a boa vida de casado que estava levando, e fingiu-se de doido pondo-se a semear sal com um carro de boi quando Palâmedes, o mensageiro de Menelau, chegou à sua residência na ilha de Ítaca. Palâmedes, para testá-lo, colocou o pequeno Telêmaco, filho de Ulisses, no caminho dos bois, e quando o pai desviou o arreio, mostrando que não tinha enlouquecido, mostrou que sua loucura era um engodo e foi convocado para o conselho.

Aquiles foi o segundo a ser convocado, também com alguma dificuldade. Sua mãe, a ninfa Tétis (em cujo casamento a discórdia se deu), sabia que o filho estava destinado a perecer em Tróia -- os gregos davam muito valor a esse negócio de destino -- e enviou-o até a corte do Rei Licomedes, onde ficou disfarçado de donzela entra as filhas do rei. Ulisses, que não queria entrar na roubada sozinho, disfarçou-se de mercador e malocou armas entre os ornamentos femininos que ofereceu às moças, fazendo Aquiles se denunciar. Já imaginaram que belezinha será o Brad Pitt de donzela, interpretando essa cena (se tiverem incluído no roteiro)?

Completaram o estado-maior grego: Agamenon, rei de Mecenas e irmão de Menelau, escolhido comandante-em-chefe; Ajax, gigante e estúpido guerreiro; Diomedes, que secundava apenas Aquiles nas qualidades de herói e Nestor, decano líder e conselheiro. Pelo lado troiano, formavam a comissão de frente o velho rei Príamo; Heitor, seu braço direito; Enéas (a quem Virgílio dedicou
a Eneida), Déifobos, Glauco e Sarpédon.

generais gregos

A primeira baixa na armada grega se deu ainda no porto da Beócia, onde a frota fora reunida: Agamenon matara um cervo consagrado a Diana, e esta deusa, em troca, levou a peste ao acampamento e a calmaria ao mar, impedindo os navios de deixarem o porto. A intervenção de Diana foi a primeira das muitas enfiadas de dedo no pudim que os deuses deram nessa guerra, expondo claramente suas personalidades venais & volúveis; tal tipo de interferência serviu, muitos séculos depois, de modelo para Camões em "Os Lusíadas". Quanto à briga de torcidas, estavam divididos mais ou menos assim: Juno e Atenas, como derrotadas no concurso, ficaram hostis aos troianos. Vênus os ajudava pelo motivo oposto, e ainda trouxe a reboque o babão do Ares, que tinha uma queda por ela. Netuno favorecia abertamente os gregos e Apolo era neutro, oscilando entre os dois lados. Zeus, ainda que adorasse o rei Príamo, tentava ser imparcial.

Diante dos exércitos empesteados, Agamenon decidiu cumprir as visões de um adivinho que revelou que a ira da deusa só seria aplacada com o sacrífico de uma virgem em altar -- e, ainda que relutante, levou sua filha Ifigênia para a faca. Quando o melado ia correr, Diana ergueu-a numa nuvem e levou-a dali, fazendo dela sacerdotiza de seu templo em Táuris.

A peste foi embora e a calmaria cessou, permitindo que os navio aportassem em Tróia e mandassem chumbo (mais precisamente, cobre) nos troianos. A guerra foi feia, se estendendo por anos a fio, com alguma vantagem para os troianos, quando ocorreu um acidente quase fatal aos gregos: o desentendimento entre Aquiles e Agamenon. É exatamente nesse ponto que "A Ilíada", poema épico de Homero, começa. Os gregos tinham conseguido tomar algumas cidades vizinhas, e na partilha do botim, uma cativa de nome Criséis, filha de uma sacerdotiza de Apolo, coube à Agamenon. Apolo ouviu as preces desesperadas da mãe de Criséis e mandou uma praga para o exército grego, o que motivou a reunião de um conselho para deliberar um meio de sossegar os deuses. Aquiles, que estava de olho em Criséis, aproveitou para soltar os cachorros em cima de Agamenon, a quem atribuiu a culpa pelo infortúnio. Furioso, Agamenou consentiu em liberar sua cativa, mas exigiu que Aquiles cedesse Brise, cativa que coubera a Aquiles na partilha do espólio. Aquiles submeteu-se, mas declarou que não tomaria mais parte na guerra, tirando seu time de campo e declarando abertamente sua intenção de retornar para casa.

Evidentemente, isso enfraqueceu os gregos, abrindo espaços valiosos para o avanço do exército troiano, que conseguiu empurrá-los de volta ao mar, onde a esquadra ficara sediada. Nestor sentiu a barra pesando e mandou um estafeta até Aquiles para persuadi-lo a voltar à luta. Aquiles mostrou-se surdo aos seus apelos. Ingres tem uma pintura famosa que mostra os generais gregos tentando fazer a cabeça de Aquiles neste momento difícil.

Netuno, vendo os gregos em maus lençóis, deu-lhes uma injeção de ânimo aparecendo e insuflando individualmente o ardor de cada guerreiro. Ajax, dos mais ativos em campo, entrou em combate frontal contra Heitor, arremessando suas lanças um em direção ao outro. A de Heitor atingiu o local onde os cinturões que suportavam a espada e o escudo de Ajax se cruzavam no peito, servindo de proteção perfeita, e o arremesso foi em vão. Melhor sorte teve Ajax, que pôs Heitor a nocaute com uma pedrada no pescoço. Heitor só não foi liquidado ali mesmo graças à intervenção de Zeus, que mandou Netuno parar de se meter na batalha e Apolo recolher o corpo e cuidar de sua recuperação.

Coube a Pátroclo tentar mais uma vez persuadir Aquiles a voltar ao terreno, levando-lhe as tristes notícias de que Diomedes, Ulisses, Agamenon e Macaon estavam feridos e o inimigo, prestes a incendiar os navios, eliminando qualquer meio de voltarem à Grécia. Aquiles sensibilizou-se a ponto de ceder seus Mirmidões (os soldados de sua guarda pessoal. Pronto, agora você já sabe de onde Grant Morrison tirou o nome daquele grupo de inimigos dos Invisíveis) e emprestar sua armadura, tal que Pátroclo pudesse inspirar terror nos troianos (não, não foi o Batman o primeiro a ter essa idéia). Ao verem Pátroclo envergando a armadura radiante, montado no carro de Aquiles, os troianos afinaram e deram no pé.

Nesta batalha, Sarpédon, filho de Zeus, teve a ventura de opor-se a Pátroclo, que lhe acertando a lança e perfurou-lhe o peito, iniciando a disputa pelo corpo do troiano. A mando de Zeus, Apolo resgatou o corpo de Sarpédon do meio dos combatentes e entregou-o aos cuidados dos irmãos Sonho e Morte -- aqueles mesmo que Neil Gaiman recauchutou como Sandman e Death. Em seguida, Pátroclo encarou Heitor, a quem errou ao tentar atingir com um arremesso: a pedra acertou Cebrione, o cocheiro, jogando-o para fora do carro. Heitor foi em seu resgate e Pátroclo seguiu-o, enfrentando-o frente a frente. Mas a lei de Murphy fez com que um troiano desconhecido golpeasse Pátroclo por trás, desequilibrando-o. Heitor aproveitou a vantagem para perfurá-lo mortalmente com sua lança. E ainda apossou-se da armadura dourada de Aquiles.

Quando Aquiles soube do destino de seu amigo, quase destruiu Antilóquio, que tinha ido levar a mensagem. Suas lamúrias chegaram ao ouvido de Tétis, que providenciou junto a Vulcano, o ferreiro dos deuses, outra armadura para Aquiles (Velasquez tem uma belíssima pintura mostrando essa cena). Trata-se de uma das grandes contradições da Ilíada: se Aquiles era realmente invulnerável, porque esperar pela armadura? Se não era, porque foi peciso atingí-lo precisamente no calcanhar? Cumpre lembrar que Homero nada menciona sobre o corpo fechado de Aquiles em seu poema.

Dotado novamente de uma armadura, Aquiles conclamou todos os chefes, renunciou seu desgosto para com Agamenon e amargamente lamentou as infelicidades que resultaram daquilo, conclamando-os de volta à batalha, inspirado com uma raiva e uma sede de vingança que o faziam irresistível frente ao exército inimigo. Acuou os troianos, que fugiram em direção aos muros de sua cidade, buscando refúgio.

Apenas Heitor permaneceu de fora, determinado a aguardar a conclusão do combate, a despeito das súplicas de seu pai. Heitor foi incansavelmente perseguido por Aquiles ao redor dos muros da cidade, que se defendia atrás do escudo, até, escolhendo uma parte do corpo não protegida pela armadura, conseguir atingí-lo numa parte do pescoço, ferindo-o mortalmente. Ignorando as súplicas do moribundo Heitor, Aquiles prendeu seu corpo ao carro e arrastou-o ao redor dos muros da cidade de Tróia pra lá e pra cá, às vistas de todo o povo, causando grande aflição ao rei Príamo. Consta que esse hábito de arrastar os inimigos de carro era muito utilizado por Saddam Hussein em seu período de ditadura no Iraque, e por narcotraficantes cariocas mais chegados a uma vendeta.

Após a vingança, houve uma trégua na guerra para que se cumprissem o ritos funerais de Pátroclo: ergueu-se um altar e o cadáver queimou solenemente; seguiram-se disputas de força e habilidade, corridas de carruagem, lutas marciais e tiro ao alvo -- se alguém tem alguma dúvida de onde surgiram os jogos olímpicos e que eles, no fundo e ainda hoje, são uma encenação catártica da guerra, agora não precisa ter mais. Recomendo a leitura de um ensaio de Sérgio Augusto que versa exatamente sobre isso, publicado à época da Olimpíada de 2000 em Sidney.

A derradeira homenagem fúnebre prestada por Aquiles foi atar o corpo de Heitor ao seu carro e arrastá-lo ao redor da tumba de Pátroclo duas vezes, abandonado-o na poeira. Aquiles, definitivamente, não era dado a sutilezas. Entretanto, Apolo preservou o corpo de se desfigurar. Apolo foi assim como uma espécie de macário da partida Tróia x Grécia. Finalmente, a mando de Zeus, Príamo foi reclamar o corpo a Aquiles, beijando as mãos daquele terrível guerreiro responsável pela morte de tantos de seus súditos. Aquiles cedeu e estabeleceram uma trégua de 12 dias para as solenidades funerais de Heitor. Neste ponto termina a "Ilíada"; sabe-se o destino remanescente dos heróis através da "Odisséia" e poemas posteriores.

A morte de Heitor sinalizou o início da queda de Tróia, que ainda resistiu um tempo recebendo ajuda de aliados diversos, inclusive guerreiras amazonas. Antes disso, porém, a Grécia perderia seu maior herói.

Aquiles se apaixonara por Polixena, filha do Rei Príamo, provavelmente durante a trégua do funeral de Heitor. Usando sua influência entre os gregos, tentou garantir um acordo de paz a Tróia para que pudesse selar sua união. Durante uma negociação de seu casamento num templo de Apolo, foi atingido no calcanhar por uma flecha envenenada de Páris -- quando bebê, fora mergulhado no rio Styx por sua mãe, o que tornara-o invulnerável -- exceto pelo calcanhar, onde ela o segurara ao submergi-lo.

Não sendo suficiente a força bruta para dar cabo dos troianos, o sagaz Ulisses apelou para um estrategema. O exército grego fingiria estar se preparando para abandonar o cerco, e parte dos navios seria escondida atrás de uma ilha próxima. Seria construído, então, um imenso cavalo oco de madeira, ofertado a Atenas, mas na verdade estaria cheio de homens armados. Estrategema este que hoje é nome de um nocivo vírus de computador, o chamado Trojan Horse.

cavalo de tróia

O cavalo gigante foi deixado às portas da cidade de Tróia, causando espécie aos habitantes. Enquanto se mostravam indecisos em relação ao que fazer, Lacoonte, sacerdote de Netuno, tomou-lhes a frente fazendo um discurso contra as artimanhas dos gregos, concluindo com a famosa frase: Timeo Danaos et dona ferentes (temo os gregos, mesmo quando eles oferecem presentes). Falando isso, ele arremessou sua lança contra o cavalo, que atingiu a lateral com um som oco. Antes que os troianos agissem, no entanto, apareceu um grupo de pessoas arrastando o que poderia ser um prisioneiro grego. Ele contou-os que o cavalo seria uma oferenda a Atenas, e que houvera sido profetizado que se os troianos tomassem posse do cavalo, seguramente derrotariam os gregos, revertendo a opinião geral contrária.

Subitamente, um prodígio ocorreu não deixando margem para dúvida: duas imensas serpentes, surgindo no mar, espantaram o povo e avançaram diretamente sobre Lacoonte e seus dois filhos, envolvendo-os e matando-os por asfixia. Esse acontecimento, retratado em um notável grupo escultural atualmente presente no Vaticano, foi visto como uma clara indicação da má vontade dos deuses para com o tratamento que Lacoonte dispensara ao cavalo, prontamente tido como objeto sagrado e introduzido na cidade. Quando a noite chegou, os guerreiros gregos saíram de dentro do cavalo e, guiados pelo traidor Sínon, abriram os portões da cidade para que resto do exército, entocado, invadisse Tróia. A destruição veio a ferro e fogo, pondo fim à guerra. Menelau recuperou, efim, sua esposa Helena.

(Narrativa adaptada da versão de Thomas Bulfinch da Guerra de Tróia para O Livro de Ouro da Mitologia Grega, cuja leitura recomendo vivamente.)

anotado por - 11:22 AM

maio 13, 2004

piauienses, tremei!

É hoje, cambada! É hoje a esperadíssima estréia literária de Mr. Manson, o meliante do Cocadaboa, no relato extraordinário de sua peregrinação proctológica! Vejam que doçura de filipeta ele bolou para divulgação:

Lançamento de Transpiauí: uma peregrinação proctológica, de Mr.Manson

Como pode-se ver, vai rolar lançamento em São Paulo também e, ao que parece, onde houver livraria descolada a fim de receber o autor. Mais informações na página da editora Churros (a do Vela). A capa ficou uma obra de arte:

ISSO é que é nova literatura carioca, o resto é boticário!

anotado por - 10:37 AM

lena frias

E como se isso tudo não fosse pouco, ainda descubro que a jornalista Lena Frias morreu! Vastíssimas extensões de $#*%&, como dizia Tom-B...

Em bilhete de despedida da labuta diária, Lena escreveu:
Meu compromisso é com tudo aquilo que revela e exprime as matrizes da nossa identidade, da nossa verdade e da nossa integridade de brasileiros. Por isso, escrevo com tanta paixão sobre o cantador Azulão da Feira de São Cristóvão, sobre Patativa de Assaré, Ariano Suassuna e Antônio Nóbrega. Sobre Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. Sobre superstições e lendas do nosso fabulário. Sobre cordel e grial, batucadas e batuques, músicas e sons. Sobre as raízes pré-ibéricas do boi amazônico, os mistérios caboclos dos caruanas (...) ou qualquer outra expressão ou manifestação desse amplo espectro que me explica e nos explica.

anotado por - 10:16 AM

repercussão

— Se eu não tomasse essa medida, qualquer outro jornalista de qualquer outro país poderia fazer o mesmo, sem preocupação com punições — afirmou o presidente, segundo relato dos líderes. (O Globo de hoje)

Tá pegando pro seu bordo, presidente. Ruy Goiaba:

"Cancelar o visto de um correspondente estrangeiro é inédito neste país em períodos (pelo menos formalmente) democráticos: a última vez que isso aconteceu foi em 1970 -repito: 1970, governo Médici, ápice da ditadura militar-, com a expulsão de François Pelou, então chefe da France Presse no Rio de Janeiro.
[...]
Veja-se o que Fernando Gabeira -que saiu do PT, mas é obviamente insuspeito, até por estar proibido de entrar nos EUA há anos- diz desse episódio: "É a primeira vez, em um momento democrático do país, que expulsamos um jornalista. A reportagem é lamentável, mas a reação é muito mais lamentável".
[...]
É óbvio que autores de reportagens mentirosas devem ser punidos; há meios para isso. Mas a atitude do governo mostra a face lisa de uma ditadura -da incapacidade de conviver com uma liberdade de expressão que não seja licença para adular quem esteja no poder."

Alexandre Cruz Almeida:
"Não há verdadeira liberdade de imprensa quando um governo pune um jornalista por criticá-lo. O jornalista pode ser brasileiro ou estrangeiro. O jornalista pode estar certo ou errado. A punição pode ser cair na malha fina ou ir pro paredón. O princípio é o mesmo.

Processar Larry Rohter sim. Tirar até suas calças, se for o caso, ok.

Cassar seu visto, jamais.

Tiranos e maus chefes-de-estado em geral gostam de confundir suas pessoas com seus países. Lula é atacado em uma matéria leviana no jornal, vá lá, e o atacado foi o Brasil. Temos que defender a honra do Brasil. Nada disso.

Lula e seu governo que defendam sua honra. A honra do Brasil não teve nada a ver com isso.

Nosso presidente ser vítima de uma reportagem leviana não mancha a honra do Brasil.

Se tivesse mais senso de humor, [Lula] teria levado a reportagem na brincadeira e convidado o jornalista para um churrasco na Granja Torto - onde Lula só beberia laranjada. O assunto teria sido esvaziado.

Agora, já falam em 'crise'. Crise criada, gestada e aumentada pela inépcia do governo.

Dá saudade do Sarney, do Itamar, do Collor, do FHC, todos incansavelmente, às vezes perversamente, muitas vezes justamente, perseguidos pela imprensa, zoados e caçoados de tudo quanto foi jeito, mas que jamais chegaram perto de fazer o que o governo Lula fez hoje.

Agora, quem está com medo sou eu."

Cláudio Humberto:
"A coluna sugere um novo slogan para Lula: governe com moderação."

Mas o melhor foi a chamada da principal matéria de hoje n'O Globo: Não desceu bem.

Shame on you, Mr. Da Silva...

anotado por - 10:09 AM

maio 11, 2004

rio 900 graus

Quando você abre o jornal e nota que a melhor notícia da semana foi o 900 graus do Mineirinho, com direito a queda na Bovespa de 5,5% e matéria sobre as cachaçadas do presidente no NY Times, é porque o bicho está pegando.

Melhor reler o Bullfinch, ou quem estiver à mão, esquentando os motores para a estréia de Tróia, que pode salvar a sexta-feira...

anotado por - 02:27 PM

deu no ny times

O mais apavorante na tal matéria do NY Times sobre os hábitos etílicos do presidente é a defesa, após enumerar vários deslizes verbais e de comportamento no mandato e durante a campanha, encampada feita por "membros da equipe e apoiadores" do governo, segundo os quais os escorregões de Mr. da Silva (também conhecido na blogosfera como Efelentíffimo) "são apenas ocasionais, devem ser esperados de um homem que gosta de falar o que lhe dá na telha e não têm nada a ver com seu [dele] consumo de álcool."

Se tivessem, ao menos já saberíamos como contornar o problema. Em tempo: Dubya Bush também teve problemas com álcool antes de engrenar na carreira política, mas sossegou depois de uma conversão religiosa.

anotado por - 01:48 PM

maio 07, 2004

pro fundo

anotado por - 12:02 PM

estátuas do rio - um intervalo

Não, a série não acabou -- só foi interrompida enquanto eu não tiro outras fotos. Nesse interregno, o prefeito César Maia aproveitou para acrescentar mais um à coleção: o corneteiro Luís Lopes, outra figura baiana a ocupar as quadras de Ipanema. D'O Globo:

No aniversário de 110 anos do bairro, foi inaugurada uma estátua em plena Visconde de Pirajá, esquina com a Garcia D'Ávilla, criada pelo cartunista Ique. A estátua é do corneteiro Luís Lopes, herói da Batalha de Pirajá na luta pela
Independência, em 1822. Que aconteceu... na Bahia. Isso mesmo. A estátua tem chamado a atenção de quem passa.

O porquê da homenagem: os insurretos iam mal na batalha e Lopes recebeu a ordem de tocar para recuar. Ao invés disso, mandou a tropa avançar. E eles venceram, dando a vitória a... Visconde de Pirajá. Mais tarde, o visconde se tornou nome de rua [a principal artéria do bairro]. Muitos outros baianos também foram homenageados, como próprio Garcia D'ávilla. E, só agora, o corneteiro é lembrado.

anotado por - 12:00 PM

dicas na cara do gol

- Se você não quer ter vertigem, ao menos refugie-se na trincheira.

- Contracultura é coisa que se faz do próprio bolso.

- O Balaio Incomum, de Moacy Cyrne, em versão digital: o Balaio Vermelho. Desde 86, Cyrne podia ser visto distribuindo panfletos (uma folha de papel ofício xerocada nos dois lados) no campus da UFF e em livrarias; numa dessas é que eu conheci o Balaio. Cyrne é autor de metade da literatura acadêmica brasileira sobre quadrinhos.

- O Brasil não é o país do futuro, nunca foi o país do futuro, não pode querer ser o país do futuro. O Brasil é um país vulgar e cômico-fantástico, e ponto. Sempre que tentam melhorar, estraga. (Mozart, de novo)

anotado por - 11:55 AM

maio 06, 2004

galinho

Nas redações de jornal em que trabalhei, sempre que dona Matilde aparecia na TV alguém dizia: "Olha lá a Nossa Senhora, mãe de Deus."
--Roger Garcia

(Para quem não sabe, Dona Matilde é a mãe do Zico.)

* * *

Arthur Antunes Coimbra, em depoimento aos seus 50 anos, fala sobre as restrições de espaço na casa de Quintino: mais novo numa escadinha de 6 irmãos, dormia na sala, numa improvisada cama dobrável, e a bola fazia as vezes de travesseiro. Não era uma metáfora banal; o futuro craque literalmente dormia com a bola.

* * *

O melhor foi descobrir -- com um sobrenome daqueles, eu deveria ter desconfiado -- que Zico era descendente direto de portugueses. Ouvi, vascaínos: há salvação!

* * *

Português é sabão e vascaíno, eu sou lusitano.
--Seu Antunes (pai do Zico)

anotado por - 11:29 AM

maio 05, 2004

bigorna

Marcelo Träsel, do Martelada, esteve de novo flanando na Europa e teve a pachorra de fazer uma lista "do melhor que a civilização oferece". Comento a parte que me toca:

· A Itália tem a melhor culinária.

Traduzindo: em qualquer lugar do mundo tu vais arrumar uma pizza ou uma pasta decente pra te forrar o estômago na hora do arrêgo. De acordo.

· Berlim é a melhor capital e melhor cidade do continente - quiçá do mundo.

Duvido que barre Paris.

· Bruges, na Bélgica, é a cidade-medieval-conservada-e-bonitinha que mais vale a pena conhecer.

Faltou dizer que também é a cidade-medieval-restaurada-com-mais-cara-de-disneylândia-do-mundo. Para um cara que critica Paris por ter se convertido num lugar turístico, Träsel meio que arria as calças para aquele primor de descaracterização.

· O museu Van Gogh, em Amsterdã, e o Rodin, em Paris, estão empatados como as melhores mostras de arte.

Falou e disse.

· A melhor igreja gótica é a de Albi, no sul da França.

Covardia. A Catedral de Santa Cecília é inigualável por causa do impacto entre a nudez dos tijolos do exterior e a riqueza da decoração no interior, especialmente o painel do altar.

· A melhor noite é em qualquer pub na Irlanda. Os irlandeses também são o povo mais simpático e amigável. Na real, parecem um bando de brasileiros branquelas e mais bêbados.

E digo mais: o pub irlandês não precisa ficar na Irlanda. O último irlandês que eu conheci com menos de uma semana de Brasil já puxava conversa com um "e aí, cara?"

· Os prédios mais arquitetonicamente interessantes são os de Gaudí, em Barcelona.

Outra covardia. Corolário: Barcelona é a cidade arquitetônicamente mais interessante, porque tem mais prédios de Gaudí.

· Os ortodoxos gregos são os religiosos mais sérios e autênticos.

Por isso mesmo são chamados de ortodoxos...

· Bruxelas é provavelmente o único lugar do mundo onde um fã de quadrinhos se sente à vontade. Eles pintam cenas de quadrinhos nas fachadas de prédios.

Atesto e dou fé, mas não é só por isso. É a capital do único país do mundo que tem entre seus símbolos um personagem de Hq: Tintin.
Mas eles -- os fãs -- também costumam se sentir à vontade em NY, pela impressão de que, a qualquer hora, verão o Homem-Aranha pulando entre os prédios.

· Mercados públicos, por sinal, são os melhores lugares para uma refeição, em qualquer cidade.

E por isso mesmo merecem ser visitados.

anotado por - 01:06 PM

micros

Depois do Lisandro ter começado, agora é a vez do Polzonoff apelar para o sistema de micropagamento para literatura.

anotado por - 01:02 PM

toca pra cataguazes!

"Certa vez, [Rubem] Braga reúne alguns amigos em sua cobertura para uma visita nostálgica a Cachoeiro do Itapemirim. Lá se apresentam, não muito entusiasmados, mas pontuais, Joel Silveira, Millôr Fernandes, Ylen Kerr. O grupo pega a estrada. Exaustos, assim que chegam a seu destino se instalam em um hotel para a primeira noite. Não estão exatamente felizes. Inquietos, Millôr e Ylen têm, ambos, uma insônia brutal. Na madrugada, aproveitando-se do sono profundo do grande Urso, fazem as malas e retornam na moita ao Rio de Janeiro. No dia seguinte, Braga, sem fazer um só comentário, prossegue sua viagem com Joel. De volta ao Rio e ao convívio dos amigos ingratos, não toca no assunto, que muito o magoou, quando dias depois os reencontra. Sabe fazer do silêncio a sua couraça. O tempo escorre. Mais de um ano depois, o céu espesso da cobertura como testemunha, Millôr, ainda culpado, volta ao assunto. "Bobagem", o cronista diz. "Não foi nada." Mas foi sim."

[verbete 'Cachoeiro' do livro Na Cobertura de Rubem Braga, José Castelo, 1996]

* * *

Dez coisas que realmente valem a pena na vida, segundo Rubem Braga:
1- certas comidas da infância: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana, por exemplo
2- sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha
3- receber uma bolada imprevista no meio da rua e responder com um chute perfeito
4- ler, pela primeira vez, um bom poema;
5- ou uma bela prosa
6- o momento em que um grande amor vira uma grande amizade, e aquele em que uma grande amizade vira um grande amor
7- desapaixonar-se por uma mulher que apenas lhe causa aflição
8- viajar
9- voltar
10- para um europeu, voltar para Paris; para um brasileiro, voltar para o Rio de Janeiro.

Tenha a fineza de se retirar deste blog aquele que não concordar plenamente com a lista acima.

anotado por - 12:52 PM

maio 03, 2004

merveilleuse

les triplets de belleville

Humor. Encatamento. Delicadeza. Supresa. Mo-vi-men-to.

E tem gente que gosta de Kill Bill.

anotado por - 01:53 PM

perfil de araca

Para quem ainda não viu, Hermínio Bello de Carvalho lançou um rápido perfil de Aracy de Almeida, intérprete símbolo de Noel Rosa e amiga do autor desde sempre, com uma caricatura do Loredano tão boa na capa que a cantora até ficou bonita. Viva fosse, Aracy estaria completando 90 -- assim como Dorival Caymmi. Um dos capítulos do livro pode ser lido aqui. Aracy é aquele tipo de mito cuja imagem as circunstâncias e o próprio tempo se encarregaram de embaçar e deformar, prato cheio para arqueólogo biografar. Na foto abaixo, caindo no samba após condecoração no extinto ZumZum.

aracy e bello caem no samba no zumzum

Faixa bônus (entrevista com Caymmi):
O que o senhor acha da música brasileira de hoje?
A música popular é tirada do povo e dada de volta ao povo, de uma forma de que ele goste, com a qual tenha prazer. Hoje o prazer não tem o lado poético, é mais de visual, do aceno, do pulo, da dança, da atividade física. Não é da cabeça para a garganta. É a gesticulação, é a imagem no ar, vendo em casa tranqüilo a televisão. E a reforma feita na música é de mau gosto. A música atual não atinge o sentimento como sempre foi. Hoje é levantar da mesa e dar um pulo. Ficaria feio antigamente, hoje não. Então, a música de hoje não tem expressão para mim.

anotado por - 01:31 PM