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julho 30, 2004Guia para se tornar Underground[O texto que se segue foi escrito quando eu tinha uns 19 anos, para se ver que não é de hoje que essa minha personalidade amável e cordial. Até hoje, só tinha sido publicada num fanzine e foi uma das melhores aceitações entre tudo o que escrevi. Revisei e fiz modificações mínimas, tentando manter o estilo original, se é que existia um. Vai dedicado ao Arnaldo, ao Allan e ao Leonardo, que estão para lançar uma revista juntos.] Guia Prático para se tornar Underground em 5 lições Se você anda cansado do que faz em quadrinhos, se acha que seu traço anda muito parecido com o do Jim Lee ou do John Byrne ultimamente, se o seu som anda mais pra Skank do que pra Sex Pistols, se outro dia você se olhou no espelho e viu o Luciano Huck, se quer acabar definitivamente com tudo isso que tá aí, preste atenção neste texto: ele tem tudo para que você mude e desenvolva um novo e criativo estilo. É só seguir os 5 passos abaixo. 1) Faça as coisas só no branco e preto. Se você vinha desenvolvendo um belo trabalho experimental com cores, mal aí, esqueça tudo e passe para o mais simples possível: nanquim e papel. Aprenda a dominá-los, nem que seja na marra. Eles são a base de qualquer cobra do ramo. Pra dificultar (ou facilitar) um pouco as coisas, deixe de lado também acessórios como o aerógrafo, guache branco, retículas e régua; computador e fotoxope, então, nem pensar. Chega de frescura. 2) Fale mal do sistema. Pixe o muro. Ninguém é underground sem meter o pau no sistema. Ataque policiais, critique empresários desumanos, destrua os porcos capitalistas que te oprimem e te excluem. Aliás, fale mal dos socialistas também, pra deixá-los confusos. Só tome muito cuidado para não virar maldito. Solte o verbo. Não precisa ter pruridos ou escrúpulos: vale tudo para baixar o sarrafo e declarar guerra aos imperialistas, ao serviço militar obrigatório, ao seu patrão (que, via de regra, é um pentelho) e aos anões torcedores do Botafogo. Vomite a bílis. Lembre-se: ninguém faz HQ underground sendo bonzinho. 3) Fale, sempre que puder, em sexo, drogas e rock'n'roll. Não necessariamente nessa ordem, nem em iguais quantidades dos três. Rock'n'roll deve que ser a trilha sonora favorita de algum personagem que sempre usa jaqueta de couro e camisa branca. A mesma música pode ficar tocando sempre em algum radinho de pilha, ou auto falante, ao fundo. Se quiser, pode tirar uma de expert e citar diversas músicas, de preferência das que ninguém nunca ouviu falar (vai ficar cult). Drogas, podem ser de qualquer tipo: desenhe seus personagens em altas viagens, com fundos psicodélicos em páginas inteiras, cheias de detalhes, ou cometendo transgressões, despirocando de vez. O leitor adora. E sobre sexo, aproveite pra pôr no papel tudo que você não consegue fazer na vida real. Lembre-se de que, ali, vale tudo. Até um tabu, de vez em quando, cai bem. Preste bem atenção a esses três pilares do underground: são teu passaporte para um novo e criativo estilo. 4) Faça referências a outros ícones underground da HQ e cinema. Uma foto no fundo de uma sala, um livro casualmente largado sobre uma mesa ou um personagem manjado no meio da multidão vão dar o toque que faltava. É o segredo para virar "cult". E a sensação causada por um boneco pilotando uma moto harley-davidson, ouvindo Jimi Hendrix no seu head-phone ou lendo "On the Road"? Genial, acabou de descobrir a galinha dos ovos de ouro. Cite um Allen Ginsberg, jogue um dos Freak Brothers em cenas de multidão, imite descaradamente o Crumb. Mesmo que teu roteiro não chegue a lugar nenhum, uma pilha desses elementos espalhados pelos quatro cantos da página vai provocar uma reação bem diferente no leitor. No mínimo, os críticos vão gostar!. 5) E, sobretudo, o mais importante de todos: não ganhe dinheiro de forma alguma com seus gibis!!! Evite isto de todas as formas, só tomando parte em publicações marginais, alternativas, amadoras e primitivas, como fanzines, totalmente auto-editadas. E só distribua para os lugares certos, como livrarias de cinemas-cabeça, lojas de quadrinhos bem escondidas no fundo de galerias, sebos de LPs ou, no máximo, uma ou outra livraria mais confiável. Underground que se preza é marginal, não vai ficar deixando a revista em qualquer banca para pleibói aí ler. Este último item é sobremaneira importante, porque também serve para auto-avaliação: se você está fazendo alguma grana, pare, respire fundo e faça uma avaliação pessoal: alguma coisa muito errada aconteceu... anotado por - 09:36 AM
julho 29, 2004cada vez maisNuvem preta total por aqui: duas mortes recentes de pessoas quase próximas em decorrência de assalto. Luís Felipe Lopes Caldeira tentou defender uma velhinha de assalto em Icaraí (Niterói) e foi baleado por um dos assaltantes; nos jornais, apareceu como vítima da própria solidariedade, quase um símbolo em tempos de individualismo agressivo. Fernando Villela, o FerVil, foi baleado em tentativa de assalto ao voltar para casa. Foi descrito por amigos (Bernardo, Bárbara, Anna e Jampa fizeram suas notas) como um sujeito criativo, incansável, sonhador; confessou em seu blog que planejava fazer um curso de mergulho. Não há como evitar, numa situação dessas, a péssima sensação de insegurança -- pior: de incompreensão -- que toma conta de você quando a violência avança cada vez mais perto. anotado por - 09:24 AM
literatura para celularesNa sua coluna atual na BBC, Ivan Lessa menciona o livro dos Wunderblogs, para o qual escreveu o prefácio. O tema da coluna é o impacto que os blogs da internet podem ter nos velhos diários e nos romances epistolares. Falo nisso não para trazer mais uma vez o assunto Wunderblogs à tona, mas para mostrar que mesmo um jornalista como ele, quase entrado na provecta idade dos 70 anos, conseguiu perceber como os novos meios digitais podem interferir na maneira de se escrever -- mudança que tem feito muita gente por aí espernear em nome de uma suposta superioridade do livro como meio de transmissão de idéias. As metáforas mecanicistas da era industrial não têm servido para explicar a expansão e o impacto social da internet (que pede modelos orgânicos ou fractais, para darem conta de sua complexidade), ao desfazer sistemas e descontruir hierarquias. Daí para o sujeito subestimar a importância do crescimento, no Japão, da literatura produzida exclusivamente para leitura em celulares é um pulo. O fato de que o público-alvo parece distante da literatura em seus suportes tradicionais, como indicou a pesquisa do Lisandro, talvez não signifique o início de um lento processo de desaparecimento do livro, mas uma transição, conflituosa como qualquer transição, onde se procura uma adaptação às novas formas, quaisquer que sejam. anotado por - 09:19 AM
julho 28, 2004JOSEILA LOPES DE VIVEIROS (1910* 2004+)Um mês do falecimento de minha avó, a cujo enterro não compareci por motivos alheios à minha vontade. Nascera há 93 anos, num daqueles sobrados revestido de azulejos portugueses. Seu nome, de que muito se orgulhava, era formado pelas primeiras sílabas dos nomes de seu pai, José, e de sua mãe, Zeíla. Deixou a família e a província com pouco tempo de casada, acompanhando o marido transferido, e instalou-se no Rio de Janeiro onde rapidamente adaptou-se. Foi casada por mais de 60 anos, numa união de rara Quem achará uma mulher forte? Seu preço excede a tudo o que vem de remontadas distâncias, e dos últimos confins da terra. anotado por - 03:15 PM
Só uma coisinha![]() Alguém aí me empresta The Overreachers? Não, não acreditem no que eu digo: confiram por si próprios estes dois textos presentes na edição nacional de Fama e Anonimato: On the Bridge e Peter O'Toole on the Old Sod. Faixa extra: entrevista recente com Gay Talese. Destaques... In the process of writing a long piece, how do you approach it? Outlines? Diagrams? [Eu acrescentaria que esse processo visual de concatenar idéias em muito se assemelha a um processo mental de organizar informações, que tem sido emulado nas mais recentes aplicações de PDAs, laptops e computação ubíqua, com o intuito de tornar as interfaces gráficas cada vez mais intuitivas] What is the most difficult part of the whole process? Is it finding a subject and doing the research? anotado por - 09:57 AM
hell's angels de hunter thompson![]() Finalmente a Conrad cumpre uma promessa e lança no Brasil Hell's Angels, de Hunter S. Thompson, sua primeira reportagem longa convertida em livro, no embrião do estilo gonzo. A primeira, para ser educado e não dizer que foi uma das únicas reportagens longas -- é notória a fama de Thompson em não encerrar suas reportagens e estourar prazos, ainda mais quando tratava-se de costurar artigos ao longo de um período num só texto coeso. Quando ele se dava ao trabalho, podia sair Campaign Trail '72, tido na época como um dos livros mais importantes sobre a disputa presidencial norte-americana daquele ano. Mas raramente ele se dava ao trabalho. No caso de Hell's Angels, deu, e a partir de uma reportagem rápida para uma revista, surgiu o convite para que ele estendesse o assunto em um livro, o assunto sendo a emergência pública da gangue de motoqueiros chamada Hell's Angels nas estradas da Califórnia. Como Thompson era jovem e ambicioso, fez um pouquinho mais do que investigar dados, envolvendo-se com os membros e juntando-se a eles em convescotes, finais-de-semana, acampamentos com intimidade suficiente para traçar um detalhado perfil social, psicológico e cultural do Angel típico, num impressionante trabalho antropológico. Foi ele quem gravou em fita o encontro do líder dos Angels, "Sonny" Barger, com Ken Kesey, recriado por Tom Wolfe no livro The Eletric Kool-Aid Acid Test, ao receber a fita de Thompson. Apesar do livro ter sido construído sem a coesão que um Gay Talese emprestava aos perfis de Joe DiMaggio e Floyd Patterson que fazia para a Esquire na mesma época, se equipara à radiografia dos esquisitos tipos de Tom Wolfe fazia em The Pump-House Gang -- 1965 foi definitivamente um ano bom para o new journalism. Hunter mudara-se para San Francisco e morava na Haigh-Ashbury, pertinho de um dos bares onde os Angels se reuniam -- seu quartel-general oficial ficava do outro lado da baía, na cidade portuária de Oakland. Além do contato próximo, Hunter gastou pestana coletando dados da associação de motociclistas e dos jornais para desmontar a idéia comum de que os Hell's Angels eram a horda de bárbaros modernos que então inspirava inúmeros filmes B e pelo menos um famoso, O Selvagem, com Marlon Brando. Particularente antológicas no livro são as descrições da "sensação de liberdade" nas enormes viagens em comboio pelas autovias, a análise das causas do crescimento do número de motoqueiros na Califórnia e a descrição do clima pesado de bebedeira e violência que rolavam nos encontros (um deles é descrito por Freewhelin' Frank, secretário (?) dos Hell's Angels, no livro Negócio Seguinte, de Luís Carlos Maciel). Thompson procura embasar filosoficamente o surgimento dos Hell's Angels com citações notórias, na abertura de cada capítulo. Sem dúvida uma leitura empolgante; eu li há exato um ano atrás, após encontrar uma versão de bolso aqui. O final da reportagem é emblemático: incomodados com o aumento das aparições na mídia e a notoriedade do repórter, Thompson é violentamente espancado por quatro Angels, o que lhe custa alguns meses de hospital e o faz concluir o texto com com a famosas palavras de Joseph Conrad ao final de O Coração das Trevas, chamando-os de brutos. O que não deixa de ser paradoxal, após um livro inteiro dedicado a descontruir o rótulo de bárbaros que se costumava pregar nos motoqueiros... O horror que Hunter tomara pela gangue pode ser atestado pela resposta enviada a um leitor que escrevera-o manifestando desejo de se juntar à gangue, presente no comecinho de The Pride Highway. Hunter diz que achava-o inteligente o suficiente para se unir àquele bando de selvagens... Agora acabou a desculpa de que era difícil encontrar Hunter Thompson em português. Vamos ver se a gente entende o que era esse raio de jornalismo gonzo, enfim. anotado por - 09:46 AM
julho 26, 2004ecos do fimdeEncontrei o Hermano no ônibus, frio de 15 graus: eu de camisa de flanela por baixo da jaqueta; ele, de camiseta e bermuda, parecendo que ia dar uma volta na Lagoa. Contou-me que sentiu saudade com se a um cachorro da família quando soube que seu carro tinha finalmente saído do conserto. Ainda sente uma pontada de saudade quando vê fotos das reuniões da sua turma, mas está se aclimatando bem à cidade.
Em meados da década de 90, as chances de você ir ao cinema casualmente e assistir um produto da máquina de salsichas hollywoodiana era alta; você sabia que, futuramente, iria se constranger ao ouvir alguém confessando que Forest Gump ou Titanic era um de seus filmes prediletos. Ainda assim, tinha uns diretores que eram garantia de surpresa boa: Quentin Tarantino, Kevin Smith, Pedro Almodóvar. Narrativas interessantes, personagens inesperados, diálogos espertos. Claro, vida inteligente ainda era criada no cativeiro dos grandes estúdios, e havia opções entre os tais independentes; Robert Altman ou os irmãos Coen davam certa garantia de qualidade, mas já tinham se convertido em grife e eram conhecidos há no mínimo uma década. Menos de dez anos se passaram, o suficiente para cooptar toda a inovação: Almodóvar ficou cada vez mais clássico e ganhou um Oscar, Tarantino levou 7 anos para filmar de novo, e quando veio, veio com um entulho de referências para nerd ver, e Kevin Smith, então, arriou as calças para o tipo mais imbecil de comédia adolescente. Nenhum dos 3 era mais confiável no que tinham de melhor: a capacidade de surpreender, de destruir a inércia do espectador. Ir ao cinema voltaria a ser um exercício de repetição. Se não existisse Charlie Kaufman. Kaufman me chamou a atenção porque era cartunista, além do crédito de roteirista em Quero Ser John Malkovitch, o que em parte explicava seu tipo de humor meio incomum, onde o absurdo penetrava por brechas da realidade. Hoje em dia, Charlie Kaufman é o único roteirista cuja presença significa imprevisibilidade (apesar de também escrever para nerd, só que isso é assunto para outra nota). Mesmo quando faz picaretagem, como em Adaptação, é aula de picaretagem -- Não por acaso adaptou a autobiografia de Chuck Barris para as telas, picareta-mor. E agora, confirma as expectativas de criar os roteiros mais complicados de se colocar na tela com Eternal Sunshine of a Spotless Mind, provando que não depende de Spike Jonze -- com quem, aliás, tem um projeto engatilhado. E você ainda se diverte com a cara de espanto dos que foram ao cinema ver Jim Carrey. E ainda tem Kate Winslet, adorável como não aparecia desde, quando?, Razão e Sensibilidade. E o ainda tem um blog sobre o cara!
Depois de ver os argentinos chorarem, teve canja de Paulinho do Bip-Bip. Não levou as clássicos Condomínio nem Horário de Verão, mas em compensação, além da indispensável Tá rindo do quê?, e de Na linha do trem ("Perdi na linha do trem a minha cabeça decepada / Foi ali que percebi que aquela cabeça / não valia nada"), mandou um samba que eu não conhecia, acho que se chama Quosque Tamden?, que começa assim: Revertere ad locum tuum, gritava ela da porta do botequim E tem gente que acha Red Hot Chilli Peppers bom...
Fabio Danesi Rossi, não suficiente as tiradas língua no rosto (do Dicionário Trabalho de Sopro de Tradução Rápida), ainda traz para a rede amigos de verve afiada: Tiezzi e Ana Paul. Isso é que é prestação de serviço. anotado por - 11:47 AM
julho 23, 2004Escolher o que se vêNa vida é bom ser um pouco exigente. Evita desperdício de tempo com atitudes, pensamentos e momentos que não acrescentam, não subtraem e só servem mesmo para nos desligar de quem somos. Sinto isso claramente quando estou dentro de um museu. Escolher o que se vê é mais importante do que ver tudo. Escolher como se vive, é mais importante do que viver de acordo com regras e conveniências. Ver o quadro é mais importante que ler o título, e talvez descobrir onde está a assinatura do autor, é mais esclarecedor dos detalhes da obra do que ler a descrição da mesma. ~Ram anotado por - 10:07 AM
Dicas1) Lá no SoBReCarGa, minha resenha de Avenida Dropsie, A Vizinhança, graphic novel de Will Eisner que a Devir lançou recentemente em português. O meu exemplar é uma edição original da Kitchen Sink, autografada. Faixa extra: raro desenho de Eisner numa publicidade para a RCA Victor: ![]() 2) Faz 35 anos que a CIA disseminou sua mais convincente, extensa e duradoura mentira. 3) Fotos da viagem de 1968 de Robert Pirsig que originou o livro Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas. Dica do Nando. 4) Melhor que qualquer relato, esse ensaio fotográfico da Mariana Newlands sobre Parati. 5) Bomba! Descoberto: Radamanto é a identidade secreta do Motumbo! anotado por - 08:49 AM
julho 21, 2004Nem todo mundo nasce para Harvey KurtzmanNemo Nox avisa que detiveram Bobby Fischer num aeroporto japonês. Fischer estava foragido e seu paradeiro era desconhecido desde a condenação da justiça norte-americana por ter reprisado, em 1992, a final do campeonato mundial de xadrez de 1972, numa ilha da Iugoslávia -- país com o qual os cidadãos norte-americanos estavam proibidos de fazer negócios desde a guerra com a Bósnia. A prisão de Fischer é só mais um elemento triste na cadeia de ocorrências que cercou sua vida, e as vidas radicais que reuni no panteão dos picaretas. Comprova o alto risco corrido por cada um em decorrência de seus comportamentos: perseguição, cassações, restrições, cadeia. O de Fischer levou-o a um mandato de prisão aos 60 anos, do outro lado mundo. Quando se compara isso com a alegada trangressão de uma Luana Piovani, ou de qualquer uma dessas atrizes (e modelos etc.) que se dizem herdeiras e continuadoras em comportamento de Leila Diniz, e se constata que elas nunca sofreram nenhuma sanção do tipo pelo qual um Ali, um Fischer ou a própria Leila Diniz passaram, é que se vê o quão inofensivos seu ousado comportamento e suas atrevidas declarações são. Pelo contrário: geralmente o que ocorre é que, logo depois de um indiciamento por apologia e incitação ao tráfico e uso de drogas [sic] vira pizza, a exposição na mídia acaba sendo convertida em marketing pessoal, sem prejuízo para a, como é que se diz?, imagem pública -- e revertendo em proveito próprio. Exatamente o contrário do que aconteceria em se tratando de uma transgressão de fato. Nem todo mundo nasce para Harvey Kurtzman nessa vida... anotado por - 03:08 PM
julho 20, 2004autocríticaEmbora a idéia principal (bem percebida pelo Magiozal) do texto sobre Aracy de Almeida fosse mostrar que ela teve uma existência muito mais complexa do que a imagem da jurada de calouros mal-humorada pudesse supor, acabei deixando de fora, em nome da coesão biográfica, episódios de rachar o bico de sua vida, que foi farta deles. Alguns deles podem ser lidos aqui. Já na resenha de Aninha Bonita e Gostosa, não ficou tão claro quanto deveria que o talento crítico de Harvey Kurtzman sobreviveu à prova de fogo dos anos 60, quando Kennedy foi eleito e as tendências políticas liberais tornaram-se predominantes, ao contrário dos anos 50 de Eisenhower, época de caça às bruxas, para dizer o mínimo. Enquanto gente como Norman Mailer ou Jules Feiffer deitou e rolou nesta passagem de oposição para situação, tornando-se as "vozes contrárias oficiais", ao fornecerem estofo intelectual às reivindicações da contra-cultura, Kurtzman permaneceu irredutível na linha "todo mundo está mentindo, inclusive eu" ao fazer de alvo os hippies, Timothy Leary, o Living Theater e a revolução sexual, tanto quanto fizera antes com o Superman, os beatniks, Truman e quem quer que levantasse demais a cabeça. A essência de um humorista, pois. Faltou também mostrar algumas páginas completas, e pelo menos um exemplo de como Kurtzman passava os roteiros já esboçados para os desenhistas. Na primeira, o cadjuvante tem a cara de ninguém menos que Phillip Roth: ![]() ![]() ![]() anotado por - 11:29 AM
julho 19, 2004tognolli na rodaMorro de vontade de sair por aí tocando: mas prefiro morrer de vontade, jamais subirei num palco e pedirei genuflexamente, como se faz por aí, "por favor olhem para mim, vejam eu tocando, escrevam bem de mim!!!" Trechos desta entrevista imperdível com Cláudio Tognolli. anotado por - 01:03 PM
julho 18, 2004quem sabe faz ao vivo![]() Ingresso para o primeiro show no Rio de Janeiro de Mundo Livre S.A., ainda com Otto na percussão. Noite de casa vazia. Abertura: Kamundjangos, banda que, depois, virou Los Djangos. ![]() Inesquecível apresentação dos Raimundos no auge da popularidade do primeiro disco, com abertura de Kleiderman (projeto paralelo de Sérgio Britto) e Little Quail and the Mad Birds, em noite de gala do extinto selo Banguela. ![]() Chico Science e Nação Zumbi fazem as estruturas dos Arcos da Lapa tremerem, e ainda teve Pato Fu antes, colocando a galera para cantar o refrão de eu bebo pinga... Muita gente se arrepende até hoje de não ter ido a esse. ![]() A esse, então... (esclarecimento: Sepultura acabou não abrindo, o que não reduziu em nada o teor dos decibéis naquela noite). anotado por - 09:13 PM
o circo volta a voarComeçam a ficar frequentes as reportagens sobre o retorno das atividades do Circo Voador. Fui frequentador do Circo no que ninguém sabia que seriam seus últimos tempos, por volta de dez anos atrás. Ainda era um palco de respeito e ambicionado por muitos aspirantes, mas já tinha deixado de ser o ninho de talentos que fora na década anterior, então mais preocupado em manter uma tradição meio questionável com shows de blues ou reggae tapa-buraco e o baile da Domingueira Voadora, com a Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo, do que em revelar nomes. (Quem quisesse conhecer as bandas novas, tinha que ultrapassar uma Lapa ainda pré-renascimento -- antes do surgimento de novos grupos de choro, da Tereza Cristina, da turistização -- em direção à praça da Bandeira, e procurar, na suspeitíssima rua Ceará, conhecida apenas pelas inúmeras oficinas de motos, o Garage, uma das poucas casas com integridade para reivindicar o rótulo de underground, onde surgiram bandas como Planet Hemp, O Rappa, Cabeça, Funk Fuckers, Black Alien, enfim, as que ficaram sob o guarda-chuva da hemp family, que chegou a ser capa da revista Domingo do Jornal do Brasil, em foto diante duma mesa comprida cuja composição lembrava vagamente A Última Ceia, de Da Vinci. Quem acompanhou e sabe da história dessas bandas todas, e mais algumas, é o Leonardo Panço, guitarrista do Jason.) Se o ato de fechamento do Circo foi, de fato, autoritário, caprichoso e truculento por parte do então prefeito eleito Luis Paulo Conde, que sabe-se por que cargas d'água estava comemorando a vitória exatamente naqueles lados, em dia de apresentação dos Ratos de Porão e outros conjuntos punk, também deve-se reconhecer que motivos não faltavam ao verdadeiro atentado à saúde pública que era o Circo Voador original: fiação exposta na estrutura tubular do toldo -- perto da qual, invariavelmente, algum retardado se pendurava -- banheiros em estado de rodoviária, com traficantes na porta, jardim mal cuidado (e que fazia as vezes de urinol, quando o público comparecia às centenas) e da poluição sonora da vizinhança. Essa precariedade não minava o respeito que a casa impunha, levando-a a sediar inúmeros shows históricos, pelo menos dois dos quais eu fui testemunha: Chico Science e Nação Zumbi (em 96, com abertura de Pato Fu) e uma apresentação dos Ramones, em 94, que se não teve bomba de gás como no ano anterior, no Canecão, não ficou atrás em termos de histeria coletiva e barulho. Isso para não mencionar a (vazia) primeira apresentação de Mundo Livre S.A., de uma banda cujo vocalista a todo intervalo entre duas músicas repetia que estava realizando um sonho de criança, e a fúria que um Raimundos em comecinho de estrada que nunca mais repetiria no palco, colocando a platéia toda para cantar Selim. Há uns 3 anos, fui surpreendido quando começaram a aparecer as notícias da rebaertura do Circo, com um novo projeto arquitetônico escolhido em concurso público elaborado por um ex-colega de colégio meu (associado a outros dois estudantes de arquitetura). De lá para cá foram tapumes e tijolos, um factóide do atual prefeito, César Maia, sugerindo a mudança de nome para Lona Cultural John Lennon, até o lugar retomar forma, pintura nova e tudo. O palco agora volta-se para os Arcos da Lapa e há um projeto acústico para abafar o som; vi as fotos do jardim refeito no jornal e me pergunto quanto tempo o branco caiado dos canteiros irá durar. A reabertura será na sexta-feira, dia 23, com uma banda de metal pesado e já ouvi por aí que vai ser como um teste de fogo para a reforma. Agora é voltar à rotina de acompanhar pelos cartazes afixados nos tapumes da cidade a programação semanal do Circo Voador! Adendo: Jamari França conta algumas saborosas histórias dos bastidores. anotado por - 08:21 PM
julho 17, 2004ParatiAliás a impressão que eu tive, fazendo a ronda virtual, foi a de quem meia blogosfera se mandou para Parati durante a FLIP. Olha, eu gosto de festa e gosto de literatura, mas festa literária, não é comigo, não. Soa a aqueles lances temáticos, tipo festa do pijama ou festa brega. Só que com literatura. anotado por - 05:34 PM
julho 15, 2004a matéria mais inacreditável do anoFoi publicada n'O Globo. Hors concours. anotado por - 02:59 PM
Aninha no SoBrecargaEstá no ar minha resenha de Aninha Bonita e Gostosa, no SoBReCarGa, que pode não ser o melhor, mas certamente é o lançamento em quadrinhos mais improvável, e por isso mesmo, imperdível, do ano. anotado por - 02:49 PM
julho 14, 2004they live!A passagem do Galera pela cidade, em esticada pós-FLIP, me deu ciência que o Hermano agora está sediado no Rio. Em dois minutos, lembrei do seguinte: a Clarah Averbuck está no terceiro (ou quarto?) livro. Pellizzari está no segundo, além de ter sido o último a entrar no livro dos Wunderblogs. Cardoso andou sendo publicado no Paralelos com destaque. Ou seja, o projeto de dominação dos ex-colaboradores do CardosOnline está em pleno curso! Me assombra sua capacidade em capitalizar o hype inicial. E agora os tentáculos se estendem à cidade de São Sebastião... anotado por - 08:11 PM
julho 13, 2004aracy no burburinhoNa capa do Burburinho dessa semana, minha colagem biográfica sobre Aracy de Almeida. anotado por - 10:08 AM
julho 09, 2004estátuas do rio -- ix![]() Pixinguinha é outro homenageado cuja estátua estava faltando nessa coleção. Fica na Travessa do Ouvidor, entre as ruas do Ouvidor e 7 de setembro, no centro da cidade, quase em frente à Livraria da Travessa original (a travessinha e o traveção, em Ipanema, são apenas filiais) e pertinho do escritório onde ficava, há mais de 50 anos, a redação do que pode ter sido a revista de jornalismo cultural mais importante do Brasil: Senhor. ![]() A estátua é de Otto Dumovich e, qual o Braguinha que abre Copacabana, parecer mudar de forma quando observada por ângulos diferentes. ![]() anotado por - 04:54 PM
paralelos na FLIPEspecial FLIP na Paralelos, com textos de autores que se farão presentes na Festa Literária Internacional de Parati. Não, eu não escrevi errado: não é feira -- é festa literária, mesmo, confiram na página oficial. Os convidados especiais desse ano foram Chico Buarque, Caetano Veloso e Arnaldo Antunes. Dos estrangeiros, veio para fazer-lhes companhia Paul Auster. A partir da Paralelos é possível ler trechos de Até o Dia em que o Cão Morreu, de Daniel Galera (convidado do evento); Budapeste, de Chico Buarque; Noite do Oráculo, de Paul Auster; BaléRalé, de Marcelino Freire e outros. Ah, também está rolando uma distribuição da nova edição de A Comédia da Vida Privada, do Veríssimo, para os melhores contos tendo este autor como personagem principal, em promoção da Paralelos. anotado por - 04:43 PM
definiçãoProgresso é o antônimo de Congresso. anotado por - 04:28 PM
julho 08, 2004prognósticosAté que meus prognósticos para os resultados do HQ Mix não estavam tão absurdos, a despeito de quantas apostas eu perdi. anotado por - 08:00 PM
estátuas do rio -- viii![]() Tirei do começo desta séria a de que eu mais gosto: Noel Rosa. Localizada no comecinho da rua Felipe Camarão, que depois se transforma no Boulevard 21 de Novembro, principal artéria do bairro de Vila Isabel, onde partituras de clássicos da música brasileira ("Apanhei-te, cavaquinho", de Ernesto Nazareth; "Pelo Telefone", de Donga) estão desenhadas no calçadão de pedrinhas portuguesas. Noel está bem à vontade, sentado numa pracinha que marca o limite entre os bairros de Vila Isabel e Maracanã. ![]() A única dúvida que paira em relação ao conjunto é: quem deve ocupar essa cadeira vaga, ao lado de Noel? A sugestão é do Millôr, apoiada aqui: Antonio Gabriel Nássara, que também foi parceiro de Noel e tem uma de suas músicas transcritas no chão da Vila, aquela, que não quer abafar ninguém. ![]() Além da perfeita localização e composição -- notar o ar de quem se levanta, ao fim do expediente; do chão quadriculado, típico de botequim; das cadeiras de madeira em estilo vienense e da mesa com tampo de mármore e pedestal de ferro fundido -- a homenagem se excede nos detalhes: sobre a mesa, a letra de "Conversa de botequim", palito e um cigarro para espantar mosquito. ![]() anotado por - 07:22 PM
voltandoVoltando hoje à (SoBRe)CarGa com a análise de Palestina, uma Nação Ocupada, de Joe Sacco. Se eu fosse um jornalista preguiçoso, desinformado e chegado num bafafá, diria que Sacco faz em quadrinhos o que Michael Moore faz no cinema. Só que não é isso. Joe Sacco é muito melhor. anotado por - 07:17 PM
julho 07, 2004ah, o livro?Deixa eu ler, primeiro; mas adianto que sempre apostei na qualidade literária de escritos feitos para a rede. Nunca tiveram muita diferença de certas colunas de jornal ou encartes de revista. Formatos quadrados ou fontes especiais são apenas o trabalho dos designers. Livro por livro, esse aqui me chamou a atenção: imaginava conhecer bem um terço do conteúdo e o folhear mostrou que talvez não chegue a um quarto. Só o prefácio a Um Elefante no Caos já vale, sobretudo o último parágrafo, o livro. anotado por - 04:13 PM
modeloFolha - Quem são seus 'modelos' intelectuais e literários? DGR - Além do preto básico, Paulo Francis, Diogo Mainardi, Olavo de Carvalho, Paul Johnson, Mário Ferreira dos Santos, H.P. Lovecraft e todos aqueles nomes rotulados como 'de direita', como o Rafael Lima. O que é mais divertido do que ver publicadas na internet as potocas ("você escreve alguma forma de ficção? Sim, nos meus talões de cheque") em resposta à reportagem da Folha? Ser alinhado no mesmo banco desses caras aí. Para que fique claro: modelo, para mim, só Laetitia Casta. E antes que eu me esqueça: anotado por - 03:55 PM
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Lonely Planet Luis Eduardo me encheu tanto o saco que conseguiu um link só para a página dele aqui. Cataplum!
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