outubro 31, 2004

briga de cachorro grande ilustrada pelo steadman

Michelângelo

Ralph Steadman bolou uma imagem sensacional para retratar o arranca-rabo entre Leonardo Da Vinci e Michelângelo. Dediquei uma página extra para mostrar melhor os detalhes da figura, clica aqui (atenção: algumas imagens muito pesadas, de mais de 800Kb). Mas garanto que vale a pena esperar o download.
Leonardo

anotado por Rafael - 06:56 PM

gozado

-- Paulista é gozado, né? Passa-rápido, piscinão...

(Comentário do meu pai destruindo qualquer chance de se levar à sério o debate de sexta)

anotado por Rafael - 06:27 PM

outubro 30, 2004

trinta e?

Parabéns, Patricia!

anotado por Rafael - 03:27 PM

outubro 29, 2004

no jornal

De quando em quando um dos habitantes da blogosfera aparece no jornal. O último registro foi do Marcelo Moutinho, aquele tipo de cara que parece estar em todas -- aliás o título da matéria era esse. Ele mantém o Pentimento e participa do Paralelos. Não o conheço pessoalmente, mas já conversei algumas vezes com a menina que aparece ao lado dele na foto, a Paula Maia (que gosta de samba).

anotado por Rafael - 01:07 PM

Humor negro é isso, o resto é papel de embrulho

Fidel Castro caiu e quebrou o braço, Arafat foi internado e perdeu a consciência e eu também não estou me sentindo muito bem...

anotado por Rafael - 09:42 AM

sobrecarga em ritmo freak

Na minha coluna do SoBReCarGa dessa semana, uma análise dos Fabulous Furry Freak Brothers de Gilbert Shelton, que acabaram de ganhar nova edição nacional. Aproveito para colocar um pouco de lenha na fogueira defendendo que eles envelheceram melhor do que certas coisas do R. Crumb, notoriamente mal lido.

anotado por Rafael - 09:10 AM

outubro 28, 2004

briga de cachorro grande renascentista

I, Leonardo: Ralph Steadman

Uma das histórias mais saborosas que Ralph Steadman, ilustrador mais conhecido pelo trabalho em conjunto que desenvolveu com Hunter S. Thompson, conta na auto-biografia ficcional I, Leonardo de, adivinhem!, Leonardo Da Vinci se passa exatamente na virada do século XV para o século XVI: Da Vinci acabara de voltar de Milão, onde trabalhava para a família Sforza e encontrar a Florença de sua juventude tomada pela admiração a Michelângelo, cujo Davi acabara de ser erguido na Piazza della Signoria, em frente ao Palazzo Vecchio, causando grande consternação.

Michelângelo, segundo Steadman, estava obcecado com a idéia de "confirmar sua genialidade" e não gostara nem um pouco das declarações de Leonardo afirmando ser a pintura superior à escultura. Para Da Vinci, a pintura precedia a escultura por exigir do pintor um conhecimento de perspectiva, luz e cor que não era necessário ao escultor, que usa a luz externa. Michelângelo achava a escultura maior por ser a arte de "retirar pedaços", não permitindo erros, ao passo que a pintura seria a arte de colocar imagens numa tela, possibilitando ao pintor fazer correções, mudanças, aperfeiçoamentos a meio caminho.

Sucedeu que Leonardo foi contratado para decorar com um afresco uma parede do Palazzo Vecchio. Michelângelo aproveitou-se do fato que a escultura equina que Leonardo projetara para os Sforza nunca ficara pronta para acusá-lo de não terminar seus trabalhos, acusação não de todo infundada. Como não conseguiu desfazer o contrato, Michelângelo exigiu que a parede oposta à de da Vinci, na mesma sala, fosse pintada por ele -- para expôr claramente sua superioridade técnica e velocidade de produção (na época, Leonardo estava perto de 50 anos e Michelângelo, no vigor dos 25) aos olhos de todos. Ambos escolheram, como de praxe, cenas de batalhas da história de Florença como temas, a de Leonardo envolvendo cavalos, talvez uma compensação pelo monumento nunca concluído.

Eis que assim, nos primeiros anos do século XVI, reuniram-se em uma das salas do Palazzo Vecchio provavelmente os dois maiores titãs da renascimento, cada um pendurado num andaiame (o de Da Vinci, projetado por ele mesmo), transferindo seus rascunhos para o gesso com giz. Eventualmente, trocavam acusações e batiam boca, à vista de todos os cidadãos, cujo acesso ao salão em obras era permitido. Imagine-se o que não seria para um florentino do tempo dos Médici, sobrevivente do tufão chamado Savonarola, ver as reformas no Palazzo Vecchio e ter a chance de acompanhar a evolução em tempo real e o processo criativo de Michelângelo Buonarroti e Leonardo da Vinci. Numa única sala.

O fim dessa história não é dos melhores, ainda que não seja trágico. No dia exato em que Da Vinci encostou pincel na parede pela primeira vez, desabou sobre Florença um toró que comprometeu radicalmente a pintura de Leonardo, experimentador irrefreável, que bolara uma nova técnica para seus afrescos (na verdade, Leonardo já andara experimentando técnicas diferentes desde A Última Ceia, o que comprometeu a preservação de suas obras) muito sensível à umidade. Da Vinci acabou entregando aos seus patrões apenas a idéia da tela, e voltando às pressas para Milão, a chamado dos Sforza. Já Michelângelo também não terminou sua cena de batalha. Fora convocado pelo papa Julius II para ir a Roma, onde executaria talvez o maior feito artístico de empenho individual de todos os tempos: a decoração da Capela Sistina.

anotado por Rafael - 11:49 AM

dodô e as pessoas do século passado

BiGa manda avisar: saiu pela Rocco o livro Pessoas do Século Passado, do Dodô, inaugurando o selo Safra XXI. Quando eu ouvi pela primeira vez falar em Pessoas do Século Passado, isso era o nome de uma festa do barulho que rolava numa casa em Laranjeiras -- ainda rola, aliás, e ainda é do barulho, apesar de não ser mais hype. Dodô é um daqueles regurgitadores de cultura pop capaz de ficar estabelecendo conexões internas entre bandas, filmes e quadrinhos por linhas sem fim, do tipo: "John Cage influenciou Glenn Branca que influênciou a banda Sonic Youth, cujo vocalista, Thurston Moore, foi autor da frase que inspira o título de uma das editorias..." -- só que com um pequeno detalhe: sem ficar chato, pedante ou nerd. Conheci seus escritos há uns 3 anos através da coluna Mirante, ora publicada na ótima Revista2K, já extinta. Algum tempo depois da festa emplacar, ele bolou um projeto de weblog coletivo com o mesmo nome, juntando textos de diversas vertentes, na mesma linha da festa, que reúne num casarão um grupo de chorinho, uma pista de dança, mesas de sinuca e, de vez em quando, uma mostra de artes plásticas ou performance. A Rocco já promete o próximo livro de Dodô, "em que refaz a mítica viagem de Jack Kerouac pelos EUA [...] e descobre o que existe de contracultural na América de George Bush". Só fico chateado que apenas o nome dele sobressaia em meio a tantas manifestações; no fim das contas, foi ele quem começou com essa história mesmo...

anotado por Rafael - 10:28 AM

outubro 27, 2004

um caso delicado

Florença sempre foi um dos lugares preferidos pelos suicidas [...] Os quartos de hotel do velho mundo florentino parecem fazer parte do atrativo, com seus tetos altos, suas fumarolas de poeira, suas chaves de porta penduradas em sinos de cobre, tão pesadas que duas delas bastariam para levar a gente para o fundo do Arno.
[...]
Em Florença, a morte parece menos temível e mais glamourosa que em outros lugares, talvez pela superabundância de cristos mortificados, muitos deles medievais e careteiros, com feridas expostas. Na recém-restaurada cúpula da catedral de Santa Maria del Fiore (ou o Duomo, como é mais conhecido), as visões celestiais de Vasari pairam sobre um abarrotado submundo no qual almas impenitentes sofrem terríveis agonias. [...] Não admira que Hannibal Lecter tenha decidido mudar-se para cá!.
[...]
Quase cem anos depois de A room with a view, turistas ainda vêm a Florença à procura desse "algo" [...] O que querem de florença é o que George [Emerson] quer de Florença, é o que [Walter] Pater queria de Florença, é o que o jovem [E. M.] Forster queria de Florença; ou seja, satisfazer em Florença alguma indefinível idéia de auto-realização à qual a cidade sempre foi associada -- e isso apesar de tantos de seus aspectos promoverem a imagem oposta.

Para o visitante contemporâneo, Florença pode parecer alternadamente importuna e vulgar, em alguns bairros pouco hospitaleira e em outros cedendo ao mais baixo impulso turístico [...] Muitas das ruas são tão estreitas que, quando passar um carro, você terá que se encostar na parede, feito gato assustado. Por onde quer que você vá há portas tão imensas que foi preciso entalhar dentro delas outras portas, menores, de tamanho humano; há até mesmo portas de madeira que foram esculpidas para parecer de pedra. Todas estão fechadas -- ainda ssim, quando se abre uma delas e surge um velho
cachorro schnauzer, puxando a guia segura por sua contessa, durante o milésimo de segundo em que ela mexe com as chaves você vislumbrará o pátio com uma fonte, perfumado por limoeiros e magnólias, corniso inglês e espessas ramas de glicínia enroscadas em antigas grades de ferro. Aí a porta se fecha rangendo e você fica outra vez sozinho com o que McCarthy chamou de "autoritárias superfícies" das fachadas.
[...]
Não pensem que Florença é uma cidade hospitaleira; ela rejeita o recém-chegado com um duro soco lateral e um olhar gélido. Preste atenção na fachada do Duomo e discernirá, à direita do conjunto direito de portas, um anjo fazendo um gesto ofensivo, o braço direito dobrado, o punho cerrado, a mão esquerda descansando no bíceps direito: vaffanculo!
[...]
A maioria dos restaurantes é ruim e mesmo os bons apresentam obstáculos para a sua apreciação. O Cibreo, um dos mais famosos da cidade, está dividido em duas partes, um ristorante caro e uma trattoria menos cara, onde se tem a mesma comida pela metade do preço. Na Trattoria, porém, você é obrigado a sentar em cadeiras que desafiam a mais robusta coluna, compartilhar apertadamente mesas minúsculas com estranhos, ofegar em meio a nuvens de fumaça. A comida é autenticamente, e poderíamos dizer, inclusive, rigorosamente, toscana. Nunca se serve massa; ao contrário, a entrada é, em geral, sopa de feijão, um lembrete de que em outras partes da Itália os toscanos são conhecidos como mangiafagioli, comedores de feijão. Os miúdos aparecem com destaque no menu. Sob rubrica secondo está collo di pollo, pescoço de galinha recheado. Do mesmo modo, o centro storico é repelto de barracas onde se podem comprar sanduíches de bucho ou de lampredotto, que é a mesma coisa que bucho, só que tirado de outro dos inúmeros estômagos da vaca. O pão é sem sal. La cucina fiorentina privilegia, como se vê, o estômago.
[...]
Florença é a única cidade européia, que eu me lembre, onde os cidadãos mais ilustres, nos últimos 150 anos pelo menos, têm sido sistematicamente estrangeiros. Com quem, afinal de contas, associamos a cidade? Para começar, com Harold Acton [...] (Mais lembrado por sua conversa do que por seus livros, diz-se que ele foi o modelo de Anthony Blanche em Brideshead revisited, de Evelyn Waugh [...]) Forster também vem à mente, embora ele tenha passado apenas umas poucas semanas em Florença quando jovem. [...] Atualmente, cerca de 25 universidades norte-americanas mantêm campi em Florença.
[...]
De modo algum Florença pode ser considerada uma cidade "grande", e isso sempre fez parte de seu charme. Em Roma, você depende de ônibus; em Paris, de metrô e táxi. Já em Florença, você pode ir a pé a praticamente qualquer lugar, mesmo no campo, que começa logo depois do Belvedere, no topo da Costa San Giorgio.
[...]
Incrivelmente, [Florença] abriga quase um quinto dos tesouros de arte do mundo [...] E Mesmo que você consiga ver tudo isso, mesmo que fique em Florença um ano, ou cinco, sempre haverá algo que terá deixado escapar [...] sobre a qual você será devidamente informado só na véspera de sua partida.[...]
Em 1989, Graziella Magherini, psiquiatra do hospital de Santa Maria Nuova, observou tantos casos de estrangeiros que, literalmente, desmaiavam depois de terem visto arte em demasia que ela denominou o fenômeno "síndrome de Stendhal", evocando um episódio do diário do romancista em que recorda palpitações e sensação de desmaio durante uma visita à basílica de Santa Croce, em 1817. [...] É fácil entender como ele se sentia.
Especialmente para aqueles de nós habituados a domínios mais banais, a imanência do antigo, do belo e do histórico em quase todos os aspectos da vida cotidiana exige certo esforço de adaptação
[...]
A piazza [della Signoria] paira sobre você. [...] ela tem seus residentes permanentes. Perto do Palazzo Vecchio, Netuno se banha em uma fonte que em geral está desligada. O falso Davi medita, eros escorrendo de seus longos dedos. Hércules castiga o vencido Caco. Poucos lugares do mundo são tão ricos em acontecimentos históricos. Afinal de contas, nesta piazza, Savonarola queimou as vaidades e foi, ele próprio, queimado. [...] Cellini inaugurou seu Perseu de bronze. O Davi de Michelangelo foi erguido e, então, alguns séculos mais tarde, levado para a Accademia, em trilhos especialmente adaptados. A rainha Vitória atravessou esta piazza de carruagem. Distúrbios ocorreram aqui, sangue foi derramado em grande quantidade e da sacada do Palazzo Vecchio, em 1938, Hitler apertou a mão de Mussolini enquanto os fascistas cantavam.

Hoje algas verdes cobrem as panturrilhas de Netuno. As algas são os pés-de-atleta da história. A piazza é o banheiro dos séculos, onde deuses e heróis desfilam nus, [...] gabam-se de conquistas, exibem troféus. Não é um lugar para mulheres. O que as mulheres espreitam entre as estátuas é algo como espectros de histeria masculina ou desejo. Polixena e as Sabinas, sendo estupradas, calcificam a fanfarronice sexual. Judite, lutando com Holofernes para cortar sua cabeça, calcifica o terror sexual. Como o conselho das mães, uma fila de Virtudes se recolhe nas sombras da loggia, ignorada. [...]
À noite, a impressão é ainda mais forte. Tochas ao longo das bordas do Palazzo Vecchio emprestam um vivo esplendor às pedras, como se a luz as fizesse derreter. Nessa hora, a vista de Netuno, com sua escorregadia umidade branca, basta para dar água na boca. Olhando-o, você finalmente entende por que os escultores brigavam pelos blocos de mármore branco de Carrara. Dá vontade de tirar os sapatos, caminhar pela água da fonte e raspar as algas verdes de seus flancos com as unhas.

(Trechos muito editados do primeiro capítulo de Florença, Um caso delicado, da coleção um escritor, uma cidade; David Leavitt, Cia. das Letras, 2002)

anotado por Rafael - 01:11 PM

agressão

"Hoje será um dia incrivelmente estranho para um menino de 7 anos (...) Intimado para se apresentar à Promotoria da Infância e da Juventude do Fórum de Petrópolis, ele terá que se defender de uma acusação formal de agressão, com registro na delegacia, feita por uma coleguinha de escola. Será dado, assim, mais um lance num caso inusitado que começou com uma briga com merendeiras, passou pela polícia e caminha para o tribunal."

É nisso que o mundo está se transformando.

anotado por Rafael - 08:47 AM

outubro 26, 2004

Tiepolo

Il Minuetto, de Giandomenico Tiepolo

Se Tiziano reinou em seu tempo, apesar de Paolo Veronese e Tintoretto, o retrato do rococó é Tiepolo -- nome pelo qual atendem dois pintores: Giovanni Battista, dito Giambattista, o pai, e Giovanni Domenico, dito Giandomenico, o filho, ambos no século XVIII. Caracterizam a pintura do primeiro a luminosidade, os tons pastéis e a suntuosidade de cenas em que alegorias, divindades gregas ou cristãs nunca pareceram tão gloriosas antes, como os afrescos no teto das salas do Ca' Rezzonico, nas diversas decorações internas de igrejas ou dos palácios de Madrid e Udine. Giandomenico foi exímio retratista da chamada "civilização veneziana", e sua escolha por temas da vida contemporânea e dos costumes contribuíram, junto com Dürer e Daumier, para estender o capítulo da História da Arte referente ao nascimento da caricatura e do cartum, particularmente no uso de polichinelos como alegoria do homem comum e da série de desenhos Caricature di personaggi, onde limita-se a retratar tipos universais da fauna humana. O bicentenário da morte de Giandomenico Tiepolo está sendo comemorado com inúmeras exposições em Veneza, cujas principais são uma coleção de rascunhos e esboços no mesmo Ca' Rezzonico e uma enorme mostra com 140 desenhos e pinturas na Fondazione Giorgio Cini, Tiepolo: Ironia e Comico, na ilha de San Giorgio Maggiore.

Polichinelos de Giambattista Tiepolo

anotado por Rafael - 04:53 PM

outubro 25, 2004

canais

-- Ah, eu faço fonoaudiologia...
-- Em mono ou estéreo?

anotado por Rafael - 11:57 AM

Protegendo-se

A retirada do ar do blog Imprensa Marrom gerou uma marola na blogosfera em protesto pela decisão judicial e em prol da liberdade de expressão, que é como se costuma chamar esse estranho hábito de se escrever o que se quer sobre o que quer que seja sem querer correr o mínimo risco de sofrer sansão nenhuma. Como já vinha desenvolvendo um trabalho sobre o direito no ambiente cibernético, e tendo em vista o caso em questão, a Cynthia escreveu uma nota específica listando os cuidados para se limitar problemas legais por conta do que se escreve (e do escrevem, nos comentários). Dá para resumir tudo em 7 itens:

1. Escreva sob pseudônimo.
2. Hospede sua página em servidor fora do país.
3. Avise claramente os visitantes sobre a responsabilidade que têm ao adicionar comentários e controle o fluxo deles, acompanhando a chegada de novos e impedindo anônimos.
4. Evite quaisquer acusações nominais (injúria), "imputações de fato ofensivas" (difamação) ou "imputação falsa de fato criminoso a alguém" (calúnia). Não localize o sujeito de suas críticas para evitar essas acusações. As críticas subjetivas, em regra, são possíveis tão-somente quando atacam uma opinião e não uma pessoa.
5. Deve-ser evitar criticar uma empresa sem ter algo contra ela. Quem reclama deve fazê-lo com base em fatos, não em suposições, ou porque ouviu alguém reclamar.
6. O autor do blog tem o dever de cuidar da veracidade da informação que vai publicar, verificando sempre a origem da notícia que será divulgada.
7. Sempre que o responsável pelo blog mencionar algo que não é de sua autoria, deve indicar o nome do autor e a fonte de onde o texto foi retirado. Se a pessoa não souber quem é o autor, deve explicar que o trabalho é de autoria desconhecida.

Em suma: moleza. Só não fica tranquilo quem não quer.

anotado por Rafael - 11:55 AM

outubro 22, 2004

as 3 mais

As três coisas que mais se ouve brasileiro dizer em museu ou monumento italiano:
1.
Puxa! Tem muita coisa para se ver aqui!
2.
[com ar de deslumbre] É muita históóóóóóória, é muita riqueeeeeeza junta, não é?
3.
[com sotaque jeca, referindo-se aos guardas suíços do Papa] Olha lá, Marquinho, olha só como eles ficam durinhos! [ou observação similar de igual perspicácia]

anotado por Rafael - 08:47 AM

outubro 21, 2004

nobel

Suponha que você é o responsável pela programação visual de um evento que visa homenagear a criatividade na efeméride dos 100 anos do prêmio Nobel. De todas as categorias e premiados, você precisa escolher uma única imagem que estampe por si só a idéia de criatividade, da magia do aprendizado, do deslumbre da descoberta científica. Uma única imagem que traduza tudo isso com força suficiente para ser reproduzida em folhetos, capa do catálogo da exposição, página na internet; uma imagem em torno da qual a comemoração se dará. Certamente, você não escolherá um diagrama, uma equação ou um modelo visual; decerto que eles são exemplos de brilho mental, mas é preciso que seja uma pessoa, para que se humanize e identifique a idéia de criatividade. Leonardo Da Vinci costuma ser sempre lembrado nessas horas, mas não pode ser usado porque não está associado ao Nobel. Que o escolhido seja humano, que seja criativo, brilhante e quase mágico na alegria infantil com que lida com a ciência. Bom, se você demorou mais de 5 segundos para pensar nessa foto de Richard Feynman, é melhor trocar de profissão:


Agora imagine que você acaba de desembarcar em Florença, berço do Renascimento italiano e está puxando sua malinha pela calçada da estação Santa Maria Novella. Você acabou de colocar os pés da cidade e o primeiro cartaz que vê não diz respeito a nenhum palácio, nenhum museu, nenhuma escultura ou pintura, nenhuma igreja -- é uma exposição itinerante que comemora avanços científicos. E ainda por cima com um título que evoca um recente sucesso das telas hollywoodiano. Ao ver aquele mesmo cartaz espalhado por todas as praças da cidade, você se toca que, além de fomentar as artes, aquela cidade também abençoa a ciência (para quem não sabe, a Itália ganhou 19 prêmios Nobel ao longo de cem anos, da física à medicina, passando pela paz e pela literatura); em cada um de seus monumentos renascentistas, celebra-se um tempo em que o casamento de arte e ciência parecia eterno.
Agora vocês já sabem porque eu quase chorei de alegria...

anotado por Rafael - 10:02 AM

2 toques

1) Mariana Massarani manda avisar: duas novas livrarias no Rio de Janeiro--

Casa da Cultura (livros novos e usados)
R. Real Grandeza, 190
Botafogo
tel:. 2286-1252
casadacultura@ibest.com.br

Largo das Letras (livraia e café)
R. Almirante Alexandrino, 501
Largo dos Guimarães
Santa Tereza
Tel:.2221-8992
livraria@largodasletras.com.br

2) Lunário Perpétuo de Antonio Nóbrega em 3 apresentações, também no Rio: dias 5, 6 e 7/11 no Sesc TIJUCA (Sex. e sáb às 20h; dom. às 19h). Informações: 32382100 ou 32382133.

anotado por Rafael - 09:07 AM

outubro 20, 2004

os 3 culpados

João Marcelo dispara: a culpa de tudo no mundo é de 3 coisas -- minha mãe, o capitalismo e os Estados Unidos.

anotado por Rafael - 03:33 PM

outubro 19, 2004

Três coisas que sei de Veneza: cisternas, treliças e fantasmas

1

A maior parte dos visitantes acha que as aberturas arredodadas presentes em cada campo de Veneza, hoje lacradas com tampas de metal, são poços. Não são. Uma olhadela distante, dando a visão geral, faria perceber que quase sempre esses "poços" estão sobre uma parte do terreno mais elevada, o que levaria à conclusão correta de que não se tratam de poços, mas cisternas para a retenção de água pluvial. Também não é difícil localizar ao redor da abertura os furinhos por onde a água era coletada. Nos bons tempos de La Serenissima, imagina-se que essa água não potável saciassse a sede da população, ao menos daquela porção que fazia fila diariamente na Fondamenta dei Mendicanti. O que menos visitantes ainda sabem é que, atualmente, essas cisternas estão sendo reformadas para voltarem ao uso, empregando a água da chuva em jardins, limpeza de fachadas etc. Esse requisito em reaproveitar águas pluviais consta inclusive do Protocolo de Kyoto, como parte dos requistos para a conservação da água. Se for lembrado que também não há trânsito de automóveis na cidade (completamente inviável), a Veneza atual se destaca como uma das cidades mais ecologicamente corretas do mundo.

2

Pode parecer incrível, mas o Palácio dos Doges é sistematicamente citado por Oscar Niemeyer como exemplo histórico da arquitetura de invenção que ele pratica. Segundo Niemeyer, a busca da beleza e a liberdade criativa na arquitetura acabam por forçar a evolução da técnica da engenharia e a fuga dos padrões estéticos. Na fachada do Palácio dos Doges, ele descreve, há "uma belíssima estrutura coberta de arcos e curvas a contrastar com a parede lisa do edifício". O Palácio passou séculos sendo construído, ampliado e reformado sem, no entanto, perder uma unidade estrutural, mesmo que seja possível distinguir claramente a ala mais antiga das mais recentes, cujas fachadas do pátio interno são mais ornamentadas. Mas não é só isso: a necessidade de um amplo salão onde todos os 2 mil membros do Conselho Maior pudessem se reunir em assembléia ocasionou a construção de um dos maiores vãos livres de seu tempo, a Sala do Conselho Maior do Palácio dos Doges, ausente das inevitáveis colunas sem as quais não se conseguia um teto tão alto. A solução técnica utilizada é mais engenhosa que se imagina: à época de sua construção, os melhores carpinteiros de Veneza trabalhavam no Arsenal (o estaleiro), erguendo os navios da mais poderosa frota européia da época. Ao serem contratados para mobiliar os aposentos, aplicaram diversas soluções navais na disposição dos móveis, fazendo notável sua semelhança com a decoração interna das embarcações da época. Em algumas situações, essa semelhança causa estranheza: o hábito de fazer a dobradiça inferior maior do que a inferior, com o intuito de desbalancear o centro de gravidade, criando portas que se fecham sozinhas é razoável dentro de um barco, mas não num palácio onde burocratas
trabalham. O problema do teto (e dos quadros, e das molduras) da Sala del Maggior Consiglio foi resolvido sustentando seu peso em uma treliça de madeira, uma enorme estrutura de vigas cruzadas através das quais o peso se distribuía -- a mesma que está de pé até hoje. Não por acaso a simetria da construção e a distribuição das vigas também lembra intensamente a estrutura interna de um casco de navio, só que de cabeça para baixo. Como a engenharia como ciência ainda não era desenvolvida, o que os arquitetos e carpinteiros fizeram foi adaptar seu conhecimento de engenharia naval para
resolver um problema de engenharia civil. E o fizeram de forma brilhante, vilipendiando os cânones da técnica, como os calculistas de Niemeyer (Joaquim Cardozo, Bruno Contarini, Carlos Sussekind) tantas vezes foram levados a fazer.

3

Veneza é uma cidade infestada por fantasmas. Almas penadas dos executados em praça pública, entre as colunas de São Marcos e São Teodoro; de comerciantes inescrupulosos que foram transformados em pedra, náufragos que não resistiram a uma noite de neblina, de casais que nunca consumaram sua união e foram condenadas a vagar por toda a eternidade à procura de paz. Não há como não sentir um arrepio na espinha ao caminhar pelas ruas de madrugada, desertas e silenciosas depois que as maltas de turistas se retiraram, e se imaginar esbarrando na bruxa que Tintoretto expulsou de sua casa, ou escutar entre o quebrar das ondas as notas da composição que o diabo impediu Vivaldi de escrever (Antonio Vivaldi foi exorcizado quando bebê e fez-se padre antes de ser o compositor das Quatro Estações). Talvez a mais atormentada das almas seja a de Marin Faliero, o doge que foi pego em flagrante tramando um golpe de estado, sumariamente julgado e decapitado, tendo sido enterrado com a cabeça entre as pernas. No lugar de seu retrato na Sala del Maggior Consiglio do Pallazo Ducale, uma mancha negra sobre a qual repousa uma faixa dizendo que ele foi condenado por crimes contra a nação. Diz-se que o corpo de Faliero ainda assombra o local onde ele foi morto, pondo fogo pelos olhos (apesar da ausência de uma cabeça).
Alberto Toso Fei coleciona estas histórias em seu livro Venetian Legends and Ghost Stories, com edições em italiano, francês e inglês.

anotado por Rafael - 11:17 AM

outubro 18, 2004

de volta à sobrecarga

Desde sexta-feira passada está no SoBReCarGa minha coluna falando da dulpa Lanterna Verde & Arqueiro Verde quando produzida por Dennis O'Neil e Neal Adams.

anotado por Rafael - 10:21 AM

outubro 14, 2004

Sono Arrivato

Porque não é só o Träsel que gosta de contar mentira depois de viajar pela Europa. Também quero -- apertem os cintos que o negócio aqui vai ficar muito do high brow. E vocês aí, lendo O Código Da Vinci.

Palatino Caminhar pelas ruínas do Fórum Romano ou do monte Palatino leva a uma espécie de transcendência temporal, porque estar sobre 2000 anos de civilização não é uma mera sensação, é um fato; ali estão as mesmas pedras da Via Sacra por onde Nero & César passaram, os mesmos bancos da Cúria onde discursos de senadores eram feitos, as mesmas colunas de um templo onde Saturno fora venerado antes do nascimento de Cristo. Só não estão ali os mármores que decoravam por fora aquelas construções suntuosas, porque, ao contrário do que a História possa contar, os maiores depredadores de Roma não foram os bárbaros, mas os próprios cidadãos romanos, ao descascar palácios antigos em busca de material barato para os novos que se erguiam, muitas vezes naquele exato local, para atestar fisicamente a superioridade. A igreja de Santa Maria Sopra Minerva tem esse nome por ter sido erguida sobre um templo a Minerva e, não há nada mais explícito do que a Basílica de São Clemente, originalmente do século XII, construída sobre uma antiga igreja do século IV que, por sua vez, foi feita sobre uma templo pagão do século II ao deus Mitra -- o tempo recua na medida em que se descem os degraus da cripta.

Veni, vidi, vinci Conhecer o Cárcere Mamertino (onde também penou Vercingetórix, aquele gaulês, do Asterix) na véspera de ver o Vaticano dá uma noção exata do que é passar de perseguido a poderoso. O percurso inverso pode ser feito dando-se uma passadinha em uma das catacumbas onde os primeiros cristão se reuniam, e depois ir à Basílica de São Pedro. A versão francesa consiste em ir a Versalhes de manhã, e na Conciergerie, de tarde. Uma aula rápida de como se faz uma revolução.

Ben Hur Apesar do Coliseu ainda estar com sua estrutura nítida, nenhum dos grandes circos sobreviveu: o Circo Máximo é hoje um gramadão, sobre o circo de Domiciano, fica a Piazza Navona (o circo de Massênzio não cheguei a conferir, mas duvido que haja algo lá). O Circo Máximo ficava pertinho do Coliseu, o que significa dizer que os romanos tinham o Maracanã e o autódromo, um do lado do outro. Sem contar que todos os pilotos corriam pela Ferrari e todos os jogadores eram do Roma F.C. Isso sim é que era diversão para as massas.

F _ R _ _ A Giordano Bruno ganhou estátua e Savonarola, placa no chão. Ser enforcado é bom negócio se você quer virar pracinha na Itália.

Museu a céu aberto "Se Roma é um museu a céu aberto, vamos levar isso às últimas consequências", dizia o cartaz na beirada do local onde fica o mausoléu de Augusto. Em outro córner, uma pedrinha repousava sobre os dizeres, "melhor de três, tiro certo", duas garrafas vazias ao longe convidando ao arremesso. Um retrato de santa rabiscado no chão com giz: "oferta para a Madonnina", e por aí vai. Gosto de povo que mostra seu humor.

O que é verde e fica vermelho apertando um botão Mas Roma e, por extensão, a Itália*, mostram mesmo sua cara quando, plena hora do rush de uma sexta-feira, você procura pelo botãozinho do sinal para atravessar as ruas tangentes da Piazza Venezia e percebe que não tem sinal, quanto mais botão. Três faixas para lá, duas pra cá, ônibus, carro e moto passando adoidado e aquele guardinha de luvas brancas só sobe na plataforma para reger o trânsito quando tá pegando muito. Fora isso, é tudo na base do cada um, cada um. E todas as faixas andam, e não tem batida, e não tem atropelamento: basta colocar o pé na faixa para interromper o fluxo -- nas duas direções. Mas haja brios para acreditar que aquelas 4 lambretas arrancando na tua direção vão, de fato, parar.
Isso tudo, para mim, é prova cabal da flexibilização da mentalidade romana. Se há dois mil anos a lei era dura (dura lex, sed lex), hoje não existe um valor definido a partir do qual o portador passa a ser considerado traficante; a avaliação é a cargo do carabineri de plantão. E não é só isso, todo mundo concorda que não há necessidade de sinais para controlar o tráfego. Uma placa em frente a um hotel avisa que é permitido estacionar o tempo necessário [sic] para o desembarque de passageiros, e por aí vai. A lei não é mais dura, mas por favor, que não se confunda isso com a situação brasileira, onde a lei existe, só que não é respeitada.

*Generalização bastante perigosa, dado que a unificação do país tem apenas um século e meio de vida e levando-se em consideração a animosidade das demais províncias com relação à Roma, que criou outro significado para S.P.Q.R. -- sonni porchi questi romani, são porcos estes romanos, ao invés do tradicional "Povo e Senado de Roma".

Parla! Se o francês convida ao resmungo, e o inglês se presta à concisão, o italiano convida à eloquência. Um cartaz na rua pedindo para limpar o cocô do cachorro tinha seis linhas de texto. Longas, todas.

Fuori le Mura Não imaginava encontrar tanto manifesto político pixado nos muros, a maioria, como de se esperar, contra Bush e Berllusconi. Muita incitação anarquista (se você prestar bem atenção, só existem dois tipos de descendente de italianos: os comunistas & anarquistas e os que odeiam esses dois), inclusive uma, digna de nota, conclamando ao fim da guerra no Iraque e, uma linha depois, convidando ao início da guerra civil. Muito protesto pós-moderno também, do tipo: "mais feriado para todos", rodeado de exclamações do tipo "vai trabalhar, vagabundo" em diversas línguas. Em Florença, um grafite solitário do Critical Mass, o movimento ecológico-urbano fundado em San Francisco pelo uso de bicicletas (Florença se presta pacas ao tráfego dos camelos). No chão, uma gozação com os repetidos pedidos de manter a cidade limpa: sob os mesmos dizeres oficiais, um bonequinho joga uma suástica no lixo. Esse papo de limpeza, uma constante em trens e áreas públicas, pelo visto estava deixando todo mundo meio que de saco cheio. Uma camiseta descolada dizia: "queres um mundo limpo? Então varra!", sob a figura de um esfregão. De qualquer modo, os muros e paredes são surpreendentemente limpos, dado que respeitam-se rigorosamente as restritas áreas para colar cartazes. São medidas simples assim que embelezam a paisagem diária de uma cidade, como acabamos de ver com as restrições a galhardetes e faixas no período eleitoral.

Aliás Que ninguém interprete mal: em meio à viagem, não senti muita falta de ter votado.

Convicção Imaginava que comida italiana era o fiel da balança: em qualquer lugar do mundo você poderia se dar bem procurando por ela. Descobri um lugar que desequilibrou, a própria Itália. Foi desbancada pela comida chinesa na categoria tem o mesmo gosto em qualquer lugar e te satisfaz. Mas como é raro encontrar códigos universais absolutos, descubro que os nossos amiguinhos do oriente não reconhecem aquele sinal de escrever no ar como o pedido da conta.

Aliás II Orientais por toda parte, indianos e chineses tomando conta. Ah, e vocês aí, preocupados com meia dúzia de muçulmanos com um parafuso a menos. Vocês eu não sei, mas eu vou já comprar minha cópia do Mahabaratha em quadrinhos.

Às Lágrimas Fazia cinco anos que eu não tinha a mesma sensação: Florença quase me fez chorar de alegria.

Nós e os maconheiros Olha, esse papo de que o Brasil está na moda lá fora, eu vou dizer um troço: é verdade. É tudo verdade. Em qualquer barraca de camelô -- eu me recuso a chamar por outro nome aqueles ambulantes que montam na rua suas entulhadas barracas com produtos de couro ou miniaturas da Pietá, sejam eles europeus, sejam mascates na Uruguaiana -- tem uma camisa da seleção, Adriano e Kaká são destaques nos uniformes de seus clubes, bonés e faixas verde-amarelas abundam: é comum ver gente na rua com jeito de descolado trajando agasalhos ou camisetas com motivos & cores do Brasil (mesmo que os descolados estejam um pouco mal informados, afinal, uma das camisetas mais populares é uma malha amarela estilo vintage de mangas verdes com os dizeres Brasil - São Paulo - 1980 no peito). Ficaria contente e, quem sabe, até tiraria proveito dessa voga se não tivesse notado que o segundo país nesse ranking de popularidade é a Jamaica.

Adoro aquele berreiro Só depois de ver um tenor entoando o "Riiiiiiiiiiiiide, Pagliacci" ou uma das áreas principais de Tosca dentro de uma igreja é que você tem certeza de que está na Itália.

Elucubrações à beira da mesa O tortellini é um raviolli em forma de O. O fettuccine é um spaghetti que foi atropelado. O fusilli é um fettuccine que desceu correndo pelas escadarias da cúpula de Brunelleschi.

Maior "Vou construir uma cúpula maior, mas não uma mais bela", Michelangelo Buonarrotti.

500 anos Mas com um corpinho de 20 (sobretudo depois do modelo tridimensional em computação gráfica.)

David Michelangelo é o autor do retrato mais famoso, mas não o único, do herói bíblico e símbolo de Florença, que fazia do garoto que derrota o gigante sua própria imagem como cidade pequena frente aos invasores -- só não pergunte aos moradores de Siena, durante muito tempo submetida ao jugo de Florença, o que eles acham disso.
Donatello, por exemplo, tem duas versões, em mármore e em bronze (sendo esta a primeira representação em estátua dum nu masculino desde os gregos). Verocchio, o mestre de Da Vinci, também fez a sua, também em bronze... Mas nenhuma delas tem 4 metros de altura.

Renascimento Embora fique claro que, durante o Renascimento, houve um distanciamento do mundo espiritual em prol do mundo real como não havia na Idade Média (quando os santos eram retratados parecendo como santos, não como gente), consequência do fomento ao empirismo e à pesquisa científica, não se deve enxergar nessa separação um germe do desastre da vida moderna (quando as manifestações espirituais viraram tema de música pop e a vida contemplativa ficou completamente esquecida). Para chegar a essa conclusão, basta observar a amplidão da obra de qualquer grande nome renascentista, onde salta aos olhos o equilíbrio de técnica e arte, função e bom gosto, beleza e aplicação. Giorgio Vasari, por exemplo, era engenheiro, arquiteto, bolou decoração de interiores, pintava, desenhava e nas horas vagas ainda deu-se ao trabalho de catalogar seus pares nos dois volumes de Vida dos Artistas. O distanciamento do mundo espiritual não foi suficiente; seria preciso uma ruptura mais forte e posterior, separando técnica de arte e impondo a especialização como valor maior para se chegar à era moderna. A pergunta que se faz é: quando ocorreu essa ruptura? No iluminismo?

FonFon Você aí, quer se mudar para Veneza para fugir dos engarrafamentos? Não pense que vai se livrar assim. Cartaz campeão afixado num ancoradouro: Onda dopo onda, Veneza afonda. Também foi lá que eu vi a melhor inscrição de camiseta desta viagem: - internet, + cabernet.

Pêra Minha avó e minha mãe que me perdoem se lerem isto, mas lá pela metade tive a nítida convicção de que nunca mais comeria uma torta de chocolate tão deliciosa como aquela coberta por calda de pêra em Siena.

Atila for kids A presença de uma equipe de filmagem na Piazza San Marco acabou atrapalhando minha entrada no Palazzo Ducale, o palácio dos doges, mas eu não posso negar que a presença de figurantes caracterizados como cidadãos do século XVIII misturados ao povo do cinema e aos turistas, duas tribos tremendamente idiossincráticas, criaram uma mistura gozada e improvável, além de ajudarem minha imaginação a se transportar para os tempos de Casanova -- exatamente o personagem-título do filme sendo rodado. Como se isso fosse pouco, corria de boca em boca que a produtora era do grupo Disney. Casanova by Disney, convenhamos, não é exatamente o tipo de herói infantil que se espera. Todos os venezianos ridicularizavam sumariamente este fato, além de bem observarem a incoerência histórica de cavalos em cena, já que desde o século XII não havia equinos por lá. Além deste, estavam filmando na cidade um filme chamado Teft Lord. Deve ser terrível morar numa cidade tão cinematográfica assim.

Aliás III Veneza é uma daquelas cidades que se orgulha de sua depravação. Além de transformar a cadeia onde Giacomo Casanova esteve (e de onde fugiu) em roteiro turístico, ainda resolveu de maneira pouco ortodoxa o problema de não ter um santo padroeiro famoso: organizou-se uma pequena cruzada para roubar o corpo de São Marcos. O evangelista parecia ser a escolha perfeita: tinha estado em contato com o próprio Cristo e daria prestígio suficiente para a cidade fazer frente a Roma (onde estava o Papa) e Constantinopla, sede do Império Romano. Pobre São Teodoro, que teve de dividir o cargo.

Fumetti Sergio Bonelli é o Maurício de Souza italiano: Tex, Dylan Dog e Martin Mystére vendem em literalmente qualquer banca, embora eu não tenha visto muita gente lendo. Ken Parker está dois furos acima, em coleções encadernadas de capa dura nas livrarias. Tex virou instituição, ao cúmulo de ganhar uma exposição retrospectiva em Siena, provavelmente a mesma que esteve no Rio em 93. Andrea Pazienza tem edições especiais com suas sobras de prancheta, a morte elevou-o a mito provavelmente maior do que seu talento, como sói acontecer. Cheguei a ver alguns números de Frigidaire, o quase-fanzine que reuniu a turma do mal -- Scozzari, Pazienza, Tamburini, Mattiolli -- bastante calcado no underground estadunidense, muito dali evoca Crumb e Shelton. Massimo Matiolli já dizia a que vinha, Tamburini já era o selvagem que criara um dos personagens-símbolo dos anos 80, Ranxerox. Fillipo Scozzari, que sempre me foi o menos palatável de todos, andou passeando pela ilustração e design na década de 90 e agora voltou à tona, lembram dele? Mas o grande mestre do quadrinho italiano, o autêntico cappo a quem todos prestam reverência, chama-se Hugo Pratt, cujos álbuns de Corto Maltese marcam presença até em livraria de museu. O guia de Veneza mais vendido recentemente chama-se Corto Sconto, com itinerários mágicos inspirados pelos passeios de Corto Maltese em Fábula de Veneza.

Se Veneza fosse no Brasil Os pilotos de vapporetto aproariam sempre de maneira a fazer os gondoleiros pegarem onda de través, e comemorariam quando conseguissem virar uma gôndola. E qualquer rateada mais feia do motor do barco, os passageiros embalariam um "se a canoa não virar, olê olê olá", com direito a todas as variações coloridas que se sabe.

Dever de casa Reler Fábula de Veneza, de Corto Maltese, anotando nas margens. Rever Pão e Tulipas e Todos Dizem Eu Te Amo. Ler A História de Florença, por Maquiavel, Morte em Veneza e Agonia e Êxtase, de Irving Stone. Ver a a adaptação para cinema deste último. Reler toda a coleção de Bacchus, de Eddie Campbell, anotando as referências a clássicos. Reler Os Louros de César e todas as outras edições do Asterix onde a história se passa em Roma. Ver metade da filmografia do neo-realismo italiano. Rever La Strada e La Dolce Vita e ver Casanova e Roma, de Fellini. Ver também Chá com Mussolini. Para fechar a tampa, Suetônio.

Isso tudo sem falar numa certa gaúcha de olhos verdes que, ai.

anotado por Rafael - 09:46 PM

alfredinho

alfredinho do bip bip

Alfredinho do Bip-Bip na capa do Segundo Caderno de hoje: enfim parece que vai sair o folclórico CD de lá. Para minha mais absoluta felicida, foi incluída no repertório Reunião de Condomínio, de Paulinho do cavaco.

anotado por Rafael - 01:45 PM

outubro 13, 2004

quebra cabeças

Quebra-cabeças dinâmico.

anotado por Rafael - 10:46 AM

Fernando Sabino * 1923 + 2004

Conversinha Mineira (retirado do livro A Mulher do Vizinho)

-- É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?

-- Sei dizer não senhor: não tomo café.

-- Você é dono do café, não sabe dizer?

-- Ninguém tem reclamado dele não senhor.

-- Então me dá café com leite, pão e manteiga.

-- Café com leite só se for sem leite.

-- Não tem leite?

-- Hoje, não senhor.

-- Por que hoje não?

-- Porque hoje o leiteiro não veio.

-- Ontem ele veio?

-- Ontem não.

-- Quando é que ele vem?

-- Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.

-- Mas ali fora está escrito "Leiteria"!

-- Ah, isso está, sim senhor.

-- Quando é que tem leite?

-- Quando o leiteiro vem.

-- Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?

-- O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?

-- Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?

-- Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.

-- E há quanto tempo o senhor mora aqui?

-- Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.

-- Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?

-- Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.

-- Para que Partido?

-- Para todos os Partidos, parece.

-- Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.

-- Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...

-- E o Prefeito?

-- Que é que tem o Prefeito?

-- Que tal o Prefeito daqui?

-- O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.

-- Que é que falam dele?

-- Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.

-- Você, certamente, já tem candidato.

-- Quem, eu? Estou esperando as plataformas.

-- Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?

-- Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...

(Improvisei uma coisinha que está lá na edição de luto do Paralelos.)

anotado por Rafael - 10:45 AM