janeiro 31, 2005

spektro no burburinho

Ainda não retomei o ritmo de colunas no SoBReCarGa, mas desde sábado está no Burburinho um artigo com a história da Spektro, uma das melhores revistas de terror nacionais.

Aproveita que não é toda hora que se tem a chance de ler sobre Olendino Mendes, Ofeliano, Flavio Colin, Shimamoto, Cesar Lobo e Watson Portela num só lugar.

anotado por Rafael - 07:36 AM

janeiro 28, 2005

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas

Verão é época de sol, biquini e leituras leves, descontraídas, dionisíacas, especialmente sobre filosofia.

Há coisas simples e há coisas mal explicadas, e há coisas simplesmente complexas; por melhor que sejam explicadas, continuarão soando transcendentes. Resumir o livro Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas é uma tarefa que exige muito do explicador, exatamente porque trata-se de um livro complexo. Mas como o nome desse blog é na cara do gol, vou gastar aqui meus dois centavos para mostrar qual é a importância dele, até porque encontrei poucas entradas relativas a ele em português.

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas é a investigação intelectual em que Robert Maynard Pirsig se empenha durante uma viagem de moto para a costa oeste dos EUA, tendo o filho de 12 anos como carona, tomando como ponto de partida a repulsa a que o casal seu companheiro tinha em mexer na parte mecânica da moto deles.

Pirsig crê que esse nojo do casal por tecnologia indique uma visão de mundo romântica por parte deles, visão que tende a se concentrar apenas no "aspecto externo" das coisas em detrimento da função delas. Pirsig identifica que essa incapacidade em conciliar beleza estética e capacidade funcional é, ao mesmo tempo, uma das características mais típicas dos tempos modernos e um sintoma da crise desse tempo, crise que se acentuou sobretudo a partir do renascimento, quando o racionalismo passou a ser o foco das atenções (digressão minha: apesar de correto ao cravar o renascimento como ponto de inflexão dessa crise, naquele período ela ainda não estava tão desenvolvida, motivo pelo qual é possível perceber beleza numa cúpula de igreja projetada por Brunelleschi tanto quanto correção anatômica numa escultura de Michelângelo).

Diante dessa dicotomia, Pirsig começa a procurar um meio de superá-la, reestabelecendo o estado mental no qual não só beleza e função caminham juntas; mais do que isso, em que é impossível diferenciá-las. Para tal, começa a investigar a fundo as causas que levaram a essa separação, para descobrir quando a humanidade incorreu nela e reparar o erro. O resultado é apenas o estabelecimento de uma Metafísica da Qualidade, baseado no seu anti-conceito de Qualidade, algo nem subjetivo nem objetivo, uma força criadora que lembra muito o Tao e que serve de bússola tanto para a visão "romântica" quanto para a "clássica", porque gerar valor é o que querem o artista e o mecânico com seus trabalhos.

Para Pirsig, o homem ocidental se afastou de tal maneira dessa Qualidade ao longo dos séculos que tornou-se difícil até mesmo identificá-la hoje, seja nas artes, seja no "mundo prático". A meditação zen seria exatamente uma maneira de limpar a mente, eliminando essa separação e direcionando-a para a Qualidade; a boa manutenção de motocicletas seria outra maneira, a maneira ocidental -- daí o título do livro.

Todas as divagações, elucubrações e idéias que lhe ocorrem ao longo da narrativa são intermeadas por histórias, causos e miudezas do cotidiano entre ele e seu filho Chris, ao longo da viagem. É, portanto, um road book contendo a descrição de uma viagem (a servir de metáfora para a viagem intelectual que corre em paralelo), uma investigação filosófica, uma pequena novela sobre o relacionamento entre um pai de meia idade e um filho adolescente e um manual genérico sobre manutenção de motocicletas, além de ainda arrumar espaço para fazer uma consistente críticas às instituições, mormente a universidade, e para explicar onde Aristóteles e Platão traçaram os limites do mundo ocidental e, assim, expandir esses limites.

Chega, melhor que isso não consigo resumir. Como se vê, leitura perfeita para os miolos amolecidos pelo calor do verão. Não se espantem se eu insistir cansativamente em ter Qualidade daqui para a frente.

anotado por Rafael - 08:17 AM

que mané quarteto fantástico o quê!

V de vingança

anotado por Rafael - 08:13 AM

Pequenas alegrias de se manter um blog:

- descobrir que alguém não conseguiu abrir a página por ter sido barrada num firewall corporativo sob acusação de conter conteúdo erótico.
- receber a mensagem de um escritor veneziano, agradecendo pela citação ao livro dele e avisando que vem outro sobre os mistérios de Veneza por aí (grazie, Alberto).

anotado por Rafael - 08:06 AM

janeiro 27, 2005

fechando a questão

No Brasil, não existe exploração do turismo -- existe exploração do turista.

anotado por Rafael - 08:05 AM

fsm

É hilariante a apropriação de um evento político e ideológico – destinado a combater a mercantilização da vida – pelos agentes da conversão da existência em pura mercadoria.

anotado por Rafael - 08:02 AM

quem vem

Está chegando no Rio de Janeiro por esses dias o desenhista italiano Lorenzzo Mattotti. Vem para retratar o carnaval carioca em álbum para a editora Casa 21.
Mattotti é veneziano, ilustrador e quadrinhista, foi publicado no Brasil na revista Animal e recentemente, em ábum pela Conrad. Tem um álbum sobre o carnaval de Veneza.
Nunca é demais lembrar que, por essa mesma editora, já saíram álbuns sobre o Rio de Janeiro, pelo francês Jano (cuja execução inclusive gerou um documentário, Rio de Jano); Belo Horizonte, pelo espanhol Miguelanxo Prado e Curitiba, pelo carioca César Lobo, e que os próximos da lista serão cidades históricas mineiras, pelo mineiro Lélis; Salvador, por Marcelo "Gaú" Quintanilha e Belém, pelo francês Jean-Claude Dennis, não sei se exatamente nessa ordem.
São Paulo ainda não está prevista para ser retratada por desenhista nenhum.

anotado por Rafael - 08:00 AM

pai e filho

Já que ninguém mais se manifesta, vou soltar o gabarito. O camarada pilotando a moto aqui embaixo é Robert Maynard Pirsig e o carona é seu filho Chris. Pirsig percorreu estradas secundárias da "América profunda" numa motocicleta Honda ao longo de 1968, tendo por companhia, em parte da viagem, um casal amigo. Além de curtir as sutis transformações geográficas, aproveitou para costurar mentalmente um sem número de idéias que, após 3 anos dando tratos à bola para colocar no papel e mais de 100 rejeições de editores, tornou-se um dos mais notáveis sucessos editoriais da década de 1970: Zen and the Art of Motorcycle Maintenance. Um livro sobre filosofia, manutenção, qualidade, instituições e relações humanas que passou a ser adotado em vários cursos acadêmicos básicos de filosofia desde então. Ironicamente, quem tem mais chances de capturar sua essência é um estudante de ciências exatas, o que só prova a tese de Pirsig -- assunto para outra nota.

Acertaram o Nemo Nox, que caminha célere para o posto de hors concours aqui e o Almirante Nelson (ex-da praia). Três hurras para cada um.

anotado por Rafael - 07:51 AM

janeiro 25, 2005

quem são eles?

pai e filho na moto

Uma brincadeira que fez certo sucesso aqui, mês passado, foi a tentativa de identificar quem era os dois guapos que apareciam numa foto do tempo do onça. Dessa vez, não são cartunistas: o jogo é identificar quem são o pai e o filho -- ao menos, o pai -- da foto acima. Limito-me a dizer, a nível de dica, que a viagem na qual tiraram a foto inspirou um livro muito famoso e muito vendido*, e que se eles tivessem usado um, digamos, meio de transporte diferente o título do livro também seria diferente...

*quem chutar Jack Kerouac leva uma bifa.

anotado por Rafael - 07:55 AM

2005 - 10 = 1994???

Eu sei, o aniversário do mangue bit foi ano passado, era para a nota já ter sido publicada. Mas numas de ficar adiando, o ano se foi e acabei perdendo a efeméride perfeita. É que 1994 foi um ano particularmente marcante para mim. Assisti show dos Ramones. Vi aquela banda que se chamava Raimundos aparecer, com o Circo Voador inteiro cantando o refrão de Selim. Tirei minha carteira de motorista. Ganhei meu primeiro dinheiro trabalhando. Comecei a ler revistas em inglês, sistematicamente. Enviei e recebi meus primeiros emails. Conheci Lourenço Muttarelli, Flavio Colin e Julio Shimamoto. Parecia que a revolução, aquela revolução que não é televisionada, tinha chegado e eu estava ali, bem no meio de seu bojo, sem ninguém por perto para falar mal da globalização.
Mas nos anos que se seguiriam o mundo começaria a girar rápido demais, máscaras cairiam e nada seria de novo como antes.

anotado por Rafael - 07:37 AM

janeiro 24, 2005

10 anos: caranguejos com cérebro

[Dez anos do primeiro manifesto mangue bit. Mais de dez, aliás; Fred Zeroquatro, codinome de Frederico Montenegro, escreveu Caranguejos com Cérebro em 1992, embora o que ficou conhecido com a estética mangue bit só tenha aparecido em nível nacional mesmo em 1994. Além de uma visão, um conceito original, e de serem suficientemente articulados para assinarem um manifesto (Tom Wolfe aprovaria), o que mais chama a atenção no primeiro é a lista de interesses dos mangueboys e manguegirls do penúltimo parágrafo, praticamente um manual de ciber-ativistas que poderiam estar jogando pedras em Seattle, 1999, ou organizando um flash mob já no século XXI -- antecipado em quase dez anos. O segundo manifesto (assinado em parceria com Renato L.) já não tem mais o caráter visionário, é uma revisão do que havia ocorrido, e como, naqueles últimos 5 anos, a terceira parte quase uma releitura do primeiro manifesto. É interessante notar como os últimos parágrafos denotam uma radicalização no discurso de Zeroquatro, que se tornaria a tônica do Mundo Livre S/A dali em diante, ao eleger para modelos Sandino, Zapata, Zumbi e o subcomandante Marcos.]


CARANGUEJOS COM CÉREBRO

MANGUE, O CONCEITO
Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.

Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem do alagadiço costeiro.

Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.


Manguetown, a cidade
A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade *maurícia* passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.

Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de *metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.

Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.


Mangue, a cena
Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.

Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.

Segundo manifesto:

QUANTO VALE UMA VIDA

I - LONGA VIDA AO GROOVE!
Os alquimistas estão chorando. A indignação ruidosa de Lúcio Maia com a ferocidade carniceira da imprensa nos faz lembrar que nem tudo tem que ser movido a cinismo e oportunismo no - cada vez mais - cínico e vulgar circuito pop.

Antes de mais nada, salve Lúcio, Jorge, Dengue, Gilmar, Toca, Gira e Pupilo. Salve Paulo André e longa vida ao Nação Zumbi, com seu groove imbatível, mix epidêmico e urgente de química e magia que cedo ou tarde vai varrer o mundo!

A primeira vez que vimos Chico juntando a Loustal com o Lamento Negro (o embrião do que seria a Nação Zumbi, ainda no início de 91), comentamos arrepiados, eu e Renato L.:"não importa que estejamos no fim do mundo e sem dinheiro no bolso; não tem errada, não há nada no mundo que possa deter esse som!" Na nossa ficha, constava a produção de vários programas de Rock na cidade, onde nos esforçávamos para mostrar sons novos e interessantes de todos os cantos do mundo. E não havia dúvida de que naquele momento estávamos diante de algo absurdamente novo e irresistível. Começamos imediatamente a viajar num conceito capaz de colocar o Recife no mapa. É claro que houve momentos nos últimos anos em que chegamos a pensar que talvez tivéssemos ajudado a criar uma espécie de monstro incontrolável. Mas hoje sabemos que agimos bem, não poderíamos agir de outro modo.

- E agora, mangueboys?
Chico era referência e inspiração para muita gente, talvez para toda uma geração de recifenses. E a perda para a Nação Zumbi é irreparável em termos de carisma, energia vocal, gestual, etc. Ninguém questiona isso. Mas o que muita gente esquece é que a fórmula criada por Chico tinha uma base muito sólida em termos de cozinha, acompanhamento, groove. A maioria das pessoas desconhece alguns fatos. Quando eu conheci Francisco França, ele era o lado mais extrovertido da mais nova dupla do barulho da cidade. Chico e Jorge eram inseparáveis como unha e carne, egressos da "Legião Hip Hop", que reunia no final dos anos 80, alguns dos melhores dançarinos e djs que o Recife já conheceu ( alguém aí já viu Jorge Du Peixe dançando "street"? A galera que hoje em dia ensina funk nas academias de dança não daria nem pro caldo...).

Jorge sempre foi um pouco mais tímido, mas não menos engraçado, e os dois se completavam em termos de gosto, idéias, visão e criatividade. Chico sempre teve mais iniciativa e era, como todos sabemos, um letrista formidável. Mas alguém aí se lembra quem é o autor da letra do clássico "Maracatu de Tiro Certeiro"? Isso mesmo, Jorge Du Peixe...

Quanto a Lúcio Maia, qualquer um que acompanhe a Guitar Player, sabe que é cada vez maior o número de pessoas que o consideram um dos mais talentosos e ecléticos guitarristas brasileiros, uma verdadeira revelação dos últimos tempos. Dengue, então, é aquele baixista contido, discreto, mas super-eficiente. Desde os tempos do Loustal, ele sempre conseguiu encaixar a levada perfeita para o estilo fragmentado dos versos de Chico. E quanto aos tambores e à bateria, nem é preciso comentar. Não se via, no rock and roll, uma engrenagem tão potente e envenenada desde a morte de John Bonham.

Quando toda a crítica brasileira caiu de quatro sob o impacto avassalador do "Da Lama ao Caos", houve no Recife quem apostasse que Chico despontaria em carreira solo já no segundo disco. Argumentavam que, por um lado Chico tinha luz própria de sobra e por outro a fórmula do Nação Zumbi não renderia mais nada interessante, pois já teria se esgotado. Eu e Renato torcemos para que acontecesse o contrário, para que Chico não se rendesse à vaidade pessoal e injetasse todo gás possível no fortalecimento da banda. Ele não decepcionou, mostrou que não era nem um pouco ingênuo ou deslumbrado e que sabia muito bem do que precisava para se manter no topo. O resultado foi o brilhante "Afrociberdelia", um trabalho coletivo - com Lúcio mais ativo do que nunca do que nunca na produção.

Portanto, se existe uma banda que tem total autoridade e potencial para ocupar condignamente o lugar que o inesquecível Chico Science deixou vago no topo, essa banda é sem dúvida a Nação Zumbi. Por sinal, o próprio Chico nem cogitava em dar por esgotado o formato da banda, tanto que já planejava entrar com os brothers no estúdio ainda este ano para gravar o terceiro disco. LONGA VIDA AO GROOVE!!!

II- BUSCANDO RESPOSTAS
"Something is happening here, but you don´t know what it is. Do you, Mr Jones?" Essa frase de Bob Dylan me vem à mente sempre que eu penso no tom de alguns comentários publicados nos maiores jornais do país a respeito da morte de Chico. Talvez com intenção de pintar o fato com as cores mais chocantes, expurgando, assim, a dor e a revolta da perda, as matérias acabavam invariavelmente emitindo um tom derrotista ou até desolador.

Se o caso é especular sobre o que pode acontecer daqui em diante, o mais oportuno seria tentar identificar na história do Pop, fatos ou situações semelhantes que possam servir de exemplos. Em se tratando de movimentos de cultura Pop; gerados em focos isolados; situados na periferia do mercado; e com reconhecimento mundial, os fenômenos mais correlatos ao Mangue Beat que se tem notícia - ainda que os estágios de desenvolvimentos sejam distintos - são a Jamaica pós-Bob Marley e Salvador pós-Tropicalismo.

Sobre Salvador, minha experiência como mangueboy me diz que o Tropicalismo não surgiu lá por acaso. Nada no mundo poderia ter impedido o caldo cultural da cidade de gerar posteriormente (e na seqüência) os Novos Baianos, A Cor do Som, os trios elétricos, a Axé Music, o Samba - Reggae, a Timbalada, etc.

Também não foi por milagre que a Jamaica se tornou berço do Calipso, do Ska, do Reggae, do Dub, do Raggamuffin e de todas as variantes do Dancehall que hoje, quase 20 anos depois da morte de Marley, contaminam as paradas de sucesso de todo o mundo.

Esses dois fenômenos foram condicionados por combinações específicas de fatores geográficos, econômicos, políticos, sociológicos, antropológicos, enfim, culturais, cuja história eu não seria capaz de analisar. Mas em se tratando de focos isolados que a partir de um determinado estímulo geram uma reação em cadeia capaz de contaminar toda a história futura de uma comunidade, meu depoimento talvez possa ser útil.

III- UMA VISITA MUITO ESPECIAL
Lembro-me muito bem do nervosismo que tomou conta da cidade quando, em 93 (logo após o primeiro Abril Pro Rock), a diretoria da Sony anunciou que mandaria um representante ao Recife para contratar Chico Science... Fun! Fun! Zoeira Total! Diversão a qualquer custo, e a mais barulhenta possível! Esse havia sido o nosso lema quando, dois anos antes, sentindo o descompasso - o fundo do poço, o infarto iminente - , resolvêramos tentar de tudo para detonar adrenalina no coração deprimido da cidade. Depois de vários shows e eventos muito bem sucedidos, e do manifesto "Caranguejos com Cérebro" ( que transformou, de uma hora para outra centenas de arruaceiros inocentes em "mangueboys" militantes ), parecia que a cidade realmente começava a despertar do coma profundo em que esteve mergulhada desde o início da guerra dos 80.

Parêntese: não é exagero. Segundo os levantamentos mensais do DIEESE, Recife conseguiu manter sem muito esforço a impressionante e isolada posição de campeã nacional do desemprego e da inflação por nada menos que dez anos seguidos!!! Imaginem o efeito devastador que uma situação como essa pode provocar na alma de uma comunidade com mais de 400 anos de história e que só neste século havia gerado nomes da dimensão de Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Josué de Castro e João Cabral de Melo Neto. Para nós, que mal havíamos saído da adolescência só restavam duas saídas: tentar uma bolsa na Europa ou ganhar as ruas...

Então, a chegada da Sony representava uma espécie de prêmio coletivo. O significado simbólico era que finalmente podia estar se abrindo um canal de comunicação direta com o mercado mundial, como os caranguejos do asfalto haviam almejado em seu primeiro manifesto. Para todos os agentes e operadores culturais que viam seu talento e potencial atrofiados pela desmotivação, era o estímulo concreto que faltava. Afinal, queiram ou não, discos pop lançados por multinacionais movimentam várias áreas de expressão ao mesmo tempo: moda, fotografia, design, produção gráfica, vídeos, relações públicas, assessoria, imprensa, marketing, música,etc.

Daí em diante, pode-se dizer que teve início um efetivo "renascimento" recifense. Todo mundo gritou mãos à obra! e partiu para o ataque. As ruas viraram passarelas de estilistas independentes; bandas pipocaram em cada esquina; palcos foram improvisados em todos os bares; fitas demo e clipes novos eram lançados toda semana, e assim por diante, gerando uma verdadeira cooperativa multimídia autônoma e explosiva, que não parava de crescer e mobilizar toda a cidade. De headbangers a mauricinhos, de punks a líderes comunitários, de surfistas a professores acadêmicos, ninguém ficou de fora. Para se ter uma idéia, a frase " computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro" ( Mundo Livre SA ) virou tema de redação de vestibular de uma faculdade local.

IV - MANGUETOWN, 5 ANOS DEPOIS
O renascimento segue de vento em popa. A noite mais concorrida do último Abril Pro Rock foi a que reuniu três bandas locais. Mais de cinco mil pessoas pagaram ingresso e enfrentaram uma chuva intensa para aplaudir e cantar junto com Mundo Livre SA, Mestre Ambrósio e Chico Science e Nação Zumbi. O festival "Viva a Música", realizado em setembro passado, reuniu mais de 50 novas bandas. O disco de estréia da campeã, Dona Margarida Pereira e os Fulanos, está em fase de gravação. O programa Mangue Beat (Caetés FM 99.1) ocupa há 2 anos os primeiros lugares de audiência, tocando fitas demo e lançamentos locais, além de novidades de todos os cantos do planeta. O "Manguetronic", um programa de rádio idealizado especialmente para a Internet, vem se firmando como um dos sites mais acessados do Universo on Line. Os últimos cds do Chico Science e Nação Zumbi e do Mundo Livre SA e a estréia do Mestre Ambrósio figuraram na lista dos dez melhores do ano da revista Showbizz. Estão em fase de finalização os aguardados albuns de estréia das bandas Eddie e Devotos do Ódio. O Abril pro Rock 97 entrou pela primeira vez no calendário de eventos oficiais do Estado, ganhando assim uma ampla divulgação nacional e uma infra-estrutura mais organizada. A estréia em longa-metragem dos cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Paulo Caldas - o filme "O Baile Perfumado", cuja trilha é assinada por Chico Science, Siba (do Mestre Ambrósio) e Zero Quatro - ganhou vários prêmios, entre eles o de melhor filme, no último Festival de Cinema de Brasília. O estilista Eduardo Ferreira já recebeu vários prêmios nas últimas edições do Phytoervas Fashion. O Mundo Livre S.A. acaba de fazer 4 shows e um clipe no México, devendo participar de vários festivais europeus no segundo semetre...

(Pausa para respirar)

Temos como objetivo imediato pressionar a Prefeitura do Recife para tirar do papel e colocar no ar a rádio Frei Caneca FM, uma emissora sem fins lucrativos cujo orçamento para 97, ao que parece, já foi aprovado pela Câmara Municipal. Afinal, o único e mais difícil obstáculo que ainda não superamos foi o das rádios comerciais. Sabemos que na Jamaica e em Salvador foi preciso o uso até de ações violentas para pressionar os disc-jóckeis. No estágio atual, não achamos que recursos sejam necessários. O Popspace não é invulnerável e a história está do nosso lado.

Quem acompanhou no Recife as últimas homenagens a Chico, sentiu a força de um compromisso coletivo. Hoje cada recifense tem no olhar um pouco de guerrilheiro da Frente Pop de Libertação. E o recado que queremos enviar para o mundo não é muito diferente daquele que nos mandam as comunidades indígenas de Chiapas- que têm no subcomandante Marcos o seu porta-voz. VIVA SANDINO! VIVA ZAPATA! VIVA ZUMBI! A utopia continua...

"- Quanto vale a vida de um homem, em quanto cada um avalia a sua própria vida, a troco de quê está disposto a mudá-la? Nós avaliamos muito alto o preço de nossas vidas. Valem um mundo melhor, nada menos. Homens e mulheres, dispostos a dar suas vidas, têm direito a pedir tanto quanto valem. Há os que avaliam suas vidas por uma quantidade de dinheiro, mas nós a avaliamos pelo mundo, esse é o custo do nosso sangue..."
Subcomandante Marcos

anotado por Rafael - 10:00 AM

programas

A cena: meu irmão se esborrachando de rir diante de um programa na televisão, depois do almoço de sábado.
O programa: um especial de verão sobre de São Paulo, a capital mesmo, nada de Maresias ou Guarujá.


* * *

Caminhando no domingo, percebo uma aglomeração de adolescentes portando suas tábuas com rodinhas perto do parque dos patins na Lagoa: era Bob Burnquist, cujas manobras que acompanhei pela televisão recém-conquistaram-lhe um campeonato de skate. Bacana esbarrar um campeão mundial assim.

anotado por Rafael - 08:52 AM

vai ser um longo ano

Sou brasileiro flamengo e não desisto nunca.

anotado por Rafael - 08:42 AM

janeiro 21, 2005

+ 2 jaguar

Mais dois cartuns do septuagenário Jaguar:

jaguar: freud

jaguar: peixe

anotado por Rafael - 08:53 AM

ainda eisner

Marcelo Tavela manda avisar: espalham-se pela rede mensagens sobre a perda de Will Eisner.
Maurício de Souza explica porque Eisner fez os quadrinhos que ele queria ter feito.
Flávio conta como descobriu The Spirit no Gibi semanal.
Neil Gaiman relata os bons momentos juntos.
Mark Evanier tenta explicar sua importância.
E o site oficial expõe desenhos e mensagens de condolência recebidas.

anotado por Rafael - 08:50 AM

sebastião, de roma para o Brasil

Ontem foi dia do padroeiro do Rio de Janeiro, São Sebastião, um dos santos católicos mais adorados, talvez por sua história de martírio -- Sebastião foi um centurião romano do tempo de Diocleciano que se converteu ao cristianismo e foi condenado a servir de alvo para os arqueiros mauritanos, pena que tornou-se uma espécie de marca registrada de sua iconografia, afinal são inúmeros os quadros em que ele aparece envolto apenas numa toga mínima e espetado por flechas, mesmo fora de contexto (em quadros da natividade, por exemplo). O curioso é que nesses quadros, os outros santos também aparecem identificados caracteristicamente: São Marcos vem ladeado por um leão, São Pedro carrega uma chave e assim por diante. Voltando, São Sebastião faz parte da galeria de mártires que sucumbiram ao império romano nos primeiros tempos de cristianismo, assim como São Lourenço.

Diga-se de passagem que as flechadas não foram suficientes para dar cabo de Sebastião, que foi salvo e tratado por Santa Irene. Ao se recuperar, apresentou-se de novo ao imperador, que retribuiu a bondade condenando-lhe de novo à morte, dessa vez com pauladas. Sebastião foi sepultado numa das catacumbas da Via Apia, estrada fora dos muros de Roma cujas catacumbas eram usadas como refúgio e esconderijo pelos primeiros cristão. Uma igreja marca o local de seu enterro e guarda seus restos mortais, além de uma das flechas que teria penetrado seu corpo. É uma das sete igrejas de Roma que guarda relíquias sagradas de mártires católicos.

No Brasil, São Sebastião chegou através de imagens trazidas pelos portugueses, aludindo o jovem rei Sebastião de Portugal, desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir. Estácio de Sá, fundador do Rio de Janeiro, teria contado com a ajuda do santo para expulsar os invasores franceses, apesar de ter morrido, ironicamente, com uma flechada. Uma estátua gigante lembra seu martírio onde ficava a praia da Glória, antes do Aterro do Flamengo ser feito, para onde migra a procissão anual.

Seu retrato, cunhada no renascimento, de sofrimento e flechas extrapolou significados através dos tempos. Imagens feitas na Índia, graças à catequese de missionários franciscanos e jesuítas, mostram Sebastião quase a dançar como khrisna, deus da dança. As flechas o remetem a Shiva, que também teria morrido flechado segundo a tradição hindu. No candomblé, é identificado com Oxóssi, caçador iorubá que matou um enorme pássaro negro com uma única flecha. Em 1964, o cartunista Fortuna usou-o em notável cartum, retratando o clima de perseguição política da época, onde gritava, crivado de flechas: "Já disse que não sou comunista!". Como se isso fosse pouco, Sebastião também é alegado como padroeiro pelos homossexuais, porque teria sofrido seu castigo por recusar-se a ter relações com o imperador; para eles, sua imagem também é um retrato do sado-masoquismo: Salvador Dali costumava assinar, ao redor de 1927, sua cartas para Garcia Lorca como São Sebastião (quando Lorca desenhou um São Sebastião), D’Annunzio chegou a pedir para sua amiga Olga Assani para amarrá-lo nu a uma árvore no jardim da Villa Medici, dando à sua obsessão por São Sebastião contornos com seu próprio corpo.

São Sebastião é o santo protetor contra as pestes.

anotado por Rafael - 08:40 AM

janeiro 18, 2005

torso

o de belverdere e o de horizontina

anotado por Rafael - 08:08 AM

idiossincrasia

Oscarito que certa vez, numa comédia, acariciou a barriga inchada depois de uma feijoada, fez uma carinha fofa de felicidade, e disse para o mesmo Grande Otelo que agora me estava ao telefone:
“Uhmm, estou com uma idiossincrasia”.

[Joaquim Ferreira dos Santos nO Globo de ontem]

anotado por Rafael - 08:06 AM

coitado do sequestrador

Malandragem deu um tempo.

anotado por Rafael - 08:05 AM

janeiro 17, 2005

pedra da gávea

São Conrado

A turma escolheu o domingo mais quente do ano para subir a Pedra da Gávea. Para quem não conhece, a Pedra da Gávea distingue-se no recorte da paisagem por seu topo quadrado, tal como um posto de observação, que nos navios recebe o nome de gávea (aquele cesto de onde alguém grita "terra à vista!"). Essa foto aí em cima mostra principalmente São Conrado, o bairro que fica entre o morro Dois Irmãos e a Gávea. Os prédios mais altos são condomínios, aquele mais baixinho em forma de U é o shopping São Conrado Fashion Mall e pouco se vê da zona sul, ocultada pelo Dois Irmãos. O formigueiro humano que se espalha em todas as direções -- Gávea (o bairro), Floresta da Tijuca, São Conrado -- é a favela da Rocinha. A hora mostrada na foto é para valer, os fanáticos chegaram lá cedo mesmo.
Rocinha

A proporção da Rocinha em relação ao resto do bairro só pode ser compreendida através desta vista superior (a Pedra da Gávea é mais alta do que o Dois Irmãos, embora não pareça, de alguns pontos da cidade. Ilusão semelhante acontece com o Corcovado). Apesar do Dois Irmãos, dá para ver o Jóquei Clube, a Lagoa Rodrigo de Freitas e parte da praia de Ipanema.
Clica para ver toda a extensão da Zona Oeste

Recortei esse trechinho do começo da Barra da Tijuca apenas para mostrar como os condomínios fechados mudaram o perfil da construção civil no bairro: note que, no primeiro trecho, mais antigo, o gabarito é mais baixo e mais adensado, assemelhando-se aos outros bairros urbanos da cidade. Adiante, os imensos prédios verticalizam e espalham a paisagem, transformando a cara da Barra. Se a zona sul fica oculta pelo Dois Irmãos, a zona oeste se descortina em toda sua amplidão: Recreio dos Bandeirantes, Vargem Pequena, Madureira, dando um significado diferente à expressão até onde a vista alcança, pouco atrapalhada pela poluição. Clica para ver a imagem completa!
gavea_costabrava.jpg

Clube Costa Brava e parte do Elevado do Joá, que se cruza entre os túneis sob o Dois Irmãos e a Gávea e de onde se tem uma das imagens mais espetaculares do litoral carioca. Clica para ver a imagem mostrando o Elevado do Joá quase todo.
Subi a Pedra da Gávea em 2002 e desde então me bate uma sensação diferente quando miro sua silhueta no horizonte: "já fui lá em cima..."

anotado por Rafael - 10:17 AM

ah, a imprensa!

Verão é tempo de praia, sol e bate-boca, e para inaugurar, o primeiro quebra pau do ano é entre Diogo Mainardi e Jorge Furtado. Entre Mainardi e Furtado, eu fico com Nemo Nox. Ser um murrinha irritante não invalida as críticas do Diogo Mainardi, da mesma forma que ser um cabra sangue bom e fazer filmes criativos de boa qualidade não credencia Jorge Furtado a receber dinheiro do governo para fazer seus filmes. Eu gosto dos filmes dele, mas toda vez que pago meu ingresso para ver um de seus filmes, não consigo frear a impressão de que estou pagando pela terceira vez -- a primeira, através do dinheiro que o governo lhe deu; a segunda, pelo imposto trocado por patrocínio das empresas privadas.
Estatística apenas para constar: Diogo Mainardi nunca perdeu um processo que tenha levado por causa de suas colunas na Veja.


* * *

a última do polzonoff
Estou fazendo uma matéria sobre Macunaíma e o caráter do brasileiro e preciso, com URGÊNCIA, de psicólogos, antropólogos, sociólogos e leitores esclarecidos que possam responder a algumas poucas perguntas, por e-mail mesmo. A entrevista pode ser feita também pelo MSN paulo@polzonoff.com.br
(direto do ALLLexandre)

anotado por Rafael - 07:41 AM

janeiro 14, 2005

mandrake reestabelece os bons termos

mandrake reestabelece os bons termos

anotado por Rafael - 07:01 AM

chegaram

Parece que dois dos lançamentos do ano passado mais aguardados (por mim) se concretizaram: a Conrad lançou A Grande Caçada aos Tubarões, de Hunter S. Thompson e a José Olympio, a versão revista do Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna (apesar dele não aparecer no site da Record, já está à venda na FNAC). O primeiro certamente vai atrair comentários dos mais ignorantes do tipo, "mas isso não é gonzo", tal como aconteceu com Hell's Angels, já que trata-se da compilação das primeiras reportagens de Thompson, quando ainda esboçava o estilo (só chegaria nele de fato algumas drogas e prazos estourados depois), inclusive uma passada no Rio de Janeiro pré-64, Tiroteio no Brasil. Não é gonzo mas tem incisividade, violência e invenção como poucos jornalistas souberam fazer. Já o livro do Suassuna é considerado o melhor romance brasileiro de todos os tempos por Millôr Fernandes.

Ah sim: o livro do Thompson veio com The Kentucky Derby is Decadent and Depraved, considerado oficialmente o artigo inaugural gonzo.

anotado por Rafael - 06:59 AM

janeiro 13, 2005

e que se dane a reputação intelectual

Eu adoro a Orquestra Imperial. Nem todo o hype, os mudernos, o povo em eterno-concurso-para-ser-cool, os chatos ou o Caetano Veloso infestando sua órbita conseguem estragar o meu apreço. E não é só por causa de Nina Becker e Thalma de Freitas, que fariam um bom café com leite. Admiro a singeleza desta letra de Rubinho Jacobina, estreada na temporada atual pré-carnavalesca do Circo Voador (ler em ritmo de marchinha):

À toda Orquestra Imperial
Com crase
Com crase
A toda Orquestra Imperial
Não tem crase
Não tem crase!
A toda Orquestra Imperial
Não tem crase não
A toda Orquestra Imperial
Não tem crase nem lá no Japão

Tem segundo e terceiro versos também, os quais não consegui decorar. Rubinho Jacobina também escreveu a letra de uma música cuja primeira audição em foi inesquecível, na época em que vinham CDs encartados na revista Trip. Foi numa edição especial -- que eu lembre a única -- em que o CD misturava música e texto declamada: eram gravações de gente do CEP 20.000, "Centro de Experimentação Poética", espécie de jogral pós-moderno que rola no Espaço Cultural Sérgio Porto (desdobrado em CEP 20mílsica, com a apresentação de bandas). Pois lá no meio tinha essa composição chamada "Artista é o K" que só não me levou à epifania porque eu surtei de tanto rir, antes. Sei que a publicação dela vai me empurrar para outra classificação etária, mas vale a pena, essa tem levada de rock:

Eu sou bom de cama, sei fazer café
E ninguém reclama do meu cafuné
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Eu sou bom de bola, jogo com calor
Canto na viola sempre com amor
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Canto no banheiro sem vacilação
Já ganhei dinheiro na televisão
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Gosto de cinema, gosto de dançar
De fazer poemas em papel de bar
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Já entrei na lista de uma tal mulher
Que é capoeirista e tem samba no pé
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

anotado por Rafael - 07:52 AM

o tempora, o mores

Nos final dos anos 1960, o lema que Thimoty Leary cunhou para divulgar o uso do LSD, após suas experiências com psilocibina, era: Turn on, Tune in, Drop out. Drop out = cair fora, se mandar, sair. Essa semana, uma reportagem do Jornal Nacional exibiu uma apreensão recorde de sintéticos (Ecstasy, MDMA) no Brasil, mostrando, em seguida, num infográfico, que "os jovens usam a droga para dançar". Dançar: se relacionar, se integrar, se expressar.

Antes a droga era usada para escapar, para fugir do ambiente em que se encontravam. Hoje, eles a usam para entrar, para se misturar, para fazer parte deste ambiente.

anotado por Rafael - 07:43 AM

Renée French lives a mysterious life in and out of New york city

Parte da graça de Café e Cigarros não existiria se os atores não fossem tão conhecidos, porque a brincadeira aqui é vê-los zombando da própria notoriedade: Tom Waits procurando as músicas de Iggy Pop na jukebox, Bill Murray e Steve Buscemi como garçons, Alfred Molina babando o ovo de Steve Coogan, os irmãos White tirando uma de cool e até Cate Blanchett posando de famosa-que-não-esqueceu-dos-parentes; se bem que os episódios que tem roteiro, mesmo que sobre nada, acabam sendo os mais interessantes (como o da própria Cate): os dois velhinhos com o guri que não fala, o que quer fingir que o café é champanhe, o amigo que acha que o outro está escondendo algo, quando ele lhe diz que não há problema e, claro, aquela que nem precisa falar para dar um bom curta: Renée French. Até esqueci da Eva Green...

anotado por Rafael - 07:34 AM

janeiro 12, 2005

o triste mundo da burocracia

O aspecto mais trágico do tsunami que atingiu a Ásia é o patético desempenho dos burocratas ao redor do mundo, resumido na revista Carta Capital desta semana.

O comandante de uma base aérea na Índia, quando soube que um tsunami havia atingido Nicobar, enviou um fax ao ministro de Ciência e Tecnologia. O pessoal do Centro de Advertência de Tsunamis no Havaí não tinha o número de ninguém da Ásia na agenda. O serviço meteorológico da Malásia levou 3 horas para enviar um fax às filiais da costa, que a essa altura estavam embaixo d'água. Sismólogos tailandeses estavam em um congresso quando receberam a notícia, mas decidiram não fazer nada, porque em 1998 deram um alarme de um tsunami que jamais chegara e todo mundo foi demitido.

Um terremoto enviar a energia de 30 mil megatons sobre praias em dez países e matar mais de 160 mil pessoas como se tira o pó de cima da mesa já seria chato o suficiente para seres conscientes de sua própria impotência ante a natureza. Agora, saber que uma boa parte das pessoas morreu porque um sujeito no Havaí não pensou em ligar para o 102 é profundamente desestimulante. Isso para não falar nos burocratas pusilânimes tailandeses, temerosos de perderem seus empregos no Estado - o que seria um ótimo argumento pela privatização, se funcionários do setor privado não fossem ainda piores. Nada pior do que perceber-se nas mãos de completos imbecis.

[Nota completamente roubada do Martelada, hábito do qual simplesmente não consigo me livrar]

anotado por Rafael - 07:29 AM

janeiro 11, 2005

cervejas: jupiler

jupiler

Os homens sabem por que, hohoho

anotado por Rafael - 07:49 AM

algumas coisas interessantes

1) Trechos do diário inédito que Lima Barreto escreveu quando estava internado num manicômio. Se isso vem ao caso, Lima Barreto é o escritor brasileiro predileto de Diogo Mainardi.

2) Perfil de Marlon Brando por Truman Capote, que foi um dos inventores da técnica do new journalism com A Sangue Frio.

3) Entrevista de Miles Davis à Playboy em 1962, quando Hugh Hefner ainda escrevia a Filosofia Playboy, Miles Davis ainda tocava em seus shows e a Playboy ainda não mostrava nu frontal.

4) Ensaio sobre Corto Maltese e entrevista com Hugo Pratt, minha última devoção em quadrinhos.

5) Todas as capas da revista Mad, desde 1952, mais de cinquenta anos. (via meu pai)

6) Completíssimo arquivo MP3 com vozes pertencentes ao imaginário sonoro brasileiro. (idem)

anotado por Rafael - 07:47 AM

janeiro 10, 2005

aberturas

Certas conversas dispensam mais do que 3 movimentos verbais para que os interlocutores se entendam; nisso, se assemelham a uma abertura de xadrez, onde o peão a tantas casas da dama identifica uma defesa indiana qualquer, ou ao gingado da capoeira, quando os dois lutadores estão sacando o que o adversário quer -- supondo-se que pode haver ali uma luta pra valer, e não aquelas trocas de golpes acrobáticas no ar para turista ver, que a maioria das pessoas toma pela própria luta --, lutar ou brincar. É mais ou menos a isso o que os locutores de boxe se referem quando falam que os pesos-pesados estão se "estudando", só que, nesse caso, praticamente apenas no terreno intelectual que a aproximação acontece, mesmo que pequenos contatos físicos possam inteferir no andamento.

anotado por Rafael - 08:06 AM

memes de rua

Coisas de que eu gosto nos blogs: a capacidade de registrar o mundo ao seu redor. Quando a Patricia falou em street memes, mencionou que aquilo ainda não estava tão disseminado por aqui. Em termos, já na época era possível encontrar vários grafites e alguns adesivos repetidos pela cidade, inclusive esses dois, bem freqüentes. Também dá para ver interferências em placas de trânsito, particularmente uma perto do Empório, numa esquina da Prudente de Morais, além de grafites no Paço Imperial, no tapume da Igreja do Carmo, em várias esquinas da Voluntários da Pátria e depois da Fonte da Saudade, essas só as mais óbvias; se você tiver olho bom, encontra muitos outros por aí.

anotado por Rafael - 07:53 AM

elegia para eisner no sobercarga

Como se o obituário fosse pouco, transformei-o numa elegia para Will Eisner no SoBReCarGa, desde sexta-feira passada no ar.
Vejam também o que o prof. Moacy Cirne escreveu. E o obituário da The Economista para ele.

Correção: o leitor Bruno Alves avisou que Will Eisner esteve no Nordeste, mais precisamente em Pernambuco, em 2001 e não na década de 90, o que faz de sua vinda ao Rio em 1999 a penúltima, e não a última viagem ao Brasil.

anotado por Rafael - 07:43 AM

branco

Para minha mãe, "branco" é um indicativo da identidade alheia tão relevante quanto "honesto", "inteligente" ou "divertido". A propriedade de estar (ou não) bronzeado é, para ela, um dado tão relevante quanto a personalidade ou o caráter da pessoa, "fulano dos anzóis carapuça é muito bonzinho, mas é branco". "Viu, Rafael, sicrano é estudioso, inteligente e não é branco". Pior que "branco", só mesmo "branco de olheiras", o limiar da degradação humana, seja lá o que for.
Só quando chega essa época do ano, em que o amarelo-tubo-catódico (também conhecido como bicho-do-queijo) é substituído pela tez de corte mais acobreado é que eu a entendo.

anotado por Rafael - 07:40 AM

janeiro 07, 2005

Peixe no Humaitá

Todo ano eu fico arrumando motivo para falar mal do Humaitá pra Peixe. Não que o festival não revele talentos ou traga bons shows; pelo contrário -- a qualidade média das bandas, normalmente em primeira exibição, justificam a presença. O que me irrita são aquelas bandinhas posando de alternativas e loucas para assinar contrato com uma grande gravadora, são as declarações de rebeldia e autenticidade ("a gente só toca o que quer") contrapondo-se a apresentações milimetricamente ensaiadas, afinal, tem olheiros daquelas gravadoras presentes; é o público metido a indie e muderno, que protesta contra o mercado mas faz vista grossa para as multinacionais patrocinadoras, e que se acha muito ativista por vaiar a rádio que divulga o evento, mas não veicula bandas novas; enfim, é o clima de conivência e conchavo geral, de mundinho que existe no ar.
Ah, mas esse ano nem precisei procurar muito: na página de curiosidades, encontrei a seguinte menção: "Este ano, pela primeira vez, o Festival conseguiu viabilizar o patrocínio via Lei de Incentivo à Cultura." É isso aí, contribuinte carioca! É o seu imposto ajudando a descobrir novos nomes da Música Popular Brasileira!

anotado por Rafael - 07:05 AM

janeiro 05, 2005

Will Eisner * 1917 +2005

will eisner

Luto oficial de 3 dias por aqui, com a notícia da morte de Will Eisner. Descesse um marciano à Terra hoje, eu usaria Will Eisner para explicar o que é história em quadrinhos -- não foi à toa que seu nome virou prêmio de qualidade na indústria de quadrinhos.

A maior parte dos obituários não conseguirá explicar exatamente onde e como Will Eisner fez a diferença para a história dos quadrinhos. Por exemplo, ainda um jovem e desconhecido desenhista, antes da criação do The Spirit, antes mesmo de fundar estúdio com Jerry Iger, foi-lhe oferecido pela Máfia o trabalho de desenhar os chamados eight pages, gibis pornográficos com sátiras aos personagens famosos dos quadrinhos de então, distribuídos clandestinamente. Eisner recusou, anos depois confessando que aquela fora a decisão mais difícil de sua vida (essa história é contada em The Dreamer). Quando fundou um estúdio de produção de quadrinhos junto com Jerry Iger -- o nome de Eisner vinha na frente, Eisner & Iger, porque era dele a maior parte do capital investido -- no final da década de 30, já enxergara a demanda do mercado por histórias completas: as primeiras revistas limitavam-se a compilar tiras diárias publicadas em jornal, cuja periodicidade não era suficiente para alimentar as revistas, surgindo, assim, um mercado para histórias novas, completas, produzidas exclusivamente para essas revistas.

Mais do que talento para fazer quadrinhos, Eisner tinha o tino para ordenhar financeiramente esse talento. Nesse estúdio, Eisner decupava e esboçava todas as páginas, passando-as para outros completarem os desenhos, fazerem a arte-final e as letras; entre esses outros, estavam apenas Jack Kirby, que depois criaria o Capitão América e metade dos heróis da Marvel, e Bob Kane, que criaria o Batman. Não foi o único estúdio capitaneado por ele; durante os anos da II Guerra, quando estava alistado, fazendo quadrinhos didáticos para o exército, deixou The Spirit a cargo de gente como Wally Wood (que levou o personagem para a Lua), Jack Cole (criador do Plastic Man) e Jules Feiffer, que arriscou os primeiros traços solo numa tira chamada Clifford, que completava a página de The Spirit. Quando a Fantagraphics relançou todos os cartuns de Feiffer nuam coleção de álbuns, Eisner diria na contracapa que Feiffer era um exemplo por ter ultrapasso o nível de respeito que os autores de Hq costumavam ter, por ter sido o primeiro a frenquentar a "cidade alta". Mas foi nas tiras de Clifford e nos roteiros de The Spirit que Feiffer afiou seu talento.

No começo da década de 50, Eisner abandonou o personagem que lhe daria tanto nome, em troca da publicidade, como tantos desenhistas o fariam, mesmo no Brasil durante os anos 60 e 70. Nunca mais voltaria a fazê-lo, a menos de edições especiais como The Spirit Jam, na década de 80, uma franca homenagem onde cada quadrinho foi desenhado por todo mundo que era alguém no mercado da época. Há alguns anos, concedeu que cederia o personagem para novas histórias, contanto que elas fossem produzidas pelos melhores nomes em ação. Um editor apareceu-lhe com páginas feitas por Alan Moore, Dave Gibbons, Eddie Campbell, Neil Gaiman e Eisner teve que capitular frente ao escrete de ouro, mesmo que a revista não tenha tido muitas edições.

Quando voltou aos quadrinhos com Contract with God, em 1977, estava mais surfando na onda das novas tendências que observara do que, ele próprio, desbravando o terreno, como em 1941. Eisner notara que havia autores explorando os quadrinhos como mídia apropriada para o chamado conteúdo adulto, a "contrapartida social", especialmente entre os autores do underground -- Robert Crumb, Art Spiegelman, Denis Kitchen, esses sim desbravadores -- o que reacendera sua vontade de produzir, vontade essa não aplacada até sua morte, posto que ele criava praticamente uma graphic novel por ano mesmo depois dos 80 de idade. O que muito autor bom não faz.

A maior inovação da graphic novel foi o próprio formato em si, que lembra o de um livro, mas é em quadrinhos; um formato editorialmente bem cuidado que conquistaria divisão própria nas livrarias a partir dos anos 1980, em grande parte por causa de The Dark Knight Returns, de Frank Miller, discípulo confesso (Aliás a editora Dark Horse prometeu uma edição especial chamada Miller-Eisner, com ensaios e idéias dos dois para maio do ano passado, cujo paradeiro é ignorado), conquistando respeitabilidade para o meio. Tematicamente, sua grande virada nas graphic novels acontece a partir de To the Heart of the Storm, sua autobiografia, quando passa a abordar frontalmente o preconceito anti-semita: Eisner era judeu, e a partir daquele momento abordaria diretamente as dificuldades enfrentadas ao longo da vida. Seus últimos dois álbuns, Faggin the Jew e The Plot (póstumo), centram-se em reparar danos históricos à imagem dos judeus na cultura popular.

Eisner gostava do Brasil, esteve várias vezes por aqui, as mais recentes por volta de 1987 -- em São Paulo, quando do lançamento da revista da editora NG --, depois, em 1991, na 1a. Bienal Internacional HQ, quando passou bem umas 3 horas dando autógrafos; em 1994, novamente em São Paulo, para um evento da EPA; em meados da década de 1990 esteve no Nordeste e em 1999 voltou ao Rio para o lançamento do documentário Profissão: Cartunista, que pôs-lhe emocionado (um pouco mais de sangue latino o teria feito chorar). Estava sempre bem disposto, apesar da idade avançava, muito bem humorado e jovial; suas filas de fãs juntavam gente de 8 a 80 anos de idade: lembro-me de um senhor que carregara uma pasta repleta de edições antigas, na esperança de que assinasse a todas. Peguei 3 autógrafos de Will Eisner. O último penúltimo deles, em 1999, levou-me a comentar que fazia 8 anos que eu obtivera seu último autógrafo. Ele respondeu, de bate-pronto:
-- Oito anos, uff! Você não parece oito anos mais velho!

anotado por Rafael - 10:48 AM

janeiro 04, 2005

cosme velho

Então você não conhece o Cosme Velho, bairro carioca onde Machado de Assis caminhava há mais de um século? Passeie por seus registros fotográficos no século XXI.

anotado por Rafael - 10:19 AM

peixes

Afinal, qual a origem dos problemas do Brasil? Estudiosos de todas as áreas se fizeram essa pergunta ao longo dos séculos sem encontrar resposta plenamente satisfatória. Astrólogos inclusive, segundo os quais o Brasil tem o Ascendente em Peixes. Pedro Sette Câmara explora o assunto.

anotado por Rafael - 10:15 AM

janeiro 03, 2005

cervejas: bavaria

bavaria

E essa não tem cantores sertanejos no comercial de televisão.

anotado por Rafael - 08:29 AM

patrulhas de salvamento

Diz a superstição que você repetirá ao longo do ano o que estava fazendo no reveillon. Minha rolha estourou uns 30 segundos antes do ano novo. Isso significa que vou ter ejaculação precoce em 2005???


* * *

Diz também que um amigo meu extremamente maledicente ficava apontando para o mar e dizendo baixinho, "Tá recuando, viu? Olha que recuou um pouquinho ali", além de puxar um corinho assim:
-- Ô tsunami, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!
E que em diferentes pontos da orla, a despeito da empolgação inicial,também não decolaram os seguintes gritos de guerra:
-- Ê ô ê ô tsunami é o terror!
-- Arrá urrú, a tsunami é nossa!
Mas paremos por aqui, que as patrulhas de comportamento sempre são mais rápidas do que as de salvamento das vítimas asiáticas.


* * *

O mais difícil foi explicar aos turistas que não, a queima de fogos no morro do Cantagalo que sucedeu à das balsas na praia de Copacabana não fez parte da estratégia da prefeitura em evitar a concentração de pessoas num só lugar, disparando fogos também no Flamengo, Lagoa e Barra e que não, ela não fez parte dos festejos oficiais, mas foi bancada pelos traficantes do morro que controlam, e que sim, esses traficantes têm dinheiro e poder suficientes para patrocinar uma queima se não tão bonita, ao menos tão barulhenta quanto a do poder oficial e durando a metade daquela, ufa.

anotado por Rafael - 06:48 AM