fevereiro 28, 2005

scott sobrecarga

Só para avisar que já está no ar a coluna de semana passada no SoBReCarGa, com a nova edição brasileira do livro Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud.

anotado por - 03:03 PM

diários de oliveira

diario selvagem

Grande matéria no JotaBê de sexta passada sobre o lançamento de dois livros de José Carlos Oliveira, mais conhecido como Carlinhos Oliveira, cronista deste jornal por mais de vinte anos. O homem na varanda do Antonio's coleciona crônicas escritas ao longo de dez destes vinte, e Diário Selvagem é a compilação de páginas e páginas da agenda pessoal de Carlinhos, da maneira como a mesma editora Civilização Brasileira fez há poucos anos com Antonio Maria.

Oliveira foi um dos maiores cronistas brasileiros, um dos que merecia esse título, porque não escrevia contos disfarçados nem fazia coluna de opinião. Quem achou a vida de Nelson Rodrigues dramática deveria ler -- e aqui a recomendação é enfática -- a magnífica biografia Órfão da Tempestade, a vida de Carlinhos Oliveira e da sua geração entre o terror e o êxtase (veja imagem abaixo), de Jason Tércio, que também organizou os lançamentos acima mencionados e parece disposto a fazer por ele o que Ruy Castro fez por Nelson Rodrigues.

Não tem nada a ver, mas o grupo Record, do qual a Civilização Brasileira faz parte, também lançou Michelângelo e o teto do Papa, sobre a pintura da Capela Cistina, assunto que já motivou o livro (e filme) Agonia e Êxtase.

anotado por - 11:07 AM

só mais essa (joaquim fala de hunter)

Joaquim Ferreira dos Santos usa a morte de Hunter Thompson para falar da ausência do repórter, do contador de histórias nas páginas da imprensa. Dizer que ele não cabe mais nas linhas editoriais é mato, crítica que de resto serviria até para o texto educado e elegante de Gay Talese, então a coluna não funciona como obituário. Só abro restrição quando Joaquim fala em "reportagens inesquecíveis", afinal todo mundo sabe que as melhores reportagens de Thompson foram exatamente as que ele NÃO escreveu. Fala, Joaquim; mas antes, faixa bônus: Cecília Giannetti inventaria a formação de Hunter Thompson

O repórter morreu

Hunter Thompson, o repórter americano que meteu uma bala na cabeça semana passada, tinha uma regra de ouro para esquentar a entrevista que não estivesse rendendo. Ele recomendava que o jornalista respirasse fundo, como se estivesse buscando a última gota de ar, e em seguida soltasse um impropério contra o entrevistado. “Seu isso, seu aquilo, salafrário de quinta, cronista de segunda.”

Hunter fez o truque algumas vezes e garantia. A entrevista, que até ali se esticava sem qualquer interesse, começaria a ter um mínimo de sangue correndo. Era um exagerado. Não à toa os Hell’s Angels deram-lhe uma coça durante uma matéria. Problema deles. No dia seguinte, atracado com o jornal, o leitor sorriria agradecido.

Quando ouvi seu tiro nos miolos, exagerado que aprendi a ser, entendi logo. Hunter Thompson, autor de reportagens inesquecíveis em que o repórter era sempre o centro dos acontecimentos, nem aí para essa balela da objetividade bege do jornalismo, Hunter Thompson estava aplicando de jeito radical a técnica que ensinou a milhares de jornalistas. Parágrafo primeiro e único da nossa Constituição: “É obrigatório manter a platéia acordada”. Revogam-se todos os ombudsmen em contrário.

Os jornais andam previsíveis, não é, não? Tenho certeza que o querido leitor concordaria, se neste momento já não estivesse entregue ao quinto sono.

Todo dia, mal começo a folhear, toca no meu iPod interno aquela velha musiquinha do Gilberto Gil dizendo “as notícias que leio conheço/ já sabia antes mesmo de ler”. O repórter morreu, eis o lide do que se quer dizer — e já que as reportagens escasseiam, espremidas por colunas e artigos de todos os lados, esse obituário vai em forma de crônica. Como na semana passada também morreu outro bamba do assunto, Carlos Rangel, do “Jornal do Brasil” nos anos 60 e 70, eu aproveito para retificar a frase e esticar o pensamento. Os repórteres morreram. Alguém consegue dormir com uma notícia dessas?

[...]

O repórter-que-anota-no-bloquinho é a versão pós-moderna do cidadão que sentava nas praças medievais e contava para a aldeia o que tinha visto alhures. Estão-se indo quase todos. [...]

Esse tipo de maluco, caçador de pauta exótica, soa démodé . Seu mergulho prolongado nas matérias não cabe nos novos fluxos do industrial. Atrasa o fechamento da edição. Sua emoção vai em desencontro às orientações do jurídico, enche o financeiro de contas a pagar por processos perdidos na Justiça. Ele desparagona o desenho clean do pessoal dos infográficos.

O repórter em estado bruto, e no caso de Hunter Thompson, bota bruto nisso, sempre provocando briga para acordar as fontes por onde passasse, um repórter desse tipo não entende o novo palavreado das infindáveis reuniões para acertar o foco da editoria. Criticado por não agregar valor às necessidades de sinergia sincera entre redação e marketing, o repórter tipo Thompson — ou Otávio Ribeiro, o Pena Branca, autor, com o curso primário incompleto, de algumas das melhores matérias de polícia da “Veja” nos anos 70 — um repórter desses, cobrado da necessidade de potencializar a informação em espaços cada vez mais minimalistas, vai perguntar de volta ao senhor editor: “Cuma assim?”.

[...]

Onde o David Nasser ético que mostre com humor o senador de cueca?

Onde o Joel Silveira que penetre na festa dos novos Matarazzos, o jogador de futebol e a modelo, e 50 anos depois da festa na Avenida Paulista mostre com estilo literário que o dinheiro pode até ter mudado de mão mas o ridículo ainda campeia entre os novos-ricos que o pegaram?

Onde os filhos da revista “Realidade”, mergulhados durante dias num mesmo assunto?

Os bons jornais brasileiros estão entre os melhores do mundo, a praga não lhes é exclusiva. Há muito gabinete de senhor doutor nas páginas e nenhum Hunter Thompson para subir na mesa e desarrumar a papelada. As notícias que leio conheço e elas agora chegam por e-mail. Ao telefone, sabichões declaram isso, afirmam aquilo outro para matérias que abrem travessão e deixam o verbo frio do entrevistado encher o espaço até o ponto final.

A História de um país não está nas grandes batalhas nem nesses parlamentos perfumados dos severinos de ocasião — e aqui estou pedindo licença para traduzir em bom português o que escreveu Joseph Mitchel, repórter americano das andanças do mendigo Joe Gould pelas ruas de Nova York. O importante é o que as pessoas conversam em dias comuns, agitam nas noites intensas, como elas aram a terra, discutem seus problemas e põem a vida em movimento. É uma pena que haja cada vez menos Hunter Thompson e Carlos Rangel para pegar essa pauta.

anotado por - 10:22 AM

fevereiro 25, 2005

derrama

Foi meu pai quem deu o toque: nos tempos de Tirandentes, o imposto que Portugal cobrava correspondia a um quinto do ouro extraído no país. Um quinto em termos percentuais são vinte porcento. O imposto de renda brasileiro mordido na fonte, para a classe média, é de 27,5%.

E olha que naquele tempo era uma colônia. E olha que por causa de vinte porcento teve uma revolta inteira.

anotado por - 12:35 PM

diálogos contra a ignorância

Essa campanha que está aí, diálogos contra o racismo, tanto quanto eu me recordo é a primeira que se vale não da capacidade do público em entender, mas pelo contrário, do analfabetismo funcional generalizado para disseminar sua mensagem. Se todo mundo fosse capaz de interpretar corretamente a pergunta "onde você guarda o seu racismo?", e quisesse mostrar que não é racista (no Brasil não existe racismo, existem opiniões sobre o racismo), diria simplesmente que não guarda coisa nenhuma; joga fora, se desfaz, expulsa. Mas não, pelo contrário; na chamada televisiva todo mundo se apressava em dizer que guardava bem guardadinho no cofrinho pra ninguém ver...

anotado por - 12:31 PM

bom sujeito não é

A Trip arrumou uma credencial de imprensa para o Allan Sieber ir ao camarote da Brahma no Sambódromo. E o cara foi.
E vem o #2 da Revista F. por aí.

anotado por - 09:45 AM

death to the pigfucks!

Freddy mandou avisar: obituário de Hunter S. Thompson na The Economist.
Mais? O artigo que inaugurou o jornalismo gonzo: The Kentucky Derby is Decadent and Depraved, completo no ar.

anotado por - 07:56 AM

fevereiro 24, 2005

essa coisa horrível

-- Harry, como você pôde andar por aí com essa coisa horrível no seu braço?
-- Eu ia te perguntar a mesma coisa.

anotado por - 08:31 AM

fevereiro 23, 2005

tom wolfe faz animal house

Descolei emprestado e terminei esses dias I am Charlotte Simmons, o último de Tom Wolfe. Ficção, daquele jeito bem dele: excelente descrição minunciosa de ambientes, roupas, arquitetura, trejeitos e sotaques; ótimo estudo psicológico dos personagens e ação fraca, quase despercebida nos primeiros capítulos. Se a capacidade sobre-humana dele em capturar o que há de mais específico numa tribo social qualquer, e reproduzir isso da maneira mais fiel possível fornece um tempero irresistível para suas caracterizações, também é essa tsunami analítica que invade inexoravelmente os parágrafos, interrompendo diálogos para frisar como um sotaque deforma uma pronúncia, parando caracterizações para mostrar como um personagem usava um casaco, quase sempre comentando, criticando, dando vazão à voz de narrador impessoal que nada mais é do que sua própria voz jornalística.

Neste tomo, Wolfe conta a história de uma secundarista interiorana brilhante que consegue vaga numa das mais prestigiosas faculdades dos EUA, Dupont, e do choque cultural que ela sente ao se mudar para um ambiente onde, teoricamente, os valores acadêmicos e intelectuais mandam, mas na prática é tomado por um estranho e terrível sistema de castas sociais, pós-adolescentes obcecados por sexo, culto à celebridades do esporte, na verdade estudantes-atletas que captavam enormes quantias para a universidade e dispunham de privilégios sobre os demais alunos -- privilégios como só fazer cadeiras com professores notoriamente amigáveis a atletas e gozarem de aposentos individuais com banheiro e ar-condicionado --, nerds com absurdas pretensões de se tornarem intelectuais orgânicos e, de fato, muito pouco dos ideais e valores imaginados na pequena cidade de Sparta. Claro, como qualquer coisa de Tom Wolfe, é profundamente estadunidense: nem pense em ler se não sabe o que é um teste SAT, o que são fraternities e sororities (ter visto um filme como Animal House, Casa dos Cafajestes, já é suficiente), tem intimidade com as marcas de roupas que ele cita incansavelmente (jeans Diesel, khakis, tênis Keds etc). Por outro lado, se você é familiar a esse universo e já passeou pelo campus de uma faculdade, vai se assombrar com a capacidade quase sobrenatural de Wolfe recriar ambientes, arquitetura, o clima da semana de apresentação, está tudo ali, perfeitamente retratado.

No provocante prólogo, conta-se a história de um experimento científico realizado com gatos, em que se extraiu a parte do cérebro deles que controlava as emoções em mamíferos superiores. Os gatos entraram em estado de excitação sexual tamanha que não paravam de fornicar. Porém, ao acaso, os cientistas descobriram que um dos gatos do grupo de controle -- colocado ali apenas para comparação -- adquirira o mesmo comportamento dos demais, apesar de não ter sofrido a cirurgia. Acreditaram que era um tipo de "para-stimuli cultural", que gerou um comportamento induzido sem qualquer intervenção fisiológica, e concluiram que uma atmosfera social ou "cultural" poderosa poderia sobrepujar as respostas de animais saudáveis, perfeitamente normais. Uma bela analogia para a metamorfose por que Charlotte Simmons irá sofrer em seu primeiro semestre na universidade, ao entrar em contato com gente como Hoyt Thorpe, o epítome do cool, membro da fraternity Saint Ray e pegador do campus; Jojo Johanson, único branco no time titular de basquete, atleta estudante com estranhas tendências intelectuais (era questão de honra para eles se formarem com notas baixas; qualquer um que mostrasse interesse nas matérias era hostilizado e o ala que tirava notas boas tomava o cuidado de ocultá-las dos colegas); Adam Gellin, jornalista nerd do periódico universitário e aspirante a uma bolsa da fundação Rhodia; as Trolls, grupo de parasitas sociais que se limitavam a ficar no lobby do alojamento fofocando sobre as entradas e saídas dos demais estudantes e muito mais gente esquisita.

I am Charlotte Simmons já foi corretamente descrito assim: "Tom Wolfe faz Clube dos Cafajestes" -- é como se fosse um daqueles filmes idiotas de faculdade norte-americana, mas narrados com toda a seriedade e o rigor de um repórter consagrado. De certa forma, este romance corrobora a tese defendida por Tom Wolfe em Ficar ou não Ficar, segundo a qual os romancistas de seu país deveriam abandonar o nhém nhém nhém psicológico e ir buscar histórias realistas no coração do país. Wolfe sustentou a tese no sucesso que seu livro anterior, A Man in Full, teve nas vendas, mas parece que esse não está seguindo o mesmo caminho. Noticiou-se inclusive que W. Bush estava lendo e gostando muito (se é que teve fôlego para atacar as quase 700 páginas). É possível não tomar gosto pela trama ou não desenvolver empatia pelos personagens, mas é impossível não se encantar com as brilhantes observações clínicas de Wolfe, que contou com a "ascessoria" de suas filhas, observações como as que as alunas se produziam para frequentar a biblioteca de noite porque era um foco de homens, e que não bastava ir lá: elas sentavam-se nos lugares da mesa de estudo que permitiam a visão de quem entrava, enquanto os demais eram reservados para quem realmente queria estudar. Também chama a atenção a capacidade de Wolfe em tentar elevar ao nível da alta cultura os hábitos e mores correntes; por exemplo, à incapacidade de se comunicar se usar a palavra "fuck" e seus múltiplos usos sintáticos, ele chama de Fuck Patois (depois também apresenta um Shit Patois), nome a partir do qual passa a identificar essa boca suja daí pra diante. Outro deleite são as descrições da dinâmica dos espaços da faculdade: salas de aula, computadores públicos da biblioteca, academia de musculação, casas das fraternities.

Além de sustentar sua tese, Wolfe utiliza a ficção para desenvolver vários temas já abordados nas suas reportagens anteriores. Charlotte faz uma cadeira sobre Neurolinguística, abordada em reportagens de Ficar ou não Ficar; as peripécias sexuais adolescentes da reportagem que dá título a esse livro também aparecem aqui; o capítulo em que o nerd Adam explica a Simmons o que era e como conseguir uma bolsa da fundação Rhodia parece extraído de Radical Chic ("Você tem que fazer um trabalho sobre o Terceiro Mundo, Tanzânia está na moda. Ano passado eu fui para o Quênia e peguei malária, mas qando voltei disseram que lá já estava muito civilizado") e chega a doer nos ossos de tanta ironia. Leitores atentos irão encontrar várias outros cruzamentos.

Para encerrar, um comentário simples. Quem ler o livro e ficar com aquela impressão de que "não, ele está exagerando" vai estar enganado. Basta percorrer o campus de uma faculdade, e quando falo em faculdade aqui, cito Harvard, Princeton, a excelência, durante a semana de início de período e conferir por si mesmo: trata-se daquele caso em que a realidade é muito mais assustadora do que a mais imaginativa ficção. Eu mesmo, folheando meio de bobeira o livro de boas vindas para os undergraduates de Berkeley de 2002, encontrei uma lista de "100 coisas que você deve fazer antes de se formar", onde em meio a dicas como "comer na pizzaria de um só sabor gerenciada por anarquistas", "assistir ao curso de ciência política", "visitar o People's Park" o seguinte: "Get laid. The first week is better and if you don't enjoy it, maybe you'll have hard times to get laid".

[Todas as citações são de memória. Obrigado ao Rogério por ter emprestado o livro e ao Salles pelos toque sobre Tom Wolfe.]

anotado por - 08:28 AM

fevereiro 22, 2005

Alienação

[Rolou a seguinte discussão, recentemente, num blog que acompanho há anos. Removi os nomes dos participantes para o foco ficar só na retórica. O texto abaixo foi o post que detonou a discussão. ]

"O sujeito que exibe displicentemente no peito a máquina fotográfica, por exemplo, vai ter que me perdoar, porque "merece" entrar na estatística de assalto a turistas.

Não é a cidade que é violenta demais, muitas vezes. É o excesso de gente dando mole."

>>> Dar mole eles dão, mas se o lugar fosse REALMENTE tranquilo, nada pegava. Cansei de ver gente com máquinas o triplo das daqui no peito em Veneza e Florença sem o menor assédio.

:::: Mas existe um lugar tranquilo? Mesmo na Europa, nos grandes centros... algum risco haverá, mesmo que em escala sensivelmente menor. A insistência daqueles exaustivamente alertados sobre a realidade local - seja na origem, ou já por aqui - é que pega.

Talvez, no Japão, o ladrão desdenhe... por ter algo mais moderno.

++++ Sinto discordar, amigo...
O sujeito que adiquire honestamente sua máquina nunca pode ser culpado pela violência. Isso que passa pela sua cabeça é muito normal e a maioria das pessoas acaba por culpar a vítima.
Basta abrir os olhos que a verdade virá. Caso não venha, vc também se tornará um refém dessa maldita realidade, continuará trabalhando para realizar seus pequenos sonhos e será sempre acordado por um pesadelo.

:::: A questão não é culpar ou demonizar a vítima, mas alertar sobre a infeliz ironia, da ausência do estado oficial e da necessidade de uma ação defensiva paralela, sem perder o foco, evidentemente, na cobrança das chamadas autoridades. É imprescindível que parta de cada um, também, a ação de segurança pessoal. O que pode ser um imprevisto numa sociedade "desenvolvida", é a morte anunciada neste país falido. Quem avisa... não é?

Não prego a prostração, repito. Reitero apenas os cuidados básicos de qualquer pessoa consciente do momento atual na maior parte do planeta. Que a segurança e todo o bem estar social precisam e devem mudar com urgência, todos concordamos. É necessário igualmente, porém, o cuidado de cada dia, daquilo que nos pertence e que nos cerca. Ignorar tal circunstância implica em um cenário eventualmente imaturo.

Orai e vigiai.

Ps.: E para evitar o mal entendido, não me refiro ao porte de arma. A ação defensiva deve ser calcada no raciocínio - algo raramente usado na segurança pública, inclusive. Vale torcer e cobrar da governança.

>>> "É imprescindível que parta de cada um, também, a ação de segurança pessoal." Acho que é isso, concordo. Mas há níveis e níveis de segurança. "existe um lugar tranquilo?" Dentro de qualquer grande centro, não tenho dúvida em afirmar que não, nunca totalmente; o que há, como falei, são níveis de tranquilidade. Até na Noruega se tu der mole vai levar uma calça arriada. Ao fim e ao cabo, o velho ditado indiano: "confia em Deus mas tranca o teu carro".

<<<< Passemos a portar lápis e papel, em vez de máquinas fotográficas, e desenhemos, em vez de fotografar. Lápis e papel - e livros, a nao ser os raros, e assim mesmo só por larápios elitizados - não correm o risco de subtraçao súbita por terceiros. E nada de Montblancs, eu disse lápis.

-!-!-!- Orei e vigiei. Confio em Deus e tranquei o carro. E ainda assim, como eu não tinha "displicentemente no peito a máquina fotográfica", aquela arma no meu pescoço conseguiu me tirar o que eu tinha de mais valioso: a minha paz.

anotado por - 02:51 PM

só para constar

Antonia Lopes confirmou na última coluna o que eu tinha sentido domingo retrasado: Monobloco já deu. Esmagado pelo próprio gigantismo; poucos são os foliões dignos desse nome no desfile, que veio esse ano sem a bateria, um dos grandes baratos, já que o Monobloco sempre improvisava e brincava com ritmos alheios aos do carnaval. Ano que vem, nem sei se rola.

Outra boa, dela: começa hoje o longo intervalo do ano que vai do carnaval até o revéillon...

anotado por - 02:43 PM

Parabéns Jotabê

Dez anos de Jornal do Brasil on line. Um indubitável ato de pionerismo, ter levado para a internet, no Brasi, já em 1995, quando o acesso é limitado e lento, um importante jornal -- sim, o JotaBê já entrara em fase de decadência, mas a transferência de quase toda sua redação para O Globo ainda estava em curso e havia muito o que ler no papel. E ainda se passariam vários anos até seu principal concorrente fosse para a internet: a Copa de 98 serviu apenas como balão de ensaio para o que, só depois, viria a ser o portal Globo.com (perguntem ao Hiro, ele sabe essa história direito). Mérito particular para Sérgio Charlab, que topou tourear o touro à bordo de um prosaico 386; retrospectiva interessante sobretudo para comparar a evolução do design das páginas e rever os vários especiais para a internet.

anotado por - 02:40 PM

fevereiro 21, 2005

shimamoto encontra 10 pãezinhos

Era para ter entrado semana passada; de qualquer forma já está no ar, a partir de hoje, minha resenha crítica dos álbuns Clautrofobia, de Julio Shimamoto e Crítica, de Gabriel Bá e Fabio Moon (a dupla dos 10 pãezinhos), lá no SoBReCarGa -- eu não desisti de escrever para lá. Ainda.

anotado por - 03:17 PM

escritores que se matam

No filme que eu via, um personagem, típico escritor inédito, confessa em momento de profunda desespero ao amigo que não poderia se suicidar antes de ter um livro publicado. Ele cita Hemingway, Wolf e Plath como exemplos de gente que escreveu primeiro, para depois se matar. Naquele exato momento, mais um escritor se habilitava a entrar para a lista, em Aspen, Estados Unidos da América. (soube pelo Martelada)

anotado por - 10:28 AM

blocos em fotos

Minha vizinha Aline, de volta à terrinha, colocou no ar fotos do carnaval carioca: Bola Preta (eu me lembrava daquelas moças com faixa de miss) e Cordão do Boitatá (que só não tem mais gente porque sai muit cedo), embora sinta saudade mesmo de Recife.

Quem tentou acompanhar os blocos esse ano pode confirmar: todos saíram com pontualidade rigorosa de suas concentrações. Carnaval é o que melhor funciona nesse país.

anotado por - 10:21 AM

fevereiro 18, 2005

joseph k.

Fevereiro mal passa da metade e empilham-se na cabeceira 4 livros recebidos de uma editora paulista e um belo presente tardio de Natal com fotos, além da promessa daquele escritor italiano em enviar o novo assim que a tradução saísse. Tem dia que eu acordo achando que virei formador de opinião.

anotado por - 03:31 PM

vem aí

Cheio de novidades para agradar os nerds no SoBReCarGa: trailer do filme Sin City, lista dos premiados em Angoulême (Marjane Satrapi, de Persépolis, levou o de melhor álbum), site do filme Watchmen e trailer do filme Mochileiro das Galáxias.

anotado por - 07:03 AM

fevereiro 16, 2005

kyoto: está valendo

Entra em vigor hoje o Protocolo de Kyoto. Os ambientalistas mais desesperados dizem que sua ratificação é a única maneira de salvar a Terra do efeito estufa, do derretimento das calotas polares e da extinção dos ursos polares brancos e de nariz preto do Alaska. alguns cientistas dizem que é besteira, aquecimento (ou resfriamento) a Terra sempre sofreu, a variação de temperatura é uma constante e mesmo a alteração brusca no último século seria mais em função desses ciclos naturais do que da interferência humana -- contra eles, o fato de que houve um aquecimento pronunciado desde o começo da revolução industrial -- a qual, por sua vez, pouco poderia fazer para evitar o aumento de temperatura, e que mais inteligente seria abrir buscar alternativas para plantio em áreas secas e desérticas e migrar para locais não afetados com a subida de nível das marés. Em qualquer dos casos -- cientistas corretos ou errados -- a solução para a vida no futuro parece passar pela maneira como os países de terceiro mundo lidarão com a natureza. Aliás Jared Diamond, autor de Armas, Germes e Aço, acusa essa relação como causa do declínio de vários povos da antiguidade, entre eles os pré-colombianos. Embora a defesa do meio ambiente soe correta à primeira vista, a história moderna tem mostrado que as medidas práticas só acontecem quando a tecnologia evolui a ponto do método menos poluente ter se tornado mais eficiente do que o mais poluente, que também é o menos eficiente e primeiro a ser descoberto -- esse é essencialmente o motivo alegado pelos EUA pela dificuldade em se ratificar o tratado: não se sabe, na prática, como reduzir as emissões ao nível proposto pelo tratado, hoje. Embora os 15 países da União Européia tenham ratificado o tratado, é de se duvidar se eles serão capazes de cumprir suas metas até 2012 que, por enquanto, são apenas uma intenção. E um motivo a mais para falar mal do Bush...

anotado por - 10:31 AM

fevereiro 15, 2005

dedo na ferida

[Quem vai gostar disso é o Pedro Sérvio...]

Folha - Então exatamente o que é o turismo sexual?
Piscitelli - Os viajantes à procura de sexo querem mulheres que façam programa e também mulheres que não façam. Não é apenas troca de sexo por dinheiro. Há uma romantização, há um jogo de conquista e, às vezes, até sentimentos. A pesquisa me levou a questionar o conteúdo que nós damos à palavra prostituição. Por exemplo, uma moça de classe média que se relaciona com um estrangeiro e é convidada por ele a visitá-lo na Europa, ganha a passagem e um celular, nós não pensamos que está fazendo prostituição. Mas uma garota, por exemplo uma garçonete que recebe presentes de um estrangeiro, é imediatamente vista como uma garota de programa. Então exatamente o que é prostituição? É a troca de sexo por dinheiro? E por que troca de sexo por dinheiro de maneira não imediata para a classe média não é visto como prostituição e para a classe baixa sim?

Folha - O que você pensa do turismo sexual? Deve ser combatido? De que maneira?
Piscitelli - Acho que é muito importante problematizar as questões do turismo sexual, da prostituição, da exploração infantil e enxergá-las com a complexidade que realmente têm. Não são apenas turistas malvados que vêm atrás dessas mulheres. Eles são recebidos, quando não se trata de pedófilos, claro, de braços abertos, e eu acho que essa é a parte que é necessário entender. O que leva a essa oferta?

[Uma vez por ano esbarra-se numa entrevista que nem repete os clichês do senso comum nem joga para a platéia. Parece que a desse ano foi dada por Adrana Piscitelli sobre turismo sexual, metendo o dedo na ferida com suas interrogações. Grande dica do senhor Malaguti]

anotado por - 08:33 AM

fevereiro 14, 2005

só dá brasil no último do tom wolfe

pelo menos 3 referências ao Brasil, duas explícitas e uma oculta, no novo romance de Tom Wolfe, I am Charlotte Simmons, em cuja leitura estou pela metade. Das duas explícitas, a primeira está logo no começo, quando a título de um comentário passageiro sobre formar de depilar o púbis feminino, Tom Wolfe cita o Brazilian Wax, que andou fazendo sucesso entre um pessoal aí de cinema e moda. Bem mais à frente, ao descrever uma localização, Wolfe diz que ficava perto de um pardieiro apelidado pelos alunos do College de City of God, por causa de "um filme brasileiro que tinha se tornado cult entre os estudantes, cheio de assassinos infantis", citando de memória, Cidade de Deus, é claro. A referência oculta é mais sutil. Ao descrever minunciosamente o vestuário típico dos undergraduates, ou seja, dos estudantes que acabaram de entrar na faculdade, Tom Wolfe fala exaustivamente em khakis, bermudas cargo, jeans de cintura baixa da Diesel e flip-flops -- nada mais do que o aquilo que a gente chama em bom português de chinelo de dedo. Ora, não é preciso ser muito brilhante para enxergar alguns daqueles undergraduates atravessando o campus da universidade fictícia de Dupont calçando o mais novo produto de exportação brasileiro: as sandálias Havaianas.

Tom Wolfe é o melhor registrador de tribos desde que começou a se dedicar a isso, nos anos 1960, e é notável como não tenha perdido a mão quarenta anos depois. Se passou pelo radar dele, é informação confiável e minha impressão de que o Brasil estava "na moda lá fora", desde minha última viagem, se confirma. Chinelos, traficantes juvenis e penteados pubianos: eu só queria que, de vez em quando, o Brasil fosse reconhecido internacionalmente por alguma coisa diferente de miséria.

(Já foi, nos anos 1960, pela bossa-nova, a arquitetura de Niemeyer e até um filme de Gláuber Rocha ou outra móvel desenhado por Sérgio Rodrigues. Sem falar em Pelé.)

anotado por - 08:46 AM

tiradas

Um fato que tenho conversado com amigos é sobre a hipocrisia da nossa geração. Talvez por ser uma geração repleta de filhos de pais separados existe uma recusa, uma negação em "repetir os mesmos erros que os meus pais", o que na cabeça de muita gente significa ficar num casamento falido e infeliz, mas, oh-oh, "para o bem das crianças". Ou seja, repetir o erro dos avós.
(Patricia)

Cora finalmente insistiu que devíamos dar ouvidos a ela porque falava como "perfeita representante das donas de casa da Zona Sul do Rio". Bom, aí não houve mais o que discutir, caímos na gargalhada, Cora inclusive, e encerramos a conversa.
(Cora)

anotado por - 08:21 AM

fevereiro 11, 2005

cartum antológico do ota

ratos: ota

anotado por - 09:07 AM

teoria

Se na prática você sempre tem que se adaptar, então por que quer saber tanto sobre a teoria?

anotado por - 09:05 AM

pedro doria: direito de resposta

[Pedro Doria deixou uma resposta para minha nota no cantinho de pitacos. Direito de resposta para ele, então.]

Meu caro Rafael, ora pois,

Vamos lá: gosto muito de Tom Wolfe, principalmente do Electric kool-aid acid test. O Gay Talese é prolífico, escreveu muito toda vida -- e nem tudo do que escreveu saiu em livro. Como repórter do Novo Jornalismo, é prolífico. E, comparado ao J. Mitchell, é certamente prolífico.

Mas quantos nomes você queria que eu listasse numa resenha? Porque pode ser uma lista interminável -- mas não precisaria, não é? Qual seria o objetivo? Citei dois e mostrei como os leio para explicar com o que estava comparando. Escolhi estes dois em particular por estarem entre meus favoritos e porque foram publicados recentemente em português. Afinal, o leitor tem de ter o direito de ir atrás, se quiser, para julgar se tenho alguma razão ou não.

Não parta do princípio de que não li gonzo suficiente ou de que não conheço Novo Jornalismo o bastante. Há uma vaga possibilidade de você estar certo, mas é uma aposta boba de fazer; pode perdê-la muito fácil. Neste caso, perderia. E esta não seria uma disputa meio adolescente?

Então me permita uma crítica à crítica blogueira. Às vezes, se ata a umas besteiras mesmo quando tem bons argumentos ou convicções -- e você os têm. Para que tentar me desqualificar? Se eu não tiver qualquer qualificação, a discussão não tem motivo; se eu tiver, ela fica mais interessante. Ou não é?

Você diz que, para o meu azar, você leu. Por quê? Uma mesma obra não pode ter duas leituras? O sujeito que discorda de você é necessariamente incapaz? Às vezes duas pessoas igualmente inteligentes podem ler a mesma coisa e tirar conclusões diferentes. É uma das vantagens da rede, aliás. Eu, por exemplo, posso sair de meu site para comentar aqui, no seu. E não estou partindo do princípio de que você não leu aquilo que cita. Bem pelo contrário, acho que leu -- e costumo gostar do que você escreve.

É claro que, escrevendo na Internet contra Hunter Thompson estou comprando briga. Pois é. Mas polêmica é bom, areja as idéias, reforça ou derruba convicções.

Escrevendo de dentro dos EUA, o HT pode parecer interessante. Mas, você me perdoe, alguém que vê justificativas em ficar tacando bolinhas de golfe na indiada é um patife. Você explica que a maioria das pessoas que ele conheceu eram índios mesmo. E daí? Ele as desqualifica por princípio e tasca um bando de estereótipos. Pudera que não entendeu nada. Além disso, repórter que só ouve compatriotas ou gente a serviço de seu país quando está apurando matéria no exterior comete erro de apuração dos mais elementares. Não procura o que se passa, quer reforçar o que vê. Tom Wolfe não faz isso. E, com vinte e tantos anos, repórter já sabe dessas coisas.

E esse é o problema das reportagens dele na América Latina, são todas míopes. Ele não demonstra a mínima sensibilidade para entender o que está se passando a um palmo de seu nariz. Essa, aliás, não é uma característica norte-americana -- este governo atual, lá, é atípico em sua falta de compreensão do mundo externo.

Um sujeito que diz que o povo peruano não liga para democracia porque derrubou um governo gerenciado à distância por Washington é reacionário. Sorry about it. Não estou dizendo que um golpe possa se justificar ou que tenha qualquer simpatia pelo populismo. Mas uma coisa é simpatizar, outra é compreender. O HT podia, dentro de seu país, ter convicções simpáticas. Too bad. Se este mesmo sujeito, quando sai de seu país, enxerga os vizinhos ao sul apenas pela ótica das políticas que seu próprio governo impõe, então ele é imperialista.

(Imperialista, aliás, é bom adjetivo para a política externa do governo Kennedy, Johnson e, pasme, não tanto do Nixon... o Nixon era escroto, mas este é outro problema.)

Uma das grandes características daquilo que a gente chama Novo Jornalismo é que, construindo um texto mais atraente, ativo, é possível passar ao leitor uma idéia melhor do que se passa ao redor.

Mas, perceba, minha crítica não é às obras completas do HT, não é àquilo que é mais conhecido do HT, é, isto sim, ao que não é tão conhecido. E que, no entanto, revela um bocado a respeito de sua personalidade.

Você tem, naturalmente, todo o direito de discordar. Aqui dentro nossa voz tem o mesmo volume; e, neste caso em particular, estou no lado minoritário. Acontece.

Abraço!

anotado por - 09:03 AM

fevereiro 10, 2005

grave

Beleza, começou o ano. De volta às grandes questões, aos problemas que dominam a nação: alguém aí sabe quando cai a Semana Santa?

anotado por - 09:57 AM

momescas

Mais uma vez a campanha do governo na televisão pelo estímulo ao uso de preservativos durante o carnaval valeu-se de expedientes esquisitos. Depois de chamadas, nos anos anteriores, que chegaram a colocar um peru, isso mesmo, um daqueles que morrem de véspera, para estimular o uso, esse ano foram de Daniela Mercury entoando uma paródia de Com que Roupa que deve ter atrapalhado o sono eterno de Noel Rosa. Até aí, café pequeno: a publicidade não costuma ter pudores em sua apropriação da cultura popular.

O que vem em seguida é o ponto: apesar do kit atraente, uma sacolinha em cores vivas para pendurar no pescoço com o bordão "Vista-se!", o que é aquele bando de gente sorrindo com uma camisinha na mão? É para estimular ou inibir o uso? Desde quando alguém vai se sentir motivado a usar camisinha por causa da Preta Gil? Ou de uma dessas atrizes da Globo? Na incapacidade em ser claro acerca desse problema de saúde pública, mais uma vez o governo patina na dificuldade de transmitir uma mensagem, usurpa os valores da cultura popular e patrocina artistas de teor questionável. Sem falar na briga comprada com a Igreja.


* * *

Amigo meu levanta a bola sobre o crescente patrocínio de escolas de samba por grandes empresas. É fato que nos últimos anos os enredos têm sido escolhidos de forma a captar recursos; a história do chocolate pode atrair patrocínio de um fabricante e assim por diante. Descaracterização vem logo à baila, mas até agora ainda não se viu notícia de nenhum desfile com logotipos ou marcas estampadas nos passistas; a propaganda é feita de maneira sutil e dissimulada, uma referência aqui e ali no samba-enredo e olhe lá, como ela costumava ser antes de se converter no leviatã do marketing; a criatividade do carnavalesco e a identidade do grêmio recreativo ainda estão preservados (ao contrário do que aconteceu no futebol, por exemplo, em que o logotipo do patrocinador ocupa mais espaço na camisa do que o escudo do time). Embora o patrocínio de estatais indique mais uma das muitas malversações de dinheiro público, a vinda de dinheiro das grandes empresas parece uma saída melhor do que o da contravenção, que continua sendo homenageada na avenida com direito a honras de benemérito para bicheiro. A diferença é que no bicho, teoricamente, aposta quem quer, enquanto o dinheiro de patrocínio cultural é de todos os contribuintes.

anotado por - 09:57 AM

nec plus ultra

Sol fritando a pele, mar na temperatura correta, cerveja geladíssima, biquínis em profusão e, para completar, castanha de caju torrada e salgadinha. Você procurando defeito não encontra.

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Tá legal, mas a melhor história de carnaval que eu conheço ainda é daquele cara que saiu de casa, naquela base de sandálias e assoviando, para ver a banda passar, isso devia ser mais ou menos no meio da tarde. Corte rápido para meia-noite e meia, no Sambódromo, esse mesmo cara em cima de um carro alegórico, semi-nu, purpurina no corpo, ladeado pelas duas gringas loiras. E não termina aí, com direito a melancia de café da manhã na praia e foto em destaque no jornal nos dias seguintes. Para ficar perfeita, só faltou uma coisa. Mas foi a que chegou, vamos dizer assim, mais perto.

anotado por - 09:54 AM

cardápio do Almoço de sábado

Entrada: tripa frita e queijo coalho assado
Piéce de resistance: carne de sol socada no pilão com manteiga de garrafa, carne seca desfiada com cebola, arroz com feijão de corda e purê de jerimum gratinado.
Sobremesa: sorvete de graviola
Para beber: cachaça Rainha

anotado por - 09:52 AM

fevereiro 04, 2005

carnaval, veneza, mattotti

carnaval: mattotti

Desenho de Lorenzo Mattotti sobre o carnaval carioca, que ele vai transformar em álbum. Mattotti é veneziano, e a foto de Veneza abaixo ilustrou a capa do Segundo Caderno d'O Globo essa semana, onde também havia uma reportagem sobre exposição de desenhos de Rubens.
veneza: san marco

anotado por - 08:24 AM

mais um que critica sem ler

Pedro Doria escreveu sobre A Grande Caçada aos Tubarões para o NoMínimo. Para o azar dele, eu li. Assim como a recentemente lançada edição de Hunter S. Thompson -- e parece que nós dois lemos livros diferentes.

Pedro Doria não demora mais do que 3 linhas para incorrer numa das miopias que se espalham pelo artigo: segundo ele, Thompson é um dos escritores favoritos da blogosfera "por conta de seu texto ácido e frenético". Só por isso? Eu arriscaria dizer que Thompson foi eleito por outro motivo. Ao inaugurar o estranho jornalismo gonzo, Thompson foi pioneiro, mesmo que involuntário, de táticas empregadas por qualquer ativista cibernético, e generalizando, por qualquer um que já quis conseguir alguma coisa disseminando informação através da internet, sobretudo webzineiros e bloguistas. Desinformação, anti-marketing, propaganda viral, memes, heterônimos, confusão entre realidade e ficção, tudo isso já existia nos artigos gonzo de Hunter Thompson antes de inventarem o computador pessoal.

Dois parágrafos depois, Pedro Doria dá uma amostra do quanto desconhece de Novo Jornalismo ao dizer que "os maiores nomes do Novo Jornalismo sejam ... Josep Mitchell e ... Gay Talese". Não fosse um "Talvez" a iniciar a frase, teria deixado necessariamente de fora Tom Wolfe, autor de textos definitivos nesse estilo, tais como os ensaios e reportagens de Radical Chic, Pump House Gang e Hooking Up. Desconfie de qualquer um que não o coloca no alto desse panteão. Assim como de qualquer um que chama Talese de "prolífico", que é mais ou menos o mesmo que dizer que Stanley Kubrick foi um cineasta prolífico. Com uns 8 livros publicados em mais de 70 anos de vida, eu não sei se prolífico é o melhor adjetivo para qualificar Gay Talese.

Quando enfim pára de falar sobre Talese ou Mitchell e volta-se para Thompson, Pedro Doria acerta em cheio: ao contrário deles, cujas "reportagens nunca são sobre eles mesmos", Hunter escreve "sempre sobre ele, sobre o que acha e pensa". Perfeito. Mas logo depois, escorrega de modo parecido com o do primeiro parágrafo, ao afirmar que em Fear and Loathing in Las Vegas ele "achincalha com o Sonho Americano e ri das hipocrisias de seu país". Até quem não leu o livro e não viu o filme de Terry Gilliam (situação onde Pedro Doria deve se enquadrar) sabe por resumo de livraria virtual que Medo e Delírio em Las Vegas é uma nota desesperada, não uma gargalhada. Aliás, acho que eu mesmo já escrevi por aqui antes que o humor de Thompson é engraçado, porém absolutamente involuntário. Se você olhar a frio, vai ver que a maioria das situações de que ri foram, na verdade, situações de grande risco ou bad trips motivadas por uso de drogas. Thompson não estava fazendo humor deliberadamente; certa vez Millôr Fernandes usou um texto de Ralph Steadman, ilustrador dos textos de Hunter e ele mesmo autor gonzo, para ilustrar sua idéia de que o humor é a quintessência da seriedade; nada mais próprio explica o texto de Thompson. A contrário do que Doria disse, Hunter S. Thompson não estava achincalhando o Sonho Americano -- estava desenganado ao vê-lo indo pro buraco diante de seus olhos.

Porque, é preciso que se frise, Hunter Thompson é um patriota empedernido, um defensor dos ideais americanos na linha de Jack Kerouac e não um crítico de seu país, como Norman Mailer. É um sujeito deslumbrado com a pujança de seu país, fã de futebol americano e de armas de fogo. Um sulista de Kentucky, área das mais racistas. Ignorar esse contexto na leitura de suas idéias é o que se chama de preconceito, exatamente do que Pedro Doria acusa-o ao afirmar que "a carga de preconceitos de Hunter Thompson atrapalha sua visão até do que estava em evidência". Errado: é exatamente sua carga de preconceitos que o permitiu entender o que estava se passando naqueles tempos.

As críticas de Pedro Doria se focam nas reportagens que Thomspon fez como
correspondente na America Latina para National Observer, no começo da década de 60, mais ou menos entre os 24 e os 27 anos, para onde foi após servir na aeronática na Flórida para escapar da prisão, perambular pela costa oeste e ser expulso de um emprego na Time em Nova Iorque. Hunter suspeitou que aquele era o lugar onde estariam as notícias, uma prova rara de faro, que o faria testemunhar um golpe político no Peru e quase outro no Brasil. Resolvera cair na estrada por não ter conseguido ser o Fitzgerald de sua geração, até porque, como jovem em busca de notícias, não havia a opção de ficar na redação em frente ao computador fazendo buscas no Google*.

As críticas pontuais de Pedro Doria aos textos sobre o golpe peruano e tiroteio brasileiro são corretas; é de se perguntar, entretanto, se elas são suficientes para justificar os epítetos de "reacionário, imperialista e incrivelmente preconceituoso" que lhe pespega.

Imperialista. Provavelmente Pedro Doria se irritou com a maneira com que Thompson trata os nativos latino-americanos, como verdadeiros índios. Só que muitas vezes os habitantes das vilas em que Thompson se encontrava, como na reportagem sobre contrabando, eram índios de fato. Claro que o retrato que Hunter traça é infernal: cidades infestadas por mosquitos, calor abrasivo, água não potável, nativos indolentes -- em suma, nada muito diferente da cabeça de um turista médio, hoje. O que Pedro Doria ignora é que há uma bela autocrítica ao comportamente ianque no texto Porque os Ventos Antigringos Sopram ao Sul do Rio Grande. É de se perguntar também se um jornalista que deixou incontáveis textos se opondo à guerra do Vietnã pode ser rotulado como imperialista.

Reacionário. Pelos parâmetros de Pedro Doria, todo patriota norte-americano é reacionário. Tom Wolfe é reacionário. No campo político, não sei um cara que escreveu a vida inteira contra Nixon (ver Sr. Nixon Descontou seu Cheque), Reagan, Bush (pai e filho) pode ser chamado de reacionário. No campo dos costumes, não é o mais apropriado chamar de reacionário alguém que advogou o uso de drogas por mais de dez anos seguidos. E se os cacoetes sulistas incomodam Pedro Doria, eu peço que ele me mostre um sulista liberal que eu mostro para ele um linchamento.

Incrivelmente preconceituoso. Pedro Doria diz isso de um dos escritores que defendeu Muhammad Ali desde lhe caçaram o cinturão por se negar ao alistamento militar. Que dedica dois longos artigos a Ali no final do livro. Que dedica páginas e mais páginas a marginais, que deu-se ao trabalho de escrever um trabalho antropológico sério sobre os Hell's Angels quando metade dos EUA queria seus escalpos. Ou seja, Pedro Doria ignorou solenemente os demais textos não voltados para a América Latina. Diz isso textualmente: "vale, principalmente, por conta dos trabalhos como correspondente freelancer na América Latina dos anos 60 e poucos". Besteira. Se esses textos fossem o principal, ocupariam a maior parte do livro. São meros trabalhos de um freelancer iniciante e esforçado, que não se furtava em usar histórias de seus amigos para pagar o aluguel (O Freelancer Supremo). Sua representatividade no livro é mais por fazerem parte de um período importante de sua vida e porque esboçarem para o futuro estilo gonzo. Mas ficam completamente soterrados na memória diante da leitura de artigos mais maduros e inspirados como "Hashbury" é a capital dos hippies, Kentucky Derby é Decadente e Degenerado ou o que dá título ao livro.

No antepenúltimo parágrafo Pedro Doria diz que a meta de Hunter S. Thompson é "regurgitar pré-conceitos e forçar os fatos sobre eles". Ao ignorar os demais textos do livro -- os que não versam sobre América Latina -- em sua análise (sem falar das circunstâncias da vida de Thompson), forçar os fatos é exatamente o que Pedro Doria faz para corroborar o pré-conceito de que Thompson é "reacionário, imperialista e incrivelmente preconceituoso". Pedro Doria afirma ainda que "jornalismo tem uma função que é contar o que se passa", e que por acreditar que "dar uma idéia o clima é mais relevante que a exatidão", o que Hunter faz "jornalismo não é". O que Doria acabou de fazer também não é.

*Essa cobrança não é minha; Gay Talese, Tom Wolfe e Claudio Tognolli já a fizeram.

anotado por - 08:15 AM

fevereiro 03, 2005

surpreendentemente bom


Somando com Tróia, encerro minha cota de gregos com cara de irlandeses...

anotado por - 07:05 AM

tire as suas patas sujas do meu ibge

A mordaça que agora impede o IBGE de divulgar resultados de pesquisas antes que o governo decida se concorda com eles mostra, finalmente, que cara têm as mãos que dirigem o país. Nem na longa treva da ditadura militar a direita raivosa e maniqueísta ousou tanto. O trabalho do Instituto reflete retratos da sociedade e precisa de independência para ser produzido. Seus resultados devem servir para orientar políticas e programas de governo. Não pode ser o contrário. Decidir o que deve – e como deve – ser levado ao conhecimento da população é lance arriscado que ofende a democracia. Com ele vem a irresistível vontade de retocar as fotografias e reescrever a história.
Xico Vargas para NoMínimo

O IBGE vive de juntar números e credibilidade. Juridicamente, é uma fundação mais independente do governo que o Banco Central. Por que o Instituto deve mandar os resultados de suas pesquisas ao Ministério do Planejamento com 24 ou 48 horas de antecedência, por cima ou por baixo do pano? E por que não ao Vaticano? São números que permitem manipulações do mercado e do humor da patuléia. Vem aí um indicador ruim? Arma-se um circo, lança-se a última versão do ProNada e cria-se um grupo de trabalho. Não se trata de usar a conhecimento prévio para fraudar indicadores, mas de permitir ao aparelho de propaganda do governo que se adapte, para o bem ou para o mal, às contas do IBGE. [...]
É possível que os doutores Nelson Machado (ministro interino do Planejamento) e Eduardo Nunes (presidente do IBGE) não se lembrem: Luiz Inácio da Silva deve seus primeiros quinze minutos de fama a uma manipulação estatística legitimada pela Fundação Getúlio Vargas.[...]
Se Lula quer falar sério, pode mandar ao Congresso um projeto que dá ao IBGE a autonomia que a banca quer convencê-lo a dar ao Banco Central.
Elio Gaspari para O Globo

anotado por - 06:46 AM

xvi salão

Para quem ainda não sabe, o Ricky Goodwin está fazendo um diário da produção do XVI Salão Carioca de Humor, esse ano homenageando Millôr Fernandes, Jaguar e Lan, além da homenagem póstuma a Borjalo (nos moldes da que foi feita para Redi, ano passado, creio). As notícias mais recentes podem ser lidas no Blog0news; se metade do que ele prepara se concretizar já será imperdível.

anotado por - 06:40 AM

fevereiro 01, 2005

todas as festas felizes demais, de Fabio Danesi Rossi

Mais suspeito para comentar o livro do Fabio do que eu, só a mãe dele.

todas as festas felizes demais, de fabio danesi rossi

Li mais da metade dos contos ali presentes em suas versões originais, alguns em primeira mão; a maioria, na tela do monitor, através do blog dele. Em pelo menos um, cheguei a encontrar alterações feitas a sugestão minha. Acompanho sua evolução como escritor desde que ele começou a produzir para a internet; o mesmo ele pode dizer de mim. Já perdi a conta das vezes em que compartilhamos mesas e caronas, quando um dos dois se mete a cruzar a ponte aérea. Se, como ele, eu tivesse ascendência italiana seria difícil negar que fazemos parte da máfia; de alguma máfia.

Por isso, fico um tanto constrangido em escrever sobre Todas as Festas Felizes Demais. Por isso e pelo tanto que já foi tanto elogiado, e tão devidamente, que me pergunto se teria algo a acrescentar -- um trecho que tenha chamado minha atenção, uma observação sobre como seus personagens usam referências da alta cultura na mais banal das conversas, um nome bem escolhido.

Notei que o Fabio atingira um padrão de qualidade superior quando li sua seleção no livro mostarda; eu já sabia que ele sabia escrever, mas ali, pela primeira vez, me saltou aos olhos que sua produção média peneirada sobressaía, empurrando-o inevitavelmente para as melhores do livro. Sensação semelhante ocorreu durante a leitura de Todas as Festas Felizes Demais, só que, dessa vez, a referência não eram mais seus companheiros de portal, mas o que chegou no papel da primeira leva (já inaugurou-se a segunda?) de escritores da internet. Digo sem ressalvas: está entre os melhores lançamentos, assim como o esquecido livro do Mr. Manson.

Ah, mas o que eu estou falando... Todo mundo sabe que a melhor coisa que o Fabio escreveu até hoje foi o relato de sua primeira impressão sobre mim ;)

Brinde: entrevista de FDR com Crib Tanaka, outro nome a se observar.

anotado por - 07:50 AM

fsm x bm

Vendo as fotos do Fórum Social Mundial edição 2004, não pude deixar de me lembrar do Burning Man: gente fantasiada exoticamente. Gente pelada. Banho escasso. Infraestrutura precária e improvisada. Manifestações do contra. Barracas de acampar. Tendas dos mais variados formatos. Calor. A principal diferença é no tocante à água, escassa no deserto de Black Rock, enquanto Porto Alegre fica às margens do Guaíba e no teor das manifestações: enquanto os esquerdistas anti-globalização procuram meios de aumentar a exposição do FSM na mídia, os não-espectadores do deserto torcem o nariz para os grandes meios de comunicação -- barraram Playboy e MTv por serem grandes corporações, só Lonely Planet fez documentário lá, que eu saiba -- e atacam de internet, pasquins, rádio de curto alcance etc.

Mas tem coisas que só o Fórum Social Mundial faz por você, como essa notícia: Marchas de mulheres e pelados se esbarram.

anotado por - 07:21 AM