abril 24, 2005

dia do choro (ontem)

pixinguinha

(em foto inesquecível de Walter Firmo)

anotado por Rafael - 12:10 PM

abril 20, 2005

quem vem

Deu no jornal: Ronald Russel Wallace de Chevalier, o popular Roniquito, um dos mais folclóricos personagens da história do Rio nas décadas de 60 e 70, vai ganhar biografia. Escrito por sua irmã, a jornalista Scarlet Moon, o livro contará a trajetória do criador da palavra “aspone”. Roniquito foi economista, assessor de Mário Henrique Simonsen, alto funcionário da Globo e boêmio. Seu humor oscilava do sublime ao monstruoso, a ponto de o melhor título para o livro até agora ser “Doctor Roni e Mr. Quito”. Morreu em frente ao bar Antonio’s, no Leblon, seu escritório etílico, atropelado por um fusca. (quem vai gostar de saber é o Alexandre. Ah não, ele implica é com o Hugo Bidet).

E um passarinho me contou que vem ao Rio de Janeiro para lançar na Bienal do Livro, pela Rocco, Eu Sou Charlotte Simmons, o dândi das máquinas de escrever Tom Wolfe (alguém confirma?).

anotado por Rafael - 12:24 PM

navegabilidade

Depois que o Netscape apareceu, ninguém mais lembrou que a internet também podia ser escarafunchada em modo texto (na verdade desde antes, com o Mosaic) e hoje, em tempos de banda larga e acesso ultra-rápido, pouca gente pensa em racionalizar conteúdo de mensagens, tamanho (e quantidade) de imagens em uma página. A partir de certo ponto, o nome do jogo passou a ser navegabilidade, a facilidade de deslocamento -- e de encontrar informação -- do leitor no labirinto virtual. É quando surge a estranha figura do arquiteto de informação, expressão que já me rendeu muitas gargalhadas. Talvez deve ter pensado nisso quem bolou esse joguinho, mistura de investigação de pistas com problemas de navegabilidade.

anotado por Rafael - 12:19 PM

1000 portas

Está na rede mais um projeto literário de bloguistas: A Casa das Mil Portas, idealizado por Nemo Nox e encabeçado por uma penca de gente, entre os quais esse que aqui digita (parece que vai ser aberto a novas colaborações, mas por enquanto, não). É assim: você entra na casa e lê, aleatoriamente, um dos mini-contos de até 50 caracteres, como esses aqui: E (sempre) repetia: é só dessa vez, eu juro. (Crib Tanaka), - Só um pouquinho. - Não, só depois de casar. (Daniel Q.), O plano era perfeito porque tinha uma falha. (Affonso Guerrero), Sou teu inferno astral, disse levantando a saia. (Fernando Serboncini). Os meus? Vão ter que ir lá dar reload até encontrar; só digo que são três.

O legal é que os contos reunidos são contos mesmo, por mais apertado que o formato seja, e não aforismas, versos de música pop, ditados, trocadilhos, haikais, como a maioria do que foi reunido na coletânea Os Menores Contos Brasileiros do Século pelo Marcelino Freire.

Ainda na seara da microliteratura, tem especial 300 Toques no Paralelos. Orra meu, para quem escreve com 50, trezentos é uma lauda...

anotado por Rafael - 12:13 PM

como não?

Depois de mostrar como não ser editado, Lisandro explica como não comprar livros.
Eu adoréi o último item, "peça para embrulharem para presente"...

anotado por Rafael - 12:07 PM

alemão

A Bernardo o que é de Bernardo: Se vocês já achavam que estava ruim com o Polonês no trono, ah, então vocês vão adorar o Alemão. (janeiro de 2005). Ah, a clarividência dos blogs!

Rubinho Barrichello já sabe: o alemão vem aí para acabar com essa farra de coroinha mulher, missa rezada sem ser em latim e hóstia sabor limão, que história é essa agora.

anotado por Rafael - 12:05 PM

abril 15, 2005

Eu e Natalia

eu sou o do lado direito

Eu e Natalia Nara, ex-Big Brother Brasil, capa simultânea das edições deste VIP e Playboy deste mês, ora nas bancas. Foto tirada no dia 18 de março passado, em noite imbuída pelo espírito de Tony de Marco, no Hard Rock Café do Rio de Janeiro, onde comemorava-se o aniversário de nobre amigo meu (não, ela não era uma convidada).

anotado por Rafael - 03:57 PM

avisinhos

1. Alexandre Cruz Almeida manda avisar que agora é Alexandre Castro. O que há num nome? Responde o Noronha:

Fui batizado com um dos nomes mais comuns em minha geração, se bem o(s) sobrenome(s) sejam complicados. Mas sou testemunha do sofrimento de meninos amaldiçoados com nomes como Roniel, Waldomir, Sanderlei, Emmanoel. Se o Brasil fosse civilizado quinêimq os Estados Unidos, esses meninos oprimidos na infância se vingariam à maneira apocalíptica, fazendo chacina na escola ou subindo a um campanário e fuzilando uns 35 Jacks, Bobs, Maries e Susans. Mas não: os Ranulfos e Inocêncios brasileiros sempre dão um jeito de ir parar no governo e extrair vingança muito mais cruel e duradoura.

2. No SoBReCarGa, minha resenha de Elektra Assassina (de Frank Miller e Bill Sienkiewicz), que li pela primeira vez há mais de dez anos, não dei muita atenção e reli, agora que foi relançado.

anotado por Rafael - 11:58 AM

abril 13, 2005

ar frio

ar frio, whrigtson

Uma da smais horripilantes adaptações para quadrinhos da Kripta, o conto Ar Frio de H.P.Lovecraft foi desenhado por Berni Whrigtson no auge do jogo de sombras -- antes, tinha criado o Monstro do Pântano, com Lein Wein e depois ilustraria Frankstein de Mary Shelley e faria Freak Show para a Heavy Metal, mas bom mesmo era aquele preto e branco assustador dos tempos de Eerie.

anotado por Rafael - 05:10 PM

abril 12, 2005

7 coisas que aprendi

7 coisas que aprendi vendo Herói e O Clã das Adagas Voadoras:
1. Todos os chineses voam.
2. Chineses fazem amor vestidos.
3. Chineses sempre se vestem em cores que combinem com o ambiente, levando em conta as mudanças das estações.
4. (Se bem que eu fiquei com a impressão de que padronagens e cortes também servem para identificar quem é quem -- ao menos aos olhos ocidentais).
5. Chineses não têm nomes próprios; emprestam os da natureza, como faziam os índios norte-americanos (Nuvem Ligeira, Touro Sentado, Neve etc.).
6. Todas as armas atingem o alvo em cheio, a menos que os arremessadores não o queiram.
7. Apesar de praticarem artes marciais eximiamente, em cada espadachim chinês se esconde um artista nato: um músico, um dançarino; no mínimo, um calígrafo.

Atualização: Nemo também viu os dois filmes e teve uma impressão bem semelhante à minha.

anotado por Rafael - 11:08 AM

misoginia

[Arrisco, com isso, a comprar briga com todas as leitoras que porventura passem aqui, mas vai mesmo assim] O número 186 do gibi Cerebus chegou como uma bomba nas lojas especializadas. Nenhum personagem morria, não tinha nenhuma virada de roteiro, nenhum artista novo estreiava. É que Dave Sim, editor-roteirista-desenhista-arte-finalista-letrista-respondedor-de-cartas da revista resolvera colocar em palavras -- só em palavras -- um punhado de idéias que andara desenvolvendo de forma meio dissimulada (sob título Tangents), culminando naquele número com uma visão absolutamente radical sobre o que fosse o universo feminino em forma de ensaio. Choveram cartas na redação, onde o termo mais leve (e mais freqüente) se referindo a Sim era misógino. Jeff Smith, criador de Bone, que houvera sido apresentado no Cerebus Preview, rompeu com Dave. Diana Schutz, leitora teste há anos, pediu o boné tempos depois. Gary Groth e os fidagais figadais (obrigado, Ruy) inimigos do The Comic Journal confirmaram: Sim tinha pirado de vez. Gerhard, que fazia os fundos, continuou tão mudo quanto antes. Radical, intransigente, refugiado em seu bunker canadense, Dave Sim ficou ainda mais só. Sempre foi implícito, para este que digita, que qualquer link apontados na cara do gol não tinha seu conteúdo necessariamente endossado por mim e sempre acreditou-se que isso era suficientemente intuitivo para poupar o trabalho de uma declaração por escrito. Mas como patrulhamento é mato hoje, fica aqui para todas as disposições que as idéias de Dave Sim no ensaio Tangents não correspondem necessariamente às deste autor. Nem por isso deixo de indicar aqui.

women love cerebus

anotado por Rafael - 11:05 AM

abril 11, 2005

questão de ordem

Tendo em vista a existência de uma corrente, forte ao que parece, no Vaticano, em prol de um papa latino-americano, questão de ordem que ninguém levantou: e se o próximo papa for argentino?

anotado por Rafael - 02:13 PM

batidão neurótico

Silvio Essinger explica um dos segredos insondáveis da cidade de São Sebastião nos dois parágrafos iniciais dum livro que promete.

Existe o Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro e o Rio de Janeiro. Três cidades que ocupam o mesmo espaço geográfico, mas raramente o mesmo espaço simbólico. O primeiro Rio é aquele que ainda anseia por Ipanemas perdidas, de um tempo em que os amores eram recatados e silenciosos, o povo sorridente e polido, a água do mar cristalina e tépida e a música suave e gingada. Uma cidade do tempo em que o subúrbio era cordial e fazia festas que a Zona Sul, num acesso de boa vontade, vez ou outra aparecia para curtir, mas sem se envolver muito — pelo menos até que acreditasse entender exatamente o que
estava acontecendo. O segundo Rio é a terra de ninguém, trombeteada nos noticiários de TV, em que cada esquina é um Vietnã ou Iraque e não há lugar seguro para correr. Uma cidade de favelas que cercam os redutos de cidadania, favelas dominadas por traficantes e demais bandidos que cada vez mais freqüentemente transbordam para o asfalto a sua violência. É um Rio em guerra aberta e quente. Uma guerra que, na opinião de muitos, deveria ficar restrita aos limites da favela — local onde esses mesmos muitos, exceto por razões de extrema necessidade, jamais pisariam em toda a vida.

Mas há ainda um terceiro Rio de Janeiro. Aquele de quem anda de ônibus, compra nas bancas os jornais populares, zanza pelo camelódromo, permite-se um churrasquinho de gato com cerveja na esquina e sabe que existem muitos matizes entre o preto e o branco, a favela e o asfalto, a lei e o crime. Uma cidade que se reinventa a cada dia no ritmo vertiginoso da revolução tecnológica e que não recusa aquilo que o século 21 lhe oferece. Cidade de pessoas que, seja qual for a cor e a classe social, andam para lá e para cá com celulares, rádios minúsculos, CDs piratas ou não e DVDs idem. Gente que assiste à TV por assinatura e que se nega a ceder à nostalgia e à prisão voluntária em formas antiquadas, mas comprovadamente brasileiras — e, por isso, teoricamente mais legítimas — de expressão. É uma cidade que pode ir do samba de roda à techno music, da umbanda ao padre pop, do grito para a casa da vizinha à internet num microinstante. É o Rio de Janeiro que, musicalmente, não cabe mais no compasso da bossa nova — por mais que alguns tenham tentado aditivar eletronicamente o seu balanço — e nem no chamado samba de raiz, cultuado por setores jovens da classe média, mas definitivamente trocado pela grande massa pelo flexível pagode romântico, que assume sem preconceitos as formas úteis de toda a música popular, seja ela o rock, o sertanejo ou o pop negro americano.

batidão

anotado por Rafael - 11:12 AM

mais salão no sobrecarga

Desde sexta-feira passada, a segunda parte do meu artigo sobre o XVI Salão Carioca de Humor está no SoBReCarGa. Um obrigado especial ao Roberto Figueredo por ter encontrado a caricatura primeiro lugar e o link para os premiados.

anotado por Rafael - 11:05 AM

esse mau hábito

[Outra coisa é que eu não perco esse mau hábito de trazer pra cá uma crônica do Ivan Lessa de vez em quando. Dessa vez, aprende-se Como Apreciar um Quadro. Em tempo: eu sou dos que consegue ficar 4 horas apreciando um quadro ou escultura, mas peça-me para escutar uma sinfonia ou ópera...]

Basta dar um feriado que cismam de me levar a um museu ou galeria de arte. Este ano, quiseram me empurrar para a exposição de Caravaggio, na National Gallery, ou a de Turner, Whistler e Monet, na Tate Britain.

Pela enésima vez, expliquei que na minha sopa genética faltara um ingrediente vital: aquele que leva o indivíduo à apreciação do pictórico. Bati perna por museu afora, por este mundo de Deus e de seus Da Vincis, achei tudo muito bonito, mas não via a hora de poder sair dali e fumar um cigarrinho.

Deixei de fumar, deixei de parar diante de quadro célebre. Nada senti diante da Odalisca de Matisse. Ou Guernica, de Picasso. Não me gabo. Nada alardeio. Apenas admito minha insensibilidade. Aprendi a conviver comigo mesmo e mentir o mínimo possível para poder atravessar o dia.

Na verdade, até há alguns anos (e que isso fique entre nós), eu não podia me ver diante de obra pictórica de renome – a Mona Lisa, digamos – que só sentia uma coisa: vontade de tomar distância, vir correndo e dar uma cabeçada na dita cuja. Que fique claro: não era minha intenção ganhar espaço na imprensa mundial. Era algo inexplicável que vinha lá do fundo de minha alma. Assim como não deixar de tacar mais uma colherada na lata de leite condensado.

Fico sabendo agora que um dos mais profundos filósofos britânicos da história da arte, Richard Wollheim, escreveu, certa vez, que a única maneira que conseguia apreciar um quadro, uma pintura, era ficar paradão diante dele durante um mínimo de quatro horas, que só assim poderia usufruir dos prazeres de uma obra.

Ora, não é bem assim que, feriado ou não, se vai a exposição de arte, aqui na Grã-Bretanha, ou no mundo. Todos têm que passar, olhar para o bruto pendurado na parede, e seguir logo em frente, que atrás vem gente.

Mais terrível, para mim, é o percurso feito com guia falando alto, gesticulando e explicando tudo o que nasceu para ser inexplicado. Diabólicos mesmo são aqueles aparelhinhos com a visita pré-gravada em fita que as pessoas ouvem como se fosse CD de rock.

Toda arte custa uma fortuna e o único lucro é financeiro, para quem é marchand ou acabou de achar um Monet no sótão.

Todos nós – eu, principalmente – merecemos uma boa cabeçada nos peitos, que é para deixarmos de ser bestas. Arte é para quem pode, ou acha que pode.

anotado por Rafael - 11:01 AM

abril 08, 2005

micro-exposição: jaguar, Millôr, Borjalo

As retrospectivas de 80 anos de vida de Millôr Fernandes (com direito a relançamento fac-similar da revista O Pif-Paf), de 70 anos de vida do Jaguar e a mostra póstuma do Borjalo constantes do XVI Salão Carioca de Humor foram super tocantes para quem acompanha ou, no mínimo, aprecia o chamado humorismo gráfico. Nem falo do Lan porque já perdi a conta de exposições que fizeram dele, e dificilmente alguma superará aquela do MNBA em meados dos anos 1990. Por isso, mini-homenagem aos 3 nessa nota.

::: Jaguar:

ciclope vesgo

dinheiro é psicológico

::: Millôr (uma charge e um texto):

eu não encano

Enfim esta seção [o Pif Paf] responde a algumas das terríveis perguntas que vêm sendo feitas a milhares de anos sem que ninguém jamais se atrevesse a respondê-las!

P - Você sabe com quem está falando?
R - Com um imbecil que tem mania de ser importante.

P - Você pensa que eu sou um dêsses idiotas que andam por aí?
R - Não. Eu penso que você é a criatura mais idiota que eu já vi na minha vida.

P - Quantas vêzes eu já lhe disse que não quero você no meio dessa molecagem?
R - Se não me falha a memória, 12337.

P - Mas, que diabo, o barulho dessa construção não vai para nunca mais?
R - Vai sim. Vai parar às quatro horas, como aliás todos os dias, quando os operários forem embora. E vai parar daqui a um ano ou dois, quando o edifício estiver construído.

P - Você está querendo levar uma boa surra quando seu pai chegar?
R - Não senhora. Estou tentando apenas fazer as coisas que me dão prazer mas que naturalmente entram em conflito com os interêsses da senhora.

P - Desde quando mulher manda nesta casa?
R - Embora você só o perceba agora, desde que nos casamos.

P - Quem foi que lhe ensinou essa palavra?
R - O senhor mesmo, no domingo, quando bateu com o martelo no dedo.

P - Quando é que você viu um menino de sua idade tratar asssim as pessoas mais velhas?
R - Sempre.

P - Onde é que você andou até agora?
R - Eu não andei. Estava sentado no bar, enchendo a cara.

P - Mas, por que essas coisas só acontece comigo?
R - Porque você é muito mais estúpido do que o resto da humanidade. Ou tem mais azar.

P - Você acha mesmo isso ou está dizendo só pra me agradar?
R - Estou dizendo só pra lhe agradar.

P - Você alguma vez já me viu ficar irritado assim?
R - Êste ano só 240 vêzes. Mas é que estamos em agôsto.

::: Borjalo:

repouso

o caçador de borboletas

delicadeza

(Mais cartuns do Borjalo aqui)

anotado por Rafael - 10:28 AM

acabou o racionamento

Daniel Galera trouxe de volta o Rancho Carne. Ipiaiou.

anotado por Rafael - 10:04 AM

notas sobre o Primeiro episódio do Mano a Mano

Primeiro episódio do Mano a Mano ontem, na Rede TV. Acho que a maior barreira que o programa vai ter que ultrapassar para alcançar sucesso vai ser mesmo a do formato: acostumar o público televisivo ao humor de sitcom. Mesmo humorísticos recentes como Os Normais ou Os Aspones, que beberam naquela fonte, fugiam ao formato padrão aqui e ali. Mano a Mano, não: o roteiro casa direitinho com o que passa na tevê a cabo. Quando falo em barreira, é por causa do volume de piadas por minuto ser muito maior do que em qualquer programa tradicional (A Praça é Nossa, Zorra Total), o que teoricamente implicaria numa capacidade de assimilação mais rápida. Em nível de qualidade, as piadas estão em posição igual a de qualquer programa inovador (Casseta & Planeta Urgente, Pânico), numa comparação um bocado forçada, já que são formatos diferentes. Mesmo assim, é difícil ver achados como "estou escondido aqui nesse buraco, que nem o Saddam", "já vi quarto de empregada em casa de patrão, mas quarto de patrão em casa de empregado é a primeira vez!" ou "é melhor não ir para debaixo da ponte, o senhor está devendo para o empreiteiro" entre as opções atuais; no mínimo, Mano a Mano abre espaço para um novo ritmo de fazer e de contar humor, apropriado para a tela pequena. Nesse sentido, destaque para a cena da bala perdida, perfeita. Isso em relação ao formato do roteiro. Quanto a direção e atuações, fica a impressão de que ainda há acertos para a harmonia do elenco; o tom das atuações é irregular. Leandro Firmino parece já ter encontrado o seu, mas Kenya Costa atua como se estivesse em uma novela e mesmo que exista espaço para tiradas verbais mais escrachadas, os momentos de pastelão de Silvio Guindane ficam desencontrados. Os produtores devem ter entendido que humor não tem fronteiras, o que liberou para piadas contra rico, pobre,
bicha, mulher -- tudo leva a crer que conseguirão fazer piada contra negro, que é a cor de metade do elenco. Embora o conceito básico (rico arruinado que vai morar entre pobres) não seja inovador -- já foi explorado inclusive em novela da Globo -- alguns pontos são interessantes: ação passada numa favela (na Globo, seria subúrbio, "núcleo pobre"), o mordomo ter se mudado junto (boa "escada"). Vejamos o que os próximos episódios nos prometem.

anotado por Rafael - 10:02 AM

abril 05, 2005

Cão come Cão, de Edward Bunker: I fought the law and the law won

Uma vez eu escrevi um artigo sobre o fumar, que terminava com a observação de que eu, pessoalmente, não fumava. Não era bem um artigo; era mais uma colagem, uma costura de citações e informações acerca de fumar que eu obtivera em relatórios para acionistas da Souza Cruz e juntara com crônicas de Rubem Braga e Millôr Fernandes. Todo mundo gostou. Quase ninguém acreditou que eu não fumava, depois de ler.

Aquele artigo me ensinou uma coisa fundamental, não sobre fumar, mas sobre a escrever, que é o seguinte: existe uma diferença intransponível entre quem sabe escrever e quem não sabe, e essa diferença pode ser resumida desse modo: quem sabe escrever tem o poder de enganar quem não sabe. Um poder que não é absoluto, mas é tão amplo e tão vasto que quem não sabe, não tem a menor idéia do quanto pode ser enganado. Pior: em geral, gosta de ser enganado. Pede mais. Porque não tem idéia do tamanho do logro, e sequer lhe passa pela cabeça que pode estar sendo logrado. Eu não fumava, nunca fumei, mas fiz, meio sem querer, todo mundo acreditar na minha intimidade com filtros e fumaça.

Lembrei dessa história quando li a introdução de William Styron para o livro Cão come Cão, de Edward Bunker. Styron começa afirmando que não haveria área da experiência humana onde a imaginação não conseguisse, literalmente, chegar. Para defender sua tese, cita a África de Saul Bellow em Henderson the Rain King, a guerra de Stephen Crane em The Red Badge of Courage -- nenhum deles houvera viajado até o continente negro ou sido combatente, entretanto. Todos enganadores, sofisticados enganadores de leitores, com seus enredos intrincados e descrições tortuosas, elevando os efeitos que eu conseguira no meu artigo sobre cigarros à categoria de arte. William Styron se pergunta, então, se haveria algum lugar inatingível pela imaginação literária, e conclui que sim: esse lugar seria o submundo do crime norte-americano (a edição original é de 1996). Tudo isso para preparar o leitor para o raro relato de um legítimo representante do submundo, Edward Bunker. Ao menos esse, não era um enganador.
cão come cão
Fiquei imaginando o efeito cômico que essa introdução de Styron provocaria se aplicada a um romance policial nacional, haja vista a quantidade de escritores que situa suas narrativas, ainda que parcialmente, na sarjeta, no submundo. Seriam todos, ao menos de passagem, marginais? Ou seria tudo um imenso teatro para provocar o leitor? O questionamento é tão crucial que foi uma das bases de outro artigo meu, Quixotes de Bukowski: para escrever como Bukowski, não seria necessário levar uma vida como a que ele levou? Ou sua essência poderia ser captada (que seja parcialmente) através da literatura -- como eu fizera, aliás, com o ato de fumar -- prescindindo da experiência em si? A resposta brasileira a essa pergunta, é que sim, mimetizar a vivência marginal era suficiente para encantar os leitores -- pelo menos era o que eles respondiam nas vendas e na popularidade do gênero. Os leitores parecem demonstrar uma predisposição para serem enganados, contanto que bem enganados; era o que essa análise rápida, somada ao caso dos cigarros me fazia concluir.

A quantidade de títulos nacionais envolvendo histórias de submundo é enorme e, no entanto, quantos seriam os escritores brasileiros com passagem relevante pela marginália, mesmo que num passado distante? Rubem Fonseca. José Louzeiro. Antônio Fraga (muito mais marginal do que escritor). Quantos mais? Quantos poderiam ser alinhados a Edward Bunker na linha dos não enganadores?

Alguma coisa não fechava naquele raciocínio. O sucesso da literatura mundo-cão por aqui se daria mais por afinidade do público com aquela temática do que por conhecimento de causa dos escritores. A questão é que não basta ludibriar o público, fazendo-o crer na suposta intimidade do autor com os assuntos sobre os quais discorria ("tenho vontade de escrever um romance erótico só para todo mundo pensar que eu sou vivido", apud Alexandre Soares), como também não basta conhecer por saber próprio o assunto sobre o qual se falava. É preciso algo mais, algo que Styron, malandramente, menciona só depois na introdução, sem frisar sua importância para a boa escrita: técnica literária. Ed Bunker não apenas conviveu com gangsters, meliantes e traficantes. Não adquiriu somente aquele tipo de conhecimento específico do submundo que lhe serve agora como credibilidade, do tipo abrir um corte no dedo para misturar sangue na amostra de urina do hospital, de modo a forjar um problema de saúde muito mais sério, e prolongar a estada no hospital, ou mesmo o conhecimento mais genérico de como são seus mecanismos internos -- Gay Talese já mostrara, em Honor thy Father, ao contrário da percepção média, que não acontecia muita coisa no dia-a-dia da máfia italiana, onde se passava a maior parte do tempo ociosamente lendo jornais e fumando cigarros. Na década em que passou na prisão, Edward Bunker aprendeu isso e ainda devorou clássicos e mais clássicos que lhe balizaram a qualidade de seus escritos. Ele gastou suas horas ociosas aprisionado lendo e escrevendo furiosamente.

Cão come Cão é um grande romance não apenas porque ele esteve perto de gente e situações como as que descreve, mas porque sabe como descrevê-las. Ele tinha a rara combinação entre técnica literária e vivência, sem a qual o texto passa aquela suave e intragável sensação de impropriedade, de que o escritor, por mais palavrões que use, no duro, no duro, não sabe do que está falando. Não tem a menor idéia. Está tão horrorizado quanto seu leitor com aquele festim diabólico que acabou de descrever; talvez um pouco mais, pela vanglória de ter conseguido pôr aquilo no papel.

Naquele momento, lembrei-me subitamente de que, embora eu não fumasse, sempre tive contato com parentes e amigos fumantes inveterados; se fumar não fazia parte da minha experiência pessoal, certamente fazia do meu universo sensorial próximo -- eu conhecera desde cedo hábitos e manias de fumantes, e aquilo transpareceu em meu artigo. Fora o que me permitira demonstrar a propriedade, naquele assunto específico, que tantos escritores não conseguem, sobre a vida marginal. A propriedade, que é uma das maiores -- quase caio na tentação fácil de escrever "a maior" -- qualidades de seu texto. A técnica é a outra.

A técnica de Bunker faz crer que, se ele não escrevesse sobre marginais, ainda assim escreveria grandes livros. O que há de genial no estilo de Bunker é a maneira como ele descreve cenas de ação, sobretudo aquelas cenas curtas onde a ação parece estar vindo de todos os cantos, e você fica correndo os olhos pela tela, ops, pela página para (tentar!) acompanhar, porque as consequências se misturam com os atos. A lembrança de cinema, Tarantino, é inevitável -- há um referência a Pulp Fiction em Cão come Cão, Bunker atuou em Reservoir Dogs -- mas Bunker é anterior, e independe de uma câmera. Note como ele joga com os diversos planos, evoluindo de maneira improvável com uso exemplar de verbos no pretérito perfeito para denotar ações de curta duração já encerradas:

Ele deu uma olhada em torno do quarto. Ficava no segundo andar e podia-se ver o lance de escadas que dava para a rua. As coisas estavam numa bagunça dos diabos. Jornais, meias, roupas e lençóis se espalhavam por todo o aposento. Tinha jogado os lençóis para longe quando o cigarro caiu de sua mão e o colchão começou a fumegar. Estava vendo o Trailblazers arrebentar o Lakers quando sentiu o cheiro da fumaça. A água dos peixinhos dourados não conseguiu apagar o fogo. Teve de cortar o colchão e arrancar o algodão fumengante. O buraco agora estava coberto com uma toalha, mas o cheiro ainda impregnava o quarto. O que diria Sheila quando chegasse em casa?

No cinema, consegue-se esse efeito com cortes rápidos, ou chicoteando a câmera, em ziguezague. Nos quadrinhos, dividindo-se a página em quadros verticais finos, o que acentua a sensação de passagem de tempos curtos. Em literatura, é muito mais difícil reproduzir esse efeito apenas com palavras. Bunker não faz só isso; abre espaço para comentar as características das armas de fogo; pára a ação, seguindo uma bala enquanto ela atravessa os tecidos do corpo, indo se alojar em algum osso -- parece um daqueles efeitos especiais de Matrix, mas é literatura; mostra o que está se passando na cabeça de cada envolvido no tiroteio; dá voz aos diálogos. Tudo isso sem fazer cinema escrito; você não tem dúvidas de que está lendo um livro e não um roteiro.

Mais uma ou duas coisas. Bunker tem bagagem cultural, tem leitura, e não se incomoda em usá-la numa referência que encorpe o texto. Sem afetação: não se envergonha de ser um ex-marginal culto, exatamente o erro que Bukowski cometia. No capítulo em que apresenta o passado de Troy, cita a Bíblia, Complexo de Édipo, Rudyard Kipling, Dostoievski, Kafka, Francis Bacon e Darwin. De vez em quando, encaixa uma frase inesperadamente erudita num parágrafo corrido (o título de seu primeiro romance, No Beast So Fierce, é retirado de uma citação de Shakespeare). E faz isso sem se deslumbrar com a própria erudição, erro de quase todos os (pseudo-)marginais convertidos a literatos brasileiros, e ao mesmo tempo sem ficar chorando pitangas da vida estúpida que levou. Quantos marginais de salão seriam capazes de uma análise estética sem condescendência como essa:

Freqüentemente se perguntava por que aqueles que viviam fora da lei costumavam adotar um estilo que os assinalava. Mesmo agora, jovens marginais vestiam calças muito largas e camisetas folgadas, bonés voltados para trás e deixavam os cordões dos tênis desamarrados. Os filhos da burguesia imitavam esse estilo, mas suas origens vinham da escola correcional, onde as roupas eram fornecidas sempre acima do número, e para a polícia levantavam a mesma suspeita hostil que roupas espalhafatosas e penteados rabo-de-pato despertavam duas gerações antes.

Delinqüente, para ele, é caso de polícia e fim de papo, mesmo que ele se negue a fazer um comentário positivo que seja sobre o sistema correcional. Bunker sabe que o caminho do crime é sem volta, então corre de levar a bandeira de herói que foge do sistema; se o sistema é corrupto e injusto ao criar seus próprios vermes, e ao perpetuá-los em carceragens desapropriadas e polícias destreinadas, não são menos injustos os que conseguem sobreviver à sua margem, driblar seus estatutos, fugir de suas leis -- méritos nessa corrida da sobrevivência à parte.

É essa atitude independente que faz seu texto diferente, porque crítico, sem lados. Bunker sabe que a vida é circunstância, que transgredir a lei pode ser o que resta quando o sistema falha, e mais: que a ética não desaparece do lado de dentro dos muros da penitenciária; se converte num tipo muito específico, ainda que facilmente reconhecível, a ética do crime, como qualquer um que já viu um filme sobre a máfia, sabe. Bunker sabe que viver sempre à margem das leis é mais falta de opção do que opção, e por isso não deve ser vista como heroísmo. Mas talvez ele só tenha chegado a todas essas conclusões porque não morou no Brasil...

No fim, é uma sociedade muito esquisita essa que valoriza e cultua o conhecimento de quem desobedeceu suas fundações e escapou para contar a história, até dependendo de gente assim para, como é que se diz, evoluir. Gente como Edward Bunker.

anotado por Rafael - 11:56 AM

abril 04, 2005

sin city: do papel para a tela, sem storyboard

O lugar-comum "semelhança assombrosa" adquire novos significados a partir da estréia do filme Sin City, baseado no substrato homônimo em história em quadrinhos. O conceito de "fidelidade" na transposição de meios também terá que ser revisto, mesmo considerando-se que Frank Miller sempre dialogou com o cinema em seus gibis. Uma coisa é você identificar que aquele plano em que o Homem-Aranha cala a boca do J.Jameson com um jato de teia é igual a um quadrinho desenhado pelo John Romita na década de 60. Outra coisa é isso aqui (as imagens foram agrupadas por história em que se basearam: Big Fat Kill, That Yellow Bastard, Dame Wore Red etc).

sin city na tela e no papel

anotado por Rafael - 01:37 PM

abril 01, 2005

abram alas para o outono

E antes que me esqueça: o outono não esperou nem um pouquinho para chegar, abrindo a última terça-feira com o céu naquele tom azul-sem-nuvens que não existe em nenhuma piscina de Hockney, em nenhuma tela de Degas e em nenhuma fotografia de LaChapelle. O calor não é mais de fritar miolos e os dias são os mais agradáveis do ano. Aleluia.

anotado por Rafael - 03:11 PM

pre-datados VII

cheques pre_datados

anotado por Rafael - 09:55 AM

XVI salão no sobrecarga

No SoBReCarGa dessa semana, as principais homenagens do XVI Salão Carioca de Humor: exposições de Lan, Millôr e Borjalo. Semana que vem falarei do grande homenageado, Jaguar, e dos vencedores em cada categoria.

Ainda mais: as páginas de uma improvável homenagem a Bill Watterson na revista do Homem-Aranha!

anotado por Rafael - 09:54 AM

flávio

Demorei tanto a escrever sobre o Flávio que o ALLLexandre acabou indo antes.

Flávio de Almeida, ou simplesmente Flávio, até uns 15 anos atrás era uma assinatura razoavelmente conhecida por mim; eu sabia que ele fazia cartuns para a revista Mad, mas também sabia que ele tinha ganho um Salão de Piracicaba com uma história em quadrinhos. Alguma coisa me dizia que ele era mais do que um rabiscador de humor. Acho que a primeira vez que eu vi o Flávio foi na Bienal de Quadrinhos em 1991, mas ali não vale porque o stand da Mad era a maior aglomeração de gente esquisita que eu tinha visto.

No ano seguinte, minha intuição se provou correta, quando o Flávio bancou uma publicação independente: Dasdô. Muita gente andou fazendo isso naquela primeira metade de década, foi um período rico e o ele resolveu colecionar suas tiras da Dasdô num gibi, mas a surpresa estava num personagem que misturava nostalgia, violência e claro-escuro, Realeza. Era o chamado quadrinho adulto. Acho que foi naquele lançamento que eu soube que o Flávio lia Cerebus.

Anos depois eu fazia um fanzine, tinha ficado completamente sobressaltado quando li Cerebus (sensação que não se atenuou de todo, mais de dez anos depois), e resolvi escrever para ele, pedindo um texto, já que parecíamos ser os únicos moradores da cidade que sabiam quem era Dave Sim. Correio mesmo, snail mail, funcionava que era uma maravilha para esse negócio de fanzine. Semanas depois, chegou o depoimento dele, revelando como o deslumbre de sua descoberta fora muito semelhante ao meu.

Dali para diante a gente ficou mais próximo, e de vez em quando se esbarrava numa exposição, num lançamento, numa mesa dividida com o Marcelo Martinez ou o Ota. Ele insistiu duas vezes com outros gibis, Realeza e outro cujo nome não lembro nem à força. As dedicatórias sempre vinham personalizadas. Gente que se conhecia de nome.

Com o definhamento da Mad, achei que nunca mais teria contato que não fosse esporádico com o Flávio, até que descobri que ele tinha um blog, logo no Gardenal. E que, ainda por cima, estava apontando pra cá. Não sei, mas sempre que eu penso no Flávio eu lembro daquela história que ele é o Forrest Whitaker branco: um cara grande pra burro, meio assustador, mas se você olhar de perto, vai ver que é um tranqüilo sangue bom.

anotado por Rafael - 09:48 AM