QUIXOTES DE BUKOWSKI
Dom Quixote, de Cervantes, é o
romance maior da literatura espanhola e de fundamental importância para a
compreensão da literatura e da era moderna. Colocando de maneira muito simples,
o enredo trata das aventuras de um fidalgo que, após vasta leitura de romances
medievais, se acredita um cavaleiro andante e sai peregrinando num raquítico
cavalo, envergando um simulacro de
armadura metálica despedaçada, sob o nome de Dom Quixote. Em seus devaneios,
Quixote enxerga gigantes em moinhos de vento, inimigos potenciais para os atos
heróicos que visa perpetrar, enquanto é enganado, iludido e ludibriado pelos
comuns em seu caminho.
Na escola, é usual ouvir-se a
interpretação de que o Quixote seria uma crítica à era medieval, aos valores da
Idade Média, então caindo em decadência – um comentário sobre a chegada dos
novos tempos. De fato, uma das características marcantes da época moderna é a
adoção de temas vulgares pela arte, aqui ressaltando-se o caráter de retrato de
seu tempo. Se os temas dignos de serem retratados na pintura, antes, – dignos
inclusive por motivos financeiros, posto que a massificação dos meios de
expressão só foi uma realidade a partir dos tempos modernos – eram deuses,
santos, guerreiros, reis ou nobres, agora passariam a ocupar as telas
pescadores, pequenos comerciantes, as dançarinas de cabaré de Toulouse-Lautrec.
A mudança de eixo temática dos
tempos modernos foi profunda em todas as direções. Se as restrições técnicas e
financeiras de antes já funcionavam como um filtro para os artistas, com o
aumento das tiragens, pela chegada da era Industrial, muitas normas caíram por
terra. Leis e decretos regulamentando a moral e a “decência” nas letras, que
impediam a chegada aos Estados Unidos da América de livros como O Amante de Lady Chatterley,
Trópico de Câncer e Almoço Nu, caíram em cascata a partir do
início dos anos 60. Se a quebra dos parâmetros do Antigo Regime – fim da
distinção de uma nobreza, maior distributivismo dos
meios de produção, espalhamento da renda – dera voz a certo tipo de escritor
para falar das vulgaridades de seu dia a dia (do latim vulgus, comum), ainda haveria a
inércia das idéias e das leis a se vencer até a divulgação universal. Nos EUA,
essa inércia foi vencida através da Primeira Emenda, que garantia a liberdade
de expressão, das brechas na definição legal puritana do que fosse “obsceno” e do
crescimento de obras dotadas do que se convenciona chamar “valor social” – tal
como o Complexo de Portnoy,
de Philip Roth – ao longo
das anos 60 e 70, até que não fizessem absolutamente mais sentido e qualquer
coisa pudesse ser publicada e vendida em livros naquele país.
É nesse contexto que surge Charles Bu
Bu
Mesmo que se retire
da questão a temática abordada – valem meleca, sangue e fezes – é completamente
questionável a adoção de Bu
Um dos grandes
motivos do sucesso literário de Bu
Para entender o
segundo motivo é preciso voltar ao Dom Quixote. Como todo bom romancista,
Cervantes construiu sua obra magna com complexidade de tal sorte que significados
ocultos vão se revelando à medida em que se mergulha com maior dedicação e
estudo na leitura. Julio de Lemos anotou que, apesar de desconhecer os motivos,
sua intuição continuava a dizer “ser ele [Dom
Quixote], no fundo, a única pessoa lúcida numa história onde os que o
cercam são todos loucos. Talvez uma pista esteja na seguinte constatação:
sabendo que é um personagem de romance, ele é o único que age como tal; os
outros vivem as suas vidas mesquinhas na mais disparatada banalidade. Em outras
palavras, haveria, aí, uma sábia inversão de perspectivas: o fidalgo Dom
Quixote teria consciência de ser uma persona
literária, e os outros, alienados, julgariam ser pessoas de carne e osso.”
Apesar de Quixote aparecer em todo o romance defendendo de maneira “muito
esperançosa e aparentemente disparatada [...] os valores da nobreza e da honra”,
ninguém mais consegue compartilhar com o cavaleiro andante tanto sua visão
quanto seus valores de nobreza.
Charles Bu