28.2.03
Pergunta: O que têm em comum os livros A Sangue
Frio, de Truman Capote; Décadas Púrpuras e Ficar ou Não
Ficar, de Tom Wolfe; Os Degraus do Pentágono e A Luta,
de Norman Mailer, Fear and Loathing in Las Vegas, de Hunter S.
Thompson e A Mulher do Próximo, de Gay Talese?
Resposta: Nenhum deles pode ser considerado
Literatura. Todos eles foram livros escritos com base em
pesquisas realizadas por cada dos escritores acima e são relatos, em
maior ou em menor grau, factuais do que foi visto ou ouvido. Numa
biblioteca, têm que ser colocados numa estante à parte, na seção de
para-literatura ou meta-literatura, mais próximos das
coletâneas de jornalismo do que da ficção, que é onde fica a Literatura.
Ainda que façam uso de recursos ou da técnica literária, não se pode
classificá-los como Literatura, assim mesmo com L maiúsculo. Se fosse
assim, histórias em quadrinhos também deveriam ser classificadas como
literatura, afinal, também podem se valer de recursos & técnica
literária.
Pergunta: E qual é a diferença?
Resposta: A Literatura, que surgiu com a poesia lírica, adota
por tema "as
sutilezas da alma de cada um", ao contrário do que acontecia nos
épicos, onde o tema era externo a qualquer um e a diferença se dava
apenas pelo modo de narrar. Thompson, Mailer, Wolfe, todos eles
relataram fatos que qualquer um repórter poderia igualmente ter
feito, não obstante as superiores capacidades narrativas deles.
Pergunta: E isso faz dos livros citados acima piores?
Resposta: Não. Mas também não faz deles
Literatura. anotado em 13:34
Pitacos:
27.2.03
O urubu tá com raiva do boi Mas eu sei que ele tá com
a razão O urubu tá com fome quer comer Mas o boi não quer
morrer Não dá
alimentação... anotado em 15:00
Pitacos:
Ter ou não ter comentários? Neo
ataca de frente: Alguns posts escritos aqui estimulam um
comentário de quem lê, é fato. Mas isso não é motivo suficiente para que
esses comentários sejam publicados. (...) Os comentários
são uma espécie de lista de discussão minimalista (...), e isso é
um meio de comunicação significativo na medida em que soluciona uma
vontade (do leitor) de se expressar ao mesmo tempo em que alimenta o
desejo (de quem escreveu primeiro) de repercurtir o troço. Isso se chama
diálogo. Mas aqui não é uma ágora. O
resto está aqui. anotado em 14:47
Pitacos:
Ontem vi o trailer do
aguardado filme do Hulk. Aguardado
por mim, no caso, e há muito tempo -- quem lia os quadrinhos nos tempos
remotos da infância e lembra a precariedade tanto da impressão das
revistas quanto dos efeitos especiais no cinema sabe o quanto sonhou com
o dia em que as tecnologias visuais teriam evoluído o suficiente para
levar à tela o gigante esmeralda. Claro que os fãs mais nerds --
os mesmos que não pararam de ler super-heróis mensalmente depois de
adultos -- vão reclamar que os movimentos estão robóticos, que as
expressões faciais estão congeladas, que aqueles músculos não existem ao
invés de aproveitarem o que está rolando na tela. Uma das cenas
clássicas, que era clichê em quadrinhos e tiveram o cuidado de transpôr
para a tela, é a do Hulk girando um tanque pelo canhão e atirando-o
longe. Espanta fazer as contas e concluir que foi preciso menos do que
um par de décadas para dar movimento ao Homem-Aranha, X-Men, o Hulk.
Falando assim, parece até que o trailer foi melhor do que o filme
principal. Não
foi. É Spielberg fazendo o que faz melhor: brincando de ser
Spielberg. Ao invés de amadurecer, ser grave, circunspecto e difícil.
Nada como reestabelecer o mundo como ele era na
infância. anotado em 14:45
Pitacos:
25.2.03
Sentindo-se solitário? Vai uma gota de sangue gasta em cada
post bem escrito, e ninguém no ciberespaço se dá ao trabalho de
comentá-lo? Esses brutos não têm sensibilidade para o verdadeiro
talento? Seus problemas acabaram: contrate os serviços profissionais Samara Comenta,
comentadora de blogs profissional. Mais um oferecimento da mente
insana do Lisandro. anotado em 14:26
Pitacos:
Até o fim dos dias Foi a Patricia
quem propôs uma vez, como projeto para o resto da vida, tirar fotos
das ruas que ela mais gosta e repetir esse ato a cada 10 anos. De cara,
me lembrei do Conto
de Natal de Auggie Wren, onde o dono da charutaria mostra ao
escritor Paul Benjamin sua coleção de fotos de uma esquina particular no
Brooklin, uma tirada por dia. Outra coisa que me veio à cabeça é uma
frase que o Gabeira usa de
epígrafe em um de seus livros, "ninguém conheceu um determinado lugar a
não ser numa determinada época; não é possível viver uma determinada
época a não ser um determinado lugar".
Acabei divergindo para transitoriedade e efemérides quando o assunto
em questão era projetos de vida. Toda vez que eu passo por uma
experiência festiva de grandes dimensões (como o foi o desfile
do Monobloco), volta-me a ocasião da leitura de um certo artigo em
uma revista estrangeira, não lembro qual, listando as 20 maiores festas
do mundo. Fui conferir e para meu espanto, descobri que já tinha estado
em duas delas!
Nunca encontrei o tal artigo na internet, mas em compensação, achei
uma listinha
tipo top ten e descobri os completíssimos WhatsOnWhen, 2 Camels, StreetParties, Festivals.com e o World-party.com, que mantinha em
votação contínua as 40 melhores festas do mundo. Valia tudo, de evento
(Fête de la Musique, Dia de los Muertos) a Carnaval
(Mardi Gras), a parada (Love Parade, Queda da Bastilha),a
festival (de música de Glastonbury, de artes de Edimburgo), a bebedeira
(Oktoberfest) até aquele tipo de coisa que desafia definições
rápidas (Burning Man).
Então que não seria um mau projeto de vida visitar as 30 maiores
festas do mundo. Descobri até que, em menor escala, um
gringo já está fazendo isso, na taxa de uma festa por continente. A
propósito, a minha contagem atual não está mais em duas, já são
três. anotado em 14:24
Pitacos:
Beckett, Ionesco e Jarry "Que o Judiciário passe a
(...) agir dentro da lei antes que seja tarde. Se as leis foram feitas
para serem cumpridas, por que este abuso?"
Quem foi o autor da frase acima? (a) Rosinha Matheus
Garotinho (b) Arnaldo Jabor, no Jornal Nacional (c) Cesar Maia,
prefeito do RJ (d) um articulista de fundo do Jotabê (e) um
deputado estadual do PT
A
resposta está aqui. anotado
em 12:13
Pitacos:
Ah, como é bom morar em Medellín!
Jogar avião em arranha-céu daqui terrorista não joga, mas com trinta e
um veículos queimados e depredados, coquetel molotov
arremessado num ônibus em Botafogo, cabine da PM metralhada,
comércio fechado à força em não sei quantos bairros -- tudo isso
pela segunda
vez em menos de seis meses! -- eu pergunto se a gente precisa...
E a governadora Rosinha Matheus
disse que já sabia da disposição do tráfico -- desde a meia-noite
de domingo. anotado em 12:12
Pitacos:
24.2.03
Ontem foi dia de Monobloco.
Não sei o que me espanta mais no desfile: a prova viva de que o carnaval
de rua ainda sobrevive, mesmo que com roupagem muderna; as
impressionantes aglomerações (confiram nas capas do Jotabê e do Globo de hoje); a Zélia Duncan
tocando tambor na ala dos batuqueiros, a quantidade de patricinhas de
maquiagem e celular no meio do samba; a variedade rítmica das músicas ou
o espetáculo que é o bloco conseguir atravessar seu trajeto de 3km (como
a cada ano muda o trajeto, menciono apenas a extensão) sem executar
nenhuma, ah!, nenhuma axé music. Melhor do que o
Monobloco, só mesmo o bloco
do Derrida ou Desce. Monobloco:
reportagens no
JB e no
Globo. anotado em 09:48
Pitacos:
21.2.03
Um pouco de arte
feita a partir do Mathematica, exemplificando o poder do
software. anotado em 12:07
Pitacos:
Aviso à comunidade Como o Paulo Polzonoff Jr. ficou meio
preocupado com as más interpretações que isso
pode desencadear, sugiro que os rotuladores de plantão leiam
mais sobre o assunto e conheçam a História antes de ficarem por aí
salivando com suas maquininhas
remarcadoras... anotado em 12:06
Pitacos:
Autômatos Celulares Foi através
do Hiro que eu ouvi falar pela primeira vez de Stephen Wolfram. Já
conhecia de nome o Mathematica, programinha de cálculo que o
mini-gênio desenvolveu para resolver os próprios problemas (prático,
não? Ao invés de utilizar um existente, foi lá e escreveu o seu
software), mas o termo cellular
automata, autômato celular, não pertencia ao meu vocabulário até
aqueles artigos. Como se criar um programa e ficar milionário da venda
dos direitos fosse pouco, Wolfram decidira passar os últimos 10 anos (ou
coisa assim) trabalhando num livro, A New Kind of Science, onde
ele elaborarava um novo tipo de ciência com que iria explicar
todo o comportamento do universo. As
reportagens noticiavam o recente lançamento do livro.
Um dos pulos-de-gato na pesquisa de Wolfram é exatamente o conceito
de autômato celular, que seria o menor elemento de um sistema (célula)
capaz de alternar naturalmente entre um número finito de estados a
intervalos de tempo iguais (autômato), segundo uma regra definida. Um
exemplo banal do que seria um autômato celular é o jogo-passatempo Life, ao fim e ao
cabo, uma simulação do desenvolvimento de populações. Cada quadrinho
cheio, representando uma população (ou um indivíduo) permanece "vivo" na
rodada se o número de vizinhos adjacentes é propício a tal, nem
excessivo, nem pouco, e a cada rodada nova tem-se uma configuração
diferente. O objetivo do jogo é escolher uma configuração inicial de tal
sorte que ela permaneça estável. Exemplos do
jogo Life mostram como diversas combinações espaciais podem
propiciar populações estáveis.
Nas teses de Wolfram
para explicar o universo, autômatos celulares teriam um papel
fundamental na explicação do desenvolvimento de estruturas complexas,
que teriam sua origem em recombinações lineares de sistemas mais
simples. A
melhor analogia que encontrei de como isso se daria supõe o
seguinte: você tem que ladrilhar o gramado do Maracanã, incluindo o
espaço fora das 4 linhas. Do lado de cada gol tem uma pilha enorme de
caixas com ladrilhos padrão, pretos e brancos. Como simplesmente ir
colocando um ladrilho do lado do outro iria te matar de tédio, você
começa a bolar pequenas leis, simples padrões a seguir que norteiem a
montagem: dois ladrilhos pretos só podem se tocar na diagonal, ladrilhos
brancos podem formar Ts mas não Us, e assim
sucessivamente. De posse de umas 10 regrinhas, você recomeça o trabalho
e vai, mês após mês, desempilhando e cobrindo o campo. Depois de alguns
anos, a última caixa esvaziando, finalmente o último ladrilho é
colocado. Hora de limpar o suor e ir embora. Antes, porém, você decide
dar uma olhada no resultado: sobre a rampa, entra na arquibancada,
degrau a degrau acima, de costas para o gramado completamente coberto,
até a cabine de imprensa, imaginando que ao chegar lá em cima você verá
algum padrão como mármore ou areia. Então você vira, olha
e vê uma flor -- perfeita, com textura, forma, vida.
Stephen Wolfram deve ter
experimentado uma sensação assim quando, após meses trancado em seu
laboratório imprimindo gráficos gerados por autômatos celulares
matemáticos, deparou-se com um padrão visual conhecido, uma imagem
existente e recorrente na natureza. Se aqueles autômatos, através de
operações elementares, eram capazes de criar
aquilo, então talvez eles fossem o elemento que faltava ao
entendimento da natureza através de padrões. Dado que a matemática é a
linguagem da natureza, e que desde os gregos se conhece a razão dourada,
razão constante que se manifesta em várias proporções do ser humano, e
que quando aparece no rosto humanos tendemos a interpretar aquilo como
beleza; dado que Fídias, o arquiteto e escultor grego, utilizava
amplamente essa razão tanto nas esculturas quanto nas estruturas que
projetava, e hoje a letra grega que designa a razão dourada é o
Fi em sua homenagem; dado que a constante Pi, não por
acaso outra letra grega irracional cuja aleatoriedade na parte
fracionária faz dela um número irracional tão intrigante que até um
filme já foi feito a seu respeito, então talvez os autômatos celulares,
na sua capacidade de simularem (ou seria copiarem?) a realidade, mais do
que fornecerem vários elementos para o estudo da vida artificial, fossem o caminho para
o entendimento da vida no universo.
Pensamentos assim voltaram-me à mente quando soube que o Ram
tinha lido o livro do Wolfram e redigido suas ruminações a respeito.
Quando do lançamento, a maior parte da reportagens
era de espanto e ceticismo; com o tempo, apareceram as primeiras
críticas fundamentadas e questionamentos teóricos. É um dos assuntos
mais intrigantes com que me
deparei. anotado em 12:03
Pitacos:
20.2.03
Salinger Checklist J.D. Salinger é daqueles
escritores que trocou a prolificidade pela qualidade e escreveu tão
pouco que torna possível, quando não fácil, fazer uma lista dessas,
conquanto ela o tenha de retenção anal. A originalidade dos títulos dos
contos contrasta com o franciscanismo dos títulos dos livros que os
colecionam; observar também a coerência com que evolui e cresce o
universo ficcional da família Glass. É vexatório saber que
revistas como a Cosmopolitan e Esquire um dia publicaram
contos assim e se transformaram no que são. Algumas anotações breves
seguem ao fim, a título de curiosidade.
1940 - The Young Folks (conto na revista
"Story") 1941 - The Hang of It (conto na revista
"Collier's") e The Heart of a Broken Story (conto na revista
"Esquire") 1942 - Personal Notes of an Infantryman
(conto na revista "Collier's") e The Long Debut of Lois Tagget
(conto na revista "Esquire"), e ainda Paula (conto inédito
comprado pela revista "Stag") 1943 - The Variono
Brothers (conto no "Saturday Evening Post") 1944 - Both
Parties Concerned, Soft-Boiled Sergeant e Last Day of the
Last Furlough (contos no "Saturday Evening Post") e Once a Week
Won't Kill You (conto na revista "Story") 1945 - A Boy
in France (conto no "Saturday Evening Post"), Elaine (conto
na revista "Story"), This Sandwich Has No Mayonnaise (conto na
revista "Esquire"), The Stranger e I'm Crazy (contos na
revista "Collier's") 1946 - primeiro esboço de The Catcher
in the Rye, não editado; Slight Rebellion Off Madison (conto
na "The New Yorker", estréia nessa publicação) 1947 - A
Young Girl in 1941 with No Waist at All (conto na revista
"Mademoiselle") e The Inverted Forest (conto na
"Cosmopolitan") De 1948 a 1953 - Todos os contos de
Nine Stories saem em "The New Yorker" e em "Harper's", e mais
A Girl I Knew (conto em "Good Housekeeping"), Blue Melody
(conto no "Cosmopolitan") e Ocean Full of Bowling Balls, conto
inédito sobre a família Glass. 1951 - The Catcher in the
Rye (livro) 1953 - Nine Stories
(livro) 1955 - Franny e Raise High the Roof
Beam, Carpenters (contos em "The New Yorker") 1957 -
Zooey e Seymour an Introduction (contos em "The New
Yorker") 1961 - Franny and Zooey (livro) 1963
- Raise High the Roof Beam, Carpenters and Seymour an
Introduction (livro)
a. Em Last Day of the Last Furlough, aparece pela primeira vez
o nome Holden Caufield. b. Em I'm Crazy, Holden
Caufield aparece pela primeira vez como personagem central. c. Com
A Girl I Knew, Salinger aparece pela primeira vez na edição anual
do "Best American Short Stories". d. Um dos contos de Nine
Stories, Uncle Wiggly in Connecticut, foi levado ao cinema por
Samuel Goldwin em 1950 com tal deturpação da história que Salinger, daí
por diante, não deu mais autorização para ninguém encenar, por qualquer
meio que fosse, qualquer trabalho
seu. anotado em 15:08
Pitacos:
Aspas a granel:
"Estou quase terminando o livro do Saramago. Gosto dele, os seus
livros têm um quê de episódios de Seinfeld." (Claudio Andrés
Téllez)
"A vaca está para a égua assim como o vácuo está para o ego." (do
blog Protensão.
Cheguei até lá através de alguém que disse que o blog parecia com
os escritos Millôr Fernandes. Boa pedida para os apreciadores da infame
arte do trocadilho.)
E para encerrar, esse elogio à nerdice: "Existem 10 tipos
de pessoas no mundo... As que conhecem binário e as que não." (Alex
Barp, Labview R&D, National Instruments). Via Cataplum. anotado
em 15:00
Pitacos:
Rafael Gomez, repórter da BBC na loura Albion e
antigo companheiro de outras internetadas, conta para a gente como foi
o
dia em que Londres parou para dizer não à
guerra. anotado em 14:57
Pitacos:
19.2.03
Não era bem isso " [...] all parentheses and
dashes are syntactical defeats. They signify an inability to express
one's ideas sequentially, which, unless you're James Joyce, is the way
the language was meant to be used. Reality may be simultaneous, but
expository prose is linear. Parentheses and dashes represent efforts to
elude the responsibilities of linearity." (Paul Robinson)
Citação feita há algum tempo em Por um Punhado de Pixels.
Levando-se em conta o tipo de redação mediana que se encontra na rede
atualmente, poderia-se acrescentar as reticências à lista de
entulhos que atrapalham a linearidade de um texto, pelo menos do modo
excessivo como são usadas. Com parcimônia, indicam continuação (ao
infinito?), vaguidão, ironia até. Como vírgulas, só indicam a
incapacidade do escritor em elaborar meios para se expressar. Por essas
e por outras é que a Ana Veras sugeriu que começassem a fabricar
teclados com as reticências já prontas em uma
tecla... anotado em 10:55
Pitacos:
...o drible não é, senão, um sopro divino. É como um
verso. É como uma canção. Nasce, inesperadamente, irresistivelmente. Drible
é invenção e invenção ninguém planeja. O drible simplesmente
acontece e acontece a despeito do
driblador. anotado em 10:47
Pitacos:
"O título dado no Brasil -- "O Apanhador no Campo de
Centeio" -- resultante de uma tradução literal (por imposição do
próprio Salinger), conquanto tenha agradado a ponto de ajudar a
consagrar o livro, não é de sentido facilmente compreensível. Foi
inspirado, como diz o autor no curso do romance, num verso de Robert
Burns, poeta escocês. A locução de in the rye, traduzível por "no
campo de centeio", é, entretanto, uma expressão idiomática que
significa "perigo" ou "dificuldade", sentido que sem dúvida lhe
emprestou Burns em seu poema. O apanhador, ou pegador, é o jogador de
beisebol, incumbido da defesa. O título, portanto, simboliza o ideal
manifesto pelo personagem Holden Caufield: defender as crianças que
estivessem expostas ao perigo"
(Retirado do folheto promocional Conheça J.D. Salinger -
notas sôbre sua vida e sua obra, elaborado pelo Departamento
de Divulgação da Editôra do Autor Ltda. e encontrado dentro de uma
edição de 1970 de Franny e Zooey, da mesma editora. Perdão --
editôra.) anotado em 10:47
Pitacos:
18.2.03
Hierarquia Ilustrando as manifestações de sábado pela
paz, foi encontrada essa pichação na porta do banheiro do
restaurante Lamas:
Fora Bush! Fora Blair! Fora Mauro Ney e
Montenegro!
Aos não-cariocas: Mauro Ney e
Montenegro são dois cartolas do Botafogo de Futebol e Regatas,
recentemente rebaixado à segunda divisão do campeonato
brasileiro... anotado em 16:46
Pitacos:
Passatempo de primeira: tire o
retângulo mais escuro do
quadrado. anotado em 16:44
Pitacos:
Ecos do fim de semana "Tirando o Rafael Lima, todo
mundo aqui nessa
mesa é fascista." (Paulo Polzonoff Jr.)
anotado em 16:44
Pitacos:
"Não li os clássicos, nem os essenciais, nem os medianos,
nem os necessários. Nunca ouvi as aveludadas vozes do jazz nem os cantos
celestiais da música erudita. Sou um pésssimo decorador de frases e
pensamentos soltos. Tenho graves dificuldades para a argumentação
filosófica. Mas será preciso tudo isso para descobrir os prazeres de ser
educado; de saber acariciar um corpo feminino; de gargalhar insanamente
com pessoas amigas; de ter a certeza de que o uísque pode levar ao
melhor dos mundos?"
E o Bruno
ainda vem com aquela audácia de assassinar o
blog! anotado em 16:42
Pitacos:
14.2.03
Hoje é dia de Fabio,
Bruno, Polzonoff e Alexandre na área.
A cidade vai
ferver. anotado em 15:00
Pitacos:
Agora este blog pede publica e educadamente licença à
todos para assumir uma posição
mais à direita. anotado em 14:56
Pitacos:
"Foi-se a carrocinha, foi-se este último bastião da
moralidade pública, foi-se também Nelson Rodrigues que neste momento
estaria ao meio-fio, a baba santa escorrendo-lhe por um canto da boca.
Sacramentaria aos ventos ateus: ''Só a carrocinha salva a família! Só a
carrocinha faz sabão do deboche!'' Joaquim
Ferreira dos Santos, o melhor texto carioca da imprensa
nacional e ponto. anotado em 14:54
Pitacos:
11.2.03
Uma História Real Como eu já devia ter imaginado,
depois de uma semana de atualização furiosa, o Lisandro
começou a achar que aquilo era completa perda de tempo e matou o
blog-com-nome-de-palíndromo dele, Oto come MocotÓ.
Típico. Duas semanas depois, me escreve dizendo que, futucando de
bobeira nos bits, acabou começando outro blog quase sem
perceber. Mais típico ainda. Eu que não vou me dar ao trabalho de ficar
atualizando o endereço aqui, que eu conheço bem ele e não faço mais nada
da vida. Mas como o cara continua escrevendo muito bem, trago uma
amostra pra cá:
Viva a assistência social! Essa eu ouvi de fonte
interna:
A secretaria municipal do bem estar social de Rio das Ostras recebeu
uma ligação um tanto quanto insólita. Um dos paraplégicos recentemente
beneficiados com a distribuição de cadeiras de rodas motorizadas estava
na prefeitura de Búzios e pedia ajuda para voltar. Perguntado como havia
chegado lá, ele respondeu que atravessara todo o trajeto de quase 40Km
de cadeira de rodas; só que, ao chegar, as baterias que alimentam o
motor da cadeira arriaram e ele ficou sem meios para voltar.
- Por que você foi até aí de cadeira de rodas? - o funcionário da
secretaria de Rio das Ostras perguntou. - Agora que estou
motorizado, você acha que eu ia perder a oportunidade de impressionar as
gatinhas de Búzios? - respondeu o galã-móvel.
É tão insólito que só pode ser verdade.
E teve gente que ficou impressionada com a
história daquele velhinho que atravessou um estado montado num cortador
de grama. David Lynch, você
não sabe de nada... anotado em 14:11
Pitacos:
Quer falar
com J.D. Salinger, meu
filho? anotado em 14:06
Pitacos:
Repositório A primeira idéia era só uma nota para
recomendar O Poder
da Palavra, artigo de Marcelo Träsel (do Martelada) para a Fraude, mas como sempre acabei me perdendo
pelos meandros do portal e encontrei muito mais: o manifesto do Movimento de Miséria
Auto-Sustentável ou Neo-Thoreuniano, um jogo dos sete erros entre o Fórum Social
Mundial e o Fórum Econômico Mundial -- aliás, a melhor cobertura dos
bastidores do FSM/2003 foi da Fraude, mostrando impressões dos repórteres, dos acampados e até o
anedótico que ninguém
viu. Também ganhou uma coluna por lá o Alexandre Matias,
ex-editor da revista e do portal Play, antes da reorientação editorial
pela qual ela passou. Ainda que eu implique com uma mania que ele tem de
explicar tintim por tintim o que o mundo é e como veio a ser em cada
artigo -- nunca consegue se focar num tema só; começa falando de rock e
em alguns parágrafos já chegou a drogas psicodélicas, Kennedy, satélites
artificiais, Deus -- gostei desse texto, entre
outros. E tem ainda um blog
coletivo. A Fraude já é um notável
repositório de conteúdo. anotado em
14:05
Pitacos:
Dia de luto para o cinema brasileiro: faleceu José
Lewgoy. Figurinha fácil de se encontrar nos cinemas de rua, Lewgoy
andava apoiado numa bengala, fosse para as sessões de começo de tarde,
onde a concentração de aposentados é regra, fosse nas premiéres
de meia noite no Leblon -- aos 82 anos de
idade. anotado em 13:59
Pitacos:
10.2.03
Depois de anos queimando a mufa, Hernani Dimantas
reúne a suma de suas idéias no livro
Marketing Hacker, com lançamento
marcado para o dia 24, cujo prefácio
pode ser lido no Buzzine. Para quem não conhece, há ruminações em
tempo real no blog Marketing Hacker e uma
rápida e certeira entrevista com Hernani no
Burburinho. anotado em 14:56
Pitacos:
Tem gente que pega erros de continuidade, tem gente que
percebe incoerências históricas e tem gente que tem o olho afiado para a
tipografia que
aparece em filmes. anotado em 14:52
Pitacos:
Cesar
Valente assinala a Farra do Boi catarinense em outra
perspectiva:
"Os espanhóis podem correr pelas ruas, no “encierro” da festa de San
Fermín, em julho, atrás ou na frente de bois, com direito a proteção
policial, transmissão pela TV e procissão católica. Estão preservando
suas tradições comunitárias, mantendo viva aquela liga sutil que
transforma aglomerados humanos em nações. Mas o pessoal pobre que vive
no litoral de Santa Catarina não pode brincar com um boi sem ser
desrespeitado e chamado de tudo que não é."
"Não tem gente mais generosa, hospitaleira e compreensiva com a
dificuldade alheia. Gente que aprendeu, nas dificuldades da vida no mar,
a trabalhar e viver em equipe. Gente que trabalha muito, ganha pouco e
tem o direito de se divertir correndo atrás ou na frente de um boizinho
de vez em quando. Como seus primos e parentes que vivem hoje na Espanha
e em Portugal." anotado em 14:51
Pitacos:
7.2.03
Teatro sempre lembra umas histórias boas, porque ainda é
tratado com certa reverência pelo público, ao contrário do cinema, onde
conversar ao celular ou ao vivo são comportamentos padrão (no teatro
sempre há chance do ator interromper a cena e passar uma descompostura
no mal educado em tempo real e foro público).
* * * A complicada encenação de Liberdade,
Liberdade -- complicada porque a peça quase não foi liberada pela
Censura -- enfrentou um problema a mais do que o mau agourento clima de
perseguição política da época, 1965, logo após instauração do governo
militar. As cadeiras do teatro eram antigas e não paravam de ranger; o
barulho atrapalharia (se não inviabilizasse completamente) a encenação.
Ciente disso, Millôr Fernandes bolou um caco para Flávio
Rangel, logo no começo do texto, que dizia mais ou menos o seguinte,
em tom bem grave: a partir daquele momento, cada espectador
deveria escolher sua posição, fosse na direita, fosse na esquerda, fosse
ao centro, e deveria permanecer nela. E assentia: mas é
imprescindível que cada um permaneça nela!, porque, se ficar
se mexendo, vai fazer barulho e ninguém vai escutar nada do
texto...
* * * A praxe nos espetáculos de hoje é uma gravação
solicitar educamente que se desliguem celulares e aparelhos eletrônicos
durante a exibição, após uma infindável lista de agradecimentos a
patrocinadores, produtores e órgãos públicos. Humor pode se manifestar
de várias formas, e até nessa gravação eu já o vi penetrar: em peça de
Nelson Rodrigues encenada no idem, com patrocíno, pasme-se, do
Ronaldinho (Nazário, aquele), após a lenga-lenga habitual
sobre pagers e celulares, a voz misteriosa dizia: "... e pedimos ainda,
que se os senhores espectadores tiverem balas ou bombons em seus bolsos,
desembrulhem-nos e coloquem na boca
agora". anotado em 14:40
Pitacos:
Depois de abrir a editora, Sonia Nolasco decidiu
colocar no ar, por enquanto ainda em estágio bastante embrionário, a página oficial de Paulo
Francis. Inaugura com um texto contido na sua emoção, fotos dos
gatos, amigos, viagens, tudo em flash. Aguarda-se a disposição de
textos on-line, sobretudo aqueles que não receberam
lombada. anotado em 14:38
Pitacos:
Arlequim Durante o século XVIII, as cidades
italianas foram governadas ora pelo reino da Espanha, ora pela Áustria,
além da interferência do Papa. O dramaturgo veneziano Carlo
Goldoni, trabalhando em Perúgia, Veneza, Milão ou Roma, e casado com
uma genovesa, teve que aprender a lidar com o jogo de pressões políticas
ao seu redor para viver. A par dessa informação, fica mais fácil
entender porque sua peça Arlequim,
servidor de dois patrões, tornou-se um clássico, sobrevivendo por
mais de 200 anos, cinquenta dos quais reencenado
ininterruptamente pelo Piccolo Teatro de
Milão.
Em Arlequim
estão elementos herdados da Commedia
dell'Arte: pantomina, máscaras (na montagem em questão, pintadas ao
rosto, como nos clowns, ou feitas em próteses de látex),
malabarismos circenses, interpretação caricatural, todo o arsenal que
enche de vida um palco e de movimento, luz e cor os olhos do espectador,
num jogo de cena que lembra um balé, um número de picadeiro, um
bailarina a girar no espelhinho da caixinha de música. Além do
personagem título, pelo menos mais dois são arquetípicos:
Pantaleão, o velhote velhaco, e Doutor, o gorducho
latinista. Teria um sabor estranhamente anacrônico se não fossem tipos
até hoje emulados dramaticamente em qualquer folhetim ou filme, de
maneira menos ou mais clara (A Viagem do Capitão
Tornado), e se não fossem retratos tão bem feitos da figura humana,
qual pintados por Moliére,
não por coincidência o modelo de Goldoni.
Assistir a uma montagem
de Arlequim, servidor de dois patrões, é embalar-se com a melodia
amena do cravo bem-temperado, é adentrar um mundo de nobres envolvidos
em artimanhas financeiras e servos dando tratos à bola para atendê-los,
e rir dos erros cometidos nessa tarefa. Como é agradável essa capacidade
de se abstrair da poeira e do calor lá fora (o ar condicionado ajuda
bastante) deixando-se levar pela imaginação até Veneza, um passeio de
gôndola na mágica Veneza renascentista, e desejar ser um nobre daqueles
servidos por criados fazem-tudo -- de preparar uma refeição a buscar uma
carta no correio -- para poder andar com botas de cano longo e chapéu de
três pontas e disputar elegantes duelos de florim, a arma correta para
se resgatar a honra com sangue (e não pesados e desajeitados sabres, que
só cabem em duelos de filmes
mentirosos).
E como se não bastasse, Corto Maltese me
aguarda no criado-mudo em Fábula
de Veneza. anotado em 14:36
Pitacos:
6.2.03
Jane Avril
por Toulouse Lautrec anotado em
16:31
Pitacos:
Ficar maravilhado pela descoberta de um quadrinho raro ou
clássico perfeitamente digitalizado e disponível para leitura na rede
causa uma sensação gratificante em qualquer leitor de longo curso. Mas
leitor de longo curso vai ao delírio mesmo quando encontra uma pérola
como o Famous Bus
Rides # 1. anotado em 16:30
Pitacos:
Entropia Se o tempo que você ganha com tudo
organizado é menor do que o tempo que você gasta para organizar tudo,
então não vale a pena se organizar. Um porém: no limite, essa equação
fura; se você se organizar cada vez menos, ao ponto de nunca organizar
nada, não conseguirá fazer coisa
alguma. anotado em 16:30
Pitacos:
5.2.03
Aspas para
Elesbão: "Louvo o empenho geral pela informação e a busca de
referências externas que possam nortear tendências e propostas de estudo
no contexto internacional, mas há também um viés passivo, uma excessiva
prostração em descompasso com a primeira pessoa. Poucos largam do
voyeurismo para trabalhar em algo. Poucos mesmo, de afligir."
"Não adianta a preguiça, e cabe a qualquer um a dedicação para o
crescimento. Podemos e devemos recuperar o que a mistura nos
proporciona. Aplauda e reconheça o mérito estrangeiro, mas encare-os nos
olhos. Chega de reprodução."
Mais aspas para MauVal: "se
tem um mundinho que eu não consigo engolir é o da moda. repito, nunca
vi uma matéria, uma reportagem, um perfil, um "qualquer coisa" com quem
quer que seja da cena fashion (arghhhhhhhh...) brasileira que falasse
algo de positivo." ... "mas essa turma tem um valor - ela
conseguiu fazer uma realidade que interessa a pouquíssimas pessoas se
tranformar em manchete de primeira página! louvável! equivale a um
programa de DUB em FM ser comentado pela fátima bernardes. tudo bem,
vamos guardar a devidas proporções, a indústria da moda gera muitos
empregos e desenvolve uma técnica de produção exemplar. mas não é por
isso que ela tem todo esse espaço, né? já tô legal de tanta "gente
bonita". domingo? maraca aqui vou
eu!" anotado em 16:32
Pitacos:
Do
Repente: número 2! Tema: café. Vício do qual estou
livre. anotado em 16:28
Pitacos:
Help Build a
Better America: uma sugestão do Crumb para tempos de guerra
iminente? anotado em 16:27
Pitacos:
Saiu a primeira crítica ao livro Ira Implacável do
meu amigo LEM, e pode ser lida
na Tribuna OnLine. Eu achei que Ira Implacável tinha nome de
filme de domingo à noite. Com o Charles
Bronson. anotado em 16:26
Pitacos:
4.2.03
Nas décadas de 20 e 30 ficaram populares nos E.U.A. gibis
pornográficos vagabundos, vendidos de mão em mão e não raro, parodiando
personagens famosos das tiras de jornal. Como nenhuma gráfica queria
imprimi-los, os originais eram levados para a cidade fronteiriça de
Tijuana, no México, por isso ficaram conhecidas como Tijuana
Bibles, bíblias de Tijuana. Will Eisner conta em suas
memórias, The Dreamer, que recebeu uma proposta da máfia de seu
bairro para desenhar aquelas revistas, logo no comecinho da carreira,
antes de montar o estúdio Eisner & Iger, e diz que aquela
recusa foi a decisão editorial mais difícil de sua vida. Aqui no Brasil
aconteceu fenômeno semelhante entre os anos 50 e 70 com os
Catecismos de Carlos Zéfiro, funcionário público aposentado cuja
identidade verdadeira foi descoberta apenas no começo dos anos 90.
Entre os personagens homenageados nas Tijuana
Bibles, estão alguns ícones dos quadrinhos: Nancy,
Terry
e os Piratas, Popeye
e Dudu,
a pequena órfã Annie,
Pafúncio
e Marocas, Archie
e Verônica, Capitão
César, além do desconhecido e politicamente incorretíssimo Eclipse,
o estafeta, um bamboozled que levaria R. Crumb ao
delírio. anotado em 07:56
Pitacos:
Ensina para essa turma, Eva:
Uma
coisa é Esquizofasia. Um
modo esquizofrênico de expor idéias. Uma linguagem confusa para uma
época idem. Uma coisa é escrita automática, e outra é não saber usar
vírgulas e pontos. anotado em 07:43
Pitacos:
Saul Steinberg
e o simbolismo do espaço, para ler e
aprender. anotado em 07:41
Pitacos:
Admiração Na época em que fazia uma página
dominical para O Dia, Millôr
Fernandes disse que a coisa que mais admirava em Glauber Rocha não era
nem sua diarréia verbal, nem seus delírios visuais, mas o fato de que
ele conseguia estar eternamente com barba de três dias, nem mais nem
menos, exatamente três dias. Pois bem, parafraseando-se-o, posso dizer
que o que mais admiro em Domingos de Oliveira não é nem o fato dele ter
revelado Leila Diniz ao mundo, nem a agilidade dos diálogos ou o
declarado amor pela cidade que demonstra em seus filmes; o que mais
admiro é seu falar bêbado. Ninguém mais no Brasil inteiro (salvo alguns
políticos) fala daquele jeito e é levado a
sério. anotado em 07:40
Pitacos:
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