November 27, 2004

Não consigo conceber a idéia de voltar a viver no Brasil num futuro muito próximo, simplesmente não me imagino tendo que em dois meses voltar para minha vida pacata e sem muitos horizontes numa cidade calorenta e caótica do Nordeste do meu país, por mais confortável que eu saiba como minha vida lá pode ser, o quanto os meus amigos são carinhosos e minha família acolhedora. Decisão tomada, então: vou deixar passar o prazo que tenho para reassumir o emprego fácil e bom que me lá espera só até 11 janeiro do ano que vem.
Como não sei ainda como vou viabilizar minha estadia aqui(as alternativas são ou casar ou se matricular num curso universitário), perdi sono e fome , de tão preocupada e ansiosa que fiquei depois de tomar essa arriscada decisão . Não arrumei até agora o marido para casar(nem de mentira nem muito menos de verdade) nem estou certa de poder custear um curso numa faculdade por 3 anos- para entrangeiro um curso superior na Inglaterra é caríssimo- daí vem o motivo das noites mal-dormidas.
Resumo das opções:
a)casar de verdade
b)casar de mentirinha, dinheiro ou amizade sendo a motivação do noivo
c)pagar um curso caríssimo numa faculdade

Bem que eu podia ser um pouco, só um poquinho, mais como todo ser humano sensato normal do sexo feminino, que namora, mora junto, casa( de preferência com um sujeito europeu, claro) Tinha eu de ser tão aversa a relacionamentos, tão independente e excêntrica! Se em 5 anos não arrumei, muito menos o farei em 3 meses.quando acaba meu visto atual. Alternativa a sem chances.
Casar de mentira só encararia com alguém que conheço. Só que nenhum dos meus poucos amigos ingleses(ó raça pouco generosa) se prontificou. Pensava que seria a mais fácil mas alternativa b está se mostrando também difícil de se concretizar.
Ao que parece só vai me restar o caminho em que não vou depender de ninguém- só do Home Office e de muito dinheiro- para conseguir visto: pagar os olhos da cara para entrar numa universidade.


escrito por Maya | 10:27 PM

November 22, 2004

No curto espaço de uma semana, duas situações, de certa forma opostas e ligadas à dupla vida que levo, me acontecem.

Há uma semana atrás vou sozinha a um dos bares que frequento quase que diariamente aqui perto de casa, para comer alguma coisa e tomar um vinho. Um cliente assíduo dos pubs de striptease estava lá e me reconheceu- com tanta coisa interessante que Londres tem para oferecer tem uns sujeitos que não conseguem achar nada melhor o que fazer a não ser dia após dia ir nos bares pra ver a gente tirar a roupa - e veio falar comigo. Respondi mas educadamente deixei claro que estava só querendo curtir meu jantar sozinha em paz. Ele pareceu entender e se foi. Mas pensa que ele me esqueceu? Ficou todo o tempo a me observar de longe e depois de várias cervejas não se conteve e lá vem o indivíduo me atazanar. " It cannot be the same woman!", começa ele a resmungar, quando resolvi ignorá-lo nessa sua segunda aproximação. Ter de aturar os bêbados chatos com um sorriso no rosto é parte do meu trabalho que nem sempre arrumo paciência e bom-humor para levar, estando de folga então..

Se uma situação é chata a outra, oposta, é embaraçosa: amigo ou conhecido ir num strip pub quando estou trabalhando. Há 3 dias atrás, num dos poucos lugares no centro de Londres que ainda faço, dou de cara com um vizinho com quem converso sempre num dos outros lugares onde frequento em Shoreditch,onde moro; um músico super educado e algo sofisticado, a quem inclusive já tinha comentado sobre o que fazia para ganhar a vida .Subi no palco completamente sem jeito mas ele foi extremamente educado e não olhou enquanto eu dançava. Pode parecer estranho que ainda seja possível sentir alguma vergonha de estar nua na frente de alguém depois de anos a fazer isso em público mas qualquer stripper, novata ou veterana, confirmaria o quanto é complicado ter um amigo, conhecido, vizinho, amigo do namorado ou namorado da amiga na platéia.

escrito por Maya | 01:18 AM

November 21, 2004

A matéria sobre as strippers brazucas em Londres saiu finalmente ontem no suplemento feminino, o Ela, do O Globo. Para acessar é preciso se cadastrar, o que nao leva muito tempo e é de graça. Pintar um quadro totalmente fiel á realidade numa curta e leve reportagem não seria fácil, mas o resultado não foi de todo mau.Uma ou outra inexatidão não comprometeram tanta assim o todo.
Quanto a parte que me toca, há algumas dessas "inexatidões" que me surpreenderam um pouco. Uma delas é que não sou (ainda) ex-dançarina e a principal é que nunca tive a pretensão de me tornar uma escritora. Bom, ex-stripper serei com certeza em breve.

Ontem antes de ir trabalhar fui numa espécie de pré-seleção para uma competição de pole-dancing. Nem nível tenho para competir nem nada, fui levada pela pura curiosidade de saber como era o clima numa situação dessas e o perfil das meninas que andam se sobressaindo nessa atividade, que hoje está altamente popular, ensinada em academia de ginástica e tudo e que segundo a mídia, deixou de ser totalmente ligada ao striptease. A seleção de ontem foi uma das várias eliminatórias e dela participavam 5 garotas, todas elas, sem exceção, strippers.
Duas inglesas, uma sueca e eu de brasileira. E todas -salvo eu que faço o circuito mais chinfrim e pé-no-chão dos pubs de striptease- trabalham nos grandes clubes de lap-dancing da cidade(Spermint Rhino, Secrets, etc).
Não era permitido asssitir a apresentação das outras candidatas mas valeu a experiência de conhecer e conversar com as meninas. Interessante como mesmo sendo o mesmo business, há essa divisão e os dois mundos não se misturam tanto, com as strippers dos clubes meio que olhando as que fazem os pubs com ar de superioridade.

escrito por Maya | 07:44 PM

November 20, 2004

Que entrevista mais do que interessante essa com o Jim Jarmurch no The Guardian. Just what I wanted to know about him.

O frio chegou e chegou com gosto. Alguns graus básicos abaixo de zero nas duas últimas noites. A previsão do tempo avisa (e assusta) dizendo que será o inverno mais rigoroso daqui em décadas. Nem sempre essa turma da metereologia acerta,né. Se bem que hoje dia já estou mais de pazes com o frio, e que longe no passado parece ter sido aquele meu primeiro, sofrido, chorado inverno londrino em 98.

escrito por Maya | 01:37 AM

November 14, 2004

Semana péssima para o bolso: 3 dias sem trabalhar, entre eles sexta e sábado. Em compensação nunca mais tinha tido tanto tempo para mim mesma , minha casa, meus estudos, meus hobbies, minhas compras. Ganhar dinheiro e não aproveitar serve de quê?

Sabadão com tempo de sobra, único compromisso era a maravilhosa aula de yoga com o Maarteen Vermaase, holandês iluminado e meu mestre, cuja aula é disputadíssima na City Lit,em Covent Garden. Pensei em ir ao teatro depois , já que estava na área.Mas querer ver alguma coisa que preste no West End londrino num sábado sem ter comprado com antecedência é sonhar com o impossível, ainda mais que o que encasquetei de assistir é peça de sucesso de público e crítica, em curta temporada e num teatro relativamente pequeno; nada mais do que o One Flew Over the Cuckoo"s Nest( Um Estranho no Ninho), com o Christian Slater no papel principal. Claro que estava sold out mas ao menos consegui comprar ingresso para daqui a 4 semanas.

escrito por Maya | 12:58 AM

November 13, 2004

E pensar que durante um mês inteiro, isso em outobro passado, não vi um filme sequer. Para tirar o atraso tinha de ser um especial, daqueles há tempos na lista dos escolhidos, e não podia ser um qualquer, desses que a gente vai quando não tem nada de melhor a fazer num domingo à noite ou porque a melhor amiga quer ver a sequência do Bridget Jones e você vai de companhia. Fui então conferir o último do Jarmusch -um dos meus cineastas queridos - o terrivelmente cool, Coffee and Cigarettes(USA, 2003) que a crítica especializada meio que tem torcido o nariz, tachando-o de self-indulgent, querendo dizer na verdade que o cara não tem medo de ser pessoal e de experimentar,mesmo correndo o risco de soar ridículo e sem graça em alguns momentos. São 11 histórias curtinhas, todas em torno da idéia de sentar para um café (ou chá inglês ou chá de ervas) com alguém, fumar um cigarro e jogar conversa fora. O resultado é irregular mesmo: alguns são interessantes, outros são chatos; uns engraçados, outros bobos; mas pelo menos um é brilhante e pelo menos um hilário. O elenco é estrelar mas não obviamente célebre e os personagens têm os mesmos nomes dos atores(ou na verdade músicos), sendo que em alguns casos até vivem eles mesmos em situações absurdas(Tom Waits e Iggy Pop, Cate Blanchett , Alfred Molina e Steven Coogan)- esses episódios dos famosos sendo eles mesmos são inclusive os melhores. Sou fã do abusado do Jarmusch e por isso suspeita para julgar, mas mesmo assim arisco dizer que essa ùltima brincadeira dele é mais do que assistível e acaba sendo um Celebrity mais engraçado e original do que o filme até bonzinho do Woody Allen.

escrito por Maya | 12:58 AM

November 09, 2004

Que final de semana mais sem graça esse último. Planos até fiz para ver um filme e ir numa exposição mas cadê tempo na correria entre um pub e outro. Fica para o próximo quando, inusitadamente, estarei de folga na sexta e no sábado.

Estava até esquecida do grau de descaramento dos latinos. Turno movimentado no domingo à noite num strip pub fora da cidade.Converso animadamente pela maior parte do tempo com uns clientes portugueses bem gentis e engraçados. Um deles, o mais gentil de todos, diz que está de caro, que mora em Londres e poderia me dar uma carona. Depois de muita hesitação da minha parte e mil "não se preocupe, adoro conhecer gente nova, não vou tentar nada, etc" da parte dele, concordei mas não fui sem antes avisar à gerente e ela pegar os dados do fulano e pedir que ele fosse registrado direitinho pelo circuito interno de tv. É inclusive bastante comum alguns clientes , em geral aqueles conhecidos no lugar e das meninas, darem uma carona até a estação de trem ou metrô mais próxima. Isso sem problema nem assédio nenhum, com no máximo o cara pedindo o seu telefone ou dando o dele. Eu moro no leste de Londres e ele no oeste mas o sujeito jurou que não era trabalho nenhum me levar em casa. Só para chegar aqui e insistentemente pedir para subir. Tem o menor cabimento? Também, quem manda eu ter confiado em quem não conhecia!

Com certeza que não conseguiria fazer por tanto tempo essa atividade num lugar de mentalidade mais machista.

escrito por Maya | 12:59 AM

November 01, 2004

Olha o suspense.A matéria lá sobre as strippers brasileiras em Londres acabou não saindo sábado passado mas segundo o Fernando Duarte, o correspondente o jornal O Globo aqui no Reino Unido , deve sair no próximo. E vai estar disponível on-line.

Parece ter sido só um breve sonho o encontro com R. Um sonho do qual agora desperto com a decisão firme de realmente
forget about him once and for all. Já decidi isso pelo menos umas 10 vezes nos últimos 3 anos mas acho que agora vai.

Cancelei meu trabalho no sábado para ir na festa de Jungle Drums. Ih, há tempos que não encarava uma night out como aquela. Pena que não pude ficar até o final pois tinha trampo no domingo ao meio-dia numa cidade que fica a uma hora de trem de Londres. Fui com a Carla, amigona que também dança e que cai na balada todo final de semana. Ela vive a me dizer,"menina , você trabalha muito,precisa manerar e se divertir um pouco mais". Respondo que é porque tenho de trabalhar o dobro para fazer a metade do que a maioria das meninas faturam. Talvez tenha exagerado um pouco na choradeira mas ás vezes me sinto um pouco escrava da obrigação de ganhar aquele tanto que dê para as despesas e os sonhos.

escrito por Maya | 11:22 PM