February 27, 2005
Cinema X Realidade ou A Vida Não é um Filme (ou será que é?)
A criatura mais cinéfila que conheço é minha amiga japonesa de anos, Mineko, figura pequenina e risonha, designer gráfica com muitos anos de carreira e que vive em Londres há uns 6 anos. A garota vê todos os lançamentos de alguma qualidade, no mínimo 2 filmes por semana e sempre no cinema - tela pequena jamais. Tem olho esperto para todos os aspectos da fita: roteiro, estilo, direção, atuação, atuação, trilha sonora, fotografia. Mas para ela é especialmente a emoção que cada filme traz que conta. Quando gosta de um filme, volta e o vê inúmeras vezes (Ela caiu de amores, por exemplo pelo Before Sunset e assistiu ao danado 7 vezes nos últimos meses). Quando gosta de um diretor, vè toda as sua obra. E mais, não lê as críticas antes para que não influenciem na sua , em geral, apuradíssima opinião. Viu e vê tanta coisa e tem um conhecimento que respeito demais.
Só que ás vezes tenho a impressão que ela vive a vida através dos filmes e fantasia o Mundo Real. Algo meio A Rosa Púrpura do Cairo, aquele fime fantástico do Woddy Allen.
Já eu adoro cinema mas não no mesmo nível. Não vou ao cinema tanto assim, depende muito do meu humor e tempo disponível e sou enjoada toda: só assisto a um filme cujo assunto me toque de alguma forma, típico produto hollywoodiano me recuso a ver e sempre leio sobre um filme antes de ir ao cinema. Consulto o amigos que entendem do assunto mas nunca vou ver um filme porque todo mundo viu ou porque ganhou Oscar ou equivalente. Sinto muito mas sair de casa, por exemplo, pra ver aquele último Lord of the Rings não saio: achei o primeiro só passável e dormi no segundo. Muito menos vou dá o meio suado dinheiro para ver aquele documentário daquele tagarela, gordo e tendencioso, por mais que o assunto seja relevante e tenha ganhado Cannes e esteja todo mundo falando. Deu pra sacar pelo anterior, o Bowling for Columbine , o quanto ele manipula fatos a favor de suas própria visão do mundo. Pequei logo antipatia. Ele entende a realidade de um jeito e tenta construir um suposto documentário para provar esse entendimento Documentário? Tá bom.
Essa divagação toda e só o que queria dizer é que vi dois bons filmes a semana passada. O americano Sideways, recomendadíssimo pela crítica especializada e por Mineko, ótimo drama-comédia sobre dois quarentões amigos mais opostos em tudo que botam o pé na estrada por 7 dias numa viagem recheada de muita degustação de vinho e garotas e temperada pela sensação de vidas frustadas. Nenhum ator famoso e atuações na medida. Caracterização de personagens muito profunda e equilibrada, sem maniqueísmos; eles soam reais.
Mas o filme que causou impacto mesmo pra mim foi o iraniano Turtles Can Fly, que vi no ICA por acaso, completamente desavisada sobre o que se tratava. Fui com o Aidan, irlandês louquinho que mora na área, ver um outro filme mas por circunstâncias inesperadas acabamos vendo o Turtles, que se passa num campo de refugiados curdos na fronteira do Iraque com a Turquia às vésperas da invasão americana. Os protagonista são as crianças do campo, orfãs e muitas delas mutiladas. É um filme triste e trágico, apesar do tom inicial- à excecão da primeira cena- ser leve, pois mostra as crianças a enfrentarem a dura realidade com humor, perseverança e acão. Não demora muito esse tom muda ao revelar o grande drama da bela adolescente que, junto com seu irmão que perdeu os dois braços, toma conta de um menininho cego, fruto do estupro pelos soldado de Saddham Husseim, uma criança que ela rejeita e quer abandonar. Nossa, saí com o coração apertado. Impressiona e faz pensar mais do que muito documentário conseguiria.
February 22, 2005
It's snowing at last!
A previsão do tempo deu o aviso umas 3 vezes, no mínimo, nas últimas 2 semanas. Vai nevar dia tal em Londres. E nada. Tanto que ninguém nem acreditou muito no boletim metereológico de dias atrás que prometia muito frio e neve para essa semana. Mas dessa vez foi pra valer: nevou hoje todo o fim da tarde! É uma neve mixuruca, que vira água rapidinho mas ainda assim acho uma delícia ver aqueles floquinhos brancos a cair do céu. O ar parece que fica mais fresco, o céu mais claro e o frio dá uma aliviada.
Uma nuvem negra de tristeza me persegue. Deprê ameaçando dominar o pedaço. Hora de apelar para os remédios, que se não curam a dor de imediato, me ajudam a levar a vida em frente: amigos, trabalho,filmes, uns drinques no final do dia, meditação de manhã cedo. Mas meu humor é feito o clima dessa terra maluca- imprevisível e altamente instável- quem sabe amanhã amanheço contente e rindo á toa. Logo, logo, aposto que vai finalmente nevar na paisagem da minha mente e respirarei aliviada.
Vi dois bons filmes no final de semana que passou. Organizando notas e impressões para comentários mais detalhados em breve.
February 12, 2005
Nelken
Nem pode acreditar na sorte que tive quando liguei quinta-feira à tarde para o Sadlers Wells e o cara me fala que havia uma desistência para o espetáculo da Pina Bausch naquele noite! Nelken( Cravos), coreografado em 1982, é um dos trabalhos mais aclamados dessa gênia( não tenho outra palavra para descrever essa senhora) da dança moderna. Muitos já beberam da fonte mas duvido que alguém tenho superado até o momento a mestra na linha de dança-teatro que ela segue.
São duas horas de uma encenação louca e que no meio do aparente non-sense toca a gente de uma forma profunda. Flores, gente, cachorros, caixas, cadeiras, microfone, cordas. Gritos, choro, monólogos sem sentido, linguagem de sinais, quedas,acrobacias, jogos infantis, até passos de dança de vez em quando. Música que ia de Billie Holiday a antigas marchinhas brasileiras de carnaval(!) . Uma danação que retrata a demência da vida, a eterna procura por algo, a insatisfação do ser humano, os desencontros, a inadequação, o amor.As situações se suscedem em ritmo alucinado diante dos nossos olhos e fascinam de um jeito difícil de explicar. Fantástico. Uma das melhores coisas que já vi em cena.Saí inebriada,impressionada, emocionada. Quem já viu o Pina Bausch Tanztheather Wuppertal no palco- é esse o nome completo da companhia- sabe do que estou falando.
February 10, 2005
Hi, darling, how are you?
Estou há anos nessa de ser stripper e ganho a vida fazendo isso sem culpa nem vergonha. Confesso até que gosto de estar no palco, gosto da atenção masculina, da liberdade de trabalhar só nos dias que eu quiser, do dinheiro que ganho com isso. Mas mais o tempo passa, mais eu reconheço que não se pode dizer, "Ah, é um trabalho como outro qualquer". Não é. Primeiro porque há um estigma em relação à essa atividade pois apesar de não envolver sexo propriamente dito, o evoca e o insinua uma vez que explora o desejo sexual masculino. E isso é considerado pela maioria da sociedade como vulgar e barato. Ou seja, eu não tenho problema nenhum em tirar minha roupa por dinheiro mas boa parte do resto do mundo acha isso chocante e assim não posso sair por aí contando às pessoas o que faço. Eu sou ridicularmente sincera ao falar de mim e acabo contando assim, sem mais nem menos , o que faço para ganhar a vida quando me perguntam, atitude que meus amigos inlgeses tentam todo o tempo controlar. Steve insiste comigo que eu tenho de dizer que sou uma make-up artist e Peter me apresenta a sua família como estudante, por exemplo. Um ganhão-pão da qual os seus próprios amigos acham que você devia se envergonhar de fazer não pode ser considerado um trabalho como qualquer outro, pode?
Outro aspecto que faz dele uma profissão incomum é que ele mexe muito com a sua concepção do mundo, de vida e dos homens e sem a gente se dar conta, vai transportando quem faz para uma realidade falsa e um tanto deturpada. Noto isso nas outras meninas, especialmente as que começam muito novinhas e que permitem que aquele mundo de fantasia, desejo e dinheiro suba à cabeça. Quando outro dia vi uma amiga minha que dança chamando um cara comum numa festa normal de "darling" de um jeito coquete como se ele fosse um cliente num lugar de striptease, fiquei passada. Vai ver faço esse tipo de coisa também sem nem saber... Será? Mas prometo a mim mesma: juro que no dia que me pegar chamando o povo da rua de "darling", paro de fazer isso no dia seguinte! ( Estou só ironizando, viu: sou uma stripper tão incompetente que nem no trabalho chamo ninguém de "darling") .
Tento ao máximo, no entanto, não deixar que esse trabalho tome inteiramente conta da minha vida mas confesso que é difícil. A Maya stripper, queira eu ou não, acabou se transformando numa personagem bem mais forte e interessante e desejada e bonita do que eu mesma.
February 08, 2005
Não ganhei nada na competição domingo, o que não foi grande surpresa para mim. Valeu a experiência e me diverti demais com o clima festivo do evento, que tinha um ar daqules concursos bobocas de miss misturado com aquelas competições deslumbradas de dança de salão daquele filme australiano, Strictly Ballroom. Nada muito artístico mas muito alto-astral. A premiação, na minha opinião, foi um tanto surpeendente. A garota que ficou em terceiro era fantástica e de longe a mellhor; a que ficou em segundo era muito boa, escolheu uma música ótima e tinha uma presença em cena muito forte e a ganhadora era boa também mas não mellhor que as outras e levou o prêmio por conta de um único movimento, perigoso e de muito efeito: ela escalou o pole, que era altíssimo, de cabeça para baixo e deu um mergulho suicida, deslizando por ele até o chão, dando a impressão que bateria a cabeça com tudo mas ao invés disso, consegue aterrissar controladamente.
O único senão foi que o pole era feito de um material inapropriado, o que dificultou a execução dos movimentos. Teve garota que deslizou e caiu! Um bom pole tem o que em inglês a gente chama de gripping, o que nesse caso pode ser traduzido como a capacidade de segurar o corpo mas sem travar a movimentação. O danado do pole que eles puseram no palco, que eles não permitiram que as meninas testassem antes, não tinha gripping quase nenhum, era liso , liso e era preciso dose tripla de força para manejá-lo. Daí reconheço o quanto a garota que deu o mergulhos suicida era realmente forte e corajosa.
Dois amigos meus estavam lá, uma brasileira que também dança e um inglês, amigo meu de anos, estilista de moda, que foi quem fez minha roupa, linda por sinal. Eu, sinceramente, não tinha feito muita questão que eles fossem pois já previa o que acabou acontecendo: eles ficaram tentando me consolar de uma decepção que eu não estava sentindo.
February 05, 2005
Quando ouço de alguém algo que me decepciona muito sinto uma dor emocional instantânea tão intensa que me calo, saio do ar, não consigo reagir e continuo a padecer por certo tempo. Esse sofrimento parece sempre vir de tempos em tempos na minha vida e em situações muito parecidas, só mudam o cenário e os personagens. Chamo de o Meu Sofrimento do Eterno Retorno, o Meu Karma. Hoje já entendo perfeitamente que ele está dentro de mim, não é culpa de ninguèm, é apenas o meu grande grau de ilusão do qual não consegui ainda me libertar, minha completa incompetência de ver as coisas(ou de querer vê-las) como elas realmente são e assim, tomar um grande e terrível susto quando elas de repente se revelam ao vivo e a cores, à minha frente. Ainda bem que se a intensidade da dor continua a mesma velha conhecida de sempre, a duração diminuiu consideravelmente e hoje em dia retomo mais facilmente à realidade.
Ontem alguém desencadeou uma crise dessas em mim e ainda estou sob o efeito do baque. Tinha hora melhor para acontecer não? Tinha de ser antevéspera de um dia em que tenho de me sentir confiante e cheia de si, linda e maravilhosa? Bom , pelo menos não foi na véspera! Restam 24 horas para recuperar a pose perdida...
Pois não é que é amanhã o dia da competição. Serão 12 garotas vindas de todas as partes do Reino Unidos- nem todas elas britânicas mas todas aqui residentes há pelo menos 6 meses, que vão disputar o título( breguinha todo esse título) de Miss Pole Queen UK. Não tenho a pretensão de ganhar nada- a premiação é até o terceiro lugar- pois sei bem que o meu trabralho no pole é elegante e bonito mas nada tem de excepcional, mas quero mostrar 100 por cento do que sou capaz de fazer e ter a chance de ficar entre as 6 melhores. Torçam por mim.
February 03, 2005
Alguns dias atrás estava no FS, strip pub na área londrina de Kings Cross. Dia movimentado, nada mau de fazer dinheiro. Vejo entrar , junto com os amigos, um menininho de uns 20 anos no máximo, talvez até menos, que me chamou atenção pela assombrosa semelhança com R. Mais baixo e bem mais jovem, mas com o mesmo rosto comprido e anguloso, o mesmo cabelo castanho claro cheio, os mesmos olhos apertados e uma boca bonita que se abria num sorriso estranhamente parecido com o do outro lá.Fiquei a observá-lo de longe por minutos a fio. Na minha vez de coletar antes da minha dança, tive a oportunidade de chegar mais perto dele e a semelhança se confirmou com a proximidade - só que ao invés dos olhos azuis e pensativos de R., ele tinha uns marotos olhos castanhos. Viajei na idéia que talvez meu filho que não chegou a nascer teria aquela aparência quando crescesse.. Pensamento mais idiota, não. Tratei de pensar em coisa mais produtiva e segui em frente, desistindo de abrir feridas cicatrizadas. Rápido devaneio.
Coincidentemente, na semana passada tinha acabado de ler, acho que pela terceira vez, o Dom Casmurro, de Machado de Assis, retrato dos mais perfeitos de uma mente atormentada pelo ciúme, numa trama contada do ponto de vista do marido que se imagina traído sem prova concreta nenhuma. Bom, a história todos conhecem: Capitu, com seus olhos de cigana dissimulada e etc.. Uma das questões levantada é exatamente a da surpreendente possibilidade de duas pessoas sem o menor laço de parentesco serem fisicamente semelhantes. Claro que isso acontece, a gente testemunha tal fato muitas vezes vida afora. Mas o cruel é que o filho do protagonista acha de nascer parecido com o seu melhor amigo. Aí é complicado.
Fantástico como o autor constrói de forma inteligente e elegante a trama e no final, nem Bentinho nem o leitor têm certeza absoluta da traição. Mestre esse Machado.