March 24, 2005
Feliz Páscoa
Encerro hoje minha conta com o meu provedor da internet e serei desconnectada no final do dia. Como não sei quando vou poder postar de novo, aproveito agora para desejar com antecedência uma Feliz Páscoa.
Logo depois do feriadão entrego o meu amado studio-flat em Shoreditch, onde morei por 1 ano e meio. Sei que vou sentir saudades.
E em uma semana, Brasil. Mas não para sempre como o outro lá ficou dizendo. Vou aliás deixar de segredo e contar por que tenho de voltar ao meu país: vou requerer um visto de noiva, voltar logo que este me for concedido- estou super otimista quanto a isso, só não sei quanto tempo vai demorar- retornar a Londres, casar e "ser feliz para sempre". Pois não é que arrumei um futuro marido! Um conhecido se ofereceu há uns dois meses atrás e no começo nem acreditei que ele estivesse falando sério mas após várias conversas vi que a oferta era pra valer, aceitei agradecidíssima e estou a organizar todos os documentos necessários.
As regras relativas ao casamento de estrangeiros com cidadãos britânicos mudaram recentemente em 1 de fevereiro desse ano, complicando e dificultando a vida de quem vai casar ao máximo e no meu caso específico voltar ao Brasil e pedir esse tal visto de noiva vai ser a melhor saída.
March 23, 2005
Que cena foi aquela que o Aidan fez domingo passado! Isso eu e ele no balcão do Barley Mow e o desvairado daquele irlandês tagarela e embriagado a me explicar, em alto e bom som, para o pub todo e Shoreditch inteira ouvir, o motivo por que ele sumiu legal depois de a gente ter saído junto algumas vezes e termos nos dado tão bem. Não que eu tivesse pedido nenhuma satisfação, ele foi quem me intimou para que eu fosse me encontrar com ele para dar aquele show público. Naquele jeito dele bem enfático, dramático, exagerado, ele dizia, falando sem parar,"Você é uma gracinha e super cool mas está prester a ir embora para sempre e não quis me envolver, eu estava muito ocupado com o meu trabalho,etc". Eu sabia, alguma coisa me dizia, que eram só desculpas e fiquei ali meio envergonhada do vexame e só olhando para a figura sem dizer nada, com cara de quem não estava acreditando muito e aborrecida por ele está dizendo com tanta firmeza que estou indo embora de vez. No final ele me vem com essa, " Vou ser sincero: gostei muito mesmo de voçê, queria que algo mais sério acontecesse entre nós, mas...". Ih, no momento que ele hesitou em terminar a frase entendi tudo e tratei em mesma de completar a sentença," mas o meu trabalho dançando não é assim tão cool?". Ele confirmou. Dei o último gole no meu vinho branco, disse tchau e fui me embora.
Uma pena, até que ele era interessante. Por algum tempo fiquei animada achando que tinha finalmente encontrado alguém que me faria esquecer do Rick. Ainda não foi dessa vez pelo jeito.
March 20, 2005
E é total lugar-comum mas não tem como, é inevitável falar sobre o tempo quando se vive aqui nessa cidade chuvosa e friorenta. Sorry , mas 3 dias lindos e com o sol a brilhar, um atrás do outro é O retrato da felicidade, especialmente quando essa benção acontece exatamente no fim de um inverno aterrador . Simplesmente até a semana passada eu TINHA que usar luva de couro e chapéu de lã. E de repente, não mais que de repente, é possível perambular pelas ruas só de jeans e camiseta até o sol se pôr. Claro que à noite, um ventinho frio ataca, mas não chega a estragar a alegria.
Estou triste e feliz, confusa e certa do que quero na vida, à beira de um ataque de nervos e iluminada: os opostos se alternam ou mesmo acontecem ao mesmo tempo. Acho que é difícil de explicar o momento em que vivo, vivê-lo então... Se a menina aqui não enlouquecer nem se jogar pela janela do quarto andar do prédio azul onde ela mora na Curtain Road,em Shoreditdh, após o quarto e proibido brandy and coke da noite , ela terá mil histórias a contar..
Queria não, MESMO, ter que ir no Brasil agora. Afinal, há pouco menos de 6 meses atrás visitei a terrinha e nem tive tempo ainda de sentir falta do calor, da comida e da pessoas. Mas vou numas de COMEÇAR a resolver seriamente a minha situação nesse país(detalhes depois), que começa a fechar ostensiva e gradualmente as portas aos estrangeiros do terceiro mundo.
March 17, 2005
Beautiful Day
Digno de nota total. Depois de semanas e semanas de dias gelados, cinzentos, miseráveis, hoje o dia foi lindo, o mais ensoladorado e gostoso dia que se possa imaginar. E eu de folga. Delícia.
March 16, 2005
Arre, que já está na hora desse frio danado terminar. Que venha logo a primavera!
Uma pena que não estarei aqui para curtir a nova estação: estou indo para o Brasil em duas semanas, sei lá por quando tempo. A vontade de ir é nenhuma tanto que meu ticket está marcado para o último dia do mês- exato dia em que meu visto vence. Quero muito que tudo dê certo e eu possa voltar o mais rápido possivel.
Ontem fui no National Film Theatre com a Mineko ver Stalker(Rússia, 1979) , do Andrei Tarkovski. Não é mesmo um cinema para qualquer um. É danado de longo e de um ritmo lentíssimo, o tipo de filme que a gente luta para não cair no sono nos primeiros 15 minutos. É bem filosófico mas de uma forma um tanto obscura. Belo e amedrontador.
March 04, 2005
Small Things
Sábado passado tinha marcado, meio a contragosto devo dizer, de ir ao teatro com a Petra, a jovem artista checa que trabalha como barmaid no El Paso. Ela praticamente me arrastou para uma matiné num pequeno teatro alternativo em London Brigde, o Mernier Chocolate Factory, para ver o espetáculo Small Things, peça no estilo becktiano de teatro sério e profundo - não exatamente a melhor escolha para um sábado à tarde de uma garota à beira de uma crise depressiva, heim!
Eram dois atores em cena, um homem e uma mulher, ambos idosos, sentados todo o tempo cada um em uma poltrona, separadas entre si por uma mesinha de vidro e que alternadamente, recitavam monólogos longos sobre reminicências de suas respectivas infâncias. Não dava para entender 100 por cento do que estava sendo dito pois eles falavam muito rapidamente e quase sem interrupção. Durou 1 hora e 15 minutos e no final das contas acho que deu para alcançar aonde o autor queria chegar com aquele palavratório incessante: que as nossas lembranças estão repletas de pequeninos detalhes aparentemente sem importância para o todo mas que permanecem tão vívidos que deles nunca os esquecemos. São "as pequenas coisas", que dariam cor e certa emoção ás nossa memórias inesquecíveis.
Para seguir o fio da meada das histórias que eles contavam era preciso prestar uma atenção enorme e eu sinceramente,especialmente no comecinho da peça, não estava com disposição nenhuma para me concentrar. Para complicar a situação, na fila da frente, logo atrás da gente, estavam dois indivíduos bêbados, um deles embriagadíssimo. Como é que biriteiros vão acabar num teatro fringe em pleno sábado de tarde, não me perguntem. Mas enfim. Desde o princípio, o mais bébado deles começou a perturbar, todo inquieto e fazendo comentários bobos com a menina ao seu lado, que ele nem conhecia. A platéia se incomodou claro e logo algumas pessoas começavam a pedir baixinho que eles, por favor, se retirassem. Ao que o bebum replicava sussurando xigamentos ( Fuck off, your fuckin cunt e por aí afora). Dá para imaginar a cena? O lugar era pequeno e não tinha como os atores não notarem o que se passava mas eles continuaram sem mostrar sinal nenhum de estarem sendo incomodados.
Para alívio da platéia não durou tanto assim e o staff do teatro entrou em ação, botando os encrenqueiros para fora- a peça teve inclusive que ser interrompida por uns bons 4 minutos. Nunca na vida que tinha visto algo assim! Será que não era um laboratório de interpretação?! Só sei que será esse detalhe, "that small thing", que me fará lembrar para todo o sempre,dessa peça boa mas um tanto chatinha.